Unbreakable
3 O3: Inevitável
Notas iniciais
Narração por: Clara Fernandes
O peso do relicário se fazia presente no meu corpo. Mesmo não tocando ou vendo, eu sentia. Era uma presença constante. Quando não o usava, eu sabia que continuava ali. Uma lembrança boa em meio a outras dolorosas. Como eu estava menos histérica, criei forças para levantar e dar um jeito na casa. Em pouco tempo Cadu chegaria e não podia me encontrar no estado em que eu apresentava ou com aqueles vidros espalhados na sala. Não queria falar com ele sobre isso. Não agora.
Peguei a vassoura e juntei todos os cacos com cuidado, jogando no lixo. Dei uma geral em todo o apartamento, pondo as coisas em seu devido lugar. Menos meus pensamentos e o coração. Desses dois eu já havia desistido, não tinham mais jeito.
***
Era cedo quando Helena ligou pra mim perguntando se eu ainda queria o folheto. Hesitei em responder. Eu queria reviver tudo àquilo de novo? Ir atrás? Procurar entender? Eu, realmente, precisava disso? Já não tinha vivido por anos sem ela, caramba! Poderia ignorar sua presença, mas... Não por muito tempo, uma voz falou na minha cabeça. É verdade, tampouco. Marina não é e nunca foi o tipo de mulher que você pode, simplesmente, ignorar.
Com um fraco “sim”, eu respondi a minha irmã.
– Você está bem mesmo, Clara? – Helena demonstrava preocupação em sua voz.
– Estou sim.
– Quer vir aqui pra gente conversar? Só vou mais tarde para casa de leilão. – insistiu.
– Como você mesmo disse, tenho que estar preparada pra volta dela. Vai ser impossível não sentir... Aquilo. Você sabe. – ela resmungou algo que não entendi – E eu tenho que fazer isso sozinha, Leninha.
– Eu sei, mas é que dói tanto te ver sofrendo assim! Não era pra ser desse jeito. Vocês eram... – interrompi antes de ela completar a frase.
– Éramos Helena. Ela foi embora! – exasperei-me.
– Tudo bem, Clara. Mas eu ainda tenho esperanças de que ela teve boas razões para isso.
– Você é a única, então. – falei baixinho.
– Não minta para mim nem para si mesmo.
– Não estou mentindo. – eu estava, mas não iria admitir.
– Você é melhor que isso, Clara. – ela suspirou.
Não respondi e quando o silencio nas duas linhas tava ficando constrangedor, ela disse que viria aqui mais tarde. Despedimos-nos e desliguei, batendo no colchão com raiva.
– O que ele fez pra te deixar assim?
– Caramba, que susto, Cadu. – coloquei a mão no peito com o coração acelerado – Ele quem?
– O colchão. – respondeu, me zoando.
– Muito engraçado. Estou morrendo ri. – o fulminei com os olhos, ele riu.
– Quer falar sobre isso? – eu queria?
– Primeiro, eu preciso de um abraço e muito carinho. – ele riu, subiu na cama, me abraçou forte e beijou meu cabelo. Aconcheguei-me mais em seu peito.
Cadu é o meu único amigo de infância que trago até hoje. Depois que terminou a faculdade, precisou de um lugar pra ficar e eu ofereci meu apartamento e já dividíamos há cinco anos. Rolou uma coisa entre nós por um tempo, não deu certo, mas continuamos a amizade. Só ele e a Helena sabem do meu namoro fracassado com a Marina e tive o apoio dos dois durante os anos mais difíceis da minha vida. E eu não poderia ser mais grata a ele por tudo o que fez e o que faz por mim.
– Por que você tá usando o relicário, Clara? – sua pergunta me pegou desprevenida. Afastei-me, olhando pra longe.
– Eu me esqueci de tirar. – notei que tenho mentido muito nos últimos dias.
– Então, quer dizer que você o usa quando está sozinha em casa?
– Não! Claro que não. Que absurdo.
– Não é o que tá parecendo. – cruzou os braços, levantando da cama. Sua postura era intimidante.
– Foi… – fechei os olhos pensando na melhor maneira de explicar isso – Foi um momento de fraqueza.
– Momento de fraqueza? – repetiu rindo, incrédulo – Você tá de brincadeira. – balançou a cabeça – Clara, já faz dez anos! Foram aceitáveis no começo, uns dois anos depois, três, até. Mas dez? Esse “momento de fraqueza” passou da data de validade.
– Por que você está sendo assim comigo? – olhei pra ele, cabisbaixa.
– Assim como? Sincero?
– Grosso e rude. – fez cara de ofendido.
– Incrível! – se irritou – Estou sendo rude? Tá bom.
– Não vamos brigar. Por favor, Cadu. – inconscientemente, toquei o colar e seus olhos caíram para onde minha mão estava. Mordi o lábio. – Aconteceu uma coisa… – ele esperou quieto. – Helena me contou que ela – apontei pro relicário – está voltando pro Rio. – contei baixinho, sem olhá-lo, mas seu silêncio me fez levantar a cabeça após uns minutos. – Fala alguma coisa. – sussurrei tão baixo que não tenho certeza de que ele ouviu.
– Quando? – falou.
– Eu não sei. – dei de ombros – Logo, imagino.
– O que ela vem fazer aqui? E por que agora?
– Não sei te responder nada disso. – soltei a respiração que não percebi que estava segurando. – A única coisa que sei, é que ela fará uma grande exposição.
