Unchained
2 Capítulo 2
Willfrith
“Vai com calma e deixa que eu falo com os caras, entendeu?”. Disse ao meu sobrinho assim que o peguei na saída do trabalho, a maldita bicicleta enfiada no banco de trás do carro.
Quando olhava para Edward, eu via muito de minha irmã e de mim também, mas outra parte mostrava o idiota do pai dele.
O garoto era alto como eu, com mais de 1,92 m, cabelos castanhos ondulados totalmente emaranhados e parecendo um monte de algas. Nunca me achei um homem feio, as mulheres com quem eu saía muito menos, mas o garoto era outra coisa. Se ele tivesse tido a oportunidade de ser um adolescente normal, se ele não se desgastasse tanto a ponto de seus olhos castanhos estarem quase opacos de sono, se ao menos sua cabeça se levantasse acho muitas mulheres se jogariam nele, ou talvez se jogassem e ele não tivesse energia para realmente corresponder.
E por isso eu queria ajudá-lo, eu queria que ele tivesse uma vida mais tranquila. Além de mandar meu dinheiro e ajudar Jane em suas consultas exorbitantes de caras, o que mais eu podia fazer pelo garoto? Eu, a porra de um ex-tenente do exército com parafusos a menos na cabeça e que nunca passou em um psicotécnico depois de Burkina Faso? Uma carta de recomendação minha não valia muita coisa.
“Certo tio, o que você disser”. Edward me disse, distraído enquanto olhava pela janela. Ver meu sobrinho assim me fez lembrar de outra época, quando nossas vidas eram mais simples e a minha única preocupação era ajudar minha irmã a criar seu filho meta-humano sozinha. Isso me lembrava de quando eu o levava para jogar basquete, e hoje eu o levo para algo… pior, como o tempo voa.
“Lembra quando eu te ensinei a andar de bicicleta?”. Disse sorrindo quando vi a tralha no meu banco traseiro pelo retrovisor central.
O garoto sorriu divertido, provavelmente relembrando o passado. “Sim… você me colocou em cima de uma bicicleta de cestinho na frente, me mandou fechar os olhos e me empurrou ladeira a baixo. Eu me lembro de cair feio também”.
“Você arrancou a porra de uma árvore!”. Eu disse gargalhando e Edward revirou os olhos. “Você se agarrou na pobre coitada quando tombou e não largava de jeito nenhum. Aquela velhota da casa azul viu tudo e tivemos que nos mudar uma semana depois”.
“Tenho vontade de voltar lá e bater nela toda vez que lembro disso”.
“Somos dois”. Comentei e deixei o silêncio entre nós pesar por um tempo enquanto ouvíamos o rádio.
“Não vai acontecer nada de mais Ed, mas se acontecer, um grande se… Use sua força, derrube alguns caras e eu faço o resto, ok? Não precisa… você sabe, matar ninguém, eu sujo as mãos aqui”.
“Eu sei controlar minha força, você me ensinou lembra? Sem falar que tive cada vez menos ‘acidentes’ ao longo dos anos”.
‘E isso não necessariamente é uma coisa boa’, pensei. Abri o porta-luvas do carro e tirei um lenço comprido e cor de areia. “Coloque o capuz de sua blusa e cubra o rosto com isso. Ainda lembra como fazer a amarração padrão para missões no deserto?”.
“Sim tio, eu lembro. Corro o risco de ser perseguido depois disso?”. Edward me perguntou e era realmente uma pergunta válida, mas eu dei de ombros sem alarmá-lo.
“Vai por mim, cuidado nunca é demais”.
Estacionei o carro nos fundos de um antigo posto de gasolina na beira da estrada, peguei meu ‘equipamento’ no porta-malas e pulei a cerca de alambrado junto de Edward, íamos em direção ao pátio de caminhões onde a negociação seria feita. Eu poderia ir até lá de carro, mas nem morto eu mostraria uma bicicleta no meu banco traseiro.
Não tive dificuldade em levar uma mala pesada pela cerca, eu tinha um meta-humano pronto para fazer isso por mim, e assim que pulamos me troquei. Vesti meu colete a prova de balas e minha máscara de raposa asiática, muitos mexeriam comigo assim, mas um olhar nas duas pistolas Taurus 1911 nos coldres da minha cintura mudavam essa ideia.
“Fuzil bacana esse, é novo?”. Edward me perguntou depois de terminar de ajeitar seu próprio lenço no rosto.
“FN Scar-H, muito bom, leve e aceita modificações. Consegui barato a um tempo atrás das mãos de um israelense, já as pistolas vieram do Brasil”.
“Pensei que você gostasse do modelo HK”.
“E gosto, mas sou aberto a mudanças sabia?”.
