Notas iniciais
Me comprometi a escrever uma fic deles e aqui vamos nós. Penei e estou penando. Nem sabia que eu ainda escrevia cdz. no beta we die like gold saints

Organizou os artigos em ordem alfabética, tratando de atualizar o site da faculdade com as notas de cada aluno – ele fazia questão de mantê-los informados sobre a decepção que fora o trabalho mais importante do semestre. Havia salvação, para alguns, não seria o caso de alguém ter a ideia de ir até o conselho exigir que o professor aplicasse outra forma de avaliação. Não que ele se importasse com o que pensavam, a culpa era total dos alunos que não se dedicaram o suficiente.

Outras matérias? Estavam plenamente conscientes ao ingressarem na faculdade de que teriam de ter total dedicação ao curso.

Problemas pessoais? Ninguém trouxera o assunto à tona e, fosse sincero, apenas estenderia o prazo um pouco mais.

Ele mesmo precisava organizar seu tempo em preparar aulas, publicação de artigos e tantos detalhes na vida profissional. Havia terminado o doutorado no ano anterior, mas já lecionava, sendo um dos professores mais novos da universidade. Mérito próprio, era muito inteligente; mas, claro, Saga havia lhe indicado e sua vaga fora garantida.

Tudo na vida trata-se de boas indicações.

Fechou o notebook, colocando-o em sua pasta executiva, junto aos artigos e demais papeis que considerava importante levar consigo para casa. Felizmente, naquele dia estava livre de aulas ou demais compromissos, poderia retornar mais cedo para casa e organizar o apartamento que fora negligenciado pelas últimas duas semanas. Não era viciado em limpeza, somente prezava por um ambiente agradável, e preparar provas tomou uma parte considerável de seu tempo. Morar sozinho exigia maior dedicação para manter tudo limpo, mas ao menos tinha privacidade total não sentia falta dos tempos de graduação em que morava com mais pessoas.

Sua intenção era sair de sua sala e ir direto para o carro. Despedir-se rapidamente de qualquer um que encontrasse pelo caminho para que não precisasse gastar o tempo com conversas pequenas. Estava irritado, lidar com tantos trabalhos de baixa qualidade o frustrava, não queria rever sua didática ainda.

Contudo, seu objetivo fora impedido logo após alguns passos fora de sua sala. Os olhos azuis que o cumprimentavam possuíam aquela típica determinação que não seria detida, e não estavam só.

“Olá, Camus.”, Afrodite sorriu com os braços cruzados, parecia já imaginar como seria a seguinte conversa. “Antes que pergunte o que faço aqui, a universidade é livre e eu precisava buscar as duas ovelhas perdidas.”

Olhou inquisidor para Shura que estava despreocupado quanto à situação, enquanto respondia alguma mensagem em seu celular. Aparentemente o espanhol havia concordado em acompanhar o sueco e, se Camus sabia bem, por ter desistido de argumentar. Shura estava envolvido em um evento que seria realizado na próxima semana, embora estivessem juntos no departamento de ciência política, o francês não fazia parte da organização direta.

“Você não se esqueceu que hoje é o dia em que nós marcamos uma reunião para comemorar o aniversário dos gêmeos, não é mesmo?”, a voz suave não o enganaria. Afrodite saiu do conforto de sua cobertura com um propósito e o conseguiria, nem que para isso o arrastasse.

“Não,” suspirou, massageando a têmpora esquerda. “mas eu terei todo o tempo para parabenizá-los. Não há necessidade de…”

“Escute. Existe algo chamado consideração, Camus.”, Afrodite aproximou-se, segurando nos braços do professor. “Você, como a pessoa inteligente que é, já deve ter ouvido sobre. Não estamos pedindo para ficar até a madrugada, será algo simples no pub do Aldebaran, mas tenha o bom senso. Até Shaka irá.”

Ouviu uma risada vinda de Shura, seguida de um comentário de que ‘claro que ele vai, o Mu estará lá’. Camus, que não estava interessado na atual conjuntura amorosa dos amigos e muito menos em praticar social naquela noite, apenas fez uma expressão desgostosa.

