Edward



‘É um passeio no parque Edward’, ‘Não vai acontecer nada Edward’. ‘Me diga isso novamente tio, quando a porra de um homem urso te acerta na cara!’.


Admito que tudo estava tranquilo até os caras armados aparecerem do nada, já que quem diria, eles estavam escondidos. Como a Intergang pôde estar tão desesperada para não perceber a infiltração eu não sei, mas assim que meu tio matou o chefe russo, o homem urso rugiu, se transformou e pulou em mim.


Eu sou forte e muito resistente, usei meus poderes muitas vezes mas nunca havia lutado contra outro Meta-humano, então foi uma surpresa a forma com que ele arrastou minha cara pelo chão e me arremessou contra um caminhão. Não me machuquei realmente, mas não nego que doeu no ego.


Enquanto estava enterrado na cabine amassada, o tempo desacelerou um pouco. Vi os tiros e gente morrendo em cada canto e ao invés do medo paralisante que esperava sentir, meu coração disparou de uma forma reconfortante. Eu me sentia vivo de verdade no meio daquela bagunça.


Pulei para fora da cabine, o homem urso já no meio do caminho para me acertar mais uma vez e nós nos atracamos.


Eu não deixaria ele me acertar de novo, e antes que as garras me tocassem eu me abaixei. Naquele momento percebi que era mais rápido e aproveitei essa chance para socá-lo no queixo com toda a força que consegui, o maldito voou bem longe, acertou um dos carros dos russos e atropelou uma boa quantidade deles.


Isso tirou um pouco da pressão que Killer Frost sofria. “Obrigada querido”. Ela me disse piscando e lançou uma grande onda de gelo em outro grupo. Infelizmente, ela não se preocupou em avisar sobre o carro sendo arremessado em minhas costas.


Um carro de mais de uma tonelada com blindagem extra, sendo arremessado contra um homem com menos de 80 quilos, digamos que dei sorte de ser apenas arrastado pelo pátio de forma pouco graciosa.


Mal havia me levantado, a tontura de girar tantas vezes ainda me confundindo, e mais uma vez fui acertado. O soco forte me fez recuar mais dois passos antes que eu revidasse na primeira coisa que vi pela frente.


Senti em meus punhos que acertei algo, e sem pensar lancei um segundo golpe, depois um terceiro e um quarto, e eu não pararia de bater até me cansar. Infelizmente o maldito urso teve a mesma ideia e enquanto trocávamos socos um no outro o mundo ao nosso redor pareceu sumir.


Eu estava cansado desde que cheguei aqui e isso cobrou um preço, meus golpes ficaram mais fracos com o tempo e com a abertura que dei após um soco desleixado e lento, um grande punho acertou meu estômago. Todo ar voou para fora dos meus pulmões e eu vomitei meu almoço. Na verdade eu não vomitei tudo, pois assim que me dobrei para frente uma mão agarrou meu rosto e tampou minha boca.


O chão sumiu de meus pés quando fui erguido no ar, a mão ainda prendendo meu rosto quando fui batido no chão repetidas vezes, e dessa vez o que eu sentia na garganta não somente o amargo do vômito, mas também aquele gosto quente de sangue.


Acho que uma cratera se formou ao meu redor e enquanto o peso considerável do homem urso subia em mim para mais uma enxurrada de golpes, eu tentei o máximo que consegui formar uma guarda para proteger minha cabeça.


Eu estava fraco, sim. Essa foi a primeira surra que eu levei em minha vida, sim. E foi a primeira vez que realmente algo me machucou fisicamente, então foda-se, eram muitas primeiras vezes para se processar.


Agora o que não foi uma primeira vez, foi o ‘fogo’ se ascendendo dentro de mim. Foi a raiva que como uma enxurrada começava a vazar da barragem que montei a muito tempo.


Apertei os dentes enquanto ainda era agredido, um zumbido cada vez mais alto nos meus ouvidos começava a me deixar louco.


Sendo sincero, o zumbido sempre esteve presente, todos os dias de minha vida desde que eu me lembro, 24/7, mas quando eu tinha raiva? Ficava muito pior.


“MATE TODOS ELES!”. Eu ouvi o rugido na minha cabeça, pelo menos eu espero que tenha sido, mas tanto faz, eu sabia que tinha perdido o controle e a barragem cedeu.


Com um rugido e uma explosão de força nos meus músculos, tudo passou como um borrão, eu lembro de bater os braços para cima e tirar o Urso de cima de mim, no momento seguinte eu estava de pé segurava o seu corpo mole com meu braço atravessando sua barriga. Sentia minha respiração pesada e minha visão em tons de vermelho piscante.


Parecia certo para mim, parecia certo para mim rasgar aquele cara no meio. A voz ainda gritava na minha cabeça, me instigando a lutar mais, me instigando a matar mais.


