Uma segunda chance

30 Capítulo 30 - Quando tudo parece desmoronar


Notas iniciais
O capítulo se passa ainda no quinto mês, exatamente após o término do cap. 29. Caso alguém ainda tenha dúvida, a fic é de drama e angst, com algumas poucas cenas de comédia para aliviar a tensão. O casal principal não é Sterek, e a fic é centrada no tio Peter. Por mais que goste de reviews, e-mails e msgs, a fic não é fan service. Então, não adianta bater o pé exigindo determinadas cenas, porque não vai rolar, a não ser que se encaixe no contexto já apresentado e realmente acrescente alguma coisa à fic. E o mais importante de tudo: aqui o tio Peter é um Uke com U Maiúsculo, ok? Daqueles que negam até o final para o seme, só para ceder com lágrimas nos olhos :P Quer ler ele machão? Vai ler outra fic, porque vai perder seu tempo aqui. Sugiro deixar o Kleenex a mão para a leitura deste capítulo. E não arranquem seus cabelos. Só mais alguns capítulos e o sol começa a brilhar para o tio Peter, mais forte do que jamais brilhou, ok?

Ele ficou surpreso quando abriu a porta e viu o lobisomem pedindo sua ajuda. E mais surpreso ainda quando percebeu que ele estava sendo sincero.

Acabaram passando o dia inteiro juntos arrumando os detalhes. Não que tivesse muito que arrumar, já que o mais novo já tinha tudo planejado.

–Você tem certeza que quer fazer isso, Peter? – falou David Whittemore ao entregar o documento que tinha redigido que concedia a guarda de seus dois filhos para o caçador e o que pedia a retirada da medida cautelar contra ele.

–Absoluta – ele respondeu ao pegar os papéis e assinar.

Estava feito, não tinha mais volta. Ele esperara meses para finalmente colocar seu filho em segurança, mas agora que tinha conseguido o que queria, não estava feliz. Nem se sentia bem.

Eles seguiam em silêncio até a Mansão, para que ele pudesse buscar os adolescentes. Mas o silêncio o incomodava. Ele tentava ignorar a presença do outro, mas era difícil.

O lobisomem que ocupava o banco do passageiro de seu carro olhava pela janela, desolado.

Ele parecia pequeno e frágil, apesar de seus trinta e poucos anos, sentado encolhido e o mais longe possível do caçador. E Chris se sentia culpado ao pensar em como uma criança feliz e doce tornou-se aquele adulto triste e miserável.

Ele tinha feito uma promessa à Thalia. Prometeu que cuidaria dele quando ela não pudesse. Mas ele não cuidara. Limitara-se a tirá-lo de problemas, mas nunca realmente se deu ao trabalho de escutá-lo. Julgou suas ações, mas nunca se perguntou o que o levava a fazer o que fazia. Só via um garoto problema querendo chamar atenção. Mas não era atenção que ele pedia, era socorro. E ninguém deu ouvido.

Allison estava incerta se falava algo sobre a visita de Peter logo de manhã ou não. Bufando, ela foi até a mesa VIP.

–Você é um babaca – ela disse para Derek.

–Bom dia para você também – ele respondeu com uma sobrancelha levantada.

Ela fez uma careta e se sentou junto a eles.

–Peter foi até a minha casa hoje de manhã – ele decidiu ser direta.

E isso ganhou a atenção de toda a alcateia.

–Fazer o quê? – perguntou Stiles.

–Pedir ajuda.

–Isso não faz sentido. Eles se odeiam – retrucou Isaac.

–Eu não acho que se odeiem. Não se lembram de quando ele entrou no cio? Meu pai cuidou dele a noite toda.

–Ainda tenho pesadelos com isso – resmungou Derek, fazendo todo mundo olhar em sua direção.

Jackson abafou uma risadinha. Realmente tinha sido extremamente bizarro encontrar o caçador sem camisa na cozinha fazendo o café.

–Você está dizendo o quê, então? Seu pai é afim do Peter? – Scott perguntou confuso.

–Não, claro que não. É diferente – falou Allison.

–Ele o vê como filho – explicou Lydia entediada – O quê? – ela perguntou quando viu todos olhando para ela – Está na cara, poxa. Vocês são muito lerdos para ligar os fatos.

–Isso é ridículo – Isaac falou emburrado – Se é assim, por que ele o trata tão mal?

–Vai ver ele não é o filho favorito – comentou Jackson.

–Isso não tem a mínima importância. O que eu quero saber é o que diabos ele foi fazer na sua casa – falou Derek irritado para a meia-irmã.

