Umbra Viscerum: O terror que vem do céu.

6 Capítulo V - O último estandarte.


O plano de Valerius era uma loucura, mas a loucura era a única sanidade que restava. Guiados por Lyra, os poucos sobreviventes rastejaram pelos túneis úmidos e escuros, o rugido da entidade maior crescendo em volume e intensidade a cada passo. O brilho esverdeado das rachaduras nas paredes era agora quase constante, e o ar estava denso com a energia pulsante do Ignis Caelestis. Valerius carregava o aquila, a águia de prata, embrulhada em um pedaço de pano para proteger seu brilho, mas sentia o metal vibrar em suas mãos, como se estivesse vivo.

Eles emergiram em meio aos escombros do que fora o pátio central. O cenário era apocalíptico. As criaturas menores ainda se moviam, coletando e desintegrando, mas seus movimentos pareciam mais frenéticos, como se estivessem sob uma pressão crescente. A entidade maior, um colosso de luz e metal escuro, pairava a poucos metros do chão, um sol esverdeado que irradiava calor e uma energia palpável. Seus pulsos de luz eram mais rápidos, mais violentos, e o zumbido era agora um grito agudo que perfurava os tímpanos.

“Agora!” Lyra gritou, apontando para o centro da entidade. “É o coração! Onde a energia se concentra!”

Valerius desembainhou o aquila, o metal polido reluzindo mesmo na luz esverdeada. Ele sentiu a força de Roma, a honra de séculos de legiões, fluir através dele. “Por Roma! Pela vida!” ele bradou, um grito de desafio que parecia pequeno contra o rugido da entidade, mas que carregava o peso de sua determinação. Os legionários restantes, seus rostos sujos e marcados pelo terror.

Eles haviam perdido tudo: seus companheiros, sua fortaleza, sua fé na invencibilidade de Roma. Mas ainda havia um brilho de desafio em seus olhos, uma centelha de esperança que ele se recusava a deixar apagar. Ele correu em direção à entidade, o aquila erguido. As criaturas menores, como sentinelas, tentaram interceptá-lo, mas os legionários se lançaram em uma fúria desesperada, seus golpes, antes inúteis, agora parecem desviar os feixes de luz, criando aberturas para Valerius. Lyra, com seu cajado, entoava cânticos antigos, seus olhos fixos na entidade, como se estivesse tecendo um feitiço de distração. Valerius alcançou o ponto abaixo da entidade maior. O calor era insuportável, a energia pulsava em seu corpo, ameaçando desintegrá-lo.

Ele ergueu o aquila, apontando a águia de prata diretamente para o coração pulsante da criatura. O metal da águia brilhou com uma intensidade ofuscante, refletindo a luz esverdeada da entidade de volta para si mesma. Não era um ataque, mas uma sobrecarga. A própria energia da criatura, concentrada e amplificada pelo aquila, começou a reagir de forma violenta. O zumbido se transformou em um guincho ensurdecedor. A entidade começou a tremer, suas formas geométricas se contorcendo e se distorcendo. Os pulsos de luz se tornaram erráticos, atingindo as criaturas menores, que explodiam em nuvens de poeira esverdeada. A terra tremeu violentamente, e o céu, antes encoberto pela névoa, pareceu se abrir em um turbilhão de cores e luzes. Valerius sentiu uma dor lancinante, como se seu corpo estivesse sendo dilacerado. Mas ele segurou o aquila com todas as suas forças, mantendo-o firme, refletindo a luz, até que a entidade maior começou a se desintegrar. Primeiro, as bordas, depois o centro, explodindo em uma cascata de luz esverdeada e fragmentos de metal que caíram como chuva de estrelas. Uma onda de choque varreu o castrum, derrubando Valerius e os legionários, e a escuridão finalmente engoliu a luz.



Quando a poeira baixou, e o silêncio, um silêncio verdadeiro e profundo, finalmente se instalou, o que restou do castrum era uma cratera fumegante. A entidade havia desaparecido, e com ela, a névoa e o cheiro acre. Apenas os escombros e o silêncio. Valerius, ferido e exausto, mas vivo, olhou para o aquila, agora escurecido e sem brilho, mas ainda em suas mãos. Eles haviam vencido. Mas a que custo? A vitória era amarga, e a cicatriz que o 'Ignis Caelestis' havia deixado em sua alma seria eterna.