Uma segunda chance

31 Capítulo 31 - Família


Notas iniciais
Desnecessário dizer, mas tive um enorme bloqueio ¬¬ Mas felizmente fui lá trabalhar com minhas cotias e minha inspiração voltou :D E a ajuda de Isisyuuki também ajudou muito ;) Enfim, esse capítulo não estava nos planos. Ele meio que saiu. Mas achei legal porque cobre umas partes necessárias para o desenrolar da fic. Ele seria bem maior, mas preferi parar por aqui, porque ler capítulos muito longos é um saco. Então, a "ação" ficou pro próximo. Peguem sua caixinha de Kleenex e divirtam-se.

Chris POV

Mais uma vez tínhamos nos mudado. E confesso que não estava nem um pouco feliz em ter que fazer novos amigos novamente.

A cidade era pequena, mas bem movimentada. As salas de aula tinham mais de trinta alunos e eu era o mais velho de todos.

Praticamente todos me ignoravam, exceto uma garota.

Ela tinha os cabelos negros e ondulados, compridos até quase sua cintura e estava sempre sorrindo.

Ela se sentava todos os dias perto de mim e era a melhor aluna da sala. Era extrovertida e divertida. Todos a adoravam, e eu realmente não sabia o que ela tinha visto em mim.

Nunca fui muito de conversar, o que não era de admirar, levando em consideração a quão rígida era minha família. Mas ela não parecia se abalar. E falava por nós dois, o que me irritava profundamente.

Ela estava animada e não parava de falar no irmão ou irmã que nasceria em breve. Ela era a mais velha dos irmãos, mas todos eles tinham uma idade próxima. Então, estava animadíssima em ter um bebê na família.

Mas um belo dia, ela sumiu.

As aulas pareciam mais maçantes do que antes e o silêncio estava me matando. A culpa era dela.

Os dias passavam e não tinha notícias dela. Ninguém tinha.

Um mês depois, eu estava andando pela escola quando vi um aglomerado de pessoas na nossa sala. Algumas meninas davam gritinhos e falavam com uma voz irritante com alguém.

Eu me aproximei e a vi. Era ela, e ela sorria como sempre. Mas havia algo estranho. Seus olhos não brilhavam, pareciam tristes. Será que eles não notavam?

–Você sumiu – eu falei encarando-a.

E meu coração acelerou quando ela olhou para mim e sorriu de verdade, e não aquele sorriso falso que mostrava para os outros.

–Estava ocupada cuidando dele – ela disse, indicando o embrulho em seus braços.

E naquele momento fez sentido a fala esganiçada das outras garotas da sala. Elas queriam chamar atenção do bebê.

Ela se aproximou e me mostrou o rostinho escondido na manta delicada de linha. Ele era lindo e parecia um anjinho com seu cabelo claro. Devo ter olhado demais para ele, pois quando dei por mim, ela já tinha deposita-o em meus braços.

Era mole demais, delicado demais. E eu tinha a impressão de que o quebraria se não tivesse cuidado. Ela me ajudou a acomodá-lo e quando ele parecia confortável o bastante, ele abriu os seus olhos azuis para mim e sorriu. E sorri de volta.

–Eu vim trancar a minha matrícula e me despedir – ela disse em voz baixa para mim, não querendo perturbar o pequeno em meus braços.

–Se despedir? – eu perguntei, olhando-a. A ideia de não vê-la mais me deixava agoniado.

–Vou cuidar dele – ela explicou, olhando-o ternamente. E ali eu percebi o quanto ela já o amava.

–Eu vou ajudar – eu me prontifiquei sem nem ao menos pensar. Ela me olhou e sorriu e pude sentir meu rosto corando – Não posso deixar você matar essa criança com suas duas pernas esquerdas – eu disse, tentando despistá-la. Ela riu e acho que falhei miseravelmente – Somos amigos e amigos são para isso, certo? – eu completei olhando o bebê.

–Certo – ela disse, sorrindo para mim.