“Por isso a roupa preta e máscara de gatinho?”.
“É uma raposa, completamente diferente. E me chame de Black Fox por enquanto, estamos quase chegando no ponto de encontro”.
“Se era para ser uma reunião importante, como nós simplesmente pulamos uma cerca e pronto?”.
“Os guardas estão onde é realmente necessário, e vai por mim, guardas demais no perímetro trazem muita atenção”.
“Não sei ti… Black Fox, mais alguém pode ter entrado, alguém indesejado”.
“Poucas pessoas entram, já que todos sabem de onde vem o dinheiro por trás desse estacionamento. As empresas de transportes pagam um ‘seguro’ à Intergang pela proteção do veículo e carga. Ninguém quer mexer com eles, então deixam tudo quieto e ninguém morre, simples assim”.
Edward não disse mais nada, mas eu podia ver por seu comportamento que ele não ficou convencido e estava sempre olhando ao redor. Grande besteira na minha opinião, já que ele não tinha sentidos aprimorados e o pátio era enorme. Se os russos colocaram alguém escondido, certamente nós fizemos o mesmo.
Caminhamos mais um tempo entre os caminhões estacionados até o galpão onde uma espécie de oficina/sala de guardas/qualquer outra coisa ficava. Os guardas comuns cercavam o prédio, é claro que eles me conheciam e com apenas algumas palavras me deixaram passar.
Dentro do galpão, sentado em uma cadeira de encosto alto e fumando um charuto estava meu atual chefe, Bruno Mannheim. O físico dele era forte, mas ele não era alto e o terno preto com risca de giz o achatava mais ainda, péssima escolha de vestuário eu digo, se uma coisa é cara não quer dizer que combine com você.
“Está atrasado Black Fox, sorte sua que o outro Meta não chegou”.
“Eu tive que buscar esse cara, como eu tinha dito antes. Se ele chega sem mim, vocês atirariam nele e a situação vai para a merda”.
“O que o idiota faz além de ficar parado feito uma árvore?”.
“Ele é forte, talvez aprimorado seja a palavra certa”. Eu disse a Mannheim enquanto apertava o ombro de Edward. “O melhor é que ele é novato, nem nome tem! Os russos não vão saber o que ele faz!”.
“Só o fato de ninguém conhecer o cara, já diz muito sobre o que ele é capaz”. Mannheim disse suspirando. “Mas vai servir… Só não fode com tudo, entendeu?”. E Edward assentiu.
Um rádio tocou nas mãos de um dos tenentes e eu prontamente tomei meu lugar a frente de Mannheim como o bom escudo contratado que era, ou pelo menos, como o próprio disse, por hora.
O outro Meta chegou em um carro sedan preto com toda a aparência de carro frio, como os tiras não os pararam era um verdadeiro mistério. Literalmente havia dois caras com aquele jeito de bandidinho mal encarado e uma mulher de cabelo azulado em um maiô azul-escuro.
Ela era bonita, isso era verdade, e que corpo ela tinha, mas os olhos eram de um azul tão gelado que um arrepio corria pela minha espinha. O fato de sua pele ser mortalmente pálida não ajudava muito a tirar essa impressão de cadáver andante.
“Killer Frost”. Mannheim cumprimentou imperturbável e estalou os dedos para um guarda atrás trazer uma mala, provavelmente com dinheiro. “Como combinado, metade agora e metade depois de tudo concluído”. ‘Bingo’.
A mulher, uma maldita criminosa famosa sorriu de forma provocante e acenou em nossa direção. “É com esses dois aí que eu vou trabalhar?”.
“Black Fox é meu segurança, o silencioso ali que será seu parceiro. Mas devo te salientar, não faça nada estúpido. Você não está mexendo com a polícia, então é melhor saber com quem está lidando se aprontar alguma”.
Killer Frost deu de ombros e abriu a mala repleta de dinheiro, provavelmente quase o mesmo tanto que eu recebia, mas sem o problema de tentar lavar esse dinheiro depois, vadia de sorte.
“Parece estar tudo aqui”. Ela disse antes de olhar para nós. “Mas vamos ver se eu vou conseguir realmente ganhar minha segunda parte hoje”. E sem aviso prévio uma estaca de gelo voou de sua mão em direção a Edward.
Eu reagi o mais rápido que pude e empurrei Mannheim para trás, mas o meu sobrinho me deixou orgulhoso. Ele agarrou a estaca a centímetros do próprio rosto e se manteve imperturbável. Para mais efeito ainda, ele apertou o gelo impossivelmente gelado e o quebrou, os pedaços em sua mão virando pó.