Puxei meu braço, deixando uma cachoeira de sangue e tripas escorrer, eu não daria a ele a chance de se recuperar, se é que isso era possível em tal estado. Arranquei a cabeça peluda de seus ombros com a outra mão e me banhei com o sangue que espirrou em mim.


A voz gritava em minha cabeça e eu gritei em plenos pulmões também. Olhei em volta procurando os russos e eles prontamente se apresentaram com uma onda de tiros que me acertaram inutilmente. Pulei na direção deles, pronto para espalhar seus corpos e aplacar a voz na minha cabeça.


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Killer Frost


A situação era menos que o ideal, sabia disso quando os meus ‘colegas’ morreram nas primeiras trocas de tiros. Me poupou o trabalho de me livrar deles depois, mesmo assim era um saco ter de desviar das balas e lutar contra esse hippie de merda sem apoio.


O tal de Black Fox estava com tudo, derrubando todos em seu caminho e o caladão também estava se atracando com o homem urso. Sorte minha que ele o fez voar bem no meio de um grupo armado particularmente chato, nem tanta sorte para os que foram esmagados.


“Obrigada querido”. Eu disse dando uma piscadela e o idiota realmente ficou me olhando invés de ver o carro sendo jogado contra ele. Não era problema meu, eu decidi congelando mais um grupo antes que eles pudessem atirar.


‘Se Mannheim me pagasse por morte, estava feita hoje’, pensei amargamente mas não me deixei levar, eu estava me cansando e o hippie russo não me deixava respirar, não me deixava roubar mais temperatura ambiente.


Vários estrondos soaram atrás, provavelmente da luta dos dois pesos pesados mas eu não pude ver, já que uma onda de sucata e peças de carros/caminhões voava em minha direção, até pedaços do meu gelo eram usados contra mim. Se a situação continuasse dessa maneira… eu fugiria nada disso era realmente problema meu.


“AAAHHH!” Um grito poderoso e rouco ecoou, muitos e inclusive eu, pararam para ver o caladão arrancar a cabeça do homem urso com as próprias mãos. Sua blusa estava rasgada e o seu lenço a muito se foi, dando para ver bem seu rosto. Surpreendentemente seus olhos estavam vermelhos, ele não tinha olhos vermelhos quando o conheci hoje, não é?


Isso realmente não importava, pois assim que ele pulou entre um grupo que atirou em seu peito, o massacre recomeçou. O primeiro pobre coitado atingido por um soco se espatifou como um monte de sangue e tripas colados no baú de um caminhão, os outros não foram diferentes.


“VAMOS! É SÓ ISSO QUE VOCÊS TEM?”. Ele gritou mais uma vez em desafio e eu senti uma onda de calor me revigorando, me dando mais vontade de lutar, ao que parece eu não fui a única.


Muitos capangas do Mannheim se jogaram sem pensar duas vezes nos adversários, apenas rugindo e atirando. Os russos fizeram o mesmo e toda a bagunça que já era perigosa se tornou insanidade.


“Me ajuda aqui cara, esse velho é perigoso!”. Gritei quando os objetos voltaram a ser jogados em mim.


O caladão me olhou e acenou antes de pular para enfrentar o velhote. Infelizmente ele não podia voar, então toda vez que se aproximava o velho voava para outra direção. Mas isso o impedia de me atacar, e se eu não preciso me defender… então eu ataco com força.


Estacas e mais estacas voaram na direção do velho, uma ou duas acertando o caladão sem sequer arranhá-lo. Não demorou muito para ser sobrecarregado e se plantar em uma posição.


Ele conseguiu formar um escudo em sua frente, mas o impacto do soco que o escudo recebeu fez o velho voar para trás com o nariz sangrando. Quando caiu no chão eu soube que ele já era.


Lancei uma onda de gelo que prendeu suas pernas até a cintura. Acho que o velho também soube que seria o fim, seus olhos se arregalaram e a última coisa que viu foi o caladão pulando em sua direção. Ele acertou o cara com o antebraço e em uma obra de arte particularmente macabra, cortou o corpo do velho ao meio, meu gelo agindo como divisória.


Puxando os cabelos bagunçados para cima, o sangue em suas mãos quase agindo como gel de cabelo, o caladão sorriu para mim um sorriso maníaco que eu retribuí. Ele precisava de um nome próprio como o Meta que era, pela sua aparência atual, ele parecia um enviado do inferno caçando todos os inimigos.


“Hey Hellboy! Os caras já eram!”. Chamei e ele virou sua atenção para mim, respirando fundo pela boca, eu vi uma fumaça quente sair. Ele fechou os olhos e agitou a cabeça, respirou por alguns momentos mais e quando os abriu mais uma vez não havia vermelho algum, apenas um simples castanho médio.