Desse dia em diante era difícil um dia em que não nos víamos.

Fim do POV

–Isso é realmente desnecessário – falou Peter, cruzando os braços no banco do passageiro.

–Foi você que pediu a minha ajuda – defendeu-se o caçador.

–Eu pedi para você tomar conta dos meus filhos, e não de mim.

–E eu estou seguindo exatamente o que você falou – Chris falou, ignorando o lobisomem que bufava de raiva ao seu lado – Não é minha culpa se um deles ainda está na sua barriga – ele explicou com um sorrisinho cínico – Espero você aqui. Vê se não vai se matar até entrar no consultório – ele disse, ao destravar a porta depois de parar em frente ao consultório do doutor Gregory – Também te amo – ele falou rindo, depois que Peter virou fazendo um gesto obsceno.

Flashback

–Ele matou um filhote, Thalia – ele disse, olhando o garotinho brincando no parque de areia.

–Tenho certeza de que foi um acidente – ela respondeu não convencendo nem a si mesma.

–Ele matou um filhote de cachorro a pauladas, Thalia – ele ralhou com ela, mas baixou o tom quando viu que o pequeno Peter olhava na direção dos dois — Eu realmente não acho que tenha sido um acidente. Ninguém dá pauladas num animal por acidente – ele completou sussurrando. Ela suspirou.

–E o que quer que eu faça, Chris? – ela perguntou desanimada.

–Ele precisa de ajuda! – ele respondeu indignado – Ele não era assim – ele falou apontando para o garoto apático que observava as outras crianças brincando sem se aproximar – Ficar fingindo que nada aconteceu, não vai fazê-lo melhorar.

–Você fala como se ele fosse um brinquedo quebrado – ela constatou, olhando-o com raiva.

–Ele precisa de ajuda, Thalia.

–E como vou explicar o que aconteceu? E se tirarem ele de mim?! – ela perguntou chorando – E se acharem que ele não está seguro comigo e quiserem levá-lo para um orfanato ou – ela interrompeu o que estava falando, olhando para o parquinho. E antes que Chris pudesse perguntar qual era o problema, ela correu.

Sem pensar duas vezes, ele foi atrás dela.

–O que aconteceu? Você está bem? – ela perguntou para Peter que chorava copiosamente.

Chris viu que ela já estava entrando em pânico e estava deixando o menino mais assustado. Ele se abaixou e pegou o garotinho no colo. Peter abraçou seu pescoço e continuou a chorar.

Eles se afastaram do parquinho, já que estavam atraindo atenção dos demais. Ele procurou acalmá-lo, fazendo movimentos circulares em suas costas, o que pareceu resolver.

–O que aconteceu? Por que estava chorando? – Thalia perguntou ao fazer carinho em seus cachinhos.

Mas Peter só escondeu o rosto no pescoço do caçador e não respondeu.

–Fale com a gente. Como eu vou poder ajudar, se você não falar qual é o problema? – Chris falou, e Peter levantou a cabeça encarando-o. Parecia indeciso se falava ou não.

–Você quer que eu vá embora – o menino falou chorando, e eles se tocaram de que o garoto ouvira tudo que eles conversaram.

–Ninguém vai levar você embora, meu querido – Thalia tentou acalmá-lo – Você é o meu bebê e ninguém vai tirar você de mim – ela disse calma, olhando para Chris fazendo seus olhos brilharem vermelhos por um instante.

E se aquilo não era um aviso para não tocar mais no assunto, ele não sabia o que era.

–O que acha de tomarmos sorvete? – ela perguntou tentando animar o garoto.

–Ê – Peter comemorou, jogando as mãos para o alto antes de abraçar o pescoço do caçador novamente.

Chris suspirou e continuou a andar. Não concordava com aquilo, mas não tinha o que fazer a respeito.

–Amo você, papai – Peter falou ao se aconchegar em seu peito.

–Eu também te amo – ele respondeu, abraçando a criança.

