Tato passara a noite inteira dirigindo enquanto Romena dormia ao seu lado, ela ressonava, e ele achara encantador.

Pensara muito a respeito e chegara a conclusão de que deixaria as coisas rolarem. Sempre fora muito despreocupado em relação a tudo em sua vida, o que tivesse que ser, seria. Mas Romena o cativara de algum modo. Talvez fosse sua obsessão por estar no controle, por não se sentir inferior à nada e ninguém. Poderia ser a grande diferença entre os dois. O fato era que ele se interessara por ela.

Mas sabia que era um risco. Romena não se impressionara muito com ele, e ele servia-lhe apenas como uma última opção extrema. Contudo, não se ressentiria ou faria esforços para conquistá-la, apenas seguiria em frente, abertos as possibilidades. Como sempre fizera.

Chegara em uma região habitada da estrada, Romena havia-lhe avisado que passariam em frente a uma lanchonete.

— Ei, chegamos. — Ele a sacode levemente pelo ombro.

Romena resmunga inteligível e se acomoda melhor. Tato ri e tenta acordá-la novamente.

— Vamos, acorde. Estou morrendo de fome.

Ela continua sem esboçar reação, tirando um suspiro cansado.

— Romena… — Tato sussurra. — Romena! — Ele, então, tenta mais alto.

Ela abre os olhos assutada e o encara perdida. Levando alguns segundos para se situar.

— Ah, Tato. — Ela sussurra rouca.

E ele tem a impressão que um tanto decepcionada também.

— Já estamos perto da lanchonete.

— Ótimo. Eu preciso mesmo escovar os dentes.

Ela faz uma concha com a mão e bafora, fazendo uma careta em seguida. Ele acha graça e Romena o ignora.

Tivera um sonho esquisito, talvez fora por causa da música folk que ele colocara para tocar baixinho durante a noite e ela, em algum momento, percebera.

No sonho ela estava em uma praia, usava um vestido florido e esvoaçante, era noite e haviam muitas tochas iluminadas formando uma trilha. Sem preocupações Romena seguia o caminho iluminado, quando alguém pisava na barra do seu longo vestido, prendendo-a ao chão. Ela tentava puxar o tecido, mas a pessoa era mais forte.

— Pare! — Ele dizia. — É inútil tentar. Você sempre estará presa a mim!

Romena não conseguia distinguir seu rosto devido as lágrimas que ardiam em seus olhos. Mas reconhecia a voz, a reconheceria em qualquer lugar.

— Não. Eu… eu não sei. — Ele continuava dizendo. Seu tom agora menos agressivo.

— Não. Eu… eu não sei. — Ecoava em seus ouvidos.

— Não. Eu… eu não sei. — Era como se ela ainda pudesse ouvi-lo dizer, como se ele estivesse ali, bem na sua frente.

— Romena! É aqui? —Tato pergunta em voz alta, estalando os dedos em frente ao seu rosto, tentando despertá-la de seu torpor.

— Hã? — Romena pisca aturdida, devia estar pegando no sono novamente.

— A lanchonete. É essa aqui? Tato aponta pela janela para o estabelecimento modesto e bem conservado.

— Sim, sim. — Ela começa a desafivelar o cinto e pega sua bolsa jogada no assoalho.

— Está tudo bem? —Tato pergunta percebendo-a um tanto avoada.

— Você costuma perguntar muito isso, não? — Romena dispara antes de poder censurar-se pela grosseria.

— Apenas costumo me preocupar muito com as pessoas. — Ele dá de ombros descontraído, saindo do carro.

— Certo, desculpa.

— Tudo bem.

— É que sou um pocou mal humorada quando acordo.

— Tudo bem.

— Na verdade, nos últimos tempos, tenho sido mal humorada a todo momento.

— Não, sério. Tudo bem.

— Acho que é só estresse. Você sabe, com o trabalho, os estudos e tudo mais. Eu não costumava ser assim, mas um dia… um dia me percebi assim. E… — Romena para de falar quando percebe a expressão divertida de Tato.- Eu estou tagarelando, não é? Droga. Eu também não costumo fazer isso. Talvez quando fico nervosa.

— Você está nervosa? — Ele pergunta solidário.

— Um pouco. Faltam poucas horas para chegarmos na casa dos meus pais.

— Não precisa ficar nervosa. Vai dar tudo certo. — Tato sorri encorajador.

