Uma segunda chance

22 Capítulo 22 - Final do segundo e começo do terceiro mês


Notas iniciais
Bom, esse capítulo demorou muito, muito mesmo. E o pior é que dessa vez não foi nem por falta de ideia, mas por falta de tempo mesmo. Minha escala de trabalho anda meio maluca por causa da temporada de navios e recebi um monte de encomenda de móveis em miniatura pro fim de ano (eba!). Mas sem mais delongas. Aqui está o novo capítulo, espero que gostem. Obviamente, já que perdi quase tudo que tinha resumido e tive que reescrever boa parte, aproveitei pra mudar algumas coisas que não tinha achado legal na primeira versão. Estou devendo respostas de e-mails e msgs, mas prometo que tentarei colocar tudo em dia.

Era um dia de semana. Os adolescentes estavam na escola e Derek estava assistindo às reprises da primeira temporada de Mad TV. Mas nem mesmo assistir seu programa favorito estava conseguindo distraí-lo do barulho no andar de cima. Resmungando, ele aumentou novamente o som.

–Tem certeza que poderíamos estar fazendo isso? – perguntou John, sem fôlego.

–Já não disse que podemos? – retrucou Peter ao abrir o zíper da calça do outro e arrancá-la de uma só vez.

–É, mas isso é meio diferente de basquete, Peter – argumentou John, fracamente enquanto o outro o estocava.

Aquilo estava bom. Ele gemeu.

–Bom, se você prefere jogar basquete – falou Peter com um tom desapontado, tirando as mãos do outro.

Ele fez menção em se levantar, mas o outro o puxou de volta, abraçando-o.

Qualquer drama que Peter tivesse planejado fazer foi descartado quando John começou a mordiscar e beijar seu pescoço.

A coisa logo começou a esquentar. Roupas foram descartadas, os movimentos se tornaram mais urgentes, as respirações mais curtas.

John estava deitado em cima de Peter, no meio de suas pernas, mas hesitava em se mexer. Parecia nervoso.

–Qual o problema? Você não vai me machucar, John – falou Peter.

Ele não respondeu e os dois continuaram como se a interrupção não tivesse acontecido. Porém, não havia nenhum avanço além dos malhos.

–Você não está a fim? – perguntou Peter, já um pouco irritado.

–Não é isso. É que eu não queria... — respondeu John, sem graça e gesticulando.

O que aparentemente foi a coisa errada a se fazer, já que Peter o empurrou para o lado, claramente ofendido.

–Eu não sou uma gata, sabia? Você não vai me deixar mais grávido se transarmos – resmungou o mais novo, se enrolando nos lençóis.

–Não tinha pensado nisso, mas agora que você falou – falou John, pensativo.

Peter já ia levantando com uma cara emburrada, quando o outro o puxou pela cintura e prendendo-o embaixo de si novamente.

–Estava só brincando, seu irritadinho – riu John, mordiscando o pescoço do mais novo – Só estava pensando se poderíamos tentar algo novo – completou com o rosto vermelho, fazendo Peter arregalar os olhos.

–Oh – Peter pareceu considerar as opções – Para ser sincero, eu nunca troquei de papel – ele comentou, com uma risadinha nervosa e com o rosto totalmente vermelho.

E isso fez com que John arregalasse os olhos.

–Tá maluco?! Aqui não entra ninguém, não. É só output, entendeu? – ele esclareceu, fazendo o outro rir – Na verdade, eu queria saber se eu poderia fazer isso com você – explicou John, sério.

–John, eu não sei como dizer isso sem te chocar, mas nós já fizemos isso – retrucou o lobisomem, olhando-o como se fosse louco.

–Não, não fizemos – disse John, resoluto.

–Claro que fizemos. Se quiser, eu posso chamar as testemunhas oculares. Não que eu ache que os nossos filhos gostariam disso...

–Estou falando de sexo anal, caramba – explicou, já perdendo a esportiva.

Peter ficou parado um tempo, com uma expressão surpresa.

–Sinceramente não sei o que te levou a cogitar essa ideia estapafúrdia. Só porque estamos numa relação gay estável e eu sou o passivo, não quer dizer que eu tope sexo anal, entende? Céus, John! No que estava pensando?

–Nossa, mas seria tão ruim assim? – perguntou John, meio temeroso.

