Un Geste de Vous
2 Dezembro
Notas iniciais
Em um rabo de cavalo que já se desfazia, o cabelo movia-se com dificuldade em suas costas; mesmo assim, Milo continuava radiante e belo. Sua corrida matinal sempre o deixava de bom humor, mesmo quando corria sozinho, como era o caso daquele dia. Aiolia havia bebido demais na noite anterior e o anti-enjôo o faria dormir até depois do meio dia. Mu o avisara que só poderia vê-lo mais tarde, iria com algo para comer em sua casa, não deu detalhes pelo telefone e Milo aproveitou para apreciar sua própria companhia.
Desde o meio do ano, poucas vezes tivera tempo sozinho. Trabalhava em uma empresa de publicidade junto com Mu – não poderia ser diferente, qual outro lugar aceitaria um adulto com cabelo longo lilás? Nem mesmo Milo entendia como o amigo conseguia manter os fios impecáveis (provavelmente, do jeito que Afrodite mantinha os fios azuis).E não apenas sua profissão lhe ocupava grande parte do tempo. Não…
Sorriu, despreocupado com as pessoas que passavam por si.
Acabou por conquistar o tal professor francês depois de muita dedicação, utilizou-se de todas suas táticas de sedução. Quando estas acabaram, usou também a de seus amigos; então, voltou para as próprias, para garantir que Camus não se cansasse e aceitasse seu pedido de namoro.
Namoro.
‘Ei, Camus, já que estamos sempre juntos, que tal você ser meu namorado?’, ainda não acreditava que perdeu a oportunidade de fazer um pedido mais elaborado e romântico.
Não que seu francês se importasse. Contrariando o estereótipo, Camus não costumava ser romântico, não abertamente. Não flertava com estranhos, não entregava rosas para conhecidos (isso era coisa de um certo pisciano, rosas). Contudo, sabia muito bem que ele possuía um lado sentimental pelas escolhas que fazia – tudo possuía um sentido, ainda que o próprio aquariano não percebesse –; mas não era fácil ver o ruivo expressar tudo, ao ponto de, às vezes, gerar dúvidas em outros se realmente gostava de Milo.
Admitia, era o jeito culto, desinteressado com relação ao que acontecia ao seu redor, que o conquistara meses antes. Era a forma com que Camus puxava seu cabelo entre beijos e os corpos juntos, que ele sentia-se atraído ainda mais. A ânsia de ouvir, ou ver, algo mais expressivo da parte do aquariano sobre si. A elegância que mantinha mesmo após ser atingido pela chuva inesperada.
O professor vivia em um ritmo diferente, não a respeito de lecionar, mas sobre como lidava com a vida. ‘Ele estudou tanto política, que esqueceu como se vive igual gente normal. Pelo menos ainda tem humanidade nele, Milo, diferente do Shaka. Desculpa, Mu.’, disse Aiolia certa vez, rindo até engasgar-se com a pipoca que comia. Discordava, claro, estava longe de ser algo como ‘ser normal’ ou não ser, mas sobre o que era considerado essencial.E não era um desafio fazer Camus entregar-se mais ao relacionamento, era uma conquista tê-lo de uma forma que ninguém mais teve.
Difícil manter sempre o otimismo, impossível negar, mas sacrifícios são exigidos quando se gosta de alguém.
O sábado estava relativamente quente para os parâmetros de inverno, mas não o suficiente para que o grego ficasse por muito tempo fora de casa; tão logo cumpriu os 8km, retornou para seu apartamento para um banho quente. Podia ouvir a voz de Camus (que só conseguiria tempo livre na parte da tarde) alertando-o sobre o desperdício de água, ainda assim daria-se ao luxo de gastar bons minutos no banheiro.
Nem mesmo havia terminado de vestir-se quando Mu chegara, trazendo café e mais comida do que conseguiriam comer pela manhã. Teve certeza de que Shaka estaria ocupado, do contrário, o amigo ficaria meia hora e estaria partindo, após tomar um chá.
Mas ali estava Mu em sua sala sentado no chão, encostado no sofá, tão à vontade quanto o dono da casa. Na mesa próxima os pães, bolo, torta, três potinhos com frutas frescas e rosquinhas já aguardavam o início da refeição.
“O que é isso? Está passando fome na sua casa?”, Milo decidiu por sentar-se também no chão, em direção oposta ao ariano, após aumentar a temperatura do ar condicionado.
