Unchained Melody
37 Angra I
Notas iniciais
Marina falando daquele jeito não deixava à Clara alternativa a não ser aceitar. Entrou. Ela tremia-se toda antes mesmos das hélices do aparelho começarem a rodar, dessa forma, quando começaram a levantar voo rapidamente agarrou a mão da namorada com toda a força. Assim, a mesma pôde sentir o suor frio emanando dali.
_Tá subindo! Ai meu Deus, me ajuda!
Marina tentava não rir, mas não conseguia. O jeito assustado de Clara e as palavras que ela dizia à fotografa, já acostumada com o tipo de transporte, era extremamente engraçado.
Quando estavam a certa altura do chão para Clara foi imprescindível abraçar a fotografa, buscando no corpo dela, segurança.
_Abre os olhos, amor. Você tá perdendo a vista.
_Você é louca, Marina.
_Louca por você. Você não falou de todas as coisas que não fez na vida? Então, daqui pra frente a nossa vida vai ser sempre assim. Cheia de emoção.
_Mas não precisava de tanta emoção assim. Socorro!
Por vezes Clara até tentou abrir os olhos, admirar a vista, porém, o medo da altura a vencia todas as vezes.
Já estavam bem alto agora, sobrevoado o Rio de Janeiro. A fotografa já tinha feito esse itinerário várias vezes, no entanto, dessa vez com Clara ao seu lado tudo parecia novo, mais bonito, mais colorido. Sentia o coração aos pulos e uma certa emoção inexplicável.
_Olha, Clara. Olha o Cristo. — Tentou tirar a namorada de seus braços para que a mesma pudesse compartilhar da mesma visão esplêndida. A assistente mais uma vez tentou abrir os olhos, mas o medo era, sobremaneira, mais forte.
_Ain, deixa o Cristo lá. Deixa o Cristo lá – falou abaixando a cabeça e aninhando-se novamente nos braços da outra.
Durante todo o tempo em que Clara estava recostada em seu colo, Marina fez-lhe carinho nos cabelos a fim de confortá-la, de fazê-la sentir-se segura obtinha tanto êxito em fazê-lo que a certa altura a assistente já não sabia se estava ali por causa do medo que a consumia ou se pelo conforto do colo da namorada.
_Isso não é um presente de dia dos namorados, Marina. É uma tortura!
Marina riu ao mesmo tempo em que fingiu indignação pelo que a outra tinha dito. Mas julgava o fato de elas duas terem uma relação sem meios termos muito bom. Eram transparentes e isso fazia da relação delas algo mais especial ainda.
_Quem disse que esse é o meu presente? Nós ainda nem chegamos ao destino final.
_E onde seria?
_Não vou contar, tenha paciência.
_Eu tenho paciência o que eu não sei é se o meu coração vai aguentar muito tempo mais dentro desse troço.
A fotografa gargalhou.
_Exagerada.
Agora elas sobrevoavam o oceano e Clara sem qualquer senso de direção não fazia ideia para onde estavam indo.
_Tá chegando?
_Quase. Daqui uns 10 minutos, no máximo.
_Ai, meu Deus! — Clara se abanava.
_Calma, meu amor. Não tem perigo – Marina ainda a confortava enquanto admirava a vista deslumbrante. Podia se sentir a pessoa mais romântica naquele momento, o ser humano mais sortudo e a mulher mais apaixonada.
_Que sorte a minha! — gritou pela janela.
Clara a olhava curiosa pelo roupante.
_Sorte?
_Sim. Desde que eu te vi pela primeira vez eu pensei “é ela, eu encontrei”.
_Encontrou? Como assim?
_Porque eu te procurei em todas as mulheres que eu conheci, Clara. Em todas.
**
Menos de 10 minutos depois elas pousaram no que para Clara parecia ser uma ilha, só mais perto do chão que ela pôde constatar que havia uma casa ali. A ilha era repleta de árvores por todos os lados o que dificultava a percepção da casa. Era um lugar maravilho, ainda de cima ela pôde ver o mar azul que a cercava, a piscina ficava de quina com o mar, o deck com um “barco” enorme ancorado, entre outras coisas.
_Que lugar lindo!
Ela disse enquanto olhava para todos os lados baratinada.
_Gostou?
_Se eu gostei? Eu tô hipnotizada! Acho que em toda a minha vida eu nunca estive assim num lugar tão lindo.
_Deixa pra dizer isso depois que eu te mostrar tudo.
Clara assentiu concordando que a namorada tinha razão. Tinham acabado de chegar e com certeza ela ainda teria muito a ver.
O caseiro as ajudou a levar as malas para o quarto principal e lá elas trataram logo de trocar de roupa.
_Veste um biquíni pra gente sair. Quero que você conheça tudo.
_Tá, mas espera aí. Essa casa é sua? Você nunca tinha me falado dela.
_Bom, é do meu pai e é claro que eu não falei nada se tivesse falado como eu poderia te trazer de surpresa pra cá?
_Uhm, você e seus mistérios, né? — falou se aproximando dela lentamente dando-lhe um beijo – Agora você pode me dizer pra onde foi que me trouxe? Não faço ideia de onde estamos.