–Não, pô. Seria extremamente gay – respondeu o outro, com uma cara emburrada – Sorte sua que eu sou gay – ele não aguentou mais e riu.

O outro não achou a mínima graça e começou a levantar da cama.

–E quem tá quebrando o clima agora? – reclamou o mais velho.

–Eu estava só brincando – Peter puxou o outro de volta e beijando o pescoço do outro.

E logo qualquer resistência foi vencida.

–Acho uma ideia, na verdade. Mesmo por que... aquilo... não está o tempo todo lá, entende?

–Não entendi. Aquilo o quê?

Peter reparou no olhar divertido do outro e bufou.

–Você está fazendo de propósito!

–Com certeza. Você fica uma graça com o rosto todo vermelho.

E isso só deixou o outro mais vermelho ainda.

–Então, quer dizer que você não tem o entretenimento opcional sempre?

–Não – respondeu o lobisomem – Só no cio.

E Peter pôde sentir os dedos de John brincando com o local.

–Tem certeza? – ele perguntou, movendo os dedos e fazendo o outro gemer – E por que ele continua aqui, então?

Peter deu um tapinha no outro, rindo.

–O bebê precisa sair, seu bobo – Peter explicou, enquanto o outro apertava suas nádegas com a outra mão .

Vendo que o outro não tomaria qualquer atitude sem o seu aval, Peter empurrou o mais velho para a cama e sentou sobre o seu quadril.

Dizer que John ficou surpreso com a mudança de atitude era ser extremamente sutil.

–O que está fazendo, Peter? – John perguntou quando o outro guiou seus dedos para o local tão cobiçado.

Quando sentiu aquela pressão e o calor em volta dos seus dedos, John gemeu. Era tortura. Instintivamente sua outra mão foi de encontro à sua gêmea, e ele puxou o corpo do outro contra o seu. Não queria espaço entre eles.

Mas algo o impedia, o empurrava de volta para cama. Ele abriu os olhos e o que viu lhe roubou o fôlego. Peter estava tão perdido nas sensações quanto ele. Seu rosto estava totalmente corado enquanto ele rebolava sem nenhum pudor em seu quadril, fazendo-o gemer alto. Era tortura pura.

E de repente a tortura cessou. John abriu novamente os olhos, que nem reparara que fechara, e tudo que conseguiu ver foi Peter se empalando até o último centímetro em seu falo.

Aquela pressão, aquele calor absurdo. Era bom. Era mais do que bom. Ele não sabia como tinha vivido sem aquilo até aquele dia. Ele queria mais. Queria se mexer. Queria mais. Mas qualquer plano sumiu de sua cabeça quando Peter se mexeu. Ele não conseguia pensar direito.

E então ele decidiu que aquela não era hora de pensar, e mandou a razão às favas e seguiu o caminho que o outro lhe mostrava instintivamente.

Os gemidos dos dois eram tão altos que Derek estava com a tevê no volume máximo no andar de baixo e ainda tinha a impressão de que os dois faziam tudo ali, ao seu lado.

John encontrava Peter com movimentos fortes e ritmados. E cada gemido que o mais novo dava despertava algo estranho nele, algo animalesco.

Perdido em meio às sensações, John jogou Peter na cama, invertendo a posição dos dois.

–John?

Não contente, virou Peter de modo que o mais novo ficasse de costas para ele e sem hesitar o penetrou.

Eles seguiram num ritmo forte. Seus dedos estavam praticamente cravados no quadril do outro. O corpo de John tremia com o esforço e ele podia sentir o de Peter tremendo também. Mas faltava algo. Os gemidos tinham diminuído.

Talvez se estimulasse um pouco mais o outro, eles conseguissem terminar juntos. Ele relutantemente tirou sua mão do quadril, aonde provavelmente deixaria marcas, e foi em direção ao púbis do outro. Mas qual não foi sua surpresa ao perceber que o lobisomem estava totalmente flácido e tenso.

John sentiu seu sangue gelar.

Ele saiu do outro e o virou para que pudesse encará-lo. E só aí percebeu o quão tenso o outro estava e que provavelmente não estava tremendo por prazer, mas por puro terror.

–Eu machuquei você? Eu me empolguei. Fala alguma coisa, Peter – falou John, preocupado ao abraçar o mais novo.

–Só fiquei um pouco surpreso – respondeu Peter, com a voz baixa.