–Eu não sei – ela respondeu – Mas acho que seria uma boa ideia darmos uma investigada – ela disse determinada e os outros concordaram e começaram a levantar. Lydia continuou sentada e cruzou os braços.

Rapidamente eles juntaram seus materiais, mas hesitaram quando viram a ruiva sentada.

–Você não vem?

–Não acho que tenha que ir. É assunto deles – ela respondeu, olhando as unhas.

Ela não precisava investigar para saber o que ele pretendia. Ela sabia.

Scott pareceu pesar suas palavras. Lydia era inteligente e ele confiava nela.

–Olha, as minhas notas estão péssimas. Não posso bolar aula só porque estou curioso. Qualquer problema, vocês me ligam – ele falou, olhando para a namorada, que concordou. E ele se sentou novamente com Lydia, e com Jackson que sequer tinha se abalado.

Eles chegaram à Mansão em menos de dez minutos e estranharam o carro do caçador estacionado na frente da casa.

–Pai! – chamou Isaac, entrando na casa correndo à procura do lobisomem.

Os outros foram atrás dele e ficaram espiando quando viram os dois no quarto.

–Acho que não cabe mais – reclamou Peter.

–Tem certeza? Não foi quase nada ainda – o caçador respondeu.

–É claro que eu tenho certeza!

Os adolescentes arregalaram os olhos quando ouviram a cama rangendo, como se alguém tivesse pulado nela.

–Viu? Coube tudo – falou o caçador e os adolescentes entraram no quarto esperando o pior. E tomaram um susto quando viram o caçador sentado em cima de uma mala de viagem e o lobisomem segurando uma xícara de café.

–O que está acontecendo aqui? – perguntou Derek com cara de poucos amigos.

–Vai fugir?! – perguntou Stiles ao ver a mala e a expressão culpada de Peter – Não acredito que vai fazer isso com o meu pai. Ele vai ficar arrasado! – Stiles falou, saindo do quarto, pegando o celular.

–Mas essas não são as roupas dele. São as minhas – falou Isaac com a voz fraca.

–Eu posso explicar – falou Peter.

–Você está me expulsando? – perguntou Isaac assustado com a ideia.

–Não é nada disso – negou Peter.

–O que está acontecendo, pai? – a garota perguntou para o pai que assistia a cena sem muita paciência.

–Allison, eles vão passar um tempo com a gente. Hale e eu... – ele começou a explicar, mas foi interrompido.

–Desde quando você decide alguma coisa com ele? – Derek o cortou rispidamente — Fala que ele está mentindo, Peter – ele pediu temeroso.

–É só por um tempo – Peter falou, não encarando nenhum dos jovens nos olhos.

–Eu não acredito que você está se livrando da gente! – esbravejou Derek.

–Eu não estou me livrando de ninguém. É só por um tempo – negou Peter.

–E por que ele? Por que agora? E a alcateia? Não significa nada? – insistiu Derek alterado.

–Eu não quero ir, quero ficar com você – Isaac disse com a voz embargada.

–Não – Peter falou resoluto — Vocês vão com ele – ele falou sério e pegou a mala, levando-a do quarto – Estarão a salvo lá – ele completou em voz baixa.

–A salvo de quê? Do que é que você tem medo? – insistiu Derek, indo atrás dele.

Quando estava descendo as escadas com a mala, ele deu de cara com John, que chegava esbaforido.

–Mas que diabos está acontecendo aqui? – ele perguntou já alterado quando viu Peter com a mala e percebeu que Stiles não estava exagerando ao telefone.

Quando Chris viu que Peter hesitou, decidiu tomar a frente. Ele desceu as escadas, pegou a mala da mão do lobisomem e levou-a até a outra, pois aparentemente a mala de Derek já estava pronta.

–Eu vim buscar o meu filho e o Isaac – falou o caçador e John direcionou sua indignação para ele.

–E o que te faz pensar que você pode entrar na minha casa e arrancá-los daqui? – ele falou ríspido, com a mão na sua arma.

–Isso – o caçador respondeu calmamente enquanto passava o documento que lhe dava a guarda dos dois provisoriamente para o xerife.

John leu o papel e o fechou. Olhou com raiva para Peter que se encolheu. Entregou o papel de volta ao caçador e foi pegar as malas dos dois.

Ele virou para os dois que o olhavam com uma expressão traída e explicou:

–Ele tem a guarda de vocês. Eu sinto muito.

–E você vai simplesmente deixa-los ir? Vai compactuar com isso?!– indignou-se Stiles.

