Unbreakable
10 1O: Impossível
Notas iniciais
Narração por: Marina Meirelles
FLASHBACK ON
Sabe quando você está muito feliz e tem aquela sensação de que algo ruim vai acontecer? Pois desde a hora que levantei da cama que sinto isso. Minha barriga revira em antecipação, o medo corre em minhas veias assim como o frio percorrendo a espinha.
Fazia algumas horas que eu tinha falado com a Clara e aquela vontade imensa de estar em seus braços era presente desde que consigo me lembrar. Sorri quando pensei nela. Somos felizes. Tão feliz quanto nunca estive em toda minha vida. E isso trás de volta o medo. Ninguém é feliz o tempo todo. Fico assustada porque, quando ela dura, quer dizer que algo muito grave vai acontecer. A calmaria antes da tempestade.
Espantei esses pensamentos enquanto esperava alguém atender a porta. Ouvi um farfalhar de passos do outro lado e arrumei a roupa e o cabelo impecável. Tia Chica abriu dando espaço para que eu entrasse.
– A Clara tá em casa? – perguntei ainda parada na porta, olhando para a expressão indiferente da mulher mais velha.
– Acho que ela deu uma saidinha. – sorriu, mas não chegou aos seus olhos – Venha aqui, quero conversar com você. – entrei e sentei no lugar que foi indicado.
– Claro. – juntei as mãos no meu colo – Falar sobre o que?
– Bom, vou ser direta porque não tem como abordar isso de outra maneira... – assenti e vi quando ela soltou o ar pela boca, foi só então que eu percebi que estava segurando a minha respiração – Marina, você é amiga da Clara há quanto tempo? – era uma pergunta retórica.
– Nossa, faz tanto tempo. Na minha primeira lembrança da vida tem a Clara. – respondi confusa.
– Então – hesitou – Por que estragar uma amizade tão bonita como a de vocês, fazendo... Isso. – disse a última palavra com uma cara enojada. Oh, não...
– E-eu não entendi. – gaguejei.
– Sim, querida, você entendeu. – apesar da expressão carinhosa que me tratou, sua voz era irônica e seca. – Vocês são tão novas. Tem toda uma vida cheia de planos e de sonhos que não devem ser deixados de lado por causa de uma aventura juvenil.
– Desculpe, mas do que a senhora está falando? – meu coração batia tão rápido e alto que eu sentia o pulsar em meus ouvidos.
– Não se faça de desentendida. – me fulminou com os olhos – Você sabe muito bem do que estou falando – balancei a cabeça, discordando – Eu ouvi vocês fazendo planos outro dia. Eu vi você agarrando a minha menina embaixo do meu teto. Embaixo do meu nariz. Você não tem vergonha não?
– Vergonha? Vergonha de que? De amar a Clara?
– Amor? – bufou – Você ainda não sabe o que é isso, querida. – eu podia ver a pena transbordando em seus olhos – E a Clara também não.
– A senhora não pode dizer o que sinto ou deixo de sentir. Eu amo a Clara. Amo. – praticamente soletrei as palavras na sua cara.
– Não, não ama.E sabe como sei disso? – neguei – Porque passei pela mesma coisa que tá acontecendo hoje com vocês.
– Se apaixonou por uma menina? – perguntei atordoada com a revelação.
– Pensei estar apaixonada. – falou um pouco rancorosa – Enfim, passou e eu descobri que era apenas curiosidade adolescente e não posso deixar minha filha passar pela mesma coisa. Não posso deixar a Clara se iludir com essa história. Ela vai se machucar e se arrepender quando der errado.
– Não pode dizer isso. – ela riu sarcasticamente.
– Não? Por favor, Marina. Eu já vi esse filme e conheço o final.
– A Clara me ama assim como a amo.
– Você vai querer estragar a vida dela, e a sua também, por besteira? Por pura teimosia?
– Não é curiosidade! Não é uma coisa passageira! Eu. Amo. A. Sua. Filha. – falei pausadamente para que ela entendesse.
– Não, você não ama. – a pena tinha dado lugar à raiva. Seus olhos castanhos flamejavam de ódio na minha direção. – Só vou dar um aviso, menina. De hoje em diante, eu quero que você fique longe da Clara, entendeu? Longe. – arfei.
– Mas... – senti as lágrimas brotarem em meus olhos, mas eu não lhe dei o gostinho de me ver chorando. – Não posso fazer isso!
– Claro que pode.
– Eu não posso ficar sem ela.
– Que bobagem, garota. – fez um gesto de desdém – Uns dias e tudo ficará bem. Você nem vai mais se lembrar disso.
FLASHBACK OFF
As últimas palavras escorreram pelos meus lábios e pisquei algumas vezes para focar em Clara que tinha uma expressão chocada no rosto, semelhante a minha própria no dia fatídico. A lembrança era tão vívida que não tive dificuldades em relatar.
Eu não queria ter que dizer isso a ela. Contar que a mãe foi a maior causadora de todo o nosso sofrimento seria como quebrar seu coração mais uma vez. Tudo bem que eu tenho uma parcela de culpa por agir por impulso e por medo quando eu deveria ter acreditado em nós duas para mostrar a ela que nosso amor era de verdade. Mas fiquei insegura, suas palavras pesaram em meu coração, e parti.
Se eu não fui capaz de enfrentá-la, como a Clara conseguiria?
Narração por: Clara Fernandes
Não sou capaz de definir o que estava sentindo. Uma explicação da Marina era tudo o que eu queria e descobrir que minha mãe tava envolvida, era como um tapa na cara por ser tão idiota e não ter percebido antes. Suas ações mudaram depois que a Marina foi embora. Ela voltou a ser doce e gentil comigo. Ela me deu suporte após sua partida, ela me ajudou a chegar aonde eu cheguei, esteve comigo em todos os momentos e, nem uma vez sequer, pronunciou o nome dela na minha frente. Viu todo o meu sofrimento e não proferiu uma palavra de desculpa. Foi falsa, vil.
– Isso é... – não encontrei palavras para descrever o que eu tinha acabado de ouvir – Não – soltei um riso – Não consigo acreditar.
– Você não acredita em mim? – a voz baixa e triste da Marina me tirou do estupor que entrei.
– Não. Não, amor. Eu acredito em você. – segurei seu rosto com ambas às mãos, arregalando os olhos quando percebi como a chamei. – Eu não acredito que minha mãe teve a capacidade de fazer uma coisa dessas.
– Você... Você me chamou de amor. – ela gaguejou um pouco desnorteada, ignorando o que falei depois.
– Chamei. – dei-lhe um sorriso tímido.
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