–E por que não me pediu pra parar? Eu não queria te assustar! – ele falou, abraçando-o mais forte.

–Você estava gostando – justificou o outro.

Isso fez com que John soltasse Peter e o encarasse incrédulo, ao ver que o outro não estava brincando.

–Não sou eu quem tem que gostar. Somos nós! Nós dois – John disse, segurando o rosto de Peter -Eu te amo, caramba. Não quero você com medo de mim ou achando que tem que fazer algo só porque a gente tá aqui. Se não tiver a fim, é só falar. Não tem pressa.

John praticamente vomitou as palavras, tamanha a velocidade na qual as proferiu. E como se tivesse tirado um peso de seu peito, ele deitou a cabeça no peito de Peter, exausto.

Porém, ao escutar uma fungada, John levantou a cabeça e viu que Peter estava com os olhos cheios de lágrimas.

–Eu machuquei você. Eu realmente machuquei você! Como fui tão idiota? Você quer ir para o hospital? É melhor passar por um médico. E ser for alguma coisa com o bebê?

John só parou quando Peter o puxou e o encarou. Parecia querer dizer algo, mas não sabia como.

–Diga alguma coisa, Peter – ele implorou.

–Eu também te amo – ele respondeu, ao puxar o outro para um beijo.

Quando os adolescentes chegaram da escola, estranharam de ver o xerife lá com Peter e os dois na cozinha tentando fazer alguma coisa pra comer.

Derek parecia realmente aliviado que eles chegaram.

–Graças a Deus vocês chegaram. Não aguentava mais ouvir esses dois se comendo.

Todos gargalharam quando o rosto de Peter ficou vermelho como um tomate, e John o abraçou, mordendo seu ombro dramaticamente.

Ele pigarreou e afastou John com tapinhas. Olhou para os adolescentes e percebeu que as roupas de Isaac estavam rasgadas.

–O que houve com você? – ele perguntou ao se aproximar do jovem de cabelos encaracolados.

Isaac rosnou e jogou a mochila num canto, evitando o contato com o pai, e foi fuçar o armário.

–Não rosne pra mim – chiou Peter.

Quando Stiles percebeu que nenhum dos adolescentes pretendia contar o que se passava e Peter parecia preocupado, decidiu intervir.

–Ele brigou de novo. Mas dessa vez ele decidiu inovar e brigar com vários ao mesmo tempo. Pra poupar tempo, sabe? – falou, sentando-se ao balcão.

–Isso é verdade?

–Alguém tem que te defender, já que você não faz nada – respondeu Isaac, malcriado.

–Sério, Peter. É só ligar pro meu pai e abrir um processo contra esses jornais e revistas por calúnia e difamação – ofereceu Jackson, tentando dissuadir o mais velho.

–Não é tão simples assim — Peter tentou despistar.

–E por que não? — John perguntou, parando o que estava fazendo quando o nervosismo de Peter lhe chamou a atenção — Por que não, Peter? – ele perguntou de novo, num tom mais alto, quando o outro não respondeu.

–Eu ainda estou na fase de levantamento de dados – Peter respondeu sem muitos detalhes, o que irritou John.

–E o que diabos isso quer dizer?

–Que no momento, eu não sei ao certo. Não tenho dados suficientes para afirmar nada – ele explicou, confundindo-o mais ainda.

–Então é isso que você anda fazendo todos os dias? — Lydia perguntou interessada, assustando Peter.

–Fazendo o quê, Peter? – inquiriu John, se irritando mais ainda.

Peter recuou um passo sem perceber quando o outro levantou a voz novamente. Todos notaram. John procurou se acalmar.

–Nada demais – ele disse parecendo uma criança tentando esconder a travessura que fizera.

–E por que não fala de uma vez? – John praticamente gritou. Sua paciência estava se esgotando.

–Porque é pessoal – Peter respondeu na defensiva, fazendo John se acalmar um pouco.

–Não é mais pessoal, Peter. Está afetando todos nós. O seu filho volta todo dia das poucas vezes que vem da escola com mais detenções, e se ele não fosse um lobisomem voltaria todo roxo e cheio de escoriações.

Peter parecia encurralado com todos o encarando com seus olhares de interrogação.

–Eu tenho ido a algumas sessões com um dos meus álteres – ele admitiu em voz baixa, não encarando ninguém.

Todos ficaram meio em choque com a notícia.

