Unchained
4 Capítulo 4
Edward
Tomar um banho foi a melhor coisa que fiz aquela noite. Por sorte eu havia avisado minha mãe que chegaria tarde e ela não deve ter se preocupado… muito.
“Mannheim vai te dar 50 mil por hoje. É um bom valor no final das contas, acho que você o impressionou”. Meu tio disse depois de desligar seu telefone.
“Pensei que ele pagaria mais…”.
“Eu recebo mais um menos isso em média, é a forma que eles fazem para ficarmos procurando sempre mais empregos com eles. Claro, tem caras que cobram sete dígitos por certos serviços e mesmo assim são chamados. Para mim? 50 mil em um dia é ótimo por somente jogar nas ligas intermediárias”.
Apertei meus lábios, dificilmente era o valor que eu esperava para mudar a minha vida. “Como recebo esse dinheiro então?”.
“Tecnicamente temos de lavar esse dinheiro antes. Eu teria como pagar mais coisas para vocês se não fosse por isso, mas não quero levantar uma bandeira gigante sobre quem eu sou e o que faço. Digo mais uma vez Ed, nós não somos supervilões com poder aquisitivo sem fim, temos que jogar com inteligência”.
“Consegue lavar o dinheiro e me entregar de forma mensal? Certamente vai ser o suficiente para conseguir pagar as minhas contas e fazer um pé-de-meia com meu salário da fábrica”.
“Isso é mais fácil, eu tenho um contador que cobra umas só taxas básicas para limpar cada cédula. Agora durma, vou dizer a sua mãe que você dormiu aqui, e pelo amor de Deus garoto, deixe esses malditos empregos de meio período para trás, eles estão acabando com você”.
Dei a ele um sorriso fraco enquanto apoiava a cabeça em uma almofada do sofá. “Só porque trabalho na loja de conveniências 24 horas as segundas, terças e quintas e na oficina em alguns sábados?”.
“Exatamente por isso…”. Meu tio disse e gemeu ao sentar na poltrona ao meu lado, a idade o estava alcançando e com 44 anos, mercenário não era um trabalho fácil. “Você está bem… quero dizer… com tudo que aconteceu lá?”.
“Eu… eu sempre me senti preso tio, mas isso não necessariamente é ruim. Quando eu me ‘solto’, não me sinto bem, na verdade eu não me sinto bem depois, mas durante… é uma onda como nenhuma outra. A voz grita na minha cabeça, mas eu sei de tudo que faço, não é um piloto automático, sou eu no volante e eu me sinto bem seguindo esse caminho. Talvez eu seja um monstro mesmo, ou talvez eu só seja fraco, por isso que eu não quero nada dessa vida, eu vou me perder se ficar”.
“Você tem medo de realmente agir, de fazer alguma coisa e errar, não é?”.
“Não sou o tipo de pessoa que assume os riscos, que enfrenta desafios. Eu sempre tomei o caminho mais curto, ou na verdade o menos exposto, você sabe disso”.
“Chega uma hora que todos temos de tomar decisões de verdade e você as toma, você é mais forte do que pensa”.
“Eu tenho poderes tio, posso erguer um carro e ser atropelado por um e não me machuco, mas eu não posso ser um herói, não posso ser esse algo a mais se tenho que estar sempre com o pé atrás para não ser um maluco homicida”.
“Você inspira as pessoas, sua aura faz com que todos tenham vontade de lutar”.
“Está mais para conduzir um suicídio coletivo, as pessoas ao redor de mim se jogam de cabeça na briga. E por mais que eu queira, por mais que tente, as mortes de hoje, elas não pesam em mim o tanto que deveriam e eu tenho medo”.
“Então isso prova que você não é tão ruim quanto acha que é, pelo menos, psicopata você não é”. Meu tio se inclinou para frente e apoiou a cabeça nas mãos, ele também estava muito cansado.
“Eu me lembro de quando tentei te ajudar a controlar seus poderes. Nós fomos ao ferro velho e eu disse para você se soltar, bater em algumas coisas, tentar erguer outras, que ideia idiota e eu quase morri por isso. Você demoliu tudo no seu caminho, mas quando eu implorei para você parar, você parou”.
