Unbreakable
6 O6: Imprevisível
Notas iniciais
Narração por: Clara Fernandes
Cheguei tão exausta em casa ontem que mal tive coragem de tirar a roupa e banhar antes de dormir. A luz que entrava pelas cortinas da janela aberta incomodava meus olhos e amaldiçoei-me por ter esquecido de fechar. Virei de bruços na cama e tentei voltar a dormir, porém meu despertador tinha outros planos e resolveu tocar bem àquela hora. Maldito timing perfeito.
Estiquei-me para desligá-lo e senti minha cabeça latejando forte – não sei se pelo barulho irritante do despertador, pelo excesso de bebida na festa ou as palavras dela que pareciam um disco com defeito, repetindo incessantemente.
Lembrar da noite anterior fazia-me pensar na Marina e o quão linda ela estava, em como eu queria beijá-la, a minha raiva e ressentimento também voltara com tudo. E todos esses sentimentos conflitantes em relação a ela me deixavam um pouco irritadiça. Eu já deveria está muito bem resolvida, mas não. Era tudo um enigma. Uma confusão sem fim que eu não conseguia resolver.
– Bom dia, flor do dia. – a voz de Cadu invadiu meu quarto, assim como ele.
– Bom dia. – sorri, me espreguiçando e sentando na cama.
– Festa boa, hein? Nem vi a hora que você chegou. – provocou.
– Oh, ótima. – ironizei – Deveria ter enchido a cara ou nem ido. Apesar de que estou com uma dor de cabeça terrível.
– Exagerou nos coquetéis, Clarinha?
– Champanhe mesmo. Pega o remédio pra mim enquanto todo banho? Já estou atrasada.
– Pego, mas antes me conta. Como foi? – ele não tava se aguentando de curiosidade e eu sorri um pouco mais.
– A exposição é maravilhosa, nunca tinha visto nada igual.
– Não estou falando da exposição, Clara – me fuzilou com os olhos.
– Não? – me fiz de desentendida.
– Não e você sabe muito bem. – não falei nada, apenas arqueei a sobrancelha em sua direção esperando suas perguntas, ele bufou – Vocês conversaram?
– Não são todos que tem o privilégio de bater um papo com o artista, você sabe.
– Clara!
– Ok – fiz um sinal de rendição com as mãos – Tivemos uma breve conversa, sim.
– O que ela disse?
– Foi tudo bem estranho. – comentei – Ela está muito mais linda do que antigamente, Cadu, você tem que ver. Marina ainda tem aquela áurea de sedução natural que faz qualquer uma sentir-se seduzida com uma mera troca de olhares.
– Calma aí. – me interrompeu – Do que você tá falando?
– Ainda bem que não a encarei por tanto tempo. – ri da minha própria piadinha sem graça, ele rolou os olhos para mim.
– Ela disse que me ama. – respirei fundo – disse que vai lutar por mim e, meu Deus, eu não sei o que fazer. – toda a emoção da noite estava voltando e eu não queria pensar nisso agora.
– Jesus! Como ela volta depois de anos e diz uma coisa dessas logo de cara?
– Não foi bem assim, mas resumindo: encontramo-nos, ela ficou falando sem parar e eu não consegui responder, porém eu tava de costas e ela não me reconheceu, criei coragem e a respondi. Seu choque inicial foi agradável, ela, realmente, não esperava que fosse eu ali. Então ela me pediu desculpas várias vezes e eu não consegui deixar os ressentimentos de lado, mas ela disse que iria conquistar minha confiança de volta e a mim. E pediu uma chance para conversarmos. – Cadu estava de boca aberta.
– Nossa. – dei um riso forçado.
– Pois é.
– E como você está? – o olhar “Cadu preocupado com a Clara” tinha voltado.
– Não sei. Quer dizer, eu sei, mas não consigo sentir uma coisa só. Uma hora tenho raiva, outra sinto saudades, na próxima quero batê-la… – rimos.
– Eu sei como é isso. Também sinto falta dela, de nós três juntos e espero que ela faça as coisas certas agora. E, Clara, uma hora você vai saber o que fazer. Não se preocupe porque logo essa confusão vai passar. Tome a melhor decisão para você e sua felicidade, tá bom? – assenti, abraçando-o já um pouco chorosa. Cadu sempre tinha as palavras certas para me dizer.
***
O dia começou cheio e com boas novidades. Em alguns minutos começaria a reunião que designaria para cada funcionário suas respectivas funções para a nova campanha de lingerie que tínhamos conseguido. O tráfego intenso de pessoas nos corredores da agência e toda aquela agitação de mais um novo e grande trabalho era quase como estar em casa. Eu adorava fazer parte disso que, de certa forma, estava ligado à fotografia e toda sua criação.
Eu sentia-me confiante e feliz porque, com essa nova campanha, eu tinha outras coisas para pensar que não fosse na Marina. Minha mente e meu corpo seriam completamente inundados por ideias para a elaboração desse novo projeto. Sim, talvez eu fosse um pouco viciada em trabalho.
– Clara, o chefe está te chamando na sala dele. – olhei preocupada para Joseph que sorrio levemente – Acho que você não está encrencada, mas vá lá o mais rápido possível.
– Ok, obrigada. – sorri, agradecida e arrumei minha mesa antes de levantar e ir encarar a fera. Não que ele fosse rude ou aqueles chefes insuportáveis, era até bem simpático e paciente com a gente.
Bati na porta de madeira duas vezes e esperei.
– Ah, oi Clara, entre. Estava mesmo querendo falar com você. – dei-lhe um sorriso e sentei na cadeira que ele me indicou.
– Eu imagino que queira falar sobre a nova campanha. – comecei, já que ele não voltou a falar.
– Sim, sim. – ele abriu o botão do meio do terno e sentou-se confortavelmente na sua poltrona. – Eu quis te deixar a par da situação antes da reunião.
– Por quê? Aconteceu alguma coisa? – perguntei, voltando a ficar preocupada.
– Não, não é nada preocupante. Só algumas exigências do cliente, como sempre. – rimos.
– Então, o que ele quer? – me arrependi por não ter trazido um bloco para anotar.
– Uma fotógrafa em especial. Quer que as fotos da campanha tenham sua assinatura.
– Oh, e ela é difícil de conseguir? – ele estava relaxado, então quer dizer que não seria assim tão complicado.
– Não, graças a Deus, não. – soltei a respiração que não sabia que estava prendendo – Na verdade, eu acabei de confirmar tudo com sua assistente agora a pouco.
– E quem é? – a curiosidade estava me matando.
– Marina Meirelles. – acho que acabei de morrer. Eu iria trabalhar com ela.
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