“Porra, eu não deveria ter te trazido aqui! Você está bem garoto?”. Black Fox veio correndo e apertou os ombros do jovem como se ele realmente precisasse de ajuda depois de tudo que havia feito.


Quando ele se ‘acalmou’, também percebi que a onda revigorante que senti foi embora, mais uma vez percebi que eu não fui a única a sentir isso. Diversos caras caíram desmaiados após o combate.


“Estou bem, só um pouco cansado… só isso”. Ele disse fracamente e eu me aproximei sorrindo.


“Mandou bem Hellboy, quem diria que um cara igual você se escondia por aí”.


“Hellboy?”. Ele me perguntou confuso e passei um dedo pela sua mandíbula.


“É o seu nome agora, eu que escolhi, legal não é?”.


“É uma merda”. Black Fox disse do lado e eu revirei os olhos.


“Disse o cara que luta com uma máscara de gatinho”. Esse comentário ácido tirou uma risada de Hellboy, ele tinha um sorriso torto bonito também.


Mannheim chegou depois com uma cara de poucos amigos e tremendo de raiva, vindo de um chefe do crime eu sabia o que esperar nas ruas, sangue. Provavelmente um bom momento para continuar em Metrópolis e aproveitar a chance de ganhar mais dinheiro na guerra que virá.


“Sua parte Frost”. Mannheim disse e arremessou uma sacola para mim. “A sua Black Fox e a do…”. Mannheim fez uma pausa sem saber o nome.


“Hellboy?”. Ele disse incerto antes que eu pudesse.


“Hellboy… a parte de vocês eu pago depois, com de costume”. Mannheim completou.


“Certo, os reforços já estão vindo?”. Black Fox perguntou e nem precisou de resposta, diversos carros chegaram em alta velocidade e obviamente atrasados. “Isso me serve de resposta. Se me der licença chefe, eu vou indo”.


“Vocês podem ir, já cumpriram sua parte. E eu tenho outros para ‘conversar’ agora”. Mannheim disse acenando sem nos olhar, focando apenas nos pobres coitados do apoio.


“Vamos garoto, você tem que tomar um banho antes de voltar para casa”. Black Fox instigou Hellboy, mas eu pigarreei.


“Vocês tem carro? Eu estou com um problema de locomoção”. Falei apontando a carcaça destruída do que um dia foi o meu carro, ou melhor, o carro que um dia foi de alguém.


Hellboy suspirou antes de acenar. “Vamos logo, te deixamos em algum lugar perto do porto”.


“O carro é meu! Não venha aceitando dar carona para os outros!”. Black Fox estalou.


“Dá para irmos embora? Eu estou cansado e trabalho amanhã!”. Hellboy devolveu e eu decidi interferir.


“O porto está bem para mim”.


Black Fox aceitou, mesmo querendo mandar eu me foder.


O carro deles estava longe, caras espertos. Infelizmente me apertei no banco traseiro com uma bicicleta e o próprio Hellboy que não era um cara pequeno. Black Fox realmente não confiava em mim sem nenhuma supervisão, mais uma vez um cara esperto.


Ele corria também, evitando qualquer ponto de mais movimento com rotas de fuga decoradas. Trabalho de profissional, não é atoa que o Mannheim o contrata como guarda-costas freelancer.


“Então você tem emprego quando não está rasgando gente ao meio?”. Perguntei divertida e Hellboy apenas grunhiu.


“Não quero falar sobre isso”.


“Que chato você, esfriou o clima”. Hellboy riu de minha piada infame, já Black Fox apenas bufou.


“Então não me julgue por te dar um gelo”. Ele rebateu na mesma moeda e eu ri dessa vez.


De repente o carro freou e Black Fox olhou para mim. “Aqui está bom para você?”.


Olhei pela janela, vi a entrada de Metrópolis e assenti, até aqui era o suficiente. “Hey Hellboy, me liga. Quem sabe a gente rouba um banco? Gostaria de um parceiro igual a você”.


“Não planejo voltar a fazer coisas assim de novo, hoje já foi o suficiente”.


Eu avancei sobre ele e beijei seus lábios, vendo meu gelo apenas deixá-los roxos de frio invés de congelar sua cabeça como normalmente acontecia… ele era mais resistente do que parecia. “Você vai fazer de novo bonitão. Já está nessa vida, vai querer sentir o que sentiu até se viciar”.


Saí do carro sorrindo ao ver seu rosto perplexo. Quando o carro arrancou mais uma vez, voltei a caminhar rapidamente.


“Quem sabe… um parceiro como ele pode ser de grande ajuda”. Disse a mim mesma enquanto lambia os lábios e admirando o sabor de sangue que consegui de sua boca, ali havia uma boa sensação de calor que eu havia roubado e ele nem parecia ter sentido.