Unbreakable
7 O7: Intenso
Notas iniciais
Narração por: Clara Fernandes
Não pode ser.
– A Marina? – não consigo acreditar na minha sorte, pensei de forma irônica – Desculpe-me, mas por que ela?
– Você conhece seu trabalho? – assenti – Então sabe que ela tem um tom… Um estilo diferente dos outros fotógrafos e gostaríamos de dar esse novo olhar para a campanha. O cliente insiste que quer a assinatura dela e nada como minha melhor funcionária para me ajudar nessa empreitada. – ainda em choque, consegui dar um sorriso tenso.
Meu dia não podia melhorar mais.
***
Posso dizer que fizemos um ótimo trabalho. O esboço final estava maravilhoso e fomos aplaudidos pelo cliente que amou a ideia. A primeira parte é o ensaio fotográfico. E era essa parte que me deixava nervosa, porque eu teria que acompanhá-lo desde os bastidores à seleção de fotos. Marina já tinha uma ideia do que fazer e, segundo Flávia – uma de suas assistentes, ela estava muito animada.
Algo dentro se mim agitava-se sempre que eu pensava sobre isso. Passar horas e horas ao lado dela parecia uma deliciosa tortura, mas meu chefe confiava em mim e eu queria atingir suas expectativas. Não pode ser tão difícil assim, não é mesmo?
Memorizei um mantra para me acalmar no caminho até seu estúdio. Minhas mãos suavam de ansiedade, então fiz meu melhor para parecer tranquila e tentar interagir com meus colegas que também estavam no carro, conversando despreocupadamente.
Mais rápido do que imaginei, chegamos ao nosso destino, onde a vasta grama verde nos deu boas-vindas assim como as duas mulheres que já esperavam por nós.
– Olá, sejam muito bem-vindos. – a ruiva falou, simpática – Sou a Vanessa, e essa é a Gisele, assistentes da Marina. – cumprimentamos com beijinho no rosto e outros com um aperto de mãos e sorrisos. Meu coração batia descompassado – Bom, entrem e sintam-se à vontade. As modelos chegaram quase agora também e estão se preparando.
Após os minutos iniciais de timidez, o pessoal já explorava a casa, admirando-a. Do lado de fora, podíamos ver muitas árvores – grandes e pequenas –, uma piscina enorme no centro com descansos, cadeiras e alguns guarda-sol ao seu redor. A visão era inspiradora. Dentro da casa era um clima totalmente diferente. Um contraste entre o natural e o moderno, despojado e eclético.
E lá estava ela com seus costumeiros óculos Geek Glasses, o batom vermelho se destacava na pele alva e usava um cropped mostrando a barriga lisa com uma saia longa e saltos. Eu senti como se fosse desfalecer a qualquer momento.
– Marina, eles chegaram. – Vanessa anunciou nossa presença e ela levantou os olhos para nós com um sorriso tímido e o vi aumentar consideravelmente quando seus olhos pousaram em mim – Ué, cadê as modelos?
– Elas estão terminando de se arrumar – sua voz baixa e sedutora penetrou meus ouvidos, causando-me arrepios involuntários, e eu a encarei de volta retribuindo na mesma intensidade – Mas já pedi para a Flavinha chamá-las. Oi, gente. – ela soltou as lentes da câmera e andou até onde estávamos e cumprimentou a todos do mesmo jeito que a Vanessa e a Gisele.
Quando chegou a minha vez, ela parou tão perto de mim que eu podia sentir o calor do seu corpo. Eu tinha certeza de que a atenção de todos estava em nós duas e também vi que a Vanessa franziu a testa, um pouco confusa, mas não tive tempo para pensar sobre isso. Arregalei os olhos quando seus lábios tocaram a pele da minha bochecha e corei com o pensamento de que ela beijaria minha boca.
Estúpida, Clara. Você é estúpida.
– Olá Clarinha. – ela mantinha o sorriso, mas agora parecia satisfeita com o que tinha feito. Sussurrei um tímido “oi” e ela se afastou, voltando a falar com todos como se nada tivesse acontecido.
Pelo canto do olho vi Sophie se aproximando de mim.
– Uau. – piscou levemente confusa, como se saísse de um transe – Nossa, até esquentou aqui – falou baixinho, só para que eu ouvisse, e me cutucou com o cotovelo – Não sabia que você conhecia a fotógrafa, Clara. Muito menos que era tão íntima assim – sorriu malicioso, rolei os olhos para ela.
– Não sabe por que eu não sou. – ela passou o braço no meu pescoço, e eu notei que Marina a fulminou com os olhos. Hmm, interessante. Abracei a cintura de Sophie, ladeando nossos corpos.
– Vai por mim, não foi o que pareceu. – tenho certeza de que sua vontade era de dar uma enorme gargalhada da minha situação, mas sua expressão tornou-se séria de repente – Olha, não sei o que você tem com a fotógrafa ou o que acabou de acontecer aqui, mas aquela ruiva de cara azeda está te encarando com tanta raiva que tô até com medo. – foi minha vez de rir e isso chamou a atenção de Marina para nós duas novamente e eu senti meu estômago cheio de borboletas quando nossos olhos fizeram contato.
– Vanessa, chama as meninas. Por que elas estão demorando tanto? – Marina reclamou, sem desviar os olhos de mim. A ruiva bufou e saiu. – Desculpa gente. Isso aqui está uma correria. – ela passou a mão no cabelo – Ah, eu já ia esquecendo. Eu vou precisar da ajuda de vocês.
– Em que, exatamente? – Paulo perguntou já se animando por participar de verdade.
