Kara


“Hummm, esse café está realmente muito bom, não acha Kara?”. Cassie me disse depois de tomar um grande gole de sua xícara. A muito custo ela me convenceu a vir a inauguração desse café/livraria, apreciei sua tentativa. Kara Danvers tentou ser normal, Kara Danvers tentou fingir que se encaixava na terra, que podia ir a escola de gênios, que podia ir a faculdade.


Kara Zor-El nunca superou Kripton, Kara Zor-El nunca superou o fim da cidade de Argo. E quando finalmente notei isso, me tornei a Super-girl. Apenas a Super-girl.


“O café está realmente bom, e tirando o gosto de detergente que não sai da xícara, provavelmente da marca Strong Bull, e do gosto do látex da luva do barista, é um bom café”.


“Não quero nem saber o que você sentiria se comesse um cachorro quente da estação de trem”.


“Como tudo na vida Cassie, temos que saber o que ignorar”. Respondi suspirando e terminando minha xícara.


“O que está na sua cabeça Kara, pode me dizer”.


“Nada que você não saiba. Só aquele velho sentimento de quê nada aqui é meu, nada aqui é para mim… mesmo depois de tanto tempo sinto que não construí nada”.


“Você só precisa de tempo Kara, talvez tempo para descobrir quem você realmente é, ou quem você quer ser”. Cassie me disse totalmente séria antes de dar um sorriso comedor de merda. “E talvez arrumar um namorado, vai saber… beber pela galáxia não é o melhor e podemos procurar alguém por aqui”.


Eu revirei os olhos e levantei, pronta para mudar de assunto. “Acho que vou olhar se tem algum livro bom por aí”.


Infelizmente Cassie tomou todo seu café em um único gole e me seguiu. “Vamos, tem caras legais por aí. Basta você realmente querer vê-los, posso falar com uns conhecidos meus dos Titãs. Tem um cara que eu acho que você ia gostar…”.


“É, tanto faz. Vamos dar uma olhada na seção de ficção científica. Gosto de comparar com o que tínhamos em Kripton com o que os autores da Terra conseguem imaginar”. Respondi puxando o braço de Cassie na esperança que ela se calasse, infelizmente eu acertei alguém e a pobre mulher caiu no chão.


“Me desculpe senhora!”. Me apressei a erguê-la enquanto Cassie pegava o livro que ela derrubou.


“Nossa, você me acertou de jeito em menina, já pensou em jogar futebol?”. Ela me disse divertida enquanto esfregava o ombro onde eu a acertei.


“Aqui está seu livro. Você não se machucou, não é?”. Cassie também se desculpou e devolveu o livro que havia caído, uma cópia de Anna Karenina.


“Tudo bem, sou feita de um material mais resistente do quê imagina. Prazer meninas sou Jane Miller”. Ela disse piscando e finalmente eu parei para realmente vê-la.


Jane era alta, se elevava acima de mim, provavelmente com mais de 1,80m. Seus cabelos castanhos estavam bem curtos, quase raspados mas que ficavam um pouco grisalhos nas têmporas. Ela vestia uma camiseta do time de basquete de Detroit, os Heavy Motors, e mesmo com um semblante cansado ela era bonita. Se vestia com estilo também, seus jeans rasgados nos joelhos e brincos no topo da curva da orelha completavam um visual interessante para uma mulher de sua idade.


“Prazer em conhecê-la Jane, sou Cassie e essa é minha amiga Kara”.


“Normalmente eu diria algo como ‘se cuidem e não aceitem caronas’ para meninas bonitas iguais a vocês, mas dá para ver que sabem se cuidar, não é qualquer pessoa que me derruba. Agora se me derem licença, vou voltar a procurar o livro que queria”. Jane se despediu e voltou a prateleira que olhava.


“Será que podemos ajudar a achar? É o mínimo que podemos fazer”. Eu me ofereci.


“É acho que podem, meus olhos não são mais os mesmos e nem morta eu uso óculos”. Jane disse antes de olhar para mim. “Conhece alguma coisa de ficção científica?”.


“E o que você está procurando?”.


“Outro livro para o meu filho nerd que sumiu da minha vista, aquele sobre o planeta deserto sabe? Vimos os filmes antigos a bastante tempo e eu queria dar de presente para ele”. Jane disse dando de ombros.


“Acho que seria… Duna?”. Cassie disse da outra prateleira.


“Esse é o livro! Se soubesse que receberia uma ajuda tão boa por ser derrubada, teria pulado em alguém antes”.


“Espero que seu filho goste do livro, não é bom ficar caindo daquele jeito”. Respondi em tom de brincadeira.


“Falando no diabo! Hey Ed, achei uns livros legais!”. Jane gritou para o corredor nas minhas costas e eu e Cassie nos viramos para vê-lo.


Pela forma com que Jane chamou o filho de nerd, eu não esperava o que vi. O tal ‘Ed’, era bem alto e esguio, com cabelos ondulados e compridos presos atrás da cabeça. Assim como a mãe, ele era um cara bonito com seu rosto fino. Como a mãe, ele vestia uma camiseta dos Heavy Motors.


