Unchained
8 Capítulo 8
Edward
“Eu te disse para não arremessar aquele cilindro de gás! O maldito laboratório explodiu, sabe quanto poderíamos ter ganho se vendêssemos aquelas drogas?”. Killer Frost reclamava enquanto contava uma pilha de dinheiro que roubamos dos traficantes.
“Sem testemunhas e sem histórias, não foi isso que o Mannheim pediu?”. Resmunguei e apontei para o dinheiro à sua frente. “Quanta grana tem na sua pilha?”.
Depois de atacarmos um laboratório de drogas sintéticas do Máscara Negra, minhas roupas estavam inutilizáveis. Quem diria que arremessar um cilindro de gás em um laboratório de drogas caseiro e cheio de produtos químicos mal armazenados podia causar um incêndio daqueles?
Durante a fuga invadimos na surdina uma loja de roupas, havia somente um pequeno alarme fácil de quebrar. Por sorte juntamos mais mil dólares do pequeno cofre que ficava na sala do gerente, isso era alguma coisa perante o nosso pequeno saque.
“7 mil, esse monte de dinheiro aqui não passa de notas pequenas!”. Frost reclamou mais uma vez ao arremessar as notas para o lado.
“A minha pilha tinha um pouco mais de 8 mil, já é alguma coisa”.
“Não pense que essa parceria vai durar muito se ficarmos só nesses lucros miúdos. Você prometeu um bom retorno, quinze mil dólares não é o que ei chamo nem de troco”. Frost respondeu com os olhos estreitos e as mãos começando a congelar.
“É só o primeiro dia, pelo menos vamos conseguir um lugar para ficar se usarmos essa grana. Amanhã depois de conseguir meu uniforme, continuamos os ataques”. Tentei apaziguá-la e consegui com relativo sucesso. “Pegue umas roupas para você também, quanto menos atenção chamarmos melhor”.
Frost bufou em resposta e foi até uma prateleira arrancar uma blusa de moletom e um par de calças folgadas, enquanto isso eu coloquei o dinheiro em uma sacola, apenas uma pequena parte ficando nos meus bolsos e nós saímos pela porta dos fundos em direção ao beco, ambos com capuzes cobrindo a cabeça.
O sol começava a nascer, sirenes da polícia soavam em menor número e provavelmente Gotham estava adormecendo. Andamos quase vinte minutos quando, já estava cogitando invadir algum apartamento quando Frost me parou. “Aquele lugar ali parece bom”.
Era um motel simples e não tanto decadente quanto eu esperava para essa parte da cidade, talvez alguém levasse a amante ali as escondidas, parecia discreto o suficiente para isso, ou seja, o tipo de lugar que precisávamos.
A mulher da recepção estava entediada e quase dormindo quando entramos, provavelmente esperando sua troca de turno com o raiar do dia. Para minha surpresa Frost me agarrou, seus lábios buscando os meus loucamente. Assustamos a recepcionista quando batemos no balcão.
“Haham…”. A atendente pigarreou. “Por favor, mantenham esse tipo de ato dentro do quarto e…”. Ela tentou dizer antes de ser interrompida por Frost jogando uns bons duzentos dólares que ela tirou do meu bolso.
“Certo… quarto 6, no final do corredor”. A atendente disse mais uma vez e deixou uma chave no balcão.
Ergui Frost do chão, aproveitando um pouco a oportunidade de segurar sua bunda firme e ela trançou as pernas na minha cintura. A recepcionista revirou os olhos mas não disse nada quando seguimos. Empurrei a outra porta em direção aos quartos, seguimos pelo pátio aberto com uma piscina vazia no centro.
Assim que fechei a porta do quarto 6, Frost me soltou e puxou a blusa por cima da cabeça, meus olhos se arregalaram mas ela apenas sorriu. “Não tenha ideias erradas, eu vou tomar um banho primeiro e depois dormir”.
“E o que foi tudo… aquilo?”.
“As pessoas tendem a não notarem casais ‘apaixonados’, todo mundo desvia o olhar de pessoas se beijando em público”. Ela disse simplesmente e seguiu para o banheiro.
Eu também precisava de um banho, precisava descansar, precisava de uma bebida, não necessariamente nessa ordem ao que parece, pois assim que me joguei na poltrona no quarto caí no sono.
…
Acordei em um sobressalto, o quarto em silêncio e o sol forte passando pelas gretas da cortina. Frost não estava em lugar nenhum, mas suas coisas ainda estavam no quarto, então não me preocupei… muito.
Joguei as roupas que usava no chão e me dirigi ao banheiro para um bom e totalmente necessário banho. Infelizmente, eu não verifiquei a temperatura do chuveiro antes de entrar, e maldita seja Killer Frost, ela gostava de banhos quentes.
Esperar a água esfriar um pouco foi um aborrecimento, mas tentar tirar todo o sangue seco que estava em minha pele e cabelos foi muito pior. Eu esfregava com tanta força com a escova, que acabei quebrando-a.