_Estamos em Angra, Clarinha. Já esteve aqui?
_Já, em Angra já. Mas cercada de água pelos quatro lados ficou difícil identificar.
Marina deu um risinho sapeca.
_Mas então, e o que você achou do helicóptero?
_Achei que ia morrer! Mas, também foi incrível. Tô sentindo meu coração acelerado até agora, olha. — Pegou a mão da outra e levou até o peito.
**
Vestiram biquínis, saídas de praia e foram a uma expedição pela ilha/casa, antes porém, a fotografa dispensou o caseiro pedindo que o outro voltasse ao continente Eram só elas agora e Marina apresentava pacientemente cada canto do imóvel para namorada que visualizada tudo deslumbrada, também pudera, o lugar era lindo.
A certa altura, foi a vez de se aventurarem num passeio de barco, se é que se poderia chamar de barco. O “barco” na verdade tratava-se de um iate. A princípio elas tomaram banho de sol na proa, depois conversaram por um longo tempo sentadas na borda do barco. Tudo isso regadas a champanhe. Com a fotografa era assim, sempre havia algo a comemorar e Clara se deixava levar pela disposição da namorada.
_Eu nunca fui muito de beber, agora com você...
_Ah uma tacinha de champanhe não faz mal pra ninguém, vai.
_Sim, mas no nosso caso têm sido várias.
_Detalhes, Clarinha, detalhes.
Riram.
_Sério, o Cadu implorava pra eu tomar uma tacinha de vinho com ele e eu nunca topava.
_Bem, as pessoas mudam.
_E como mudam, eu sou a prova viva disso em todos os sentidos.
Em um outro momento a assistente admirando o iate e a vista em volta dele não pôde deixar de lembrar do filho.
_O Ivan ia adorar isso daqui.
_Ué a gente pode trazer ele quando você quiser. É bom ele trazer um amiguinho também pra ter companhia pra brincar, não acha?
**
O vento batia em seus rostos trazendo gotinhas molhadas, refrescantes. A sensação de liberdade era surreal, o mundo havia parado para que elas pudessem se amar.
_Vem, Clara.
Marina falou ao mesmo tempo em que saiu correndo e pulou no mar. Sim, ali longe de qualquer praia, onde havia apenas o barco delas e onde apenas podia se ver o litoral ao longe. O mar era de um verde translúcido, hipnotizante, tanto que realmente era impossível resistir a dar um mergulho. Clara seguiu os passos da fotografa. Correu e pulou se jogando na água.
Assim elas nadaram e namoraram. Namoraram e nadaram.
Voltando a ilha foram tomar um banho juntas. O box do banheiro do quarto principal era enorme.
_É um box pra casal.
Disse Marina.
_ E esse chuveiro? A quantidade de água que sai desse chuveiro? Que maravilha!
Se expressou Clara já vestida em um roupão que Marina lhe dera e olhando-se no espelho. A fotografa abraçou-a por trás enquanto ela falava vendo sua imagem refletida à sua frente.
_E essa letra? — Clara perguntou apontando com a cabeça a letra gravada no roupão – É de alguma das suas ex?
Marina riu.
_Não mesmo. É um “C” — pausou- de Clara.
Clara se derreteu com o romantismo.
_Mas como? Esse roupão não tava na mala e...
_ Eu liguei, pedi pra mulher do caseiro fazer, ela borda – Interrompeu a fotografa.
Clara virou depositando um beijo tenro em seus lábios.
_Tá com fome?
_Morrendo.
_Vou preparar um lanche pra gente.
Enquanto Clara foi à cozinha, Marina aproveitou para voltar ao barco e dispensar o piloto, não precisaria mais dele e queria a casa só para elas.
Clara preparou sanduíches leves, assim elas comeram. Já era final de tarde e Marina ainda tinha mais coisas em mente a aproveitar com a mulher amada.
_Esse dia tem que terminar perfeito. Vem comigo.
Clara foi.
À beira da praia haviam árvores e embaixo de uma delas um móvel que a Clara pareceu muito com uma cama, provavelmente tinha um outro nome mas o conceito era o mesmo. Exceto pelo fato de a estrutura e o colchão provavelmente serem de material imune a maresia. Várias eram as almofadas também. Elas se deitaram ali olhando o mar. Clara com a cabeça no colo da namorada e assim elas terminaram o dia vendo o sol se pôr.
_Eu vinha muito aqui quando era pequena, adorava ficar correndo por essa praia. Não tinha quem conseguisse me segurar. Deixava minha mãe enlouquecida — Falou a fotografa a certa altura. E Clara gostou de ouvir mais sobre a infância dela – Minha mãe – pausou – era linda, queria muito que vocês pudessem ter se conhecido – terminou nostálgica.
_Você nunca me disse como ela morreu.
_Teve câncer – pausou, falar disso ainda lhe causava um nó na garganta – fulminante.
_Nossa. — Clara não sabia o que dizer. Se é que se tem algo certo a se dizer nesses momentos.
_Não deu nem tempo de qualquer tratamento fazer efeito. Sabe que eu morro de medo disso? Do imprevisível. De numa hora você estar bem e no outro não.