“Duna? Obrigado mãe, só não atenda o telefonema dos anos 80, eles podem te querer de volta. E eu também peguei isso para você”. Ele disse sorrindo um sorriso torto antes de entregar para Jane uma cópia de ‘Como fingir não precisar de óculos, para idiotas’.


“Ha, ha, ha. Muito engraçado Edward Miller, pena que você se esqueceu dos bons modos que eu te ensinei. Diga olá para Cassie e a Kara, elas me ajudaram a achar esse livro enquanto você vadiava por aí”. Jane disse com os olhos estreitos e Edward recuou uns dois passos.


“Olá meninas é um prazer, espero que minha mãe não tenha dado muito trabalho, ela gosta de se intrometer na vida dos outros”.


“Já eu acho que você fala muito pouco com as pessoas”. Jane interrompeu o filho cutucando suas costelas.


“Ajuda se eu disser que achei uma biografia do Chris Cornell?”. Edward disse meio encurvado de dor e entregou mais um livro para a mãe.


“Ajuda sim, e para de graça, eu não te acertei tão forte”. Jane sorriu e bagunçou os cabelos de Edward antes de se voltar para nós. “Querem tomar um café conosco?”.


“Nós já…”. Comecei a dizer antes de ser interrompida por Cassie.


“Nós adoraríamos Jane!”. Ela disse antes de me olhar e começar a me arrastar para a mesa escolhida.


Mais uma vez eu pedi um cappuccino e tentei ficar em silêncio enquanto Cassie e Jane tagarelavam, as duas se dando muito bem por algum motivo.


“E vocês são de Detroit mesmo? Se mudaram para Metrópolis por qual motivo?”.


“Depois que eu me aposentei, decidimos tentar a sorte na cidade do amanhã”.


“Você se aposentou tão jovem?”. Perguntei meio interessada.


“Aposto que você era modelo, estou errada?”. Cassie disse e isso arrancou uma gargalhada de Edward, Jane logo seguiu.


“Hey mãe, ela se superou!”. Edward disse limpando uma lágrima do canto do olho. “Já te perguntaram se você era muitas coisas, mas nunca modelo!”.


“Ora, você é muito bonita Jane, alta, tem um bom porte, poderia muito bem ser modelo”. Cassie disse de braços cruzados.


“Calma querida, é só muito diferente do meu antigo emprego. Eu era do exército sabia? Acabei aposentada por problemas de saúde após o Iraque”. Jane disse também tentando conter a risada, mais uma vez eu fiquei surpresa.


Cassie acenou com a cabeça e bateu no ombro de Jane. “Nossa, você é quase uma Amazona moderna! Uma verdadeira heroína! Por isso eu gostei tanto de você”.


“Uma comparação estranha… mas já que me chamou de amazona, sabia que me chamavam de Ártemis Miller? Não que eu seja donzela e use arcos… mas caçava inimigos muito bem”.


“Ter um irmão gêmeo na mesma unidade também ajudava”. Edward completou.


“Whoa! Deve ser difícil ter uma mãe tão incrível assim, não é? Principalmente estando na faculdade e tudo mais!”. Cassie mudou de assunto, tentando conseguir mais informações do garoto em nossa mesa. Não nego que ele era bonito e ouvia o que dizíamos sem intrometer muito, nem que eu talvez cogitasse conversar com ele, isso é, se meu primo não tentasse investigar tudo antes.


“Na verdade eu não faço faculdade, mas meu emprego está por toda a parte!”. Edward respondeu.


“Como assim?”. Eu perguntei de volta.


“Trabalho em uma fábrica de autopeças das Indústrias Wayne, já viu quantos carros são arremessados pelo ar nessa cidade? Provavelmente algum para-choque que saiu da minha prensa já foi socado pelo Super-Man!”.


“Bem… espero que você não tenha nada contra ele”.


“Contra o Super-Man e seus parentes? Eu não tenho nada contra eles, na verdade sou muito crítico com eles porque gosto deles”.


Cassei enrugou o nariz confusa. “Você gosta deles e por isso critica?”.


“Sim, exatamente isso. Eles fazem o bem, a maioria dos heróis fazem, eles pensam nos outros antes de si mesmos e mesmo aqui em Metrópolis nada é perfeito. Todos nós pensamos muitas vezes, se eu pudesse fazer isso ou aquilo as coisas seriam diferentes, isso não existe para o Super-Man, ele pode fazer essa diferença. Sem falar que se um dia ele decidir dominar o mundo poucos poderão pará-lo”.


Me virei totalmente para Edward, pronta para saber sua opinião sobre esse assunto delicado. “Então ele nunca deveria parar de ajudar, nunca descansar e se matar de exaustão? Tudo isso por medo dele dominar o mundo?”.