“Shaka disse que precisamos diminuir o consumo de açúcar.”, ambos optaram por rosquinhas enquanto Mu iniciava sua narração. “E você sabe como ele é. Ele comprou açúcar em cubos para conseguir regular melhor o quanto usamos; só podemos quatro pedrinhas por dia. Ou seja, dois de cada, se fôssemos dividir. E não tinha problema algum, você sabe que nossos chás não têm açúcar, não costumamos exagerar. Mas aí…”, observou Mu tomar um gole do café e degustar com cuidado do doce antes de prosseguir. “bem, eu estava precisando comer algo doce, uma vontade boba que me deu. Como Shaka ficou horrorizado com a sugestão, eu trouxe aqui.”.
Poderia jurar que uma criança estava falando consigo, mas era alguém de sua idade, que trabalhava junto, bem ali em sua frente.
“Mu… você…”, riu antes de continuar, “você veio na minha casa, comer doce escondido.”, não importava o quanto o ariano explicasse que, tecnicamente, não era escondido, o grego já estava a rir novamente dele. “Só não irei dizer o quanto seu namorado é rabugento porque, de tanto eu dizer isso, agora eu é que estou lidando com alguém peculiar. ”
Percebeu o olhar mais sério de Mu, ainda que a gentileza nunca deixasse a íris verde.
“Você se encantou com Camus desde a primeira vez que o viu, lembro-me disso perfeitamente. Mas, como vocês estão?”
“Estamos bem. Estamos muito bem. Estamos… bem?”, deixou a rosquinha na mesa de centro. “Eu nunca me relacionei com alguém como ele. Às vezes eu tenho certeza de que ele está feliz comigo, em outras eu suspeito que ele não sabe com a devida certeza se está feliz comigo. Mas…”, alcançou o café, dissipando o clima pesado que havia se formado.
Ignorou a sensação de que às vezes o jeito desprendido o deixava em dúvida.
“Temos apenas dois meses de namoro, ainda é cedo para eu me questionar isso. Diferente de você e o ancião que habita no Shaka que estão juntos há anos — e não, não adianta negar. Outro dia, você não vai acreditar, eu o flagrei resmungando enquanto lia o jornal. O jornal, Mu!”
Estava apaixonado. Muito apaixonado. Seu coração acelerava só de pensar em Camus, em como o francês parecia ter sido esculpido para ser a epítome da beleza. Em como era sensual ouvi-lo falar sobre Haas e Gramsci, mesmo que o grego não tivesse interesse em teorias políticas; vê-lo dedicar-se ao que gostava era prazeroso.
E era plenamente consciente de que Mu já havia observado sua paixão – agradecia por não comentar muito, não saberia explicar de onde vinha tal sentimento –, e que estava implicando com as manias estranhas de Shaka para mudar o assunto.
Tinha muito dentro de si, um mar de sentimento que não sabia ser possível cultivar em tão pouco tempo. Como se já conhecesse Camus em outra vida e o tivesse buscado até então; como uma oportunidade de estarem juntos e viverem o que lhes fora negado outrora.
Ou ainda fosse tudo fantasia de uma mente apaixonada, quem poderia afirmar o que era real?
Naquele dia, Camus iria ter finalizar todas as pendências da universidade, a fim de que todos pudessem aproveitar tranquilamente o recesso. Todos sabiam ser comum professores atrasarem em resolver assuntos de alunos, porém o francês apreciava o comprometimento não apenas dos estudantes, mas de si mesmo. E Milo amava tal característica, o profissionalismo. Se Camus não fosse tão meticuloso, invejaria seus alunos; na época de sua própria graduação sentiu, por diversas vezes, vontade de agredir seus professores que esqueciam de passar notas e dar tempo suficiente para trabalhos (principalmente os em grupo).
Dado o motivo, o grego decidiu por aproveitar algumas horas com o amigo; e devido ao frio, optaram por ficar em casa e gastarem o tempo com jogos eletrônicos. Ou por causa de Milo, visto que Mu estava acostumado com temperaturas baixas.
Eis o detalhe. Acostumado com temperaturas baixas, não um amante do frio como Camus era. Este mostrava-se com um humor até melhor desde que o fim do outono, mais leve e bem disposto.
‘É para compensar todo esse fogo no rabo que você tem’, disse um de seus amigos em certa ocasião, seguido de algo relacionado ao seu signo solar. Tão diferentes um do outros que era difícil acreditar que o relacionamento poderia funcionar.
