Uma vez Sonserina

4 Capítulo 4: Ecos


Acordou com a sensação de ter sido puxada de volta para o próprio corpo.

Era madrugada. A lareira apagada projetava sombras duras no salão comunal da Sonserina. Rose respirava com dificuldade, como se tivesse corrido uma longa distância. Suas mãos estavam frias. Sua cabeça, um caos.

Tentou agarrar as últimas imagens do sonho, mas tudo escapava. Lembrava-se de uma torre, alguém chamando seu nome com urgência, e uma luz vermelha — intensa, como se queimasse por dentro. Um feitiço?

Ela se sentou devagar, abraçando os joelhos. O som do relógio marcando as horas reverberava nas paredes de pedra. Sentia-se... fragmentada. Como se uma parte dela tivesse ficado em outro lugar, outra linha do tempo.

Outra Rose.

**

De manhã, o tempo virou. O céu de Hogwarts estava cinza, e o ar, pesado, como um aviso.

As aulas se arrastaram. Runas Antigas. Aritmancia. Transfiguração. Nenhuma delas ajudava a distrair sua cabeça da sensação incômoda de que estava cercada de pistas invisíveis.

Na aula de Herbologia, no entanto, aconteceu algo diferente.

— Weasley — chamou a professora Sprout, segurando um pergaminho com a lista de grupos. — Você vai com Finnigan.

— Com quem?

— Finnigan, do terceiro ano. — Sprout franziu a testa. — Como sempre.

Rose congelou. Ela nunca havia feito trabalhos com Finnigan. Tinha certeza absoluta disso. Na realidade que lembrava, ela costumava ser dupla de Amanda Corner, da Grifinória. Tinham até discutido por causa de uma planta carnívora.

— Está tudo bem, Weasley?

Ela forçou um sorriso.

— Claro, professora.

Trabalhar com Finnigan foi um exercício em paciência. Ele não sabia diferenciar uma Língua-de-Sapo de uma Tuberculosa. Enquanto ele quase derrubava um vaso, Rose observava o entorno, tentando identificar mais diferenças sutis, mais rachaduras no verniz dessa nova vida. E estava começando a encontrá-las.

Pequenas coisas. Um corredor que parecia mais estreito. Um quadro que estava em outro andar. O retrato de um bruxo que, antes, piscava com o olho esquerdo, e agora usava um monóculo no direito.

Estava tudo fora de lugar, e ao mesmo tempo, exatamente como sempre fora.

**

À tarde, resolveu ir até a biblioteca.

Não a parte comum, onde alunos cochilavam sobre pilhas de livros, mas a ala restrita. Sabia que não devia, mas… também sabia que ali poderia estar a chave de tudo.

— Você parece determinada — murmurou uma voz ao seu lado, assim que empurrou a porta pesada.

Scorpius.

Estava encostado numa das estantes mais fundas, folheando um volume grosso sobre encantamentos antigos.

— Achei que estava proibido circular por aqui sozinho — disse ela, sem conter um meio sorriso.

— E você?

— Considero pesquisa acadêmica.

Ele fechou o livro e se aproximou, devagar, com aquele olhar que parecia sempre medir o clima ao redor.

— O que exatamente você está procurando?

Rose hesitou. Havia algo na forma como ele perguntava… não desconfiança, mas uma espécie de cuidado. Como se já tivesse entendido mais do que ela gostaria de admitir.

— Sabe quando você sente que tem uma resposta na ponta da língua? — começou ela, encarando as estantes. — Como se tivesse esquecido uma palavra importante, mas quando tenta forçar a memória, ela escapa?

Scorpius cruzou os braços.

— O tempo todo. Especialmente quando acordo antes das sete.

Ela sorriu.

— Só que no meu caso, não é uma palavra. É uma vida inteira.

Ele pareceu considerar aquilo. E então, falou com a voz baixa, quase um sussurro.

— Eu tive um sonho estranho essa noite. Com você.

Rose o encarou.

— O quê?