“Não, basta saber que ele deve ser o melhor que pode todos os dias. Ser você mesmo, é completamente diferente de ser o melhor você, o mundo merece sempre o melhor Super-Man”.


“Não é justo colocar tanto peso em uma pessoa”.


“Mas ele não é uma pessoa quando está de traje, ele é um símbolo, aquele que sempre vai ajudar aqueles que precisam.”.


“Esse tipo de desassociação de caráter não é saudável, o Coringa não deixa os crimes de lado se tirar a fantasia. O Super-Man, tão pouco é um deus infalível”.


“Concordo, mas diga a uma criança que reza para o Super-Man salvá-la de um prédio em chamas que ele é apenas um homem, diga isso a quem esperou por um herói que nunca veio”.


“Ninguém pode estar em todos os lugares ao mesmo tempo”.


“Sim, é por isso que eu disse que o mundo merece apenas o melhor Super-Man, pois mesmo que ele fracasse um dia, tenho certeza que ele vai voltar amanhã. É impossível agradar a todos no mundo, até mesmo para ele, mas isso não quer dizer que não se possa tentar, um homem se abate com criticas, um símbolo passa por elas e continua a fazer o que tem de fazer, não por reconhecimento e tenho certeza que ele nem precisa disso. Ele faz pois é a coisa certa”.


“Bem… é uma visão interessante. Embora eu ache que os heróis também tenham direito a uma vida normal, eu sei que gostaria de não ser a Super Girl todo o tempo”. Respondi antes de arregalar meus olhos com o que havia dito.


Edward então inclinou a cabeça e me olhou por alguns segundos. “Sabia que vocês se parecem? Você e a Super Girl?”.


Eu enrijeci por um segundo antes de rir. “Não pareço com a Super Girl, apenas sou loira”.


Edward deu de ombros e lançou aquele mesmo sorriso torto e atraente de antes. “Bem, se soltarmos o cabelo e te colocarmos uma capa, eu acharia bem parecida. Mas só teria certeza se você me mostrasse sua barriga definida”.


“Não está avançando alguns passos, querendo me ver de fantasia?”. Eu disse com uma sobrancelha levantada.


“Pode até ser, mas acho que posso falar algumas bobagens já que minha mãe e sua amiga mudaram de mesa enquanto discutíamos uma espécie de pseudo filosofia de heróis, elas não vão nos repreender”.


“O quê?”. Perguntei incrédula e olhei ao redor, Jane e Cassie estavam nos olhando de uma mesa do outro lado da cafeteria, ambas com sorrisos nos rostos.


Edward também viu isso e suspirou. “Não ligue para elas, minha mãe só quer que eu consiga uma namorada”.


“Cassie também diz que eu preciso sair com alguém…”.


“Que conveniente para as duas que temos um problema em comum”.


“Essa talvez seja a hora que você pede meu número”.


Edward deu um sorriso triste e tirou uma chapa torcida do bolso que uma vez pareceu um celular. “Acho que vou perder essa oportunidade, pelo menos dessa vez”.


“E quem disse que vai ter outra vez? Sou uma mulher ocupada, sabia?”.


“É interessante sabe, ir a lugares sem combinar previamente. Simplesmente ir e esperar que a pessoa que você quer ver também vá. A frustração de ficar sozinho e ninguém aparecer, ou a felicidade de encontrar quem você queria, é por emoções assim que os encontros deviam acontecer”.


“Está romantizando o fato de não ter celular?”.


“Não, só o fato de que eu não tenho dinheiro para comprar outro por enquanto, até meu próximo pagamento pelo menos”.


“Eu não sei Edward, posso não ter tempo para vir a cafés dessa forma”.


“Eu ainda assim vou aparecer aqui… ou não, talvez eu esteja no plano horas extras e não tenha tempo de vir em horário comercial”.


Sorri para ele e me levantei, sempre mantendo contato com seus olhos castanhos. “Então se tivermos sorte… nos encontramos de novo”.


“Como sempre deveria ser Kara”.


Essa foi uma despedida estranha, não a mais estranha que tive em minha vida, mas estranha o suficiente para que eu nem esperasse Cassie quando saí. Só percebi isso alguns instantes depois quando ela me alcançou.


“Hey Kara, você está bem? Vocês brigaram?”.


“Não, foi tudo bem. Nós marcamos de sair… eu acho”.


“Sério? Você simplesmente saiu e… nossa você gostou mesmo dele”.


“Não estou apaixonada Cassie, eu apenas conheci um cara bonito e nos demos bem, só isso”.


“Bem, ele parece ser legal e a mãe dele certamente é. Mas não pense que é sério, principalmente com uma pessoa normal. Qualquer coisa, tem um colega de nossa ‘profissão’ que fala bastante sobre você e… Kara?”.


“Estava falando alguma coisa Cassie?”.


Cassie revirou os olhos e bem… talvez eu estivesse um pouco mais interessada que o normal em Edward, só um pouco. Talvez eu voltasse no café só para tomar uma ou duas xícaras entre as patrulhas.