Fim do flashback

Ele acordou no susto com o barulho que vinha da janela. E instintivamente tirou a arma e apontou na direção do barulho. Suspirou quando viu que era só o Peter, que agora tinha uma expressão assustada e estava com as mãos levantadas.

Ele abaixou a arma, rindo. E destravou a porta.

–Algum motivo específico para me apontar uma arma? – Peter perguntou e Chris só o olhou como se ele fosse idiota – Por algo que eu tenha feito nas duas últimas horas? – ele completou, meio sem graça.

–Pelo incrível que pareça, você ainda não fez nenhuma idiotice – Chris falou, ligando o carro e indo na direção da escola – O que deve ser um recorde, tenho certeza – alfinetou, fazendo Peter revirar os olhos.

–Não sei se é uma boa ideia – o lobisomem falou, quando eles pararam na frente da escola.

– Está brincando, não é? Eles não falam de outra coisa desde aquele dia que você virou um lobo só para procura-los – Chris comentou – Você é o herói deles agora – ele falou, e Peter sentiu seu rosto corando.

Não demorou muito para que os jovens saíssem e vissem a Tahoe vinho de Chris.

–Pai! – Isaac gritou e saiu correndo quando o viu dentro do carro.

Peter mal tinha saído do carro, quando o mais novo o levantou do chão com um abraço de urso.

Os outros seguiram seu exemplo e logo ele estava rodeado de adolescentes por todos os lados.

–Finalmente ele acordou! – comemorou Jackson – Você tem que me ensinar aquilo.

–E quem disse que ele vai ensinar para você? – perguntou Isaac, puxando Peter para mais perto de si.

–Acorda para vida, Lahey. Você é só um beta fraquinho. Se alguém vai conseguir fazer isso, esse alguém sou eu – falou Jackson com seu jeito presunçoso.

–O sobrenome é Hale, seu mané. Não se esqueça disso – resmungou Derek, dando um tapa na nuca do ex-kanima – E eu sou o alfa. Quem vai aprender primeiro sou eu – ele botou um fim na discussão.

–É, mas o sobrenome vai logo mudar, não é? – Lydia comentou sorrindo – O Sr. Stilinski quer adotar o Isaac também. Para ele ser um Hale Stilinski como a bebê que vai nascer – ela explicou quando viu a expressão confusa de Peter.

–Será que vocês se incomodam de conversar dentro do carro? – Chris reclamou.

Os adolescentes se despediram e dividiram-se entre os carros. Allison, Isaac e Derek entraram no carro de Chris, enquanto Jackson, Stiles, Lydia e Scott seguiam no carro de Jackson atrás.

Peter não teve outra opção senão sentar com seus filhos atrás quando Allison ocupou o lugar da frente. Não que ele se importasse, é claro. Eram seus filhos e ele os amava. Mas sentar no banco traseiro do carro, enquanto o caçador dirigia era estranho, e ele não pôde deixar de se sentir um fedelho.

–Então, quem você vai ensinar primeiro? – Isaac perguntou.

–Eu não sei se posso ensinar – ele respondeu sem graça.

–Por que não? – perguntou Allison, do banco da frente. E ele pôde ver que Chris comprimia os lábios tentando não sorrir. O filho da mãe sabia o motivo e estava achando a situação hilária.

–Porque eu não sei como fiz – ele respondeu sem graça e pôde sentir seu rosto corando novamente.

–Oh – falou Isaac – Mas foi legal de qualquer jeito.

E um silêncio chato se instalou no carro.

–O que vocês querem comer no jantar? – Chris perguntou ao passarem pelo supermercado.

–Massa – Allison respondeu.

–Lasanha seria legal – concordou Isaac. Ele sabia que era a comida preferida de Peter. Quem sabe ele ficasse para o jantar.

–Stiles – respondeu Derek com um sorrisinho safado no rosto.

–Derek! – Chris chiou com ele, que olhava a janela com a cara mais lavada do mundo, o que fez os outros rir.