“Não acho que isso signifique alguma coisa…”.
“Mas significa, o Edward de 14 anos conseguia se parar quando precisava, mesmo que por pouco, eu me recuso a aceitar que o você não consiga ser melhor agora”.
“Eu nunca mais treinei meus poderes”.
“Mas sua mente está mais forte, com sua mente forte você pode se controlar, basta saber o que realmente é importante para você e jamais se afastar disso”.
Agora foi minha vez de rir. “Para um velho com problemas mentais, você dá bons conselhos”.
“Sei que os conselhos são bons pois foram exatamente esses que eu não segui. Agora durma e volte para sua mãe amanhã, certo?”.
“Certo”. Eu disse e fechei os olhos, o sono me abraçando logo em seguida. Naquela noite eu dormi bem a ponto de acordar mais revigorado do que havia me sentia em anos.
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O trabalho foi o mesmo de sempre, porém menos cansativo que o normal. Ajudava o fato de eu ter dormindo moderadamente bem? Talvez. Mas eu me senti mais vivo desde o momento em que acordei, eu me sentia ligado, energizado.
E quer saber? Isso foi uma coisa boa. Boa a ponto de Jonah não me escalar para trabalhar no sábado por banco de horas que nunca serão pagos de volta. Esse foi talvez meu primeiro fim de semana livre em meses.
Nem me preocupei em me trocar ou tomar banho depois do expediente, eu apenas corri. Corri até o relógio de ponto, corri até o gancho onde pendurei minha bicicleta e pedalei muito rápido até minha casa. Um apartamento em um prédio antigo de tijolos marrons com pichações que gritavam subúrbio afastado para todos que olhavam.
Bati em nossa velha porta verde, número 34. Observei a tinta velha e descascada enquanto o som dos trincos sendo abertos me fez me lembrar que precauções aqui nunca eram demais, eu nem me lembro da última vez que destranquei as janelas.
“Ed, você chegou cedo”. Minha mãe disse da porta com um sorriso cansado.
“Eu vim mais cedo mãe, corri o mais rápido que pude. Estava preocupado por não ter voltado ontem”.
“Não precisa se preocupar comigo, estou bem, sério”. Ela me disse enquanto eu entrava, já se dirigindo até a cozinha onde a máquina de lavar fazia um barulho tremendo, o rolamento do cesto que eu não tive tempo de trocar dava sinais de vida.
“Eu disse que lavaria a roupa esse fim de semana, você não precisava se esforçar mãe”.
“Eu não sou inválida, posso fazer isso muito bem, sabia? Sem falar que eu quero que você descanse um fim de semana pelo menos…”.
Ela não terminou a frase antes de vomitar no chão da cozinha. Apenas a bile amarela saiu de seu estômago e suas pernas se afrouxaram, eu a segurei antes que ela caísse.
“Mãe!”.
“Estou bem, estou bem, foi só uma reação do novo remédio só isso, não é nada de mais”.
“Mãe, você não tinha nada no estômago! Quantas vezes você vomitou?”.
“Eu estava enjoada desde de manhã”.
“E não comer só vai piorar as coisas!”.
“Eu sei o que sinto, isso não é nada, já passei por coisas piores”. Ela me disse antes de vomitar mais uma vez e não se aguentar mais em pé.
Desde os 14 anos, quando a condição de minha mãe piorou, eu a ajudava. A ajudava a tirar as roupas, a preparar o banho e a se equilibrar antes de entrar na banheira. Em nosso apartamento que só possuía uma ducha? Eu tinha que ajudá-la a se banhar também, para limpar o vômito do corpo, impedir que ela caísse no banheiro.
Como ela sempre me dizia, vergonha nunca matou ninguém, eu podia aceitar essa situação e minha mãe não merecia menos.
Depois do banho curto, eu a ajudei a se sentar na bacia da privada e enrolei a toalha em seus ombros. “Pode terminar de se lavar assim?”. Eu perguntei e minha única resposta foi um aceno cansado.
