Killer Frost


“Carro maneiro o de vocês hein, parece coisa de gangster italiano”. Falei ao sentir o cheiro de cigarros no banco de trás do sedan que cortava as ruas de Metrópolis até a ‘sede’ da Intergang. Black Fox sempre no volante e o novo apelidado Unchained ao meu lado no banco de trás.


“Eram ucranianos, mas acredite, eles não vão precisar do carro e nem vão prestar queixa”. Unchained me respondeu enquanto usava uma toalha para tentar tirar em vão o sangue do rosto.


“Deixa eu adivinhar, tem relação com esse sangue?”.


“E com as tripas na minha sola”. Ele me comentou secamente e eu assoviei.


“Então me diz bonitão, o que mudou nesses últimos dois dias que fez você querer voltar para o crime? Foi demitido do seu emprego comum? Terminou com a namorada?”.


“Dinheiro”. Ele me disse simplesmente, mais uma vez querendo cortar a conversa.


“Isso eu sei, mas deve ser coisa importante e de última hora já que o Black Fox está vestindo uma camiseta do Metallica e não um traje de batalha”. Comentei sorrindo e vi as mãos do Black Fox apertarem no volante.


“É, é importante sim, tão importante quanto é caro”.


Eu me aproximei de Unchained, meu hálito frio arrepiando seu pescoço enquanto apoiava minha mão em sua perna. “Quão importante?”.


“Importante o suficiente para eu esmagar essa sua cabeça se você não colaborar ou querer abandonar no meio”. Unchained respondeu e eu pude ver pela forma como seus olhos saíram de castanhos a vermelhos, que ele dizia a verdade. Sorri com isso, sorri meu sorriso verdadeiro, com os olhos arregalados e dentes à mostra.


“Nós vamos nos dar muito bem Unchained”. Eu disse e foi verdade para mim. Mesmo ele sendo pouco experiente com os próprios poderes, ele era forte, sem medo de sujar as mãos e basicamente o parceiro que eu precisava para diminuir drasticamente minhas chances de ir para a cadeia. Basicamente, sem saber o valor que alguém como ele tem para A Sociedade.


Ele não respondeu e eu continuei a vê-lo tentar se limpar por mais algum tempo antes que algo me ocorresse mais uma vez. “Você precisa de um uniforme, ou vai ficar estragando roupas a torto e direito quando tentar limpar o sangue, eu estava falando sério”.


“Onde você conseguiu o seu?”.


“Tenho alguns contatos, depois de falarmos com o Mannheim eu te mostro”. Disse simplesmente. Black Fox continuou dirigindo e parou o carro dois minutos depois na porta de uma fábrica abandonada, piscou os faróis três vezes e logo dois homens vieram abrir o portão para nós.


Mannheim e toda a chefia da Intergang estavam lá planejando seu contra-ataque as famílias de Gothan. Ele nos olhou de sua maneira intimidante e se dirigiu primeiro a Black Fox.


“Pensei que ficaria fora por alguns dias, o que mudou?”.


“Vai por mim, meu humor está péssimo e tudo o que eu quero é atirar em alguém, e rápido”. Black Fox respondeu antes de se dirigir a uma cadeira e sentar de braços cruzados.


“E esses dois?”.


“Você não havia perguntado do garoto? Ele está disposto a trabalhar para você durante um tempo, a Killer Frost a mesma coisa”.


“Você me disse que ele não estava interessado”. Mannheim disse estreitando os olhos. “Você também não aceitou continuar trabalhando aqui Frost”.


“Mas eu estou agora…”. Unchained falou pela primeira vez.


Mannheim jogou seu peso para trás na cadeira, retirou seu charuto aceso do cinzeiro e fumou um pouco. “Que tipo de trabalho você tem em mente, e porque eu precisaria de você?”.


“Vamos fazer muito barulho em qualquer localização que você me der, e com sorte atrair a atenção do morcego tempo o suficiente para vocês operarem sem tanta pressão esses planos aí na mesa. Aposto que nenhum dos seus garotos aceitaria isso facilmente, já eu… não sou fácil de machucar”.


Mannheim sorriu com o charuto ainda no canto da boca, antes de falar ele cuspiu uma grande quantidade de fumaça, maldito idiota sem consideração pelos pulmões alheios. “Dou 50 mil por base das famílias que vocês derrubarem”.


“150 mil, para cada”. Eu disse ao jogar os braços ao redor do pescoço de Unchained. “E começamos hoje mesmo”. Adicionei depois de alguns segundos.


“100 mil para cada por ataque, é o máximo que pago, e acredite eu quero resultados nada menos que perfeitos por isso. Ninguém fica vivo para contar histórias, entenderam? Nenhum prédio fica de pé e nenhuma prova vai sobrar, eu quero caos nas ruas de Gothan”.


