Unbreakable
5 O5: Incerteza
Notas iniciais
Narração por: Clara Fernandes
– Eu te amo Clara e não vou desistir de você mais uma vez. – não respondi. Estagnei com a mão na maçaneta da porta por uns segundos absorvendo a nova informação. Eu ouvi direito? Ela ia lutar por mim? Percebendo minha hesitação, ela continuou – Podemos conversar? Não aqui nem agora, se você não quiser. Só me dê uma chance.
– Te manterei informada. – por fim, e com muita determinação, fechei a porta atrás de mim, caminhando até a escadaria, sentindo minhas pernas um pouco moles. Desci rapidamente e encontrei a saída antes que o impacto de suas palavras tivesse efeito sobre mim.
Eu queria conversar, claro. Colocar tudo em pratos limpos, saber o que diabos aconteceu e porque ela foi embora. Tentei encontrar a resposta para minhas perguntas por anos. Inventei as desculpas mais aceitáveis, fingia que estávamos tendo essa conversa e tudo se resolveria como num passe de mágica. Mas a realidade é dura e dolorosa. Eu não tinha respostas e nem ela. Até hoje.
Aquele momento na varanda foi apenas um esquenta do que esta por vir. Marina foi bem clara ao dizer que iria reconquistar minha confiança e que não desistiria de mim de novo. De novo... Suas palavras eram estranhas. Ela esperava que eu entendesse pelas entrelinhas. Seus enigmas e segredos.
Não consigo lidar com isso. Não sei por que não a deixei se explicar ali mesmo. Estou pronta para saber da verdade? Eu quero, realmente, saber o que aconteceu? Eu a quero de volta?
Fechei os olhos por um momento. Meu orgulho diz não. Meu coração diz sim.
Ela me ama. Eu a amo.
Coloquei a mão no peito, sentindo-o bater forte com essa nova certeza. Marina tem razão. Pertencemos uma a outra.
FLASHBACK ON
Com o olhar desfocado, encarei o céu azul. Eu ainda podia ouvir tudo ao meu redor, desde sua respiração cadenciada ao canto dos pássaros no alto das árvores. Seu perfume era uma mistura de lavanda e cheiro de bebê. Inspirei fundo, inebriando-me.
– Clarinha – Marina sussurrou de olhos fechados.
– Sim? – olhei-a, virando de lado e ela repetiu meu gesto.
– Posso te contar um segredo? – assenti e ela pegou minha mão esquerda e entrelaçou nossos dedos, beijando-os. Soltou um suspiro e, depois de um tempo, voltou a falar – Eu não sei como fazer isso.
– É tão sério assim? – me olhou – Pode falar qualquer coisa pra mim. Você sabe que vou estar sempre do seu lado. – apertei nossas mãos e sorri para enfatizar minhas palavras.
– Nossa, que complicado. – ela riu sem humor – Não imaginei que seria assim quando eu resolvesse falar.
– Você está me deixando curiosa e preocupada.
– Clara, eu não sei como fazer isso de uma forma mais delicada e... – parou.
– Fala Marina, pelo amor de Deus. – ela levantou, andando um pouco pra longe de onde estávamos e eu sentei, esperando.
Observei-a andar de um lado para o outro algumas vezes, passar a mão no cabelo compulsivamente e morder os lábios. Então ela voltou, ajoelhando-se na minha frente. Dei-lhe um sorriso de encorajamento, mas não imaginei o que ela fosse fazer a seguir.
Marina colocou a palma de suas mãos na minha bochecha fazendo um carinho delicado e aproximou nossos rostos, olhando-me nos olhos. Minha boca ficou seca de repente e o coração batia tão rápido que pensei que iria saltar do peito. Sua respiração acelerada batia na minha pele ligeiramente quente. Não havia palavras suficientes para descrever aquilo. Eu sabia que ela iria me beijar, mas a sensação de saber e sentir eram completamente diferentes.
“And your eyes looked like coming home
All I know is a simple name and everything has changed
You’ll be mine and I’ll be yours
All I know since yesterday is everything has changed”
Everything has changed – Ed Sheeran feat Taylor Swift
Fechamos os olhos ao mesmo tempo em que nossos lábios se tocaram, um leve encostar de peles. Pequenos choques elétricos percorreram todo meu corpo quando toquei seu braço e Marina escorregou uma mão para meus cabelos soltos, enroscando seus dedos nos fios, puxando-os devagar.
Soltei um suspiro quando ela passou a língua vagarosamente no meu lábio inferior fazendo-me abri-los um pouco dando espaço para penetrar sua língua na minha boca. Gememos com o novo contato e surgiu uma vontade descontrolada de mais. As mãos estavam em todos os lugares e nossas bocas devoravam-se. Apertando, sentindo e tendo aquilo que desejávamos secretamente.
Encontramo-nos deitadas na grama, com ela em cima de mim, finalizando o beijo com vários selinhos. No final, sorrimos um pouco envergonhadas.
– Quer falar sobre isso? – perguntei baixinho com medo de estragar o momento.
– Preferi mostrar. Não sou muito boa com palavras. – deu um sorriso torto.
– Eu sei. Mas eu quero que fale também.
– Clarinha, Clarinha – seus olhos também sorriam. Ela estava feliz como nunca antes. – Faz um tempo que percebi que meus sentimentos por você mudaram. Claro que na época eu não entendia muito bem...
– Faz muito tempo? – interrompi.
– Alguns meses. – Marina pegou meu cabelo entre os dedos, fazendo cachos que logo desmanchava – Eu não consigo te esquecer um minuto sequer. Fico me perguntando o que você está fazendo, o que tá pensando, o que você precisa e estou sempre pronta pra te ajudar no que for... Eu necessito da sua presença. Quero estar com você o máximo de tempo que eu puder. E, isso, não é apenas amizade. Não é simplesmente um amor de amiga. – acariciei seu rosto, pensando em tudo o que ela disse e conclui que era verdade. Há um tempo, nossa amizade tomou outro patamar. É bem mais do que isso, só não sabíamos o que. Agora sim. – Eu te amo Clara. Te amo de um jeito que pensei que fosse capaz de amar alguém.
Aconteceu naturalmente. Não foi forçado, não corri atrás, não pedi. Só... Aconteceu.
FLASHBACK OFF
Mas será que todo nosso amor é capaz de enfrentar o medo e desconfiança?
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