– Ah! – ele parecia esperançoso, até sorriu um pouco – Pode ser que ela fique só pelo tempo da exposição e suma novamente. – não consegui definir meus sentimentos quanto a essa ideia. – Você não corre o risco de encontrá-la.
– Helena acha que ela vem de vez. – ele assobiou.
– Aí, já complica. Por que ela acha isso? – pus minhas mãos no meu colo.
– Bem, ela ouviu comentários acerca da vinda da Marina, e ela vir pra morar é uma delas. – olhei suplicante para ele – O que eu faço?
– Nada? – sugeriu.
– Cadu!
– Tô falando sério. Você não tem que se envolver com ela e aquele mundinho. Mantêm-se afastada e tudo ficará bem. – ele me abraçou.
– Você acha? – falei meio abafado contra sua camisa – Pareço aquela Clara de novo, não é?
– Parece mesmo. Mas, olha – se afastou para pegar meu rosto em suas mãos – Vai ficar tudo bem, ok? Vou estar aqui pra te proteger, como sempre fiz. Ai da Marina se ela chegar perto. – eu ri.
– Não vamos ser radicais. E, obrigada. – ele sorriu, deixando um beijo na minha testa antes de voltar a me abraçar.
Nesse momento, eu me senti renovada e protegida contra o Furacão Marina.
***
A exposição começaria em poucas horas e eu ainda não tinha decidido se iria. Ricardo, namorado da minha mãe e também primo da Marina, disse que nós somos seus convidados de honra. E depois de uma acalorada discussão interna, eu resolvi pesar os prós e os contras sobre a minha ida.
Prós:
1- Eu amo fotografia (sempre fomos apaixonadas, só que ela seguiu carreira e eu não).
2- O trabalho “dela” é incrível (eu já tinha visto alguns; isso soa meio stalker?).
3- Minha família toda vai estar lá (o que me acalentava).
Contra:
1- Ela também (eu tremia só de pensar).
Droga!
Helena disse que era bom eu ir e enfrentar, de uma vez, os fantasmas do passado. Ou a fantasma. Mas o problema todo é que eu não estou pronta para essa batalha. Não ainda. Porque… Sim, eu tinha esperanças. Sim, sonhava com o dia que ela voltaria, explicando-se, nos beijaríamos e viveríamos felizes para sempre.
Só que ela não voltou.
***
Fazia pouco mais de trinta minutos que a Família Fernandes tinha chegado à exposição. Enormes telas em preto e branco nos davam boas-vindas, lindas mulheres nuas em diversas posições não-sexual, mas com um “quê” de sensualidade, eram vistas. Eu admirava cada foto exposta, imaginando aquela menina pela qual eu era apaixonada, cheia de sonhos e planos que foram realizados – isso tudo é a prova viva – fotografando-as.
Uma salva de palmas foi ouvida e levantei a cabeça em uníssono com as centenas de pessoas espalhadas pelo salão. No topo da escada, eu podia ver quatro mulheres; três morenas e uma ruiva. O ar parecia ter sido sugado de meus pulmões e ficou difícil respirar quando reconheci a morena de pele alva e um longo vestido branco que estava no centro.
Fechei os olhos por um momento, tentando recuperar o pouco de juízo que ainda me restava, perguntando-me o que diabos eu estava fazendo ali. Voltei a abri-los a tempo de vê-la descendo o resto da escada com graciosidade e as outras logo atrás. Marina posou para os fotógrafos mantendo um sorriso nos lábios vermelhos até que deu uma voltinha e sorriu para as câmeras que a devoraram. Meu coração só faltou saltar do peito. Ela está maravilhosa. Linda de verdade. Sempre foi e agora está muito mais.
Eu continuava paralisada no meu canto, meio escondido, não tendo certeza de que ela me reconheceria ou se eu queria que ela me reconhecesse. Bati-me mentalmente por ser estúpida e ficar pensando essas coisas, tinha prometido a mim mesmo! Eu não iria me aproximar. Não mesmo.
Contei até dez antes de dar uns passos para trás, passando os olhos na multidão à procura de qualquer parente meu, mas todos tinham sumido naquele mar de gente. Peguei uma taça de champanhe da bandeja de um garçom que passava na hora e entornei tudo de uma vez, pegando outra.
***
Não sei quanto tempo passou desde o meu reencontro indireto com Marina, só sei que estou alta pelas taças que peguei enquanto circulava pela galeria procurando socorro. Ok, eu estava fugindo dela. A bebida me anestesiou um pouco. Talvez o suficiente para eu não desabar, porque cada vez que via algum relance de seu rosto, cabelo, roupa, voz, ou até mesmo seu nome, meu coração se afogava mais um pouco. Ele estava dividido entre esperança e medo. Medo de sentir, de perder, de arriscar tudo e sair machucado outra vez. Havia lugar também para a esperança de reencontrar sua metade, de reconciliar, de amar novamente.
Subi um lance de escadas e andei até encontrar uma varanda pouco iluminada. Não tinha ninguém por perto, então seria perfeito para passar o tempo. Expirei o ar puro daquela noite fria. Senti a brisa em meu rosto e aproveitei o momento de paz. O álcool estava fraco em meu organismo, agitando o estômago vazio, pois não consegui comer de tanto nervosismo.
Distraída, pensando em tudo e nada ao mesmo tempo, me assustei quando ouvi o ruído suave da porta se fechar atrás de mim
– Oh, desculpe-me.
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