Unbreakable
8 O8: Insuficiente
Notas iniciais
Narração por: Marina Meirelles
FLASHBACK ON
Meus olhos queimavam e minha pele estava quente pela vontade de chorar, mas fui forte e não derramei uma lágrima sequer até chegar em casa. Foi só fechar a porta que elas apareceram. Uma por uma, faziam seu caminho. Com a visão embaçada, bati numa mesinha quase derrubando tudo o que tinha em cima dela.
Meu quarto estava do mesmo jeito que deixei, mas eu gostaria que a única coisa que estivesse bagunçada fosse ele. Procurei o celular e duas malas grandes, pegando um punhado de roupas e jogando-as de qualquer jeito ali dentro. Eu só queria o necessário e o indispensável. Todo o resto eu compraria novo. Não queria levar lembranças daquela cidade, dessa minha vida... Do meu amor. Grandes gotas saiam dos meus olhos quando me lembrei de suas palavras.
Losing you is like living in a world with no air, oh
I'm here alone, didn't wanna leave
My heart won't move, it's incomplete
No air – Glee
Seu olhar era sincero – não tinha como não acreditar. Meu coração palpitava no peito; dolorido, quebrado. Quando o choro passou para um fraco soluço consegui encontrar o número internacional do meu pai. Respirava fundo enquanto ouvia os bips pelo fone, mas não demorou muito para ele atender.
– Pai, aquela viagem ainda está de pé? – perguntei com a voz entrecortada.
– Claro. Quando quiser, filha.
– Pode ser amanhã? – minhas mãos tremiam levemente.
– Sim... – senti a hesitação na sua voz – mas por que tanta pressa? Até ontem você não queria sair do Rio. Está tudo bem?
– Depois eu te explico, pode ser? Tenho que desligar agora para terminar de arrumar minhas malas.
– Você não vai chamar a...
– Não. – o interrompi antes que terminasse a pergunta, mas fui um pouco ríspida – Desculpe.
– Tudo bem. – pude sentir que ele estava ficando preocupado, mas eu não queria falar sobre isso agora. Explicaria tudo quando estivesse bem longe daqui – Quando tempo pretende ficar?
– Para sempre, talvez. – com isso a ligação ficou muda dos dois lados da linha por um tempo até eu me despedir e desligarmos.
FLASHBACK OFF
Narração por: Clara Fernandes
Hesitante, Marina acariciou meu rosto antes de passar seus braços em torno do meu pescoço e ficamos assim, abraçadas em silêncio. E por alguns minutos, permanecemos silenciosas, apenas aproveitando aquele momento. A brisa fresca da noite, que tinha acabado de cair, era agradável. O calor do corpo dela próximo ao meu trouxe-me lembranças boas e felizes de quando éramos menores e não havia essa barreira de mentira, omissões e problema gritante entre nós. Mas, estar ali em seus braços, era quase como estar em casa.
Quanto tempo que eu espero por isso? O quanto desejei senti-la em meus braços novamente? Quanto...
Meus pensamentos foram interrompidos bruscamente pela exploração lenta do seu nariz pequeno e fino no meu pescoço. Fazendo um caminho torturante por toda a extensão da pele exposta, ela inspirou o perfume que emanava dos meus cabelos, antes de jogá-los para trás e deixar um beijo casto na curva do pescoço.
– O que você tá fazendo? – perguntei com um fio de voz.
– É impossível resistir a você. – sussurrou com a voz rouca e um pouco monótona. – Esse seu perfume é incrível, eu não... – falava parecendo estar em outro mundo, como se nada daquilo fosse verdade – Clara... – ela se afastou o suficiente para olhar em meus olhos enquanto suas mãos iam para as maçãs do meu rosto – Estou custando a acreditar que você está, finalmente, aqui. É como se fosse um sonho.
– Eu nunca fui embora. – lembrei.
