Umbra Viscerum: O terror que vem do céu.

5 Capítulo IV - Sobrevivência e sacrifício na escuridão.


O castrum era agora uma ruína fumegante, um monumento à futilidade da resistência humana contra o incompreensível. As criaturas menores, incansáveis e silenciosas, continuavam a desmantelar o que restava, seus feixes de luz esverdeada cortando pedra e metal com uma precisão cirúrgica. A entidade maior, o Ignis Caelestis original, pairava sobre o centro do pátio, um vórtice de energia pulsante que absorvia os fragmentos desintegrados, crescendo em brilho e intensidade. O zumbido que emanava dela era agora um rugido constante, uma sinfonia de terror que reverberava na alma dos sobreviventes.



Valerius, Lyra e um punhado de legionários, não mais do que quinze, haviam se refugiado nos túneis de suprimentos sob o castrum, um labirinto escuro e úmido que, por enquanto, oferecia um refúgio precário. O ar estava pesado com o cheiro de ozônio e metal queimado, e o som do rugido da entidade era abafado, mas ainda presente, uma batida constante que ameaçava esmagar suas mentes.

“Não podemos ficar aqui,” Lyra sussurrou, sua voz tensa. “O calor… a energia. Ela está se espalhando. Em breve, este lugar também será consumido.” Ela apontou para as paredes de terra, onde pequenas rachaduras começavam a aparecer, e um brilho esverdeado fraco podia ser visto através delas. “Ela está se reparando. E quando estiver completa, ela irá embora. Mas o que restará?”

Valerius sabia a resposta. Um deserto de cinzas e loucura. Ele olhou para os homens, seus rostos sujos e marcados pelo terror. Eles haviam perdido tudo: seus companheiros, sua fortaleza, sua fé na invencibilidade de Roma. Mas ainda havia um brilho de desafio em seus olhos, uma centelha de esperança que ele se recusava a deixar apagar.

“A lenda,” Valerius disse, sua voz rouca. “A luz contra a luz. O aquila.” Ele olhou para o estandarte da legião, a águia de prata que havia sido resgatada por um legionário corajoso antes da queda do castrum. Era um símbolo de Roma, de sua força e glória. Mas também era um objeto de metal polido, capaz de refletir.

Lyra assentiu. “Os antigos falavam de um espelho, um objeto sagrado que podia refletir a luz dos deuses do céu de volta para eles. Não para destruí-los, mas para… confundi-los. Para sobrecarregá-los com sua própria essência.

“Não temos um espelho sagrado,” um legionário murmurou, desesperançoso. “Temos apenas nossas espadas quebradas e nossa fé abalada.”

“Temos o aquila,” Valerius corrigiu. “É de prata. Polida. E é o coração da legião. Se há algo que pode refletir a luz deles, é isso.” Ele traçou um plano, uma ideia insana que havia se formado em sua mente desde a conversa com Lyra.

Era um plano suicida, mas era o único plano que tinham. Eles precisavam chegar perto o suficiente da entidade para usar o aquila como um foco, um condutor para a própria energia dela.

“A criatura central… ela é o coração,” Lyra explicou. “As menores são seus membros, seus coletores. Se o coração for atingido, os membros cairão.” O plano era simples em sua audácia. Eles usariam os túneis para se aproximar da entidade, emergindo no momento certo para desferir o golpe. Os legionários, apesar do medo, assentiram. A disciplina romana, embora abalada, ainda persistia. Era melhor morrer lutando, com honra, do que ser consumido pela loucura e pelo esquecimento. Valerius sentiu um peso no peito. Ele havia perdido muitos homens. Mas talvez, apenas talvez, ele pudesse salvar o que restava. E talvez, apenas talvez, ele pudesse dar a Roma uma vitória contra um inimigo que ela nunca soube que existia.