“Você anda irritado demais essa semana, talvez fizesse bem ver outros seres vivos que não sejam estudantes. E eu sei disso porque Saga me contou. Além disso, é sexta-feira, você estará livre amanhã.”

Ótimo, agora havia uma rede de fofocas sobre sua vida.

(não apenas sobre sua vida, sabia, sobre a vida de todos)

Acabou por concordar com Afrodite, mais cedo ou mais tarde seria arrastado para aquela confraternização e quanto menos pessoas tentando convencê-lo era melhor. Tinha pouco mais de cinco horas para fazer tudo o que precisava e comparecer na confraternização, era o do que suficiente.

Recusava-se a se considerar anti-social, ele apenas estava cansado e não via necessidade de tanta pressa em ver os demais. O mundo não iria acabar se deixasse para o fim do mês, quando as aulas se encerrariam. Já havia, inclusive, parabenizado Saga no dia de seu aniversário, dando-lhe um livro, em sua edição especial, que o grego tanto comentara ao decorrer do ano.

Com relação à Kanon, por outro lado, não sabia bem o que comprar. E, por mais que desejasse, não conseguiria usar tal desculpa para não comparecer à festa – Afrodite se dispôs a comprar algo em conjunto, principalmente porque Shura não queria gastar demais com dois presentes. O que seria? Camus preferia não saber, aqueles gêmeos tinham gostos duvidosos às vezes.

Às vezes.

Saga andava nu sempre que podia, ou seminu, ainda que isso não fosse um problema, visto que reservava a mania para quando estava em casa. Kanon possuía uma personalidade questionável mas, como advogado, era o esperado dele. Assim como Shaka, também advogado, que parecia considerar-se mais inteligente do que a própria lei; mais justo do que qualquer um – mesmo que todos soubessem que seu orgulho fosse exorbitante.

Seria uma longa noite.

Ao menos o local escolhido era agradável, Aldebar (aparentemente um trocadilho na língua materna do proprietário com o próprio nome) era um pub-restaurante frequentado por pessoas de várias nacionalidades com música ao vivo em alguns dias da semana. Teria sido uma catástrofe se tivesse de ir a alguma balada, não tinha mais paciência para aguentar música alta ao extremo e bêbados puxando assunto.

Uma hora restante. Ao menos havia organizado o apartamento como precisava.

Reparou em seu reflexo no espelho, o cabelo ruivo ainda úmido após o banho, perguntando-se quando se tornara tão… Shaka, implicando com pormenores. Ou, talvez, sempre tivesse sido semelhante, por isso seu último relacionamento terminara com ‘sabe, se você fosse um pouco mais agradável… e não usasse polainas’.

Tsk.

Ele havia feito ballet por anos, polainas não eram tão ruins assim. Tinha bom gosto e bom senso o suficiente para saber se algo era ruim – certo, em alguns casos ele não tinha bom senso, como, por exemplo, lidar com pessoas, mas isto era o que Afrodite e Mu diziam.

Saga também. Mas Saga não deveria ser levado à sério sempre. Nem Afrodite, embora fosse belíssimo, sabia muito bem que nem todos eram agraciados pelo lado gentil do pisciano. Mu era um caso à parte, não convivia tanto com ele, mas sabia que estavam em níveis diferentes de iluminação espiritual, por assim dizer. Não havia como usar como parâmetro.

Não era uma desculpa. Não havia o porquê usar desculpas.

De qualquer forma, não estava em terapia para repensar seus atos ou o rumo de sua vida. Pelo contrário, sentia-se muito bem de como estava; apesar de tudo (do desastre, aos seus olhos, da qualidade de seus estudantes, e da correria do dia a dia) estava satisfeito em como tudo se encontrava. Um privilégio, saber que, por agora, desfrutava do que quis por tanto tempo: estabilidade.

Se tudo ocorresse bem, nada mudaria tão cedo.