Quando ela terminou, eu entrei mais uma vez e a ajudei a se vestir com as roupas leves e confortáveis que ela gostava. Uma calça de moletom e uma regata de malha preta, essas eram as roupas que minha mãe mais usava em minha juventude e isso a agradava quando a doença piorava.
“Aqui mãe, vamos para o sofá enquanto eu preparo uma sopa de batatas com arroz”.
“Porcaria de comida sem tempero”. Ela reclamou sem muito entusiasmo.
“Eu podia até pedir uma tailandesa bem temperada mas seu estômago não aguentaria e eu não quero limpar o chão de novo”.
“Amanhã então nós vamos sair para comer! E eu não quero um não como resposta”.
“Se você estiver melhor, então podemos ir a algum lugar, SE você estiver melhor”.
“E quando eu não estou bem no dia seguinte? É sempre assim, só um mal-estar passageiro”.
Apenas levantei uma sobrancelha em resposta e ela riu, deitou no sofá e pegou o controle remoto da nossa velha TV de tubo de 20 polegadas, era quase hora da novela. Assisti alguns pedaços enquanto fazia a boa e velha sopa com gosto de nada. Menos de 20 minutos depois estávamos sentados vendo alguma atriz mexicana chorar por algum desencontro de amor.
“Sabe que eu sempre detestei novelas, não é?”.
“Sim, mas o tio Will sempre gostou e me ensinou a gostar também. Sem falar que a Talia Mercedes é uma ótima atriz”.
Minha mãe riu e revirou os olhos. “Sim, ela quase me engana que tem uma gêmea do mal que roubou seu amor de infância”.
“Terminou a sopa?”. Perguntei e ela me entregou a tigela vazia. Tentei levantar para lavar a louça mas não me foi permitido, minha mãe apenas me puxou de volta ao sofá.
“Deixe isso aí no chão, está na hora de um programa que eu gosto”. E ela trocou até os canais de música, havia um especial dos anos 90 sem cortes que passava todas as sextas-feiras.
Quando as primeiras músicas do rock de Seattle começaram a tocar, apoiei minha cabeça no colo de minha mãe, minhas pernas jogadas para fora por cima do braço do sofá, eu fazia muito isso quando pequeno.
“Você sempre gostou do Soundgarden, não é mãe?”. Perguntei enquanto ela acariciava minha cabeça.
“E eu te ensinei a gostar também. Não foi só o idiota do seu tio que te ensinou as coisas”.
“Há quanto tempo não podemos ficar assim tranquilos? Simplesmente passar um tempo de mãe e filho, apenas ouvindo músicas?”.
“Faz tanto tempo… acho que eu ainda tinha músculos para apertar essa regata”. Ela disse flexionando o braço. O músculo do bíceps se levantou, mas não o tanto que ela gostaria.
“Vai poder voltar a se exercitar quando se curar mãe, quem sabe talvez até retocar sua tatuagem, ela está desbotando”.
“Se fosse hoje eu não teria feito um mural braço inteiro”.
“Fica legal em você mãe, te faz ter um visual de descolada”.
“Tenho 44 anos e sou mãe de um jovem adulto, eu não sou descolada”.
Com um revirar de olhos, tirei a cabeça do colo de minha mãe. “Aposto que muitos homens sairiam com você, ter um namorado seria bom”.
“Digo a mesma coisa para você filhote. Eu, pelo menos tenho a desculpa de estar doente, e você? Não namora por qual motivo?”.
“Não tenho uma boa aparência? Talvez eu tenha uma péssima personalidade também. Escolha uma que te agradar mais”.
“Cala a boca garoto, você se parece comigo e tem um pouco do seu pai também, não tem como você ser feio. Quanto a personalidade? Não quer dizer muita coisa, basta contar as garotas que você é espontâneo”.
“Minha mãe disse que eu sou bonito, ainda bem que isso não é quase uma obrigação instintiva”.