No primeiro encontro que tiveram, escolhido por Milo, Camus apareceu vestindo esporte fino, impecável com costume; claro que o grego havia escolhido algo mais despojado, ainda na linha punk. Fora buscar o francês em casa, de moto, para percorrerem 100km até um pequeno restaurante com a melhor vista que poderia encontrar naquele raio. Nada muito sofisticado, era um negócio familiar, mas naquela noite puderam apreciar as estrelas e, quando a cidade já não tinha muito mais vida, caminharam entre risos e garrafas de cerveja aos pés de prédios altos e árvores escassas – uma vista única, a transformação que o cenário sofria horas após o fim do expediente de trabalho comercial.
Não é preciso pensar muito para saber que Camus o repreendeu por consumir cerveja enquanto estava responsável por dirigir a moto, principalmente por ser uma moto. Talvez tivesse usado da desculpa para convidar Milo a dormir em sua residência; de qualquer maneira, ficara honestamente preocupado com a vida do loiro.
Quando já não restava resquícios de álcool em ambos, enquanto Camus procurava por um travesseiro no armário, falou sem refletir, ‘não acredito que irei dormir aqui antes de conseguir um beijo seu’. Durante todo o encontro suas tentativas foram frustradas, sempre alguém aparecia ou o telefone tocava, até que passou a somente apreciar a companhia e esqueceu-se das vontades que a forte atração causava. E, então, Camus surgiu à sua frente, aproximando os lábios – a primeira, e única, vez que o aquariano iniciara um beijo.
Gostaria de saber o que se passou na mente do aquariano naquele momento, para agir tão espontâneo. Óbvio que desejou o mesmo, durante todo o encontro, estavam em sintonia, mas sua curiosidade clamava por exatidão para descrever, pelo menos, aqueles segundos que levaram Camus à beijá-lo.
À princípio, o francês estivera contido; após a primeira hora, passou a expressar-se mais, a falar sobre ballet e explicar-lhe sobre seu ramo de pesquisa. Ao perceber que Milo, genuinamente, se interessava pelo o que ouvia, abriu-se mais – e a paixão que empregava em sua fala conquistava ainda mais o grego.
Um fascínio, como se encantado pela deusa do amor.
Mu fora embora às seis da tarde, após saciar sua vontade por doce e ainda poder visitar algum shopping a fim de levar mimos à Shaka. Milo se recusava a acreditar que ele era tão devoto quanto o amigo, em relação ao próprio namorado. Namorado este que somente o visitou uma hora depois da partida do ariano, acordando-o de um cochilo e o fazendo lembrar que não havia comido nada decente e saudável durante o dia.
(pra que mesmo ele corria toda manhã, se negligenciava a alimentação?)
“Eu imaginei que isso fosse acontecer, quando mandou a mensagem dizendo que só tinha doces aqui.”, Camus depositou uma sacola na mesa de jantar, ao ouvir sobre o sábado nada produtivo que teve; também deixando o casaco em uma das cadeiras. “Passei no Aldebaran antes de vir.”, mal terminara de falar e Milo já o estava abraçando e fazendo juras de amor.
Um casal que se alimenta um ao outro, é um casal feliz.
Puxo-o para perto, sentando-se no sofá e fazendo com que Camus sentasse em seu colo. Envolveu-o com os braços em sua cintura, apoiando a testa na clavícula.
“Senti sua falta.”, a última vez que o viu fora no sábado anterior, nem sempre conseguiam conciliar as agendas.
“Hm.”, sentiu um beijo na cabeça, enquanto Camus mantinha uma das mãos a pentear os fios loiros. “Eu desisti de artigos esse semestre, precisei lecionar até tarde para revisar a matéria da prova de duas salas.”
“A que aplicou ontem?”, sua voz saía abafada, mas tinha certeza de que era compreendido.
“Isso. Uma tragédia. Não terminei de corrigir tudo, como pode imaginar, mas já percebi que será tão ruim quanto aos artigos do meio do ano.”, não reparou no olhar de repreensão que recebeu após rir da explicação. “E isso porque um dos alunos não conseguiu comparecer, aparentemente algo relacionado à mãe.”
“Camus…” ergueu um pouco o rosto, já suspeitando o que teria que falar de novo “se for aquele Hyoga… Você sabe que a mãe está doente.”