A postura impecável, a expressão apática; o perfume suave, os longos fios ruivos cuidadosamente penteados que moviam-se com elegância – sua beleza era notória, ainda que Camus não desse tanta importância à isso, tinha consciência de estar nos padrões atuais. Chamou atenção ao adentrar o local, a garçonete parecia um tanto inquieta ao recebê-lo, e decepcionada ao saber que ele não precisava de ajuda.

Pôde, mesmo de longe, avistar Saga bebendo um coquetel junto à Afrodite e Máscara, que estava ali àquela hora, suspeitava, por ter ido com o sueco. Shura ainda não estava presente, também não parecia ser o único a não ter chegado ainda, a área parecia grande demais para o número de convidados. Kanon, ao lado do gêmeo, conversava alegremente com Mu e alguém que Camus não conhecia.

Alguém cujo sorriso era contagiante; inclinava a cabeça para trás ao rir, uma risada que cintilava, dono de um cabelo loiro volumoso, usando roupas que lembravam um cantor punk – um ser tão chamativo que era impossível não reparar com diligência. E os belos olhos azuis que o encontraram, mais escuros do que os de Afrodite, mais sinceros e mais…

viciantes.

E o encaravam, mesmo que Kanon ainda estivesse falando à sua frente, durante todo o trajeto em que o francês fora até Saga para cumprimentá-lo. Até que que sentisse a necessidade social em romper a apreciação.

“Quando Afrodite disse que viria, confesso, duvidei.”, Saga riu, porém era nítido que estava feliz pela presença do francês. “Sei que tem estado… um tanto quanto irritado, mas ele está certo, um pouco de diversão faz bem. Como estão seus alunos?”

“A bunda de vocês!”, Máscara exclamou, antes de beber um pouco da cerveja que segurava. “Não quero ouvir sobre trabalho, é sexta. Trate de pegar algo para beber e relaxar, francês. ”

Máscara era como todos ali chamavam Luca Rizzi, ou Mask, um italiano exagerado com gostos peculiares. Aparentemente o apelido fora criado antes da faculdade, uma vez que Luca era um nome muito gentil para alguém com a personalidade do canceriano. No fundo, diziam as más línguas (chamadas Afrodite, Shura e Saga), ele não era tudo aquilo que dizia ser, tinha um coração gentil.

Porém, no momento tinha razão, uma vez que saíra de casa, não estava com vontade de falar sobre responsabilidades profissionais – muito embora queixar-se de estudantes fosse algo que todo professor gostaria de fazer, a qualquer hora.

Tratou de cumprimentar Kanon e Shaka, presença esta que somente reparou ao aproximar-se do grupo, visto que estava sentado sem muita simpatia, como de costume. Camus cogitou não ir devido aos afazeres e cansaço; Shaka não iria à reuniões de amigos por simplesmente desprezar locais com muita gente e música ocidental. Fosse sincero, era incapaz de dizer algo que agradasse o indiano.

Mu, por algum motivo que Camus não compreendia, escondeu um sorriso por trás de sua mão, limpando a garganta antes de cumprimentá-lo e rapidamente apresentar ao único que não conhecia.

Milo Kotzias.

(ainda não sabia, mas o nome seria lembrado com facilidade)

Ouviu sobre ainda aguardarem outros, os quais também desconhecia, mas sua atenção estava ao homem à sua frente, que lhe estendia a mão com simpatia. Usava uma corrente com pingente de escorpião, o qual Camus considerou jovem demais para alguém da idade, e estranhamente combinava com o loiro.

Mais surpreendente ainda era o fato de estar reparando nele.

Recriminou-se.

Aldebaran logo chegou, parabenizando Saga e atraindo a atenção de todos, contando vantagem sobre seu estabelecimento e os melhores aperitivos. Fora impedido, assim, de conversar muito com o mais novo conhecido. Não que isso fosse de seu feitio, conversar muito, era até melhor mais gente a falar, para que não fosse o único encarregado de manter um clima amistoso.

Um tanto presunçoso, achar que teria de manter a conversa fluindo. A maioria dos que ali já estavam conseguiam, naturalmente, chamar atenção e conversar incluindo a todos. Saga mesmo era um exemplo de alguém que poderia ingressar na política, tinha carisma e sabia o que exatamente dizer para agradar alguém. Às vezes pensava se algo que ouvia era real ou agrado; ou quantas vezes havia sido manipulado para fazer algo de acordo com o que o mais velho queria.