–É claro que não, Stiles. Mas não há nada que eu possa fazer agora – ele respondeu irritado – Eu vou procurar um advogado e vamos resolver isso – ele prometeu — Mas por enquanto, vocês vão com ele – ele disse – Só marque minhas palavras, Argent. Se eles voltarem com um só arranhão ou um fio de cabelo fora do lugar, eu mato você. Eu fui claro? – ele falou, indo para cima do caçador, que não se abalou.

–Cristalino – Chris respondeu com um sorriso falso.

John os levou até o carro. Stiles ainda bufava não querendo ficar longe do namorado, Allison parecia chocada com a situação, Isaac estava chorando e Derek olhava Peter com raiva.

Eles se despediram de Stiles, que entrou em seguida no seu jipe, para segui-los. John deu um abraço rápido em Derek, que fez questão de sequer olhar na direção de Peter, e em seguida deu um abraço em Isaac, que parecia não querer soltá-lo.

–Você fez a coisa certa, Hale – Chris falou apertando o seu ombro. Peter não respondeu.

Allison, que já estava quase no carro, quando viu que nenhum dos adolescentes pretendia se despedir de Peter, correu ao seu encontro e lhe deu um abraço rápido.

–Eles só estão chateados. Não fique assim – ela falou quando viu que o lobisomem não conseguiu mais segurar as lágrimas – Eles te amam e você sabe disso – ela enxugou suas lágrimas e lhe deu um beijo no rosto quando seu pai lhe chamou.

Ela estava errada. Havia uma tênue linha entre o amor e o ódio, e ele a cruzou. Eles o odiavam agora.

Ele observou o carro indo embora, e sentiu seu coração falhar quando não conseguiu mais vê-los.

–Stiles! – chamou John, enquanto o garoto dava partida no seu jipe – Stiles! – ele gritou, mas o garoto não podia ouvi-lo. Já tinha arrancado com o carro.

Ele viu John gritar e passar as mãos no cabelo. Ele parecia irado. E Peter teve que se conter para não sair correndo dali quando o outro lhe encarou.

–Por quê? Por que, Peter?

–Porque era o único jeito – o lobisomem respondeu com uma voz fraca.

–Isso não está certo. Você não pode sair tomando esse tipo de atitude sem me falar nada – o xerife dizia apontando para o mais novo.

–Não era para ter sido assim. Eles vieram mais cedo – Peter tentou explicar.

–O que interessa a hora em que chegaram, Peter? Você já tinha feito tudo! – ele disse, jogando os braços pra cima – Eles são seus filhos, Peter. Você não pode simplesmente se livrar deles quando te convém. Não é assim que funciona – John tentava fazer com que o outro visse o absurdo da situação – Temo só de pensar o que você vai fazer com o bebê quando ela chorar de madrugada. Vou acordar de manhã e descobrir que você deu nossa filha para o lixeiro porque ela fazia barulho demais! – ele completou irônico e se arrependeu no mesmo instante quando viu uma lágrima escapar pelo rosto do mais novo – Sinto muito, isso foi desnecessário.

–Você acha que eu os quero longe de mim? Que eu gosto disso?! Isso é um pesadelo! – Peter desabafou – Mas não posso não fazer nada contando que tudo vai melhorar. E se não melhorar? Você quer correr o risco? Eu não quero – ele falou alterado.

–Risco? Do que você está falando? – John perguntou confuso.

–Eu ataquei o Isaac achando que ele era outra pessoa! – Peter admitiu, era a primeira vez que falava claramente sobre o que tinha acontecido.

–Eu sei disso. Você nunca faria mal a ele. Ele também sabe disso. Não vai acontecer de novo.

–Eu achei que ele era o Martin – ele confessou, não encarando os olhos do outro – Eu o vejo desde o dia em que brigamos.

Só então John se lembrou de Pi falando que levou Peter para ver o defunto que ainda na banheira, mas que ele tinha sumido. Mas isso tinha sido há quase dois meses!

–E por que você não falou nada?! – ele pegou nos braços do mais novo, assustando-o – Por que escondeu isso?

Peter parecia não saber o que dizer, sua boca abria e fechava e as palavras simplesmente não saíam.

–Fala, caramba! – John o sacudiu.

–Eu fiquei com medo – ele admitiu se encolhendo – Com medo que você me deixasse – ele pensou consigo mesmo – E com vocês por perto, ele me deixava em paz – ele explicou.

E tudo fez sentido. O estresse que ele tinha. Como ele parecia melhor logo após o casamento. Como passou a comer menos depois que John voltou para o serviço.

–Eu não posso arriscar – Peter falou triste e John soltou seus braços e s aproximou, encostando suas testas – E se tivesse sido o Stiles? Ele poderia estar morto agora. Lá, eles estarão a salvo.