“Faltou um pedaço ali”. Frost disse quando abriu a porta e entrou no banheiro. Ela soltou um assovio e pegou minha toalha impedindo que eu me cobrisse. “É uma bela visão sabia? Músculos bem definidos mas não tão grandes… na verdade, de grande mesmo só outra coisa pelo que eu vejo”. Ela me disse com um olhar significativo.
“Quer me entregar a droga da toalha?”. Reclamei.
“Claro senhor puritano, eu só estava dando uma olhadinha, nada mais. Se vista rápido, eu peguei algumas coisas para comermos no caminho ao alfaiate”. Ela respondeu ao jogar a toalha em meu rosto e sair do banheiro.
Não perguntei onde ela conseguiu um saco de burritos extragrandes, minha fome era maior. Saímos do motel, duzentos dólares tendo sido mais que o suficiente para as horas que ficamos no quarto, e começamos a buscar um carro novo.
Um SUV prateado e de origem sueca estava parado em uma rua pouco movimentada, essa era a escolha perfeita. Com um tranco rápido eu quebrei o trinco da porta sem arrancá-la da dobradiça, o alarme disparou mas usei o mesmo truque de quebrar a capa em volta do volante para ligar o carro e dar a partida. Quando saímos, ninguém nos notou, ou pelo menos, tentou nos impedir. Se houvesse alguma denúncia do roubo mais tarde, já teríamos abandonado esse veículo a tempos.
“Quanto tempo eu dormi?”. Perguntei a Frost enquanto ela traçava a melhor rota para a Rua Evergreen.
“Umas três horas, eu mesma dormi imediatamente quando saí do banho e percebi que não iríamos transar”. Ela deu de ombros e eu revirei os olhos para suas palavras.
“Mannheim pagou pelo serviço ontem, ou enviou a próxima localização?”.
“Os dois, mas eu entrei em contato com eles primeiro. Sua parte do pagamento vai ser direcionada diretamente ao Fabricante, até que tudo esteja pago”.
“Vai ser tão caro assim?”.
“Na verdade não sei, embora tenha de ser durável e exclusivo, um traje não é caro a ponto de ser impossível de pagar, pelo menos no meu caso. Para você pode ser diferente”.
…
A rua Evergreen tinha algumas lojas de roupas não muito caras e de bom gosto, o tipo de loja que minha mãe teria gostado de visitar em suas folgas. Número 477 era o nome de uma alfaiataria sem nada fora do comum, uma vitrine com ternos em manequins, um toldo vermelho e uma plaquinha que dizia ‘desde 1947’. Havia ali uma tremenda criatividade envolvida, pois a alfaiataria também ficava no número 477.
Entramos e um senhor careca com um bigode fino sorriu de trás do balcão. “Em que posso ajudá-los?”.
“Quero um terno de linho indiano, com urgência”. Eu disse de forma séria, e o atendente assentiu profissionalmente. Provavelmente apertou algum botão em baixo do balcão e uma porta se abriu atrás da estante, ali havia uma escada que descia.
“Por aqui”. Ele disse, enquanto passávamos pela porta e descíamos. Vi um outro homem velho tomar o lugar no balcão e a estante se fechou. O atendente falou mais uma vez depois de descermos uns vinte degraus e vermos uma porta de metal reforçada. “O Fabricante está além dessa porta, devo salientar que nosso serviço é secreto, não podem haver filmagens, registros, cópias ou fotografias, fui claro?”.
Assenti para o homem e entrei com Frost, para dar de cara com o quê? Um indiano gordinho, com óculos e com cabelo cumprido em um rabo de cavalo, camiseta de um jogo de ação apertada demais e chinelos. “Então é você o novato que quer meus trabalhos? Os belíssimos trabalhos do Fabricante?”.
“Sim, sim, ele precisa de um uniforme e logo”. Frost disse ameaçadoramente ao se sentar em uma mesa e cruzar as pernas. “Dá para fazer isso?”.
O Fabricante tossiu de nervoso, mas conseguiu se recompor. “Primeiro, qual seu nome e o que você faz. Depois te mostro o que tenho”. O fabricante respondeu entrelaçando as mãos em cima de sua barriga protuberante, mas eu podia ver a expectativa em seu rosto, provavelmente ele era o tipo de cara apaixonado por superpoderes e seu trabalho de criação.
“Sou forte, e por tabela rápido também… é isso. Quanto ao nome, eu sou o Unchained”.
“Quão forte?”. Ele me perguntou curioso.
Frost deu uma risada seca no canto, chamando a atenção para si. “Forte o bastante para trocar socos com os pesos pesados entre os heróis, disso eu sei. Faça o traje bem reforçado”.
“Isso é bom… Unchained! Acho que sei o que você precisa!”. O Fabricante disse animado e me arrastou para um espelho, foi ali que ele tirou minhas medidas com uma fita e me fez aguardar.