Mu era alguém fácil de conversar, um fluxo diferente de Kanon ou Afrodite. Máscara era a companhia perfeita para beber, assim como Aldebaran (que infelizmente teria de também de vigiar os funcionários). E Shaka… bem, eles se entendiam quando jogavam xadrez juntos, ou ao discutir algum novo livro.

E ali estava Milo. Aparentemente como um sol, que chama atenção para si e irradia amabilidade. Não à toa que era amigo próximo de Mu (como descobriu); e provável que tivesse ouvido falar sobre ele, somente não se recordava.

Aproveitou-se da chegada dos demais para pedir um suco, havia ido de carro e não poderia dar-se ao luxo de beber alcóolicos. Shura desculpava-se pelo atraso, enquanto um dos recém chegados cumprimentava os aniversariantes, Aiolos. O irmão mais novo, Aiolia, mostrava-se entretido com Mu e Milo.

Admitia, não fora ruim seguir o que Afrodite propusera e ir até o local, era bom estar entre amigos e ouvir Kanon falar absurdos enquanto Saga o repreendia. Certas coisas continuavam as mesmas desde a graduação.

“Vocês se lembram da vez em que Mask se apaixonou pela moça da escola infantil perto de casa?”, Shura começou após a terceira cerveja. “E aí no fim ela se mudou, depois dele levar flores para ela por meses.”

“Flores essas que Afrodite escolhia.”, Saga complementou. “Mask nunca teve muita sorte com mulheres.”

“Fico mais surpreso em saber que Afrodite está saindo com ele. Você é tão bonito, Dite…”, Kanon provocou o italiano. E era apenas o começo, não pararia até Máscara xingá-lo em seu idioma materno.

Camus já conhecia a sequência, principalmente agora que os dois amigos estavam saindo (não namorando, ainda não, estavam com exclusividade entre si). Não por serem dois homens, mas por envolver duas pessoas em que todos tinham intimidade demais; e intimidade demais lhe dá oportunidade para mais brincadeiras.

Deixou de prestar atenção ao assunto, ouvindo somente a voz do sueco rir em provocação, levando um pedaço de queijo que havia sido servido minutos antes. Não era dos melhores, mas era bom o suficiente para acompanhar bebidas.

“Então, Camus,” o palito ainda estava em sua boca quando ouviu Milo ao seu lado, um brilho estranho nos olhos.

(Não, não era estranho. Ele provavelmente teve o mesmo brilho nos próprios horas atrás.)

“soube que Afrodite o arrastou aqui hoje, fico feliz por isso.”, o sorriso inocente não combinava com o tom de sua fala. “Mas não tiro sua razão, sabe? Eu também quase desisti de vir, esses dias têm sido corridos. Aí, você não acredita, Kanon me apareceu em casa ontem à noite fazendo serenata e não parou até eu concordar em vir. E nós nem temos nada, mas agora meus vizinhos pensam que somos algo. E pior, foi Aiolia, aquele tonto, quem deu a ideia, e Mu nem para impedí-los! Você acredita nisso?”

Camus, a princípio não soube bem como lidar com tanta coisa, o grego conseguia falar ainda mais do que Afrodite quando estava empolgado. Mas a conversa fluiu de maneira surpreendente para todos os presentes (que observaram a aproximação, já que se tratava de dois opostos). Milo era capaz de saber quando o ruivo não tinha mais nada a acrescentar e mudava o tópico com agilidade, diferente de quando alguém esperava que Camus se expressasse mais, fazendo o francês sentir-se à vontade com o recém conhecido.

Com Milo.

Naquela noite, o nome não saiu de seus lábios; seus olhos não se desviaram mais de seus rosto.

Notas finais
é muita responsa terminar isso de forma que agrade Kiri pois otp dela, não sei se consigo 1. Eu queria um nome /fofo/ para o Máscara. eis o resultado 2. Essa fic não será tão dramática quanto a sinopse pode fazer parecer.