–E por que lá? Aquele cara te odeia! Eles poderiam ter ficado com o Jackson ou com a Melissa. Poderíamos ter pensado em outra coisa.

–Lá, eles estão a salvo de mim e dos alfas.

John fechou os olhos e respirou fundo.

–Você pensou em tudo – ele comentou cansado – Merda, eu vou acabar não vendo o Stiles nunca se ele ficar lá atrás do Derek – John comentou e Peter abaixou os olhos, não conseguindo encará-lo.

John percebeu a apreensão do outro e se afastou, olhando-o. E só então ele entendeu o motivo. Com Derek lá, obviamente Stiles também iria, mesmo que não oficialmente. Ele acabaria usando a Mansão só como dormitório, passando quase que o tempo todo junto do outro e consequentemente longe de Peter.

–Você não tinha o direito – John falou com raiva do outro.

–Eles ficarão a salvo lá. Todos eles – ele respondeu desesperado.

–Ele é meu filho! Meu! – o xerife gritou indo para cima do lobisomem que se encolhia diante de sua raiva. Ele abria e fechava os punhos com força. Seu rosto estava vermelho, e se Peter não fosse seu marido e estivesse grávido, John já teria lhe enchido de socos. Mas ele era, e por isso ele tentou se acalmar respirando fundo – Você está afastando todo mundo que gosta de você. Não reclame quando ficar sozinho – John o alertou, saindo com passos largos de volta à Mansão. Não aguentava sequer olhá-lo no momento.

–Não se preocupe, nunca vou deixar você – comentou Martin, colocando os braços nos ombros do irmão e apertando-o contra o seu corpo.

O dia passou, e como John e Peter previram, Stiles só retornou no final da noite. Peter procurou dar espaço para que John se acalmasse, e procurou se ocupar. Ligara diversas vezes para o caçador ao longo do dia para checar como os filhotes estavam, e passara o resto do dia cozinhando.

Ficou triste, mas não surpreso, quando os dois Stilinski simplesmente ignoraram sua presença, e só foram comer quando ele subiu para se deitar.

Ele subiu, tomou uma ducha e se deitou. Mas não conseguia dormir com Martin ao seu lado, falando o tempo todo. Suspirou aliviado quando percebeu que John tinha se deitado também.

Ele virou para o lado abraçando o marido, como fazia todas as noites. Mas John não parecia ter se acalmado ainda, e tirou seu braço de sua cintura, aumentando a distância entre eles.

Peter suspirou e se levantou. Não conseguiria dormir de qualquer jeito. Foi para a sala e ligou a tevê num canal bobo com reprises de Jeannie é um gênio. Martin sentou-se ao seu lado.

–Esse programa é uma merda – comentou Martin ao colocar a mão em sua perna.

Ele sorriu sacana quando sentiu o outro tremer com seu toque e deixou seus dedos escorregarem para a parte interna da coxa do outro. Peter começou a chorar. Ele empurrou o corpo do mais novo, deitando por cima.

–Eu adoro quando você chora – murmurou o outro em seu ouvido.

A noite não tinha sido menos frustrante na casa dos Argent. Isaac não havia parado de chorar e se encolhia cada vez que Chris tentava se aproximar. Derek batia de frente com o caçador, e fazia questão de esfregar o namorado na cara do pai biológico. Não que Stiles reclamasse de ser beijado, mas ser quase molestado na frente do caçador era provocação demais.

O telefone tocara o dia todo, e Allison corria para atender cada vez que tocava. Numa das vezes, ela tentou passar o telefone para Isaac, que parecia aliviado, mas foi impedida por Derek, que pegou o telefone de sua mão e desligou. Stiles tinha uma boa ideia de quem tinha ligado.

Stiles ficou surpreso quando viu que Chris preparara o jantar sozinho, sem nenhuma ajuda de Allison. Ele o observou e viu que ele lhe lembrava de alguém. E lembrou-se do que Lydia havia dito de manhã sobre o relacionamento entre Peter e o caçador. Ele era cuidadoso e meio coruja como Peter, mas obviamente bem mais grosseiro e sem muita paciência.

Ele certificou-se que todos tinham se servido e somente depois se sentou para comer, exatamente como Peter fazia. Ele não tinha levantado a voz e nem ameaçado ninguém com uma arma, o que devia ser algum tipo de recorde. Ele realmente estava fazendo um esforço.

Essa constatação foi a única que fez com que Stiles fosse embora um pouco mais tranquilo.

Depois que ele saíra, Derek pareceu perder a vontade de discutir e limitou-se a obedecer, o que fez com que o caçador suspeitasse de suas intenções.