–E eu não comentei antes porque tenho plena consciência do quão ridículo isso soa – ele justificou, olhando para baixo.

E logo milhares de perguntas choveram ao mesmo tempo.

–E como diabos você consegue fazer isso? – perguntou Scott abismado.

–E se você está lá, quem fica aqui? – perguntou Isaac por sua vez.

–E onde é que você faz essa “sessão descarrego”? – Jackson perguntou sutilmente.

Peter ficou acuado olhando todos a sua volta, até que se sentou ao balcão e começou a brincar com uns palitos de dente, ignorando a presença de todos.

Depois de alguns minutos, John não aguentou mais.

–Você não vai responder mesmo? – perguntou indignado, botando a mão em cima dos palitos e acabando com a brincadeira.

–Você não me fez pergunta alguma, s.r. Stilinski – respondeu – Vocês estavam falando com o Peter, e ele foi embora há uns cinco minutos – ele explicou, tirando a mão do xerife e pegando os palitos novamente.

–E você não poderia ter falado isso antes? – John sibilou entredentes.

–Claro que poderia – concordou o garoto. Ele deu um sorriso que não chegava aos olhos – Mas a Lydia podia ter me dedado assim que eu cheguei, e também não o fez.

John olhou o homem à sua frente de cima a baixo, e apesar de saber que não era Peter, era difícil acreditar. Os maneirismos eram os mesmos. Até mesmo a pronúncia e a voz arrastada de quando Peter estava entediado era igual.

–Você sabe por que ele fugiu? – John perguntou, cansado.

–Vocês queriam respostas que ele não tem – ele respondeu antes de se levantar e pegar a Coca-Cola da geladeira, um copo e se servir – E acho que você o assustou – ele completou pensativo, ao pegar o gelo.

–Só queríamos saber mais. Ele não precisa guardar tudo pra ele – comentou Stiles, fazendo Júnior revirar os olhos.

–Ele disse que antes de uma alcateia éramos uma família. Então como ele pode nos pedir pra ficar aqui sentados sem fazer nada enquanto ele claramente não está bem? – falou Isaac irritado.

–Então deveriam fazer uma intervenção e dizer como se sentem – sugeriu, ao bebericar o refrigerante.

Quando reparou que todos ficaram em silêncio, ele pousou o copo no balcão e suspirou.

–Eu estava sendo sarcástico – ele explicou, e quando viu que todos o ignoraram, ele riu.

Os dias seguintes passaram voando.

Eles ainda tentaram conversar com Peter, mas ele sempre achava um jeito de se esquivar e simplesmente evitar o confronto. Sem muitas outras opções, eles organizaram uma intervenção.

Peter tinha ido ao consultório da doutora Janice e estava demorando, as pessoas na sala estavam um tanto ansiosas.

–Que horas era a consulta? – perguntou Deaton, estranhando a demora.

–Às duas horas – respondeu Lydia, olhando as unhas.

–E vocês não estão preocupados? Já são oito da noite – perguntou.

–Devem ter destruído o carro dele de novo – comentou Scott, sem muito interesse.

–De novo? – ele olhou para o xerife, que deu de ombros.

–É, depois das publicações, algumas pessoas ficaram com raiva e descontam no carro – explicou o xerife – Ainda não conseguimos pegar os culpados. As câmeras de seguranças somem misteriosamente.

–Ele anda sofrendo bullying? – estranhou o veterinário.

–É. Não tinha pensado assim. Mas é. Que coisa, não? – comentou Jackson, fazendo careta.

–Sem ofensas, Sr. Deaton. Mas não sei se é uma boa ideia o senhor estar aqui – disse Allison, encarando-o.

–Eu discordo. Peter era irmão de uma grande amiga e o conheço há muitos anos – respondeu o veterinário.

–É que tem certos aspectos sobre o Peter, que podem ser... hummm... um tanto quanto... errrr... dá pra ajudar? – ela pediu aos outros adolescentes.

–Sou o emissário da família Hale, Srta. Argent. Sei todos os segredos possíveis e imaginários dessa família.

O silêncio na sala era tenso.

Deaton pigarreou.

Isaac levantou e foi até o telefone. Discou um número que chamou três vezes antes de alguém atender.

–Peter! O gesso na frente da porta do porão cedeu e a porta abriu! – disse histérico ao telefone – Não demora – desligou choramingando – Ele está chegando, falou com a cara mais lavada do mundo.