– Bom, nós vamos usar e abusar das cores. – ela apontou para o canto onde tinha várias latas de tintas e pincéis – Quero trazer a beleza dessas mulheres de diferentes cores de pele, em contraste com as tintas que jorram e se misturam aos corpos, formando verdadeiras obras de arte. – terminou, nos olhando com expectativa.
– Muito legal isso. Eu adorei. Como podemos ajudar? – Sophie se prontificou, estufando o peito com a coluna ereta, como se fosse um soldado. Eu ri.
– Vamos fazer um jogo de luzes para intensificar certos ângulos e também moderar em outros. E eu preciso de vocês jogando as tintas, com delicadeza para não machucar as modelos, claro.
Nesse momento, Vanessa, Flávia e duas outras mulheres surgiram na porta do estúdio e foi o maior auê até todos estarem em seus lugares, prontos para começar. As modelos usavam um vestido branco de seda, o cabelo preso e a maquiagem leve. Ambas seguravam um pequeno buquê de flores, sentadas eretas no banco vermelho. E então Marina deu o primeiro flash da tarde.
***
As fotos ficaram perfeitas, o estúdio estava uma completa bagunça com tintas para todo lado e as modelos pareciam uma aquarela. Mas estávamos felizes por essa parte do trabalho ter sido cumprida com sucesso. Flávia pegou uma garrafa de champanhe e brindamos, começando várias conversas aleatórias pela sala.
Quase uma hora depois, o pessoal dançava de acordo com o ritmo da música que a Vanessa colocou logo após a segunda garrafa de champanhe. Eu me mexia num canto afastado com uma taça na mão, olhando eles se divertirem e rindo de alguns movimentos estranhos.
– Oi. – meu corpo ficou tenso no segundo em que ouvi sua voz.
– Oi.
Marina ficou de frente pra mim, olhando para as próprias mãos sem falar nada. Expirei, soltando todo o ar dos meus pulmões, e ela olhou pra mim.
– Podemos conversar? – pediu e eu fiz um gesto mostrando que já estávamos conversando. – Em particular.
– Certo. – concordei a contragosto, mas curiosa sobre o que ela queria falar, então quando Marina saiu do estúdio, eu a acompanhei.
Acabamos por sentar numa das cadeiras acolchoadas que tinha ali perto da piscina que, olhando para o horizonte, podíamos ver o pôr-do-sol já no fim dando lugar a um céu estrelado.
– Você tem algo com aquela Sophie? – sua pergunta indiscreta quebrou a quietude da noite que estava chegando.
– Não...
– Hmm. – olhou para frente, com os lábios franzidos.
– Por quê?
– Nada, só que vocês pareciam... Bem íntimas. – disse a última palavra com certa dificuldade – Só... Isso não é da minha conta. – deu de ombros, balançando um pouco a cabeça como se expulsasse alguns pensamentos – Como você está?
– Estou bem, e você?
– Vivendo um dia de cada vez. – sua reposta trouxe um silêncio desconfortável entre a gente de novo. Parecia que não tínhamos um passado juntas. Estranhas, tímidas e sem assunto.
– O que você queria falar comigo? – perguntei direta – Acho que não precisava vir até aqui só pra perguntar se estou bem.
– Não, não, você está certa. – ela passou a mão no cabelo e respirou fundo – Eu te chamei aqui para te pedir desculpas.
– Pelo o quê, exatamente?
– Por tudo, Clarinha. Olha como ficamos uma perto da outra. Parecemos duas completas estranhas. – ela lê pensamentos? – E a culpa é minha. Eu errei por ter ido embora sem te dar explicações. Fui fraca, tive medo, não confiei no nosso amor. Não era pra ter acontecido isso. Não assim, não com você tão ferida. Mas eu posso tentar, não posso? Fazer certo dessa vez.
– Não sei se estou conseguindo te acompanhar, Marina. – falei meio confusa, pois desde o dia da exposição que ela falava nas entrelinhas, sem dar maiores explicações.
– Eu quero uma chance, Clara. Apenas uma chance. – seus olhos brilhavam de tanta convicção. Sua voz era macia e suave como pluma, mas também determinada. E esse seu cheiro me inebriava como nenhum outro. Ela sabia do efeito que me causava – por isso todas as provocações. Na verdade, Marina sabe do que eu gosto, sabe o que me atrai, sabe o que me seduz.
Nossa bolha particular parecia diminuir a cada segundo que passava, fazendo nossos corpos se atraírem como imãs opostos. Um chamando o outro.
Marina encarava meus lábios de forma despudorada, lambendo o seu próprio de maneira sexy, trazendo-me arrepios na coluna.
– Você pensou? – sua voz penetrou minha consciência sem permissão. Pensei em que?
– O quê? – pisquei atordoada.
– Você vai me dar uma chance, Clara? – ela estava mais perto. Eu podia sentir, mas não consegui me afastar. Ou não quis.
– Sim. – consegui responder – Você me deve isso.
– Eu só não quis te machucar ainda mais. Eu não podia contar. – uma lágrima solitária correu pelo seu rosto e eu quis obrigá-la a sair dali. Era uma intrusa. Não pertencia aquele rosto.
– Eu preciso saber. Tenho o direito, porque você não sabe o que eu pensei, não sabe como eu fiquei quando você foi embora. Eu fui destruída, Marina.
I never hit so hard in love
All I wanted was to break your walls
All you ever did was break me
Yeah you, you wreck me
Wrecking ball – Miley Cyrus
– Eu sinto muito, meu amor. – meu coração palpitava no peito como um passarinho preso na gaiola lutando para se libertar – Sinto muito, muito mesmo.
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