O caçador fez questão de seguir seus passos até a hora de dormirem, checando-os a cada cinco minutos.

–Derek, eu não quero ficar aqui – falou Isaac choramingando, com a cabeça em seu ombro, deitado do lado do irmão.

–Nem eu – ele respondeu com a voz baixa, enquanto escondia sua boca com um gibi que fingia ler – Mas enquanto ele não abaixar a guarda, nós estamos presos aqui – ele falou e largou o gibi num canto.

Peter acabou dormindo no sofá, e quando o John acordou para se arrumar no dia seguinte, o encontrou lá com marcas de lágrimas pelo rosto. Ele se sentiu mal, mas conseguiu conter o impulso de leva-lo para a cama. Peter tinha agido pelas suas costas, e ele não poderia simplesmente esquecer isso. Conversariam depois.

Stiles desceu logo em seguida, e teve uma reação similar a de seu pai. Era de sua natureza ajudar o próximo, mas ele tinha passado por cima de todos, sem nem ao menos dar-lhes uma explicação. E só de lembrar-se da indignação do namorado, que teve sua família desfeita outra vez e da desolação de Isaac, ele virou as costas e foi para a cozinha. Já estava na hora de Peter arcar com as consequências de suas ações.

Peter abriu os olhos quando os dois saíram, mas não se mexeu. Não tinha ânimo para isso. Doía perceber que tinha se tornado invisível, irrelevante, como uma parte da mobília. E não pôde deixar de se questionar se eles notariam sua ausência.

–Eles são só humanos. Só perceberiam dias depois quando você estivesse podre e fedendo – Martin respondeu sorrindo e beijando seu rosto.

Peter tinha medo de ser abandonado e esquecido pela família novamente, de se tornar um estorvo tão grande que todos não pensassem duas vezes antes de convidá-lo a se retirar e cuidar sozinho do bebê. Por meses esse foi o seu maior medo. E agora, com Martin ali, essa possibilidade não parecia tão ruim. De fato, um futuro sem Martin parecia promissor.

–Eu venho pegar vocês na saída. Comportem-se – disse Chris, antes de destravar as portas do carro.

–A gente pode pegar uma carona depois, pai. Como a gente faz todo dia – falou Allison com um sorriso amarelo.

–Até o horário da saída – ele respondeu seco, e ela saiu revirando os olhos. Derek balançou a cabeça e saiu puxando Isaac do carro.

Os três andaram cabisbaixos até a entrada da escola.

–Olha, ele vai parar logo com isso – Allison comentou – Ele só tem mania de perseguição. Quando ele tiver certeza de que não tem ninguém seguindo a gente, ele vai maneirar – ela falou para eles.

– Não se preocupe. Nós vamos nos acostumar – Derek falou e deu um sorriso fraco para a meia-irmã, que sorriu radiante e foi para sua aula depois de se despedir dos dois.

Quando ele viu que ela estava longe e não prestava atenção neles, ele virou para Isaac, com uma expressão raivosa, idêntica ao seu eu de vinte e três anos, e disse:

–Não vamos ter que nos acostumar com nada. Assim que ele bobear, nós vamos fugir daquela casa de malucos – ele falou e Isaac o olhou esperançoso.

Os dias seguintes passaram voando e nada mudou na Mansão. John e Peter não tinham conversado novamente desde a última briga quando os adolescentes foram embora, e Stiles não tinha ideia de como puxar assunto.

Peter não mais tentara nenhum contato com os dois e mantinha-se afastado. As refeições ainda continuavam sendo postas nos horários de costume, mas ele não mais comia com eles. John sequer tinha certeza de que ele comia, já que ele parecia mais magro do que antes.

John estava cansado daquilo. A raiva já tinha passado e agora a culpa o destruía por dentro. Peter tinha lhe explicado todos os seus motivos, e vendo o estado lastimável do lobisomem, ele não podia deixar de concordar. Peter não tinha a menor condição de cuidar de alguém no momento.

Ele olhou sua mesa lotada de serviço, e olhou o relógio. Faltava uma hora para a consulta no psiquiatra, e ele duvidava que Stiles voltasse para leva-lo.

–Eu vou dar uma saída e já volto – ele disse ao passar pela recepção da delegacia.

Dirigiu apressado até a reserva, mas quando chegou não achou ninguém em casa. Tirou seu celular, ligando para o filho.

–Peter está com você? – ele perguntou, sem nem ao menos cumprimentar o filho.

–Não, achei que você fosse leva-lo à consulta – respondeu Stiles.