“Vamos, se você arrumasse mais esses cabelos”. Ela disse e me fez sentar.
Logo meus cabelos ondulados e ligeiramente grandes estavam presos em uma espécie de rabo de cavalo mas que mantinha umas mechas soltas para frente.
“Não sei se achei uma droga ou se gostei”.
“Então não faça nada e deixe a porcaria do cabelo do jeito que eu arrumei, está bonito assim”.
“Pena não ser possível arrumar seus cabelos também”.
“Fico melhor assim, economiza shampoo e me lembra do meu tempo de novata nas forças especiais”.
“Sorte que sua cabeça não é torta, os cabelos quase raspados combinam com você capitã Miller”.
Ela ignorou minha provocação e mudou de assunto. “Tem uma livraria que vai abrir amanhã e tem uma espécie de café lá. Vamos lá ler um pouco, você gostava de ler”.
“Livros são caros mãe…”.
“Perder chances de fazer coisas com as pessoas que você ama custa mais caro ainda Ed, principalmente quando elas não estão mais aqui”.
Eu engasguei quando ela disse isso. “Você não vai morrer mãe, o tratamento está demorando mais que o previsto, mas houve melhoras”.
“Melhoras até o remédio parar de fazer efeito e partirmos para um novo tratamento… eu estou cansada filho, sério, a vida é um sopro e nunca se sabe quando vai ser seu último”.
“Eu sei que o seu tempo está longe…”.
“Eu também pensava isso do seu tio Forsberg e ele se foi, sem mais nem menos e bem mais jovem que eu. O mesmo com seus avós, e não me diga que seu avô, mesmo aos 70 anos era fraco”.
“…”.
“Mesmo sendo grande e forte, mesmo assim ele se foi… por isso vamos sair amanhã, nos divertir, eu sei que estarei boa, sinto isso. E fique tranquilo quanto ao dinheiro, não vai precisar tanto dele daqui a pouco tempo”.
“Mãe…”. Eu disse ao abraçá-la, as lágrimas escorrendo pelo meu rosto. “Você não sabe o quanto me machuca quando você fala assim”.
“E me machuca muito mais ver o tanto que você se sacrifica por mim, o tanto de trabalho que eu te dou”.
“Se eu usar meus poderes para conseguir dinheiro, eu posso lutar e…”.
“Não se trata disso filho!”. Ela me interrompeu. “Se trata de agir com inteligência, não adianta insistir em algo que não vai dar certo”.
“Não trate sua vida como uma mera coisa! Um mero investimento!”. Eu disse mais alto que gostaria e o silêncio reinou entre nós.
“Se esse medicamento não der certo… vamos testar só mais um, eu não quero sofrer mais e nem ver você sofrendo por mim tendo suas esperanças quebradas vez após vez”.
“Você nunca foi fraca a ponto de desistir assim”.
“Eu me acho forte escolhendo quando e como eu quero morrer”.
Fiquei em silêncio, incapaz de responder ou abrir minha boca por mais de um minuto até minha mãe voltar a falar.
“Em nossa vida Edward, quem realmente morre é quem fica aqui e não quem fecha os olhos em um caixão. Para essas pessoas o sofrimento acabou, para quem fica, sobra a dificuldade de viver sem a pessoa que amava. Eu passei muito por isso e você vai passar também, vai chorar, vai gritar e vai correr, mas vai ter de passar por isso. No final mesmo que a dor tenha passado por cima de você, você vai se erguer de novo, você é forte! Você é meu filho, e eu sei o tipo de homem que você nasceu para ser, o tipo de homem que eu criei! Você é Indomável por baixo dessa fachada mansa, e eu não passo de uma corrente te segurando agora”.
“Eu nunca vou desistir de você mãe, não importa o que eu faça ou tenha de fazer, eu vou lutar por você com tudo o que tenho até o último segundo”.
Minha mãe separou o abraço e beijou minha testa. Acariciando minha bochecha, as lágrimas também caíram de seus olhos quando ela sorriu para mim. “Eu sei filho e é isso que me preocupa, é exatamente o que eu não quero”.
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