Clara ainda deitada virou-se, olhando-a nos olhos.
_Não pensa nisso. Não vale apena. É uma pena que você a tenha perdido tão cedo, mas ter medo de que aconteça o mesmo com você não ajuda em nada. E pode ter certeza que eu sei bem como é, meu pai também morreu assim, de uma hora pra outra. Infarto, fulminante.
_ah é você me disse, no dia do casamento da sua irmão, né?
_Isso.
Terminaram em silêncio contemplativo, cada uma afogada nas lembranças de suas feridas.
Acabaram pegando no sono com o calor que emanava da terra e com o vento gostoso que batiam em suas peles bronzeadas. Quando acordaram já era noite.
_Nossa, a gente dormiu!
_E dormimos muito, já tá bem escuro.
Levantaram-se e foram até a casa e viram que não era tão tarde assim.
Elas acordaram mais uma vez famintas e dessa vez foi a fotografa quem se comprometeu cozinhar.
_Você cozinhando? — Clara gargalhou – essa eu quero ver.
E Marina cozinhou para elas, porém, não sem a ajuda de Clara já que a fotografa mal sabia ferver água e a assistente se divertiu bastante ao constatar a inabilidade da namorada na cozinha. Jantaram por lá mesmo, sem luz de velas ou qualquer pompa, apenas um clima leve e informal que se tornava aconchegante.
Após o jantar foram para varanda ver as estrelas, então depois de um tempo desfrutando do calor da presença uma da outra, Marina decidiu que era hora da última parte do que programara para aquele dia especial.
_Vai lá no outro quarto deixei uma coisinha pra você. A gente se encontra lá no meu quarto, daqui meia hora. Disse isso piscando para Clara e já se afastando sem dar tempo que a outra reagisse ou esboçasse qualquer reação.
Quando Clara chegou ao outro quarto, sob a cama havia uma caixa que a mesma abriu imediatamente, lá dentro um cartão com os dizeres: “Veste pra mim”? Então a assistente viu a peça que Marina queria que ela usasse. Era uma Lingerie completa, do corpete às ligas, meia três quartos etc. branca. Clara riu perversa. Aquela noite definitivamente seria maravilhosamente boa.
Assim ela tomou um banho, se perfumou e arrumou para mulher que amava. Vestiu a lingerie com cuidado e esmero tentando imaginar o que mais Marina tinha guardado na manga para aquela noite. Mesmo assim, quando ela entrou pelo quarto principal 40 minutos mais tarde seu queixo caiu. Imaginara muitas coisas, mas a visão que tinha da fotografa agora não fora uma delas.
Marina estava sentada na cama, encostada na cabeceira com uma das pernas dobradas e a outra jogada displicente na cama. As duas estavam um pouco afastadas de modo que ficavam meio abertas. Ela vestia apenas uma camisa branca, social que estava aberta e que posta mais alguns centímetros para os lados com certeza mostrariam os bicos de seus seios. Ela também usava uma gravata, preta que caia pelo meio, dando-lhe um ar masculino. Os cabelos escuros e enrolados estavam soltos e um pouco bagunçados dando a ela um ar superfeminino no melhor estilo “mulher fatal”, no entanto, a visão que mais perturbava e excitava a assistente era que Marina usava a cinta com pênis como se o mesmo completasse o resto do modelito. O semblante de surpresa da assistente se misturava ao de excitação e vontade, muita vontade de amar a mulher jogada despreocupadamente naquela cama.
Marina que por sua vez já imaginara muitas vezes Clara vestida naquela lingerie antes mesmo de comprá-la, conseguiu se surpreender com o que sentiu ao vê-la de fato vestida com ela. O corpo definido da namorada sempre a deixaria em êxtase, sem dúvidas. Ainda mais com a lingerie branca que agora contrastava com a pele bronzeada da mesma. Por isso, a fotografa imediatamente sentiu a boca salivar. Queria aquele corpo inteiro. Apertá-lo, mordê-lo, lambê-lo... Clara, por sua vez, queria se servir totalmente ao ser andrógino a sua frente. Dessa forma, a fotografa se levantou lentamente da cama e foi sedutora até ela ao que quando chegou perto o suficiente a assistente não pôde conter o desejo de puxá-la sensualmente pela gravata aproximando-a ainda mais de si, colando seus corpos já em brasas.
_Você não tem jeito. Faz de tudo pra me enlouquecer.
Disse a ela com a voz rouca próxima a seu ouvido.
_Sim, meu amor. Queria que essa noite fosse especial. Hoje eu sou seu homem e você a minha mulher.
Mesmo vestido de homem Maina ainda era uma mulher estupidamente gostosa, julgava Clara, mas, mesmo assim, as palavras da fotografa mexeram profundamente com seus desejos e fantasias. Antes que ela falasse qualquer outra coisa, Marina puxou ainda mais para perto lhe apertando as nádegas. Então avançou nela mordendo-lhe o queixo enquanto a assistente mordia os próprios lábios em sinal da excitação que a visão, a pegada e as palavras da fotografa lhe causavam.
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