John tirou o telefone da orelha e passou as mãos nos cabelos, exasperado. Será que ele tinha feito algo idiota?

–Pai! Pai! – gritava Stiles, tentando chamar atenção de John. John levou o telefone para a orelha novamente – Quer ajuda para procura-lo? – ele perguntou, chamando atenção de Derek e Isaac, que estavam com ele na sala dos Argent.

–Não. Fique aí – John falou antes de desligar.

A consulta já tinha começado há quase quinze minutos, e Peter não tinha aberto a boca, exceto para responder com monossílabos. Peter era de longe o paciente mais complexo do doutor Gregory, e por vezes ele pensara em desistir e passar o paciente para um psiquiatra mais experiente. Mas Peter não reagiria bem a isso. Veria como um abandono e se fecharia mais ainda.

–Eu li as anotações que você trouxe, Peter. Você quer conversar a respeito? – ele se referia às anotações que Peter e Adam fizeram nos últimos meses. Como Peter não conseguia falar sobre o assunto, ele pegou as anotações com o amigo e trouxe para o psiquiatra.

Peter balançou a cabeça em negativa.

Gregory suspirou. Aquilo não estava progredindo em nada.

–Ok, vamos falar de outra coisa. Como vai o casamento? – ele tentou um tema mais light, para animar o paciente e fazê-lo se abrir.

Mas teve o efeito contrário, porque Peter se encolheu e ficou com os olhos marejados.

–Não vai bem? – ele perguntou, fazendo algumas anotações.

Peter balançou a cabeça e algumas lágrimas escaparam de seus olhos.

–O que aconteceu? – ele perguntou depois de checar suas anotações.

E o lobisomem contou tudo que acontecera nos últimos dias, como ele tinha deixado os filhos com Chris Argent, que era o pai biológico de um deles. Como eles cortaram qualquer tipo de contato com ele, não respondendo nenhum telefonema. Como John se segurara para não agredi-lo, e como parecia enojado com sua presença. Como ele evitava sequer comer em sua presença e o ignorava o tempo todo. E como Martin o atormentara o tempo todo que ele estava sozinho.

Gregory achou estranho o relato, pois o xerife e os outros membros da família sempre se mostraram preocupados com o seu paciente, fazendo questão de leva-lo para cima e para baixo. Achava que Peter estava exagerando.

–Como você veio para cá hoje, Peter? – ele perguntou despreocupado.

–Andando – Peter respondeu de pronto.

–Andando? – Gregory estranhou. A reserva ficava a mais de vinte quilômetros do consultório – Você quer dizer de carro?

–Não – Peter respondeu, e se calou.

Eles passaram mais alguns minutos em silêncio com Gregory fazendo algumas anotações.

–Então você veio andando vinte quilômetros só para não perder a consulta? – Gregory tentou entender.

–Eu esperava que você me fizesse mudar de ideia – Peter falou, encarando-o. Gregory sentiu um calafrio percorrer sua espinha.

Gregory olhou espantado para o seu paciente. Ele pensava mesmo em jogar a toalha? Isso era injusto. Se tudo que o que tinha lido era verdade, Peter tivera uma vida miserável. Merecia uma vida melhor, equilibrada. Ele não deixaria que ele desistisse assim tão fácil.

–É o que pretendo, Peter – ele disse sério e o lobisomem o olhou aliviado. Parecia que ele tirara um peso de suas costas – E para isso, acho melhor nos vermos todos os dias – ele completou.

Peter levou quase três horas para chegar em casa depois da consulta. E quando chegou finalmente em casa, já estava escuro.

–Onde você estava? – John gritou quando o viu, chamando atenção de Stiles que estava na cozinha e veio ver do que se tratava a confusão – Quer me matar do coração?

–Estava na consulta – ele respondeu, recuando cada vez que o outro avançava em sua direção.

–Mentira! Eu vim aqui para te levar para a consulta e você não estava – o xerife vociferou, pegando em seu braço.

–Eu fui andando – Peter afirmou, soltando seu braço da mão do outro e subindo as escadas rapidamente, enquanto John xingava-o no andar de baixo.

Já era quase meia-noite e John estava sentado na cozinha, ao lado de uma garrafa de uísque pela metade quando o telefone tocou.

–Quem é? – perguntou uma voz aflita.

–Quem tá falando? – John perguntou mal-humorado.

–É o Chris Argent. Eu quero saber se o Derek e o Isaac voltaram para aí – ele explicou o motivo de sua ligação.

–Não, eles não vieram. Por que eles viriam para cá se você fez o pai deles chutá-los daqui?! – ele respondeu torto.