–Se não queria saber a resposta, para que perguntou? – resmungou o alfa, se jogando no assento.

E o silêncio se instalou novamente no carro, sendo quebrado só quando um dos três dava alguns risinhos ao se lembrarem da resposta torta de Derek.

Quando Peter viu que estavam perto da casa de Adam, ele lembrou que estava com as anotações que fez com o amigo, e que o doutor Gregory as tinha devolvido. Ele não queria ficar com elas.

–Você se importa em me deixar num lugar? – Peter perguntou para Chris, que o olhava pelo retrovisor.

–Eu não sou seu chofer, Hale – ele reclamou e continuou dirigindo.

–É claro que não é. Você me fez café da manhã, e me levou pra cima e pra baixo hoje. Isso faz de você a minha babá – Peter retrucou, e os adolescentes não conseguiram conter o riso. Quando Chris olhou feio para Allison, ela engoliu o riso e olhou para fora da janela.

–Não – Chris disse.

–Mas é aqui do lado, e não vai demorar nada – argumentou Peter.

–Não – Chris disse novamente.

–Mas eu preciso deixar as anotações com ele – insistiu o lobisomem.

Os adolescentes agora acompanhavam a discussão dos dois com uma curiosidade mórbida.

–Anotações do quê? – perguntou o caçador, estreitando os olhos.

–Anotações, ué – respondeu Peter, sem graça.

–Eu não vou mudar meu caminho só para você levar um monte de rabisco para alguém – o caçador respondeu resoluto.

–Não são rabiscos, são anotações. E não é para alguém, é para um amigo.

–Não sou correio elegante, Hale.

–Como você é irritante! Só para essa merda desse carro e eu levo lá. Você não precisa ficar esperando. Aliás, eu nem sei por que você está me pentelhando hoje.

E isso fez com que Chris pisasse no freio. E todos teriam voado de seus assentos se não estivessem com os cintos. Jackson, que vinha atrás, por pouco não bateu neles com a parada brusca.

–Talvez eu esteja aqui te “pentelhando” porque você me pediu para cuidar dos seus filhos até você melhorar, Peter. E como eu já disse antes, um deles ainda está aí dentro e não tem culpa do pai louco que tem. E talvez porque o seu marido também pediu para que eu ficasse de olho em você, porque talvez ele ache que você está a um passo de cortar os pulsos ou talvez optar por algo mais dramático como morrer de fome – ele falou ao se virar para trás, chocando o lobisomem, que apenas o encarava de seu assento – Agora, vamos começar de novo. O que tem nessas anotações de tão importante que você quer tanto se livrar delas?

–Nada que seja da sua conta – falou Peter – Eu fico por aqui – ele falou tentando abrir a porta do carro, mas estava travada – Você pode destravar, por favor? Eu quero sair – ele pediu.

–Não.

Peter suspirou.

–Eu vou sair – ele avisou.

–Não vou destravar nada – Chris falou.

Peter fechou os olhos, e Derek podia jurar que ele estava contando até dez.

Chris achou que tinha ganhado a discussão e virou novamente para o volante, ligando o carro. Desligou-o quando ouviu o barulho de vidro quebrando, e Peter colocando a mão para fora, abrindo a porta sem a menor cerimônia.

–Tchau, crianças. Comportem-se – ele falou, sorrindo para os adolescentes antes de virar as costas e começar a caminhar se distanciando do carro.

Chris olhava para ele e para a janela quebrada da parte de trás.

–Filho da puta – resmungou, ligando o carro e seguindo o lobisomem.

Peter caminhava com passos lentos. Estava sol, mas batia uma brisa agradável, e ele queria aproveitar.

Ele olhou para o lado e viu a Tahoe vinho que acompanhava seus passos. Mais de vinte minutos andando e o caçador não desistira de segui-lo.

Finalmente ele chegou à casa de Adam e não demorou a tocar a campainha. Seu amigo atendeu a porta e depois de um abraço, eles entraram.

