Unbreakable
2 O2: Impotente
Notas iniciais
Narração por: Clara Fernandes
Fechei os olhos com força, tentando não chorar, tentando não me lembrar da dor que foi perdê-la, mas era mais forte que eu e antes que pudesse sequer ignorar tudo isso, senti meu rosto molhar. As lágrimas caiam continuamente num choro silencioso. Um grito sem voz. Elas desciam por linhas irregulares na pele da minha bochecha, escorrendo pelo pescoço até cair na minha roupa ou próximo aos meus pés, deixando uma trilha de pingos por onde eu passava.
Não sei como consegui chegar em casa, não que fosse longe – apenas dois andares de distância, já que a Família Fernandes, em peso, morava no prédio.
O apartamento me recebeu com seu vazio. Ele estava silencioso, como sempre. Isso me animava e me angustiava ao mesmo tempo. Ter alguém te esperando e ser recebida com beijos e abraços é maravilhoso. Sinto falta disso. Mas, neste momento, eu precisava ficar sozinha. Sozinha com meu coração, minhas lembranças, minha dor. Porque, por mais que o tempo passe, ela não muda. Ela se cala. Fica quietinha lá dentro quando você se acostuma com sua presença. Então, a qualquer hora, ela volta a sangrar. Não precisa de muito esforço. Uma leve cutucada e ela estará jorrando novamente. Como se nunca tivesse parado. Acho que nunca parou.
– Por favor, de novo não. – choraminguei em voz alta, para o vazio. Eu só não aguentava mais ficar calada – Por que você fez isso, Marina? Por que fez isso com a gente? – uma raiva conhecida tomou conta de mim. Mais lágrimas – Por que você fez isso comigo? – gritei, jogando o vaso de cristal na parede. Vi os milhões de pedacinhos de vidros espalharem-se pela sala, mas eu não me importei. Meu coração estava no mesmo estado que o vaso e ninguém se importava.
Com a respiração ofegante e mãos tremendo, corri pro quarto. Procurei a caixinha no guarda-roupa, mas não estava lá. No criado-mudo também não. Passei a mão no cabelo, que já estava pra lá de bagunçado, com a raiva se transformando em desespero. Cai de joelhos no chão, apertando o estômago, tentando fazer parar. Doía. Muito.
Os soluços já podiam ser ouvidos de longe. Meu corpo todo agora tremia e eu não conseguia me mover. Deitei em posição fetal, ali no carpete, chorando.
***
Não sei quanto tempo permaneci assim. Quando recobrei a consciência, soltei minhas pernas que estavam dormentes. Uns pequenos soluços escapavam com diferença entre os minutos, cada vez mais fraco. As lágrimas eram apenas manchas na minha roupa, no meu rosto e no chão. Meus olhos estavam pesados. Inchados. Provavelmente, vermelhos.
Com um longo suspiro, resolvi experimentar me mexer. Não poderia ficar o dia todo assim. Ou noite. Não sei. Que horas são? Minha cabeça caiu pro lado, preguiçosamente. Um instante e meus olhos bateram no que eu estava procurando antes. Revirei-os. Claro.
Na última prateleira, uma caixinha pequena e delicada a enfeitava junto com outros objetos de decoração. Dei um pequeno sorriso.
– Olá, meu amor. – sussurrei, peguei e sorri novamente. Seus desenhos entalhados eram intrigantes. Chamava atenção. Quem a via, imaginava que era apenas uma caixa vazia e bonita. Mas só ela e eu sabíamos do seu conteúdo.
Nosso segredo. Seu presente. Um pedacinho dela. A única coisa que ela não conseguiu tirar de mim.
Passei o dedo pela superfície elevada com precisão e conhecimento. O botãozinho oscilou, abrindo uma fenda. Levantei a tampa, coloquei os dedos dentro sentindo a frieza da corrente e puxei-o.
FLASHBACK ON
– Meu Deus, Clarinha – aquela voz… Marina! Virei e ela abriu um sorriso lindo, veio correndo até mim com os braços abertos. Sua alegria era tão contagiante que não pude deixar de devolver o sorriso com igual intensidade. Meu coração (e corpo) aquiesceu. Ela me abraçou apertado. – Que saudade.
Sua animação era tanta que quase não cabia em si. Só faltava pular de felicidade. Eu ri com o pensamento. – Também estava, meu amor. – Marina sempre sorria e balançava a cabeça quando eu a chamava assim. Seu corpo magricelo e diminuto tinha crescido alguma coisa e ganhado curvas. Parecia outra pessoa. – Você me abandonou aqui. – fiz drama, com cara de choro. Fiz bico e ela riu.
– Não faz assim. Dar uma vontade louca de te beijar. – mordeu o lábio olhando pra minha boca. Cheguei mais perto. Seu ar de riso evaporou.
– E por que não o faz? – perguntei, cada vez mais perto dela. Já podia sentir a quentura do seu corpo perto do meu. Ela expirou forte, como se tivesse prendendo a respiração e balançou a cabeça.
– Seus pais estão em casa, Clarinha. – ela sussurrou, se aproximando como um imã, apesar do aviso. Coloquei minhas mãos na sua cintura.
– Não ligo. – ela fechou os olhos, totalmente entregue. Eu já podia sentir sua respiração batendo no meu rosto, sua veia do pescoço pulsando.
– Clara… – seu hálito mentalizado penetrou minhas narinas, suas mãos estavam no meu pescoço, com os dedos entrelaçados. Eu podia sentir seus lábios roçando nos meus. Inclinei a cabeça pro lado direito e ela pro esquerdo, num encaixe perfeito. Porém, o beijo não durou. Um barulho fez a gente se separar repentinamente por causa do susto.