–Você tem alguma ideia de onde eles possam estar? – Chris ignorou a grosseria e continuou checando informações.

–Você perdeu os garotos?! Eu não acredito que você conseguiu a proeza de perder dois adolescentes debaixo do seu próprio teto! – John vociferava no telefone. Stiles, ouvindo seus gritos, desceu as escadas. Assim como Peter.

Quando John viu Peter olhando assustado para ele, ele surtou.

–“Eles estão a salvo lá” – John imitou-o, largando o telefone – Está feliz agora? Seus filhos sumiram! – ele falou olhando para o lobisomem – Você tanto fez que destruiu sua família. Eles sumiram e a culpa é só sua – ele completou encarando o lobisomem. Stiles pegou o telefone largado e começou a conversar com Chris. Ele tinha algumas ideias de onde Derek poderia ter ido.

Peter ouviu as palavras do marido e eles se repetiam num mantra maldoso em sua cabeça. Seu coração disparou e ele sentiu algo gelando por dentro ao pensar que os dois poderiam ter sido pegos pelos alfas, que poderiam estar passando pela mesma coisa que ele passara na mão do alfa que o atacara ou até pior.

Sua pele formigava e por um breve instante ele parecia não mais caber em si mesmo. Era uma sensação estranha. Ele podia ouvir John falando alguma coisa, e Stiles gritando também, mas não conseguia entender o que era. Estavam longe demais. E de repente, tudo pareceu maior, em câmera lenta e azul. Ele viu as expressões horrorizadas dos dois, mas isso não importava mais, ele tinha que achar seus filhotes antes que algo de ruim acontecesse.

John estava com raiva de tudo que acontecera nos últimos dias, estressado e com ciúmes. Sabia que não tinha direito de jogar na cara do outro uma culpa que não lhe cabia. Ele fizera de tudo para protegê-los, até mesmo abrir mão dos dois. Mas o álcool deixava sua língua solta, e antes que ele pudesse registrar o que tinha falado Peter o olhava arrasado. Ele viu seu corpo tremer e parecia que estava tendo um ataque de pânico. Seu corpo se contorceu por alguns segundos e num piscar de olhos, Peter não estava mais lá, e sim um lobo acinzentado. Ele tentou chama-lo. Mas Peter parecia não entendê-lo. E antes que ele pudesse pará-lo, o lobo saiu correndo noite afora.

–Isso foi tão legal – Stiles vibrou, dando um soco no ar, mas parou quando o pai lhe olhou feio.

Ele correu a cidade toda, seguindo o rastro dos dois, e os encontrou dormindo abraçados no chão imundo do trem abandonado onde eles moravam antes.

Ele ficou tão feliz ao vê-los que correu na direção dos dois, os cheirando e lambendo.

Eles acordaram no susto, com um lobo enorme em cima deles, separando-os. E em seguida, andando em círculos em volta dos dois.

–Fique parado – falou Derek para Isaac, que tremia, enquanto o lobo o cheirava – Ele só está checando se estamos bem – ele explicou.

–Você o conhece? – Isaac perguntou e Derek sorriu ao se abaixar e ficar no nível do lobo.

–Sim, e você também – ele respondeu ao acariciar atrás da orelha do lobo, que inclinou a cabeça, totalmente entregue ao carinho – É o Peter – ele falou e Isaac se aproximou do lobo, sorrindo.

Derek parecia fascinado porque Peter lembrava muito a sua mãe. E não se incomodou nem um pouco de Peter continuar cheirando e lambendo os dois até se certificar de que os dois estavam em perfeitas condições. Peter estava lá, os tinha achado e se importava. Suspirando, ele tirou o celular do bolso.

–Eu sei que vou me arrepender, mas voltamos para casa assim que você melhorar – Derek, falou para o lobo, que só inclinou a cabeça. Não parecia ter entendido nada que ele falou. Derek riu – Oi, é o Derek. É, eu fugi. Eu sei que não deveria ter fugido, mas você é um saco e eu estava com saudades do meu pai – ele deu uma pausa, parecia ouvir o que outro dizia – Claro que resolveu. Ele está aqui e virou um lobo. Dá para acreditar? Ele me achou bem antes que você. Você está ficando velho, Argent – ele riu e afastou o telefone da orelha quando o caçador começou a xingar. Peter uivou.

Quando Peter notou que Isaac pareceu desanimar depois que o outro falou no telefone, ele deu uma lambida em seu rosto. Isaac riu e ele fez de novo. Quando o filhote parecia mais animado, Peter deitou no chão bem ao seu lado, enquanto Isaac passava a mãos pelos seus pelos.