Killer Frost levantou uma sobrancelha e Edward bufou. “Acho que isso conta como uma apresentação, não é?”.
“Quem sabe se você conseguir tirar alguns idiotas do meu caminho quando a situação for para a merda, só aí conversamos grandão”.
“Não importa nada disso, basta fazer a sua parte e não vir com essas brincadeiras idiotas. É muito fácil errar um tiro durante uma luta, principalmente um tiro que acerte essa sua cabecinha gelada”. Eu disse de forma ameaçadora mas Frost apenas riu de mim, e sinceramente eu não me importava, acertaria ela antes que percebesse.
Voltei com Mannheim para dentro e Edward ficou do lado de fora em um canto afastado, provavelmente tentando não socializar muito com os capangas e Killer Frost. Vinte minutos depois os russos chegaram com uma maldita frota da Mercedes, e eu não sabia como a polícia de Metrópolis podia ser tão burra a ponto de deixar isso passar.
O chefe russo se chamava Ivan (nome clássico para um russo) Karaev, e comandava parte do ramo de tráfico de armas na América para o grupo conhecido como Hotel Novgorod. Inteligente por parte dos russos lavar dinheiro com uma rede de hotéis do meio oeste.
Quanto a Mannheim, ele queria mais do que tinha, queria mais poder em Gotham pelo que entendi e precisava de armas para enfrentar as famílias e loucos no poder.
Se por isso ele precisava dar uma parte de Metrópolis aos russos tudo bem, já que a área não era realmente nossa e sim das outras famílias mafiosas locais. E como bons russos que eram, eles já tinham os instintos para expulsar os ocupantes atuais.
Mannheim e Karaev trocavam seus jogos de palavras e ameças veladas em sorrisos, enquanto todos os capangas descarregavam caminhões de armas para nós, e sacolas pesadas de dinheiro e promessas para eles. Provavelmente mais dinheiro que promessas, já que eu percebi os ‘amiguinhos’ de Killer Frost com os olhos arregalados pela quantidade de sacos. O que eles esperavam? Mannheim estava comprando dos russos munição antitanque e outras coisinhas desagradáveis.
Os dois supostos Metas, ficaram perto do chefe. Um homem grande e peludo, grande no sentido de possuir braços fortes e barriga de caminhoneiro. O outro era mais esguio, mas suas roupas esfarrapadas, a barba cumprida e grisalha o fazia parecer um mendigo e esse tipo era sempre perigoso.
Edward e Frost ficaram perto também, olhando tudo com preguiça mal disfarçada e eu não podia culpá-los, uma transação desse tipo e magnitude acabou perfeitamente bem… nada realmente acontecia ou era isso que esperávamos.
Nossos caminhões próprios foram carregados e a grana enchia os porta-malas dos russos, e assim que apertou a mão de Mannheim, Karaev sorriu.
“Esse é o problema de vocês americanos, sempre confiantes demais. Mas fique tranquilo, vou fazer bom uso de seu dinheiro e território, claro que você não verá nada disso pois…”
Bang!
Atirei bem em sua cabeça e interrompi o discurso idiota assim que os primeiros caras começaram a nos cercar. Amaldiçoei Edward por dizer essa possibilidade e não dar ouvidos.
Os garotos de Mannhaiem reagiram rápido e a troca de tiros começou, sem nem mesmo eu precisar dar a ordem. Depois de ajudar o chefe a se esconder, percebi quem nos cercava e gritei para que ele ouvisse. “Parece que as famílias de Gotham pagaram mais, não acha Bruno?”.
“Me dê uma arma e acabe com eles porra!”. Mannheim gritou de volta e eu joguei uma de minhas pistolas em suas mãos.
Eu o teria respondido corretamente, mas um estrondo sacudiu a todos e meus olhos se arregalaram quando eu vi Edward aterrissando de costas na porta de um caminhão. O maldito russo peludo, agora tinha realmente muitos pelos, já que sua cabeça era de urso e seus músculos incharam ainda mais.
Killer Frost também estava ocupada tentando evitar as balas e objetos jogados pelo Mendigo que aparentemente possuía poderes telecinéticos.
Meu primeiro instinto foi ajudar Edward, mas as balas zunindo nas minhas orelhas me lembraram do meu objetivo de verdade, eu deveria me focar se quisesse voltar vivo. Ver o garoto sair da cabine amassada no caminhão e pular para socar o urso foi uma espécie de alívio.
Respirei fundo algumas vezes e por baixo da máscara meu sorriso se alargou quando acertei mais um tiro na cabeça de um pobre coitado. ‘Como é bom fazer o que eu nasci para fazer!’. Pensei antes de correr para a próxima cobertura e abrir fogo sobre os próximos idiotas em meu caminho.
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