— A gente estava num campo de quadribol. Você usava um uniforme vermelho. Ria alto. Não... não era você como é agora. Era diferente. Mais... solta.

O coração dela bateu forte.

— Grifinória?

Ele assentiu devagar.

— E quando acordei, fiquei com uma sensação esquisita. Como se tivesse visitado uma lembrança que não era minha.

Silêncio.

— Você acredita que sonhos podem ser… ecos? — perguntou ela, quase sem respirar.

Scorpius a olhou por um longo instante.

— Não sei. Mas se forem, talvez estejamos ouvindo os mesmos.

**

Naquela noite, de volta à sala comunal, Rose sentou-se em frente ao espelho da lareira. Observou seu reflexo com atenção.

Era ela. Os cabelos bagunçados de tanto prender com pressa. As sardas suaves no nariz. Os olhos castanho-avermelhados. Mas havia algo diferente. Como se o reflexo estivesse alguns segundos atrasado. Como se o espelho não refletisse apenas seu corpo, mas duas versões dela ao mesmo tempo, tentando ocupar o mesmo espaço.

Por um instante, ela jurou ver uma gravata vermelha e dourada em seu pescoço.

Piscou. E ela havia sumido.

Inspirou fundo. Ela estava começando a enlouquecer.

Ou finalmente começando a entender.

**

No dia seguinte, uma carta da mãe chegou logo após o café da manhã, entregue por uma coruja cinzenta que Rose não reconheceu. O selo era o de sempre — ou quase.

Ela passou os dedos pelo brasão em cera verde. Nunca fora verde. Aquilo já seria um indício de que tudo estava virado, mas o que realmente a abalou foram as palavras dentro.

Rose,Espero que esteja bem. Soube que você assumiu a monitoria substituta nesta semana — parabéns. Sabemos que está se saindo muito bem, e isso nos deixa felizes. Seu pai comentou que sente falta das nossas brigas sobre Quadribol, mas está impressionado com sua dedicação.Aproveite o fim de semana para descansar. Confie na sua intuição!Com carinho, Mamãe

Ficou um tempo encarando o pergaminho, lendo e relendo as mesmas linhas suaves, corretas, sem emoção. Era como se sua mãe estivesse escrevendo para uma aluna promissora, não para sua filha. Nenhuma reclamação sobre seu cabelo bagunçado, nenhum comentário embaraçoso sobre o quanto parecia com o pai quando franzia a testa. Nem sequer uma crítica disfarçada de elogio.

Tudo limpo. Irretocável.

E vazio.

Rose dobrou a carta com cuidado, como quem sela uma ferida que ainda sangra. Sentiu o nó na garganta crescer, inesperado, como se estivesse chorando por algo que só agora percebia ter perdido.

Talvez sua vida antes do feitiço não fosse perfeita — vivia pressionada, sempre se sentindo aquém das expectativas, frustrada com cada nota que não era "a melhor", cada olhada de julgamento da mãe, cada piada boba do pai... Mas, ao menos, era de verdade.

Tinha ruídos. Tinha calor.

Tinha Hugo enchendo seu saco por coisas bobas e ela ameaçando transformar os pés dele em pés de pato. Tinha noites na torre da Grifinória discutindo táticas de Quadribol com Lily e Roxanne, mesmo quando ninguém ouvia suas sugestões. Tinha a constante sensação de estar correndo para acompanhar o próprio nome — mas era o seu nome.

E agora?

Agora parecia uma cópia otimizada. Uma versão que funcionava bem demais para ser real.

Fechou os olhos e imaginou o cheiro do armário do pai, onde ele escondia os doces que achava que a mãe não sabia. Ou o barulho que Hermione fazia quando estava frustrada com um artigo, mas fingia estar calma. Nenhum daqueles sons ou cheiros estavam com ela agora. Tinham sumido.

E pela primeira vez desde o feitiço, Rose se perguntou:

E se eu quisesse voltar?

Notas finais
O que vocês estão achando? Tá fazendo sentido? Sei que falta mais momentinho Scorose, mas se acalmem que virá MUITO