Algum tempo depois, Scott e Jackson apareceram por lá. Tinham ouvido o uivo de Peter e foram checar. Peter pareceu não se importar com a presença dos dois. Mas quando eles ouviram movimentos vindos da entrada, todos ficaram em guarda. Seriam os alfas chegando?

Peter levantou e olhava fixamente para a entrada. Ele se colocou na frente do grupo e começou a rosnar. Seus pelos estavam em pé do pescoço ao rabo que estava reto, seguindo a linha de sua coluna. Ele tinha a parte dianteira abaixada e a de trás erguida e parecia pronto para atacar qualquer um que se aproximasse.

Quando a porta abriu, Peter rosnou e correu para o ataque.

Chris tinha sua arma apontada e se preparava para atirar quando Peter parou e o encarou. Parecia tê-lo reconhecido. E passou batido por ele, claramente não o considerando uma ameaça. O lobo então voltou para perto dos filhotes.

Quando John se aproximou dos dois adolescentes, Peter se encolheu, abaixou as orelhas, e escondeu o rabo entre as pernas.

–Vocês estão bem? – John perguntou, passando a mão nos cabelos de Isaac, antes de puxá-lo para um abraço.

–Sim – respondeu o adolescente – Vocês que não parecem muito bem – ele comentou e John suspirou. Aquilo era a mais pura verdade.

–Vamos dar um jeito – John disse, se abaixando e fazendo carinho no lobo, que se derreteu todo rolou no chão mostrando a barriga. John riu e fez carinho. Isaac riu quando viu que toda vez que John mexia na barriga de Peter, sua pata traseira mexia no mesmo ritmo.

Eles decidiram ficar por lá até que Peter voltasse ao normal, mas ele não parecia dar nem indícios disso. Ele não parecia entender o que falavam e não conseguia se comunicar. Estava ficando cansado e choramingava deitado no chão.

–Eu realmente acho que devíamos leva-lo para o meu chefe. Ele não parece muito bem – sugeriu Scott, ao ver Peter prostrado no chão.

Por fim, Scott ligou para Deaton, já que passavam das três da manhã, que os recebeu na clínica. Ele olhou Peter, riu, e foi pegar um saco com pó numa gaveta escondida atrás do fundo falso do armário.

–Por que ele não volta ao normal? – Scott perguntou, estranhando a reação do chefe.

–Porque ele não sabe como – ele respondeu, abrindo o saco e separando uma pequena quantia – Isso deve dar – ele disse e soprou a pequena quantia no nariz do lobo, que espirrou, e voltou a ser um humano – Como se sente? – Deaton perguntou, examinando os olhos do lobisomem, que piscava pesadamente e tentava se afastar de suas mãos.

Peter dormiu antes que conseguisse responder.

Ele abriu os olhos e estranhou o teto. Aquele não era o seu quarto. Ele não conhecia aquele lugar. Ele levantou e reparou que estava nu, mas antes que pudesse entrar em pânico, ele viu suas roupas dobradas em cima da poltrona perto da cama.

Ele se vestiu rapidamente e desceu as escadas, procurando não fazer barulho algum.

–Finalmente acordou – o caçador que estava sentado na sala lendo jornal falou – Eles se negaram a deixar você sozinho com o xerife no estado que você estava e me fizeram te trazer para cá – o caçador explicou ao ver a expressão confusa do lobisomem – Eles foram para a escola – ele falou, quando viu que o outro parecia procurar por eles com o olhar – Todos os sete adolescentes, Hale. A amiga da Allison chegou depois e passou a noite aqui também – ele falou a contragosto.

–Eu sinto muito, falarei com eles – ele disse incomodado por estar sozinho com o caçador.

–Não se preocupe. Depois de três dias eu me acostumei com o barulho e com o fato da minha casa ter virado uma creche – ele respondeu, se levantando e indo fazer o café.

–Três dias? – perguntou Peter, seguindo-o inconscientemente.

–É, nem mesmo o beijo do seu príncipe encantado te acordou – Chris, falou, pegando ovos e bacon da geladeira – E eu tive que ameaçar atirar nele, para ele ir trabalhar.

E Peter sentiu seu rosto corar, e não pôde deixar de ficar feliz ao pensar que John ainda se preocupava com ele.

Ele deve ter ficado muito tempo perdido em seus pensamentos, pois quando deu por si, o caçador estava parado a sua frente, servindo seu prato.

–Eu quero ver esse prato limpo – o caçador falou ao servir seu prato e sair da cozinha.

Peter olhou o caçador indo embora e beliscou seu próprio braço. Não, ele não estava sonhando.

Fim do cap. 30