O sol nasceu no dia seguinte, um disco dourado e familiar que parecia zombar da noite de terror que havia se passado. Seus raios banhavam a paisagem devastada, revelando a extensão da destruição. O castrum era agora uma ferida aberta na terra, uma cicatriz fumegante onde antes se erguia uma fortaleza romana. As árvores ao redor estavam carbonizadas, suas folhas vitrificadas, e o chão estava coberto por uma fina camada de pó esverdeado e fragmentos de metal iridescente que brilhavam sob a luz da manhã.

Valerius, com o corpo dolorido e a mente exausta, observava a cena. Ao seu lado, Lyra, com o rosto marcado pela fuligem, mas os olhos firmes. Apenas sete legionários haviam sobrevivido, seus rostos pálidos e seus olhos vazios, testemunhas de um horror que desafiava a razão. Eles eram os únicos que sabiam a verdade, uma verdade que jamais poderia ser contada. Como explicar a Roma que eles haviam lutado contra algo que veio das estrelas, algo que se alimentava de luz e pedra, e que podia quebrar a mente dos homens com um simples pulso de energia?

O aquila, o estandarte da legião, estava agora em suas mãos, escurecido e sem brilho, mas intacto. Era um símbolo de sua vitória, mas também um lembrete constante do preço pago. A glória de Roma parecia pequena e insignificante diante da vastidão do cosmos e dos terrores que ele podia abrigar. A fé nos deuses, antes um pilar inabalável, havia sido abalada. Que deuses poderiam proteger os homens de algo tão antigo e tão alheio?

Um relatório foi enviado a Roma, cuidadosamente redigido por Valerius. Falava de uma revolta bárbara particularmente feroz, de um incêndio misterioso que havia consumido o castrum e a floresta, e da bravura dos legionários que haviam defendido o Império até o último homem. A morte de Titus Corvus foi atribuída a um golpe de machado bárbaro. A verdade cósmica foi enterrada sob a burocracia e a conveniência, um segredo que apenas os sobreviventes carregariam. Valerius foi condecorado por sua bravura e transferido para uma legião na Britânia, longe da fronteira germânica e de suas memórias assombradas.

Lyra, por sua vez, desapareceu na floresta, levando consigo seus conhecimentos antigos e a promessa de que o 'Ignis Caelestis' retornaria um dia, quando as estrelas se alinhassem novamente. A cicatriz na terra, no entanto, permaneceu.

E, para Valerius, a cicatriz em sua alma era ainda mais profunda. Ele havia visto o abismo, e o abismo havia olhado para ele. E ele sabia que, por mais que Roma se expandisse, por mais que conquistasse, sempre haveria umbra viscerum, uma sombra nas entranhas do universo, esperando para reivindicar o que era seu. E o Império, em sua arrogância, nunca saberia o quão perto esteve de sua própria aniquilação, não por bárbaros, mas por algo muito mais antigo e terrível.

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