Já fazia mais de meia hora que Peter tinha entrado e Chris já estava ficando de saco cheio de esperar. Sabia que o lobisomem estava demorando de propósito, e os adolescentes pentelhando não estavam ajudando.

Bufando, ele saiu do carro e foi checar o estrago que Peter fez em sua porta.

–Olha, ele checou o óleo do seu carro – comentou Derek com um sorriso de escárnio no rosto – Deveria cuidar melhor das suas coisas – ele repetiu uma ameaça que Chris lhe fizera, e que resultou num caçador quebrando o vidro de seu Camaro, assim que voltou para Beacon Hills. Os outros não perceberam, mas Chris se lembrava e muito bem.

–Vai ver se estou na esquina, moleque folgado – ele chiou, fazendo Derek gargalhar. O garoto adorava provoca-lo.

–Não precisava tê-lo feito ir embora – comentou Isaac, parecendo chateado.

–Ele quebrou a janela do carro e saiu – Chris se defendeu.

–Se você tivesse parado logo – Allison começou – Não custava nada – ela disse quando ele a olhou feio – Você só estava implicando com ele.

–Smith – Chris leu na caixa de correio. Peter tinha uma amiga da escola com esse sobrenome. Ele virou e olhou a casa com atenção. Estava um pouco diferente, mas com certeza já estivera ali várias vezes – A garota Smith voltou para a cidade? – ele perguntou para os adolescentes – Amélia, Adélia ou qualquer coisa assim – ele falou, tentando lembrar o nome dela. A garota até que era boazinha. O problema era o irmão mais velho. Ele não gostava nenhum um pouco do garoto, já que uma vez pegou ele atracado com o lobisomem quando veio busca-lo.

–Acho que ela só veio para o casamento, mas já deve ter ido – respondeu Stiles, meio distraído, já que Derek o tinha prensado contra o carro e atacava seu pescoço, obviamente deixando inúmeras marcas.

–Tinha que ser o Stilinski – comentou Jackson, ganhando uma aprovação da namorada, quando viu o caçador indo até a casa do policial.

Eles viram-no bater à porta e invadir assim que foi aberta. Os humanos não conseguiam ouvir o que estava sendo dito, mas pela expressão dos lobisomens, não era algo muito bom.

Antes que pudesse perguntar o que estava acontecendo, ouviram um tiro de dentro da casa.

Todos ficaram olhando em choque para a casa. E ficaram mais surpresos ainda quando viram a porta abrir de novo e Chris arrastar o lobisomem para fora.

–O que acha que está fazendo?! – Peter perguntou assim que saiu da casa.

–Você não vai ficar aí com ele – respondeu o caçador – Eu me lembro muito bem quem é esse fedelho e o que vocês faziam quando ninguém estava olhando.

–Não estávamos sozinhos. A mãe dele estava lá, sabe? Aquela que quase enfartou quando você tentou atirar no filho dela – Peter comentou indignado e os adolescentes arregalaram os olhos.

–Desculpe por me preocupar – o caçador respondeu ironicamente – Só estava fazendo o meu papel – ele completou.

–Você não é o meu pai, Argent. Eu nem sei quem você é – Peter falou calmamente fazendo o caçador arregalar os olhos, virou e saiu andando. Deu alguns passos e parou – E fique longe do Adam, seu velho maluco – avisou antes de continuar a andar.

Flashback

Ele estava tentando se acalmar, mas era difícil. Qual pai ficaria feliz e calmo ao pegar seu filho sendo sodomizado pelo irmão de uma coleguinha de escola? Nenhum.

E era por isso que ele não tinha nenhum remorso de ter puxado a arma para aquele garoto despudorado e arrancado seu filho de lá.

–Não precisava ter atirado nele. Se você queria alguma coisa, era só pegar uma senha – o garoto falou com uma voz afetada quase feminina, e Chris tinha certeza que era só para provoca-lo, e deu certo.

Ele freou bruscamente e o carro patinou pela trilha úmida pela qual passavam.