– Não, você não foi. – seu rosto estava a dois centímetros do meu. Eu podia sentir sua respiração acelerada, assim como a minha, se misturarem e não desviamos o olhar – Eu te amo tanto ao ponto de achar que a expressão “eu te amo” insuficiente diante de tantos sentimentos por ti. Isso é loucura? – balancei a cabeça negativamente. Eu sentia o mesmo.
– Então por que você foi embora? – insisti. – Se você me amasse tanto quanto diz, não...
– Eu não quero te machucar ainda mais. – me interrompeu e fechou os olhos por um momento, respirando fundo antes de voltar a me encarar – Mas também não quero mentir.
– Chega de segredos, Marina. Eu cansei de tudo isso. Cansei de ficar no escuro. Cansei de sofrer. – passei a mão no seu rosto, tirando as mechas do cabelo que teimavam em cair no seu rosto – Você me pediu uma chance, e eu estou te dando. Não haverá outra.
Um pequeno sorriso cresceu em seus lábios avermelhados, junto com um suspiro de alívio.
– Não sei como consegui passar tanto tempo longe de você. – admitiu baixinho, preenchendo o espaço que separava-nos, olhando para minha boca.
– Marina... – tentei falar algo, mas seus dedos que se fecharam em punho no meu cabelo me fez perder a linha de raciocínio. E, inconscientemente, coloquei minhas mãos na sua cintura quando seus lábios macios tocaram os meus. Inclinei a cabeça para o lado, movendo nossas bocas sem pressa, sem línguas.
Mas quando elas se tocaram, foi como se nossos corpos entrassem em combustão instantânea. Marina puxou meu cabelo, pegando meu lábio inferior entre os dentes e puxou, mordiscando levemente antes de chupar e logo aprofundamos o beijo. Enfiei minhas mãos dentro do seu cropped arranhando a pele macia da suas costas e puxando para mais perto.
Quase fundindo nossos corpos.
Quebramos o beijo quando respirar tornou-se impossível, mas não nos afastamos. Encostei minha testa na sua, sentindo nossas respirações aceleradas estabilizar aos poucos. Marina afagou minha bochecha antes de depositar um selinho em meus lábios e me abraçar forte.
– Não quero te perder de novo, Clarinha. – sussurrou com a voz embargada, encaixando o queixo no meu ombro esquerdo. Acariciei seu cabelo.
– Eu senti tanto sua falta. – admiti.
– Marina, você está aí? – o susto foi tanto que acabamos nos afastando como se tivéssemos fazendo algo errado. Estávamos tão envolvidas uma na outra que não percebemos a entrada da ruiva, que estava com cada de poucos amigos.
– O que foi Vanessa? – perguntou um pouco ríspida.
– Nossa – fez cara de ofendida – Só queria avisar que os colegas da Clara estão indo embora e perguntaram se ela iria com eles... – me deu um sorriso irônico.
– Clara – os olhos pidões da Marina quase me fizeram mudar de ideia, mas...
– Desculpe. É melhor eu ir.
– Você volta? – sorri.
– O mais breve possível. Até porque temos que ter aquela conversa.
– Eu sei. – ela passou a mão no cabelo, visivelmente nervosa – Me promete uma coisa? – pediu, pegando minhas mãos, levando-as junto ao seu peito.
– Prometer o que?
– Você não vai fazer nada do que possa se arrepender depois... – respirou fundo – Só posso te contar o que aconteceu se você me prometer de que não fará nada estúpido. Eu sempre tive medo do que poderia acontecer caso você descobrisse, mas... Clara, por favor. Promete pra mim?
– Prometo. – olhei no fundo dos seus olhos – Prometo não fazer nada estúpido. Ou tentarei não fazer.
– Iremos conversar e chegar a uma conclusão juntas. – frisou a ultima palavra, fazendo com que eu entendesse o recado.
– Ok.
– Ótimo. – deu-me um selinho rápido e só então percebi que Vanessa continuava parada ali assistindo tudo.
Qual era seu problema?
Fale com o autor