Romena percebe que ele tem um sorriso muito bonito. Nada relacionado a dentes perfeitos e coisas do tipo, já que seus dentes são absolutamente normais. É algo mais próximo da alma, seu sorriso sempre parece ser verdadeiro e espontâneo. Tato, aparentemente, não tem problemas em sorrir.

— Como você pode ter certeza? — Ela pergunta enquanto caminham para a entrada da lanchonete.

— Não tenho. Mas prefiro ser otimista.

** ** **

Romena sentia que já estava na hora de começar a controlar o que comia, precisava encontrar um vestido incrível para o casamento de Júlia, e isso seria bem difícil se ela não entrasse em nenhum. Porém, ao ver Tato se lambuzar com um gigantesco prato de panquecas, pediu o mesmo.

— O plano era que eu ficasse na república, mas quando conheci Michael ele me confessou que odiava deixar sua casa vazia o dia inteiro e me convidou para morar com ele. Meu trampo ajuda a pagar algumas contas, mas eu definitivamente moro de favor. Mesmo que faça algumas tarefas domésticas, só para não me sentir tão inútil. — Ele sorri descontraído, com uma pequena mancha de chocolate no queixo.

— E por que fritar batatas? — Romena pergunta a Tato, jogando mais calda de chocolate em suas panquecas, após ele terminar o relato de como foi parar onde atualmente mora.

— Sem diploma, sem especificações… Era a única coisa que eu era apto a fazer em meio período.— Ele responde resignado. — Sem falar que fui contratado praticamente no mesmo dia em que entreguei meu currículo.

Romena sente um leve toc ao vê-lo sujo. Ela pega um amontoado de guardanapos e lhe entrega indicando a região melecada.

— E você? Como conseguiu um emprego bom tão rápido? — Ele lhe pergunta esfregando o bolo de papel pelo rosto.

— Foi um acordo que fiz com a reitoria. Assim que me formei me ofereci para dar aulas básicas e complementares em troca de desconto na pós. Não, mais para a direita. — Ela indica quando Tato passa o papel em todas as direções, menos no local sujo de chocolate.

— Olha aí, isso é que é pró-eficiência! — Ele brinca, finalmente acertando o local. — Obrigado.

— Imagina. E já que você se admite tão duro, hoje fica por minha conta. — Ela lhe sorri simpática, levantando o braço enquanto chama a garçonete.

— Certo, certo. Então fazemos mais o tipo de casal moderno. — Tato constata divertido.

— Mas não por muito tempo, em breve você receberá minha poupança de férias e vai poder buscar um namoro à moda antiga. — Romena brinca enquanto retira trocados da carteira e entrega para a moça simpática.

— Não precisamos falar disso agora… — Tato tenta desconversar se sentindo constrangido. A situação é bizarra demais.

— Não, faço questão de combinarmos os termos direitinho antes de tudo. — Romena continua sem perceber seu desconforto. — Posso fazer um cheque de até cinco mil, espero que esteja bom para você. — Ela lhe encara preocupada.

Cinco mil… Era muito mais grana do que ele imaginava. Achava que o acordo não passaria de mil, e na certa só receberia oitocentos se passasse todo o verão na lanchonete.

— Não, não. Isso é dinheiro demais. — Tato recusa gravemente.

Romena estranha sua reação.

— Tadeu… Tato,— Romena lembra de se corrigir — é um preço justo pelo que você está fazendo. — Ela o observa curiosa. — Você vai passar um verão inteiro mentindo para um monte de estranhos. Isso é o mínimo que eu poderia fazer para lhe agradecer.

Ele olha ao redor desconfortavelmente, se sentindo estranho nessa situação. Poucas coisas o deixam desconfortável, como meias sujas, etiquetas de camiseta, fumaça de cigarro e provas orais. Mas a insistência de Romena em ver sua companhia como um GRANDE favor o incomoda. Ele não se sentiria bem sabendo que arrancaria tanto dinheiro dela por fazer praticamente nada.

— Por favor, aceita. — Ela lhe pede com seriedade. — Não vou arredar o pé até você dizer sim.

Para acabar logo com a conversa Tato assente rapidamente antes de se virar para o vitral e observar a estrada ensolarada.

— Ótimo. — Romena respira aliviada.

Não suportaria ver Tato ser obrigado a fingir ser algo que não é sem saber que o estava ajudando também, sua situação já era constrangedoramente embaraçosa o suficiente para acrescentar uma gratidão tamanha por ele à lista.