Rimos, respirando aliviadas por ninguém ter visto e a puxei para sentar na cama, perto de mim. Queria saber das novidades.
– Conta como foi a viagem. Quero saber tudo. Você se divertiu? – peguei sua mão, fazendo carinho.
– Foi ótima. Diverti-me e pensei em você o tempo todo, viu? Foram os quinze dias mais longos da minha vida. – ri da sua fala dramática – Não ria. É sério. Eu te via em todo canto. Achei que tivesse ficando louca. – suspirou – Quase morri de saudade. – e me abraçou forte.
– Também senti muito a sua. – beijei seu ombro, ficando calada por uns minutos, aproveitando o abraço. Sua presença. Seu cheiro.
– Quase esqueci, Clarinha! – ela se afastou de repente, me assustando.
– O que? – perguntei em vão. Ela já tinha saído do quarto, correndo. Aproveitei para me olhar no espelho. O cabelo tava bom, a roupa tava mais ou menos, mas ela iria estranhar se eu trocasse.
Marina voltou, me olhando com um sorriso suspeito e as mãos para trás.
– O que você aprontou? – perguntei, desconfiada.
– Não aprontei nada. – andou pelo quarto, sem me encarar. – Eu tava olhando umas vitrines, procurando algum presente legal pra você…
– Não precisava, meu amor. – eu a interrompi, voltando a sentar na cama. Ela levantou o dedo até a boca, me pedindo silêncio.
– Precisava e eu queria. – ela voltou a andar, continuando sua história – Mas não qualquer coisa. Tinha que ser único, bonito e nossa cara. – sorrimos – Então, passando numa loja de antiguidades, encontrei. Logo que bati os olhos, sabia que era ele.
– Agora fiquei curiosa. Cadê? Mostra. – ela riu, parou na minha frente e me entregou uma caixa preta de madeira com detalhes dourados. Era linda. – O que é isso, Marina?
– Nosso segredo.
– Como assim? – perguntei, sem entender.
– Bom… Todos sabem que somos amigas desde sempre – assenti – mas não sei se eles entenderiam que nossos sentimentos se intensificaram. Tenho medo de te perder, Clarinha. Muito medo mesmo. Não quero nem pensar nisso… – ela balançou a cabeça para dissipar seus pensamentos ruins, meus olhos ardiam com o choro iminente. Olhei pra Marina que estava na mesma situação que eu. – Entrei na loja e o senhor simpático me mostrou o colar. Era perfeito.
– Espera. – a interrompi novamente. – Você não vai me dizer que essa caixinha é um transformer e virar um colar, não né? – ela riu, limpando os resíduos de lágrimas.
– Não, sua boba. Não é nada disso. – riu mais um pouco. – O colar estar aí dentro.
– Não vejo nenhuma abertura ou trava aqui. – rodei a caixinha em minhas mãos, olhando. Que estranho.
– Essa parte é a mais legal. Deixa eu te mostrar. – sentou atrás de mim – Você sente? – ela tinha minhas mãos nas suas e passava a ponta do meu dedo em todas as linhas douradas, até que senti um pequeno botão. Quase imperceptível.
– Sim. – falei deslumbrada. Ela pressionou meu dedo no botão e uma tampa pendeu pra fora. Marina encostou o queixo no meu ombro, me dando as honras. – Nossa…
– Abre. – ela sussurrou, seu hálito quente batendo na minha pele nua, arrepiando-me. Prendi a respiração e com a ponta dos dedos, abri. Seu interior era aveludado, liso e macio. Dentro dele tinha um pingente de tamanho mediano, branco e com detalhes dourados. Era um coração.
Peguei com delicadeza pela corrente, que também era dourada. Suspenso no ar, ele girou algumas vezes e eu não conseguia parar de olhar.
– Marina… – respirei fundo, dando-lhe um sorriso admirado – é lindo. Muito lindo mesmo. Obrigada, amor. – virei o rosto para lhe dar um beijo na bochecha.
– Tem mais uma coisa… — ela pegou o coração e forçou sua lateral, até que ela abriu, revelando seu interior oculto.
Minha boca formou um O quando vi nossas fotos em miniatura ali dentro. Dessa vez não consegui controlar as lágrimas e elas vieram forte. Sorri tão grande que minhas bochechas doíam.
– Como você consegue ser tão perfeita? – falei, olhando pra ela com a voz embargada, que revirou os olhos, corando. Tão linda.
– Não sou perfeita, Clarinha. – sorriu, timidamente. Limpando minhas lágrimas. Ela também estava emocionada.
– É sim. E o mais importante: você é minha. – dei um selinho rápido.
FLASHBACK OFF
Olhando para aquela lembrança tão antiga era impossível não reviver esses momentos felizes. De fato, o relicário era nosso segredo. Usei o colar poucas vezes, pois tinha medo de alguém pegar ou pedir pra ver. Ele chamava a atenção, era lindo e diferente. E dentro estavam nossas fotos.
Sorri tristemente quando as vi. Na foto do lado direito, tínhamos quatro anos e sorríamos abraçadas. A do lado esquerdo foi tirada dias antes de Marina viajar. Ela me beijou e tirou a foto sem que eu percebesse, ficou tão linda que nem reclamei com ela depois.
Levei o colar ao meu pescoço, depois de anos guardado. A corrente era grande o suficiente para ficar na altura do coração e ele batia loucamente. Suspirei e fechei os olhos, pressionando o pingente com as mãos fechadas. Marina não podia saber o quão afetada eu ainda era por ela. Eu estou perdida.
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