Teria sido cômico experimentar os diversos trajes sem sentido que ele me mostrou, eu me sentia em um desenho animado vendo todas aquelas opções. Mas no final ele não me fez experimentar nenhum, então não houve as icônicas cenas de provadores. Na verdade, ele me perguntava o que eu gostava em cada peça e anotava em seu caderno.
“Você me parece alguém que quer algo simples, algo que não chame atenção e só… não te atrapalhe. Esse é o design que pensei, se gostar vou produzir agora”. O Fabricante disse ao me mostrar um desenho muito bom e realista do traje.
Era uma espécie de malha preta, cobrindo meu corpo todo. Detalhes em cinza ondulavam e saíam dos pulsos até o peito e as costas, eles dando a impressão de correntes.
Botas sem cadarços na cor cinza completavam o visual, junto de um par de óculos de Snowboard e uma máscara que tampava a metade do meu rosto. Era um visual bonito, e eu concordei em testá-lo, só não esperava que ele estivesse pronto 5 minutos depois.
“Não é um pouco pequeno?”. Perguntei desconfiado, enquanto olhava para a malha que mal era da largura no meu peito, eu não era nenhum fisiculturista como muitos vilões por aí mas aquela coisa não caberia em mim.
“Vai esticar, agora vista-se!”. O traje foi jogado em minhas mãos e dessa vez fui empurrado até o provador.
O traje realmente esticou muito, a ponto de não ser difícil vesti-lo ou tirá-lo. Ele apertava cada canto do meu corpo, parecia feito para mostrar a definição dos músculos, e felizmente, havia uma espécie de coquilha para impedir que todos vissem meus documentos.
Frost assoviou do lado e bateu palmas quando eu saí. “Bela roupa e bela bunda também”.
Eu prontamente a ignorei, me virando para O Fabricante, não pude deixar de perguntar. “De que material esse traje é feito?”.
“É feito de um material sintético da Lexcorp, Elastanium. Muito flexível e aguenta muita pressão, porém não se agrupa em grandes camadas, por isso a forma de malha colada”.
“Com quanta pressão exatamente você quer dizer?”.
“Algumas toneladas, ou alguns socos de gente com superforça como você. É importante também testar se o traje não rasga com seus próprios movimentos e a flexão dos seus músculos”.
Testei a mobilidade como ele havia dito, mas só poderia ter certeza de que tudo estivesse bem quando realmente o usasse em combate. “E quanto a rajadas de energia? Ele absorve bem?”.
“Infelizmente não… você se preocupa em rasgar o traje ou sua resistência não é boa o suficiente?”.
“Eu não vou me machucar fácil, mas não quero ter de pagar para consertar isso toda a vez que levar um tiro de alguma arma estranha”.
O Fabricante assentiu, e começou a falar sozinho enquanto andava de um lado para o outro. De repente ele levantou o dedo indicador e correu com os olhos arregalados. Eu olhei para Frost sem entender nada e ela apenas deu de ombros.
Ofegando, O Fabricante voltou com uma espécie de armadura. Não era completa, longe disso, mas haviam proteções para os antebraços e a parte superior do peito. Deixava meu abdômen a mostra mas as manoplas não pareciam impedir a movimentação das minhas mãos.
“É impressão minha, ou essa roupa me parece o traje daquele Super-Man vilão?”. Perguntei enquanto me olhava no espelho. A julgar pela forma com que o fabricante desviou o olhar, acho que era verdade.
“O Super-Boy Prime… é, eu tive uma inspiração sim mas podemos mudar se você quiaser”.
“Não! Eu adorei, pode deixar assim”. Respondi animado.
“Chega desse papo”. Ela disse caminhando até minha frente para olhar meu traje. “Tire esse óculos e essa máscara, ficou uma droga”.
“Como vou me manter anônimo sem a máscara?”. Eu perguntei ao retirá-la.
“Assim”. Frost disse antes de pegar um pouco de sombra na mesa próxima. Ela espalhou a maquiagem preta ao redor dos meus olhos, então com um pouco de gelo, molhou meus cabelos e os esticou para trás. E na verdade ficou muito bom.
“Isso ficou ótimo Frost!”.
“É claro que ficaria, olha o que eu fiz no meu visual”. Ela apontou para si mesma. “Agora pague ele e vamos, temos trabalho a fazer”.
“Quanto te devo Fabricante?”. Perguntei com suor escorrendo da testa.
“Bem, o traje mais a armadura, processo de fabricação com urgência e pintura… bem vou te dar o desconto da casa para clientes fiéis, pois gostei de você, então temos… 392 mil”.
Eu quase caí de bunda no chão ao ouvir isso. Todo esse trabalho era para ganhar dinheiro, e aqui estava eu, devendo quase 500 mil além da cirurgia de minha mãe, e sem nada de concreto para trabalhar.
“Aceita pagamento parcelado?”. Perguntei com um sorriso sem graça e Frost apenas gargalhou ao meu lado.
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