Unchained acenou com a cabeça em aceitação, e de tudo não foi um acordo ruim. Ele mentiu para mim quando disse que já tinha o acordo com a Intergang? É, mas eu já estava lá e ele também omitiu a Mannheim que pretendíamos roubar tudo que conseguíssemos pelo caminho, então era uma situação de ganha-ganha.


Um dos tenentes de Mannheim nos entregou um celular antigo e… frio, assim que concordamos com o trato. “Vocês receberão as coordenadas de onde atacar por este celular. Eles não são rastreáveis, mas, mesmo assim, evitem perder ou danificar”.


Retirei o telefone das mãos de Unchained, e mesmo ele não tendo resistido, me olhou de forma interrogativa. “Eu fico com isso. Não é bom ter nossa forma de contato nas mãos de quem pode quebrar”.


“Você pode congelar o celular também”.


“É, mas não vou esmagá-lo quando enlouquecer no meio da luta”. Eu atirei de volta.


“Chega de conversa, vamos o mais rápido o possível”. Black Fox nos acelerou.


“Você não vai com eles Fox, você fica aqui para liderar outros ataques”. Mannhein disse severamente. “Eu tenho um plano especial para você”.


“O que? Meu lugar é com eles!”. Black Fox protestou.


“Seu lugar é onde eu mandar porra! Você fica aqui e ponto final! Acho que os dois são grandes o bastante para se virarem sem você”. Mannheim devolveu.


Black Fox ficou tenso e só aceitou após uma longa troca de olhares com Unchained. “Certo, certo. Mas é bom que seja logo, estou com vontade de ação”. Fox disse querendo enganar, mas todos sabiam que era tudo menos isso que se passava em sua cabeça.


Não havendo mais o que fazer, voltamos ao carro em que viemos. Andamos vagarosamente graças a direção cautelosa de Unchained até cruzarmos a baía para Gothan e a cidade do Morcego nos acolheu com o som estridente das sirenes da polícia.


“O que você tem com o Black Fox? Tipo, ele não é um meta-humano, mas é famoso o suficiente como mercenário para ser alguém. E eu te digo, esses tipos, não se importam com ninguém… na maioria dos casos”.


Como eu esperava Unchained não respondeu, mas mudou de assunto. “Você disse alguma coisa sobre um uniforme…”.


Sorri e me virei, praticamente me pendurando no banco tentando pegar a mochila que deixei no banco de trás do carro.


“Para quê serve isso?”. Unchained perguntou.


“Os heróis possuem uma rede de inteligência enorme, temos que ter uma também se quisermos sobreviver. O Calculadora faz isso por nós… pelo preço certo é claro”. Respondi enquanto digitava o complexo código de acesso a rede do Calculadora.


Coloquei meus fones de ouvido e alguns minutos depois fui atendida. “Calculadora, preciso de um alfaiate em Gothan, para amanhã e com urgência de fabricação”.


“Seu uniforme está em mal estado Killer Frost, ou só pretende mudar o visual?”.


“Não é para mim, é para um cara novo na área. Agora me fale logo a localização”. Eu o apressei, não querendo perder muito tempo.


“Rua Evergreen, número 477. Peça ao balconista um terno de linho indiano e ele vai saber do que se trata”. Calculadora disse rispidamente antes de cortar a ligação.


“Parece que você vai ganhar um uniforme. Se quiser uma dica, invista em algo que exalte sua masculinidade frágil, é o que todos fazem”. Disse piscando e Unchained ignorou, ou pelo menos tentou, já que eu vi uma sugestão de sorriso em seu rosto.


“Bem útil essa rede do Calculadora, podemos usar mais vezes”.


“Eu não faria isso se fosse você. O desgraçado cobra 10 mil a cada trinta segundos, e você vai ter de pagar o traje também”.


Os olhos de Unchained se arregalaram quando ele virou a cabeça bruscamente para mim. “Quer dizer que só essa ligação custou quase 50 mil?”.


“Sim, do meu bolso, o que significa que você me deve 50 mil a mais. Mas quem está contando, não é?”. Eu disse ao fingir dar de ombros.


Enquanto me divertia vendo o suor escorrer pela testa de Unchained o celular que recebomos finalmente vibrou. Guardei o computador na mala e verifiquei a boa e velha mensagem de texto que acabamos de receber. “Parece que não vai demorar muito para me pagar. A Intergang acaba de enviar o primeiro local”.


Eu sorri mostrando os dentes e Unchained acenou seriamente. Digitei o endereço no GPS e finalmente ele pisou fundo no acelerador. Estávamos prontos para fazer uma bagunça em Gothan.