“Sim, mas a vida adulta não irá se compadecer disso e-”
“E ele não é adulto. Nenhum dos seus alunos são, estão todos no primeiro, no máximo segundo ano de faculdade.”, acariciou as costas de Camus para demonstrar que não estava irritado. “Eu sei que é horrível alguém se intrometer no seu trabalho, que somos totalmente diferentes, mas… às vezes, às vezes, sabe? Então, às vezes, você precisa pensar um pouco que o emocional afeta a qualidade profissional.”, sustentou o olhar que recebia, sabia que estava sendo avaliado sem misericórdia pelo namorado. Tão inteligente, tão belo, mas tão fora da realidade quando se tratava de pôr-se no lugar dos outros. “Você mesmo disse que o menino tem potencial. Vamos, aplicar uma prova em um dia diferente não irá arruinar sua reputação.”
Aguardou em silêncio pela resposta, até mesmo a mão em seu cabelo deixara de mover-se.
“Camus?”
“Irei refletir sobre a possibilidade.”
“Ele te avisou antes, não?”, voltou a apoiar o rosto no peito do namorado; com o detalhe de que, sem constrangimento, sua mão direita adentrou a camisa, passeando pela pele das costas de Camus. “Não há motivo para ser tão severo.”, a mão esquerda desceu para as coxas, apertando-as sem força. “É uma oportunidade para mostrar que, apesar de tudo, você é um bom professor e se importa com eles.”.
Depositou alguns beijos no tórax à frente, inebriando-se com o perfume característico que lhe atraía.
“Você vai mesmo tentar me seduzir falando sobre meu trabalho?”
Riu com a pergunta boba. A mão esquerda apertando com um pouco mais de vontade a coxa, antes de encarar Camus com interesse.
“Eu não preciso disso para te seduzir.”, a mão direita deixou as costas para puxar o francês pelo pescoço até a altura de seu próprio rosto, enquanto encostava-se no sofá. Seus olhos adquiriram um brilho diferente, sua mão esquerda estimulando regiões específicas em Camus, da maneira que sabia que mais gostava.
Lentamente, mordiscou algumas vezes o pescoço alvo, beijando-o em seguida a cada marca que deixava. Tão lento, tão sensual. Suas mãos exploravam o corpo no mesmo ritmo, abrindo alguns botões da camisa, mas sem retirar a peça de roupa – como se saboreasse com cuidado a fim de não desarrumá-lo. Na parte inferior, mostrava-se ainda mais tentador, pressionando áreas sensíveis, mas alívio direto.
Os minutos posteriores pareciam alongar-se cada vez mais; concomitantemente, a respiração de Camus passava a ser mais pesada, com suspiros discretos a surgirem.
“Milo…”
“O que você quer, Camus?”, indagou baixo em seu ouvido, um tom de voz que reservava para momentos como aquele. Estava consciente do que ocorria, ele mesmo estava precisando de alívio, principalmente depois do francês passar a provocá-lo também. Mas ainda estava em vantagem.
“Milo.”, Camus o censurou, aborrecido por não ser atendido, já ciente do que o grego esperava.
Milo não o atenderia – nem mesmo retiraria uma só roupa – até ouvi-lo oscilar a respiração com mais frequência, dizendo que o queria naquele momento; os olhos fechados, as palavras em seu idioma materno se perdendo nas frases.
As mãos que se entrelaçavam, e que, no momento seguinte, agarrava-se ao lençol, também contornavam os lábios em um gesto amável após o orgasmo – antes de beijá-lo e dizer que o amava.
(sem ouvir uma resposta)
Os corpos, que em harmonia moviam-se pelo prazer, também aconchegavam-se gentilmente na cama, enquanto as respirações se acalmavam.
Como a lua a surgir após a tempestade, serena e suntuosa – era Camus aos seus olhos após o ato.
E, como a lua, ele não ficava para sempre. Não. Camus nunca dormia em sua casa, não importava o quanto insistisse para que ficassem somente apreciando a companhia um do outro. Às vezes, quando Milo dormia mais cedo do que o esperado, deixava um bilhete; às vezes, somente mandava uma mensagem de boa noite, ao chegar em casa.
Como se estivesse fugindo de maior intimidade.
Mesmo quando Milo o visitava, e dormia no outro apartamento, pela manhã, Camus já estaria a ocupar-se com algum livro ou trabalho. Sempre. E Milo não sabia se estava a imaginar coisas, ou se era tudo real.
Nunca havia respostas para sua pergunta com relação ao fato. Assim como aquela vez, nas outras também, restava somente o silêncio ou
“É melhor assim, Milo.”
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