Unbreakable
4 O4: Inexplicável
Notas iniciais
Narração por: Clara Fernandes
– Oh, desculpe-me, – fiquei estática ao ouvi aquela voz. Oh, não. – eu não queria te assustar. Não imaginei que teria alguém aqui. – ela falava baixo, suave... Quase sensual. Não consegui formar palavras, apenas dei de ombros, fingindo não me importar em dividir aquele espaço com ela. Mas eu me importo, e muito. – Tudo bem se eu ficar um pouco? – assenti, segurando forte a barra do para-peito. Vá embora, por favor. Meu coração batia descompassado. Tão forte que eu mal conseguia ouvir o vento assobiando em meus ouvidos.
Ela continuou, sem qualquer noção do efeito que sua presença tinha em mim:
– Eu amo toda essa atenção, sabe? Os elogios, o glamour das festas, as bebidas, pessoas admirando minhas obras, – seu tom era sonhador, do mesmo jeitinho que eu lembrava quando ela falava do seu sucesso iminente quando éramos jovens, mesmo que ela sequer tivesse feito o curso de fotografia ainda – mas é muito esgotante. Então, eu preciso fugir nem que seja por alguns minutos e ter um tempo só pra mim, para respirar um pouco antes de voltar lá e sorri para todos como se o cansaço físico e mental fosse inexistente – ela deve ter mexido no cabelo, porque o vento estava fazendo o inverso e seu cheiro me atingiu com força. Minha cabeça rodou com seu perfume doce e gostoso. Eu quero sentir mais. – Não estou reclamando, eu escolhi isso pra mim. Como disse, eu amo. – ela suspirou e parou por uns minutos, acho que esperando que eu falasse alguma coisa. Seria educado responder, mas eu não encontrava minha voz... Esqueci como se fala? Vamos Clara, ela não vai te morder. Contei mentalmente até três, porém, ela voltou a falar, entendendo meu silêncio errado, ou certo, não sei. Meu Deus! – Desculpe, novamente. Eu estou monopolizando sua noite.
Marina ficou tão quieta que eu imaginei que ela tivesse saído da varanda. Entretanto, eu podia sentir sua presença, ali, com seu corpo a poucos metros do meu. Uma respiração profunda e pude sentir seu cheiro me embriagando; sorri. Eu era uma maldita masoquista.
– Você... – minha voz falhou miseravelmente e eu quis me dar uns tapas por isso. Limpei a garganta e tentei mais uma vez. – Você é boa no que faz. – me virei para olhá-la nos olhos. – Sempre foi, Marina.
Pude ter o prazer de ver sua expressão desmoronar quando ela percebeu quem estava diante dela; ouvi seu arquejo, vi o passinho que deu para trás– em choque, suas mãos tremiam.
– Cl-Clar-a...? – ela passou a mão no cabelo soltando um suspiro.
Dei-lhe um sorriso triste, saudoso, ressentido. Tudo o que eu mais queria era ser capaz de ignorar toda a dor que sentia pelo seu abandono e poder correr para seus braços naquele momento.
– Clara... – meu nome brincou em seus lábios carnudos. Ela sorria bobamente, ainda não acreditando que estava me vendo. Eu não fui capaz de pronunciar uma palavra. – Você... Oh, meu Deus. Clarinha, eu sinto tanto... – aquilo foi o estopim. Senti meus olhos cheios de lágrimas e algumas escorreram pelo rosto.
– Não... – limpei o rosto – Eu preciso ir.
– Por favor, fica. Eu tenho tanta coisa pra falar. – olhei em seus olhos brilhantes. – Por favor.
– Eu não sei o que ainda estou fazendo aqui. Não era nem pra eu ter vindo. – falei mais pra mim do que pra ela.
– Fico feliz que tenha vindo. – balancei a cabeça. – É verdade. Já tinha perdido as esperanças... Não te vi em lugar algum, apesar do Ricardo ter confirmado que você estava aqui. Eu... – ela se aproximou – Clara, eu... – mordeu o lábio – Eu sinto muito. Você não tem ideia do quanto eu me arrependo de ter ido embora.
– Mas você foi. E não voltou!
– Estou aqui agora.
– Não acredito que você está falando isso. – ri sem humor – Você, Marina, tem noção de quanto tempo passou? Quantos anos que você me deixou aqui sem qualquer explicação? Sabe o quanto isso me machucou?
– Eu...
– Não, você não sabe. – falei cortando-a rudemente.
– Foi tudo tão rápido, Clara. Não consegui falar pra você. Não queria te machucar mais ainda.
– Sempre fomos sincera uma com a outra, sempre contamos tudo... Você quebrou nosso vinculo. Você me abandonou. – com a respiração ofegante, me afastei dela que estava cada vez mais próxima. – Eu tenho que ir.
– Clarinha...
– Não me chame assim! – ela soluçou.
– Eu nunca te esqueci. – uma chama encheu meu peito de esperança, mas eu não ia deixar ela me iludir mais uma vez. – Nunca me permiti te esquecer, Clara. Sabe por quê?
– Não... – ela não me deixou terminar e continuou.
– Não importam quantas tentativas eu tenha feito, nenhuma era você. Você sempre foi minha e eu sempre fui sua. Porque eu te amo e sempre vou amar.
– Mentira. – não vou acreditar. Não vou.
– Você sabe que não estou mentindo. Você sabe...
“Give me a little time
Leave me alone a little while
Maybe it’s not too late
Not today, today, today, today, today”
Tomorrow – Avril Lavigne
– Eu preciso de um tempo. Não consigo lidar com isso agora. – olhei em seus olhos manchados de lágrimas – Eu não confio mais em você.
– Sinto muito. – ela olhou pra suas mãos e depois voltou a olhar pra mim com convicção – Eu vou conquistar sua confiança de novo. Faço qualquer coisa.
– Pra você ir embora de novo? – ironizei.
– Eu não vou embora. Nunca mais.
– Já ouvi isso antes... – suspirei, andando até a porta e parei quando ouvi sua voz, mas continuei de costas para ela.
– Eu te amo Clara e não vou desistir você mais uma vez. – não respondi.
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