Unbreakable
9 O9: Indescritível
Notas iniciais
Narração por: Clara Fernandes
Eu ainda estava tentando entender tudo o que aconteceu ontem. Como pode tudo mudar tão drasticamente de uma hora para a outra? Perguntei-me mentalmente. Uma hora eu estou focada no meu trabalho e na outra estou nos braços da mulher que me desestruturou toda minha vida. Uma pessoa que eu amo e que eu odeio ao mesmo tanto. Amo-a tanto que meu coração quase se quebra. Mas ninguém me machucou tanto quanto ela.
Pensar no quão ferida eu já estive por causa da Marina sempre trazia lembranças desagradáveis. Naquele momento doía tanto que não sei como sobrevivi, parecia que tinha me arrancado um membro. O que, no sentido figurado, era verdade. Ela levou meu coração na bagagem e deixou em seu lugar o vazio. Meus olhos ardiam e eu senti as lágrimas pipocarem.
FLASHBACK ON
A notícia chegou rápido. Cadu me ligou um pouco histérico, perguntando o que tinha acontecido com a Marina e eu não entendi nada. Como poderia, no entanto? Eu não sabia. Tentei acalmá-lo para que ele pudesse explicar direito o que diabos ele queria dizer quando, depois de tomar umas lufadas de ar, deu-me da pior notícia de todos os tempos.
O chão pareceu sumir de baixo dos meus pés, senti o quarto rodar por uns segundos e tive que me apoiar para não cair. Com a visão turva de repente; tentei caminhar, porém minhas pernas não obedeciam, não tinham forças. Cadu ainda estava uma resposta do outro lado da linha.
Por que ela fez isso?
Minha cabeça explodiu em milhões de perguntas incertas e confusas, tentando encontrar em uma resposta plausível e não consegui.
– Cadu – testei minha voz e ela estava tão ruim quanto pensei, pigarreei umas vezes para desfazer o nó na minha garganta e chamei seu nome um pouco mais forte – Conta de novo.
– Então, eu tava jogando bola com os meninos e a Bia apareceu lá na quadra. Ficamos conversando e ela contou que foi levar a avó dela no aeroporto e encontrou a Marina. Achou estranho, já que ela tinha umas malas e... Enfim, Marina disse que iria viajar. Você está sabendo de alguma coisa? – as lágrimas já caiam copiosamente e meu estômago apertou.
– Não sei. – funguei, tomando uma respiração profunda – Não sei Cadu. Ela ficou de vir aqui e não até agora não apareceu e, pelo visto, nem vai.
– O que deu nela? Por que foi sem avisar nada?
– Me faço as mesmas perguntas.
– Vocês brigaram? – ele perguntou cauteloso.
– Não! E isso não seria motivo de aprontar as malas e pegar o primeiro avião.
– Verdade. Mas, sei lá, pode ser acontecido algo grave com o pai ou…
– Acho que não. – interrompi suas divagações – Vou ir na casa dela, você vem comigo? – enxuguei meu rosto.
– Clara… – hesitou.
– Ok, eu vou sozinha. – desliguei o telefone, jogando-o com força em cima da cama para descontar a raiva e a frustração. Isso não pode está acontecendo!
***
Meus olhos estavam vermelhos, inchados e fundos de tanto chorar, então coloquei um óculos escuro para evitar perguntas. Já bastam as minhas próprias. O sol era tímido entre as nuvens cinza daquela tarde, o vento forte e frio balançava meu cabelo em todas as direções, mas não me importei.
Não conseguia pensar algo por muito tempo também. Logo minha mente, assim como meu corpo, ficava letárgica e processava o suficiente para chegar ao meu destino. Avistei-o de longe e apressei os passos, com as pernas vacilantes.
Toquei a campainha um par de vezes até a empregada abrir a porta.
– Marina. – falei com um pouco de falta de ar pela corridinha até lá.
– O quê, querida?
– A Marina. Onde ela está? – perguntei com a voz um pouco mais forte.
– El-ela foi embora, Clara. – balbuciou confusa com o meu estado.
– Para onde? Por quanto tempo?Por que não me avisou?
– Não sei te responder isso, sinto muito.
– Ela não deixou nenhum recado para mim... Um bilhete, sei lá. Qualquer coisa. – insisti.
– Não, achei que você soubesse.
– Posso entrar? Procurar no quarto dela se tem alguma coisa pra mim... – ela se moveu pro lado e eu entendi isso como um sim. Passei como um foguete pela empregada até o quarto da minha Marina.
“I remember when
It was together ‘til the end
Now I’m alone again
Where do I begin?
I cried a little bit
You died little bit
Please say there’s no regrets
And say you won’t forget”
Remember when – Avril Lavigne
A dor é uma coisa muito estranha. Uma hora você está bem, sorrindo e, às vezes, até feliz e na outra... BUM! Aí está ela instalada em você.É real. Aos olhos dos outros chega a ser bobagem, mas só você sabe o que está sentindo. Só você entende e sente aquela tristeza sem fim. Pois para a dor, não há cura. Ela é anestesiada com o passar do tempo, porque quando se torna insuportável, o nosso corpo desliga.
O desespero tomou conta de mim quando não encontrei nada no quarto dela. A maioria da suas coisas continuava no mesmo lugar, como se ela tivesse ido passar o fim de semana fora, como se fosse voltar. Uma centelha de esperança encheu meu coração com esse pensamento, mas bem lá no fundo, eu sabia que não. Ela não voltaria. O porquê de eu ter tanta certeza disso? Não sei.
Marina foi embora.
A certeza dessa frase acertou em cheio meu coração, fazendo-me inclinar sobre meu corpo com a mão no peito, como se pudesse arrancar a dor que se instaurava ali, ou segurá-la. Eu precisava sentir. Precisava saber que tudo foi real. Ela, nós. O que vivemos. Não pode ter sido um sonho.
Minha Marina.
Subi na sua cama, sentindo seu cheiro nos lençóis de linho – aquele perfume era a prova de que ela existe, de que foi real sim. Eu tinha esse perfume em mim, gravado na minha mente. Poderia reconhecê-la apenas sentindo-o.
Por que ela fez isso?
Deitei em posição fetal, abraçando seu travesseiro e enterrando meu rosto nele, abafando os soluços. Era quase como se ela tivesse ali comigo. Naquele momento, eu tinha certeza de que meu mundo não seria mais o mesmo sem ela.
Minha vida tinha acabado de perder a cor, a alegria e o amor da Marina. Eu não tinha perdido a pessoa que eu mais amo no mundo. Eu perdi uma parte de mim. E, de agora em diante, eu seria apenas metade. A outra iria por onde quer que ela esteja, e, quem sabe um dia, eu não teria as respostas para minhas perguntas ou, talvez, minha metade de volta.
FLASHBACK OFF
A dor que senti naquele dia ainda estava aqui. A volta da Marina para o Brasil e para minha vida não foi suficiente para extingui-la de vez.
Com um suspiro cansado – pois eu estava cansada de andar em círculos, de pensar, de tentar adivinhar o porquê de tudo ter acontecido desse jeito, de sofrer – disquei o número que eu já estava tão familiarizada e esperei.
– Alô?
– Não consigo mais adiar essa conversa.
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