Não passou dez minutos para que um Peter esbaforido entrasse correndo pela porta da frente.

E ele estancou quando viu que Isaac estava ótimo, a porta do porão ainda estava fechada e que a alcateia de Derek, John, Melissa e até Deaton estavam sentados na sala aparentemente esperando por ele.

Ele deu um passo para trás. E depois outro. Colocou a mão na fechadura e a girou. Porém, quando virou e abriu a porta, deu de cara com Marin Morrell.

–Olá, Peter. Poderia dizer ao Alan que vou esperá-lo no carro? – pediu com um sorriso cínico ao jogar cinza de montanha no chão, impedindo a saída do lobisomem.

Melissa então se levantou e guiou Peter, que ainda tinha um semblante assustado, até uma poltrona, que foi trazida do escritório, e colocada entre o sofá e outras cadeiras que foram trazidas da casa de John.

Peter olhava para Isaac com uma expressão traída.

John decidiu começar logo.

–Bom. Como você pode ter percebido isso é uma intervenção. Estamos preocupados com você, Peter.

–Eu não quero conversar a respeito – interrompeu Peter.

–Você vai ter sua chance de falar. Quando estiver com a almofada da palavra – ele mostrou uma almofada – você pode falar o que quiser. Mas só na sua vez. Quem quer começar?

Derek foi até o xerife e pegou a almofada. Ele virou para Peter.

–Quero deixar claro que fui totalmente contra essa ideia. Acho essa intervenção uma babaquice sem fim, e uma brincadeira muito de mau gosto do Junior, aquele seu álter ego cretino. Ele ainda é um pentelho, e eu não confio nele. E não acho que você deveria confiar nele também. É isso. Vou ver desenho – ele falou rapidamente e saiu correndo em direção à escada. No segundo degrau ele voltou, e pegou a almofadinha de novo – Eu pedi pizza, e deu $85,95 – ele sorriu e saiu de novo.

–Bom, isso foi... sincero. Mais alguém? – perguntou John.

Isaac pegou a almofada.

–Eu odeio ouvir todas as coisas horríveis que dizem de você e não ver você tomar uma atitude. É como se tivessem apagado sua personalidade. É difícil reconhecer você às vezes, pai. E piorou depois que vocês ficaram juntos. É como se você não tivesse mais opinião própria. Como se tudo dependesse do aval do xerife. O que ele acha, o que ele quer. Ele te deixou a ver navios na primeira consulta e o que você fez? Nada! Destroem seu carro e o que ele faz? Nada! A impressão que me passa é que você sempre está com medo. Mas você não fala do que, então não tenho ideia. Espero que essa intervenção ajude – ele passou a almofada para o próximo. Peter parecia chocado com o que ele falou.

–Peter, você é um fofo. Mas eu realmente acho que você deveria conversar. Se não conosco, então com algum psicólogo. Você passou por maus bocados ultimamente, e isso é difícil de lidar. Guardar tudo pra si não é bom. E você está grávido agora, estresse para o bebê não é bom. Você sabe que pode contar comigo. Se precisar, posso ajudar e procurar um psicólogo no hospital. Tentar uma indicação, não sei – Melissa disse, e Peter pôde sentir seus olhos queimando. Malditos hormônios.

Finalmente chegou a vez de John.

–Eu sou péssimo com palavras – resmungou – Eu te amo, Peter – disse, na frente de todos. Uma lágrima teimosa escapou dos olhos de Peter, mas ele conseguiu secá-la antes que percebessem – E quero ajudar, mas você não deixa. E isso está me matando. Como a Melissa falou, o que você passou não foi fácil, nem pra você ou pra gente. E eu não soube como lidar com isso. Então, se você topar procurar alguém pra conversar, eu topo ir junto. Ou se você não quiser ir, e só quiser conversar comigo, tudo bem também. Mas fale – ele terminou, e Peter piscava rapidamente, na tentativa de não chorar na frente de todos e não encarou mais ninguém.

Seu abdômen estava doendo e ele queria sair dali.

Deaton pegou a almofada.

–Eu conheço sua família há muitos anos, Peter. E estou aqui hoje, a pedido da sua irmã Thalia, que me deixou instruções claras para que tomasse conta de seus filhos e alcateia. E pra ela, você era ambos. Sei que nