Uma vez Sonserina
5 Capítulo 5: Laços
Rose sempre esperava acordar na sua realidade verdadeira — como se, em algum momento, abrisse os olhos e tudo estivesse como antes: o brasão da Grifinória bordado em vermelho na cabeceira da cama, os comentários sonolentos de sua colega sobre tarefas atrasadas, o cheiro familiar da ala feminina da torre. Mas, mais uma vez, isso não aconteceu.
Pela primeira vez desde que tudo virou de cabeça para baixo, no entanto, ela começava a entender as novas regras do jogo.
Ainda não sabia como sair daquilo, mas... conseguia sorrir brevemente enquanto observava Albus discutir com Scorpius sobre runas antigas na mesa do café, ou quando notava que seu horário de poções era magicamente mais organizado do que em qualquer outro ano. E, mesmo sem saber o motivo, agora tomava suco de uva no café da manhã.
Pequenos detalhes. Mas cada um deles era um alfinete marcando a nova geografia de sua vida.
Foi durante essa breve estabilidade que tudo se embaralhou de novo.
Zoe Thorne voltou.
— ROSIE! — exclamou uma voz aguda e alegre no corredor da Sala Comunal. — Merlim, eu tava morrendo de saudades da sua cara!
Rose mal teve tempo de reagir antes de ser praticamente atropelada por um abraço perfumado, com um leve cheiro de camomila e fumaça de lareira. O rosto de Zoe colou no seu como se fossem irmãs há anos.
— Você sumiu! — disse Rose, sem disfarçar a surpresa.
Zoe soltou o abraço, ainda com um sorriso largo.
— Você que sumiu, garota! Quer dizer, você respondeu minha coruja dizendo que tava tudo bem, mas depois não me encontrou na estufa, nem no salão... E olha, só te perdoo porque minha tia praticamente desmaterializou da noite pro dia. Foi um caos lá em casa.
Rose piscou.
— Sua tia…?
— Longa história — respondeu Zoe, afastando os cabelos do rosto com um gesto animado. — Mas estou de volta, oficialmente. E quero colocar os assuntos em dia.
Antes que Rose pudesse processar tudo, Zoe já a puxava pela mão, carregando-a até um dos sofás da Sala Comunal.
Estar perto de Zoe era estranhamente fácil.
A garota falava muito, gesticulava como se lançasse feitiços a cada frase, e exalava uma energia acolhedora que contrastava fortemente com a frieza de muitos Sonserinos.
Aos poucos, Rose foi se deixando levar, tentando reconstruir a imagem da amiga através das palavras dela. Descobriu que dividiam quase todas as aulas, que haviam feito um projeto juntas para o Clube de Duelos, que tinham planos de irem para a França nas férias (?!), e que certa vez assustaram um grupo de Primeiranistas com um fantasma falso nos corredores do sétimo andar.
— Ah! — disse Zoe, como se lembrasse de algo importante. — Scorpius vai me encontrar daqui a pouco pra conversarmos sobre o baile do final do trimestre. Você vem?
— O baile? — Rose franziu a testa.
Zoe arqueou uma sobrancelha.
— Ué, você me ajudou com a cor do vestido na semana passada. Disse que azul combinava com os olhos dele.
Rose forçou um sorriso.
— Claro. Eu… lembro vagamente.
Zoe se levantou, sacudindo a saia do uniforme e pegando a bolsa.
— Vamos. Você tem que dar sua opinião sobre o laço da cintura. E Scorpius disse que pode nos mostrar a música que compôs pro coral — Zoe fez uma careta. — Apesar de eu achar que é mais sobre você do que ele admite.
Rose parou de andar.
— Como assim?
Zoe olhou para ela, surpresa.
— Ah, não faz essa cara. Todo mundo sabe que vocês têm aquela conexão esquisita. Vocês se entendem até no silêncio, é meio irritante. Mas tá tudo bem — acrescentou, rindo. — Eu aprendi a não me importar.
Ela piscou, brincalhona, e seguiu à frente.
Mas Rose não se moveu por um momento. A frase ecoou em sua mente de um jeito incômodo, como se alguém tivesse lido uma carta privada em voz alta.
**
No Salão Comunal, Scorpius estava sentado em um dos sofás do canto, cercado por pergaminhos, e — claro — um violino flutuando a poucos centímetros de distância, dedilhado por um feitiço automático enquanto ele revisava as partituras.
Zoe chegou antes, sentando-se ao lado dele com naturalidade, ajeitando a franja que teimava em cair nos olhos.
— Ei, sumido.
Ele sorriu de lado.
— Eu estava te esperando.
Rose ficou alguns segundos parada antes de se aproximar. Observou como os joelhos dos dois se tocavam ao sentarem juntos, como Zoe riu de um comentário sussurrado por Scorpius, como a mão dele ficou tempo demais pousada no braço do sofá atrás dela.
Não era explícito. Não havia beijos, nem juras. Mas havia intimidade. E isso incomodou.
Rose sentou-se do outro lado, tentando manter a expressão neutra.
— Querem ouvir? — perguntou Scorpius, pegando o violino.
Ele tocou. A melodia era simples, mas tocante. Algo entre melancolia e esperança. Zoe fechou os olhos, se perdendo na música.
Rose não conseguia.
Ela observava Scorpius com atenção, procurando traços de sentimentos que não sabia nomear.
E percebeu, com uma pontada no peito, que conhecia aquela música.
Na sua realidade original, Scorpius havia escrito algo parecido quando a avó dele faleceu. Mostrara apenas a ela, num final de tarde chuvoso.
Ele chamara de “Lembrança sem rosto.”
Mas ali, naquele mundo, a música existia. E não era dela.
Não completamente.
**
Mais tarde, já sozinha em seu dormitório, Rose se jogou na cama e encarou o teto.
Zoe, aparentemente, iria encontrar Scorpius de novo depois do jantar.
Não era ciúme.
Não podia ser ciúme.
Era apenas… desconforto.
Inquietação.
Talvez medo.
Porque a verdade era que Rose não sabia mais quem ela era naquela realidade.
E menos ainda sabia quem era Scorpius para ela.
Mas se havia uma certeza que restava em meio ao caos…
Era que ela não suportaria vê-lo se apaixonar por outra pessoa, mesmo que essa outra pessoa fosse — tecnicamente — sua melhor amiga.
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