Chris saiu do carro e deu a volta, abrindo a porta do passageiro. Ele viu a expressão do garoto mudando quando viu seu rosto em fúria, ele se encolheu. O caçador viu a expressão aterrorizada do garoto, mas não ia se deixar levar pela sua carinha de santo. Hoje ele levaria um corretivo.

Ele arrastou o garoto até a margem do lago. E hesitou quando viu que o garoto chorava e tentava se afastar e ficar o mais longe da água possível.

Ele soltou o garoto, que caiu no chão de mau jeito, e tirou o seu cinto. Se palavras não funcionavam, quem sabe algo mais drástico funcionasse.

Quando a primeira cintada bateu nas pernas do garoto, ele pensou em parar, mas ouvir o garoto chorando e dizendo que não tinha feito nada o fez continuar.

Como podia alguém tão novo ser tão cínico? O garoto jurava que não tinha feito nada. Mas era sempre assim. Ele era sempre o santo. Não era a primeira vez que Chris o tirava de uma situação daquelas, mas em todas às vezes o garoto negava. Era definitivamente um ótimo ator.

Ele pegou o moleque pelo colarinho e o jogou na água.

–Vá se limpar – ele olhou enojado para o garoto que tremia na água gelada – Não há necessidade de matar sua irmã de desgosto – ele resmungou e o garoto ouviu, já que começou a chorar mais ainda.

Após algum tempo, o garoto finalmente terminou e voltou com a cabeça baixa, tremendo ainda e se sentou ao seu lado.

Chris tirou a sua jaqueta e jogou nos ombros do garoto, que se aninhou, tentando se aquecer.

Ele estava cansado de se ver em meio a situações daquele tipo. Todo dia o garoto aprontava alguma coisa e negava tudo com a cara mais lavada do mundo.

–A gente pode ir embora agora, pai? – Peter falou com voz baixa e sem encará-lo. Não queria irritar ainda mais o caçador.

Chris olhou o garoto ao seu lado, com suas roupas molhadas e com seu casaco muitas vezes maior que o seu número e não conseguia acreditar que aquele bebê fofo e meigo que vivia correndo atrás dele tinha acabado assim. Ele fechou os olhos com força, quando se lembrou da cena da qual arrastara o garoto mais cedo.

–Não me chame assim – ele disse cansado. Peter arregalou os olhos e o encarou quando ouviu – Só os meus filhos podem me chamar assim – ele falou, e os olhos do garoto se encheram de lágrimas – Eu nem sei quem você é mais – ele murmurou, olhando o cinto que ainda estava na sua mão.

Ele se virou para ir embora e levar o garoto de volta, mas ele não estava mais lá. Só o seu casaco em cima do capô.

Fim do flashback

–Você não vem, papai? – perguntou Allison ao seu lado, com uma expressão preocupada. Ele nem tinha reparado que ela estava lá.

–Eu estava só – ele falou, olhando na direção que Peter tinha ido e que agora não tinha nem sinal do lobisomem – Só pensando em como eu pisei na bola – ele pensou e suspirou.

–Vamos passar no mercado? – ela perguntou, tentando distraí-lo. E eles foram.

Não demoraram muito para que chegassem a casa. Os adolescentes se esparramaram pela sala e dominaram a tevê. O único que fez questão de ajudar foi o Isaac, que insistiu no cardápio.

–Eu não sabia que você cozinhava – Chris comentou ao ver o garoto tirando a assadeira da lasanha que estava pronta do forno e colocando a outra.

–Minha mãe morreu cedo, e meu pai não tinha muita paciência para cozinhar – ele falou meio sem jeito – Não tinha muita paciência para nada – pensou.

–Allison comentou a respeito dele. Eu sinto muito – o caçador falou meio sem jeito. Não era muito bom em animar ninguém.

–Eu sinto falta dele – o lobisomem comentou com uma voz baixa, como se fosse um segredo horrível.

Chris o olhou surpreso. Pelo que sua filha tinha contado, o pai dele tinha sido um carrasco e ainda assim ele sentia falta?

–Ele não era perfeito – o garoto dizia – Mas era meu pai, entende? – ele deu de ombros – Ele não foi sempre daquele jeito.

–Não? – ele estranhou.

–Não, ele era bem legal antes quando toda a família estava junta– ele deu um sorriso triste.

E Chris se lembrou de Peter quando garoto correndo para ele na praia e rindo. Aquela risada contagiante que sempre o fazia sorrir, por mais que o seu dia treinando com seu pai tivesse sido uma merda. Aqueles olhinhos brilhando cada vez que ele aprontava. E como ele ficava feliz quando o garoto preferia o seu colo ao da sua irmã e o chamava de pai.

– Com a mamãe e o Camden – ele falou tirando o caçador de seus devaneios – Eu sei que alguns podem até estranhar, mas não tenho como simplesmente esquecer tudo – o garoto parecia pensar em como poderia explicar – Eu o amava, e ele era a minha família. E não desistimos de família – ele falou, resumindo.

E Chris não pôde deixar de olhar espantado para o garoto. Como podia um garoto que não tinha nem dezesseis anos, desmontá-lo com apenas algumas palavras?

–Você se importa se eu guardar um pedaço? – Isaac perguntou, chamando sua atenção.

–Como? – ele respondeu eloquentemente.

–Posso guardar um pedaço da lasanha? – ele perguntou novamente – Para o Stiles levar para o Peter – ele explicou ao ver a expressão confusa do caçador – É a comida preferida dele – ele falou sem jeito.

–Claro – ele respondeu automaticamente e ficou surpreso por ter respondido tão rápido. Isaac também parecia surpreso – Por que não levamos lá e comemos todos juntos? – não era possível, sua boca parecia ter vontade própria. Ele sabia que seu rosto estava corando, pois sentia o rosto pegando fogo – A última coisa que queremos é uma mini lobisomem com cara de lasanha andando pela cidade – ele tentou despistar, mas sabia que tinha falhado miseravelmente quando o mais novo riu.

–É, não se deixa uma pessoa grávida passar vontade – concordou Isaac, olhando-o divertido.

Meia hora depois, todos estavam na frente da Mansão Hale.

Antes que pudessem abrir, Peter abriu a porta com cara de poucos amigos. Os adolescentes o cumprimentaram com um beijo no rosto e passaram por ele.

O caçador continuava na porta e Peter teria fechado na sua cara se não fosse por John, que impediu e a abriu novamente, em seguida abraçando o lobisomem.

–O Isaac fez isso e queria trazer – Chris falou sem graça, mostrando as travessas que ele segurava, depois que um silêncio constrangedor tinha se instalado ali entre os três – É lasanha. Ele disse que era o seu preferido.

–E é o favorito dele mesmo. Entre – John respondeu quando viu que o marido não tinha a mínima intenção de responder – Eu vou arrumar a mesa.

–O que você acha que está fazendo? – Peter perguntou sem a menor cerimônia quando John se afastou.

–Eu quero o meu filho de volta – ele respondeu sem rodeios, encarando o lobisomem.

Ele viu a expressão de surpresa e algo mais antes que os olhos que o encaravam estreitassem e toda a expressão do rosto se fechasse.

–Você está com sorte hoje, Argent. Você vai levar o Derek com você quando for embora – ele respondeu seco e saiu andando.

–Você sabe que não me refiro a ele – o caçador retrucou, o lobisomem continuou andando e só levantou uma das mãos com um gesto obsceno em resposta.

O caçador riu. Peter era teimoso e teve a quem puxar. Ele também era, e não iria desistir.

Fim do cap. 31

Notas finais
Dificilmente eu fico feliz com o resultado de um capítulo. Mas eu gostei desse. Então, já estou me preparando psicologicamente para receber reviews dizendo que odiaram ou nem recebê-las, já que, ao que tudo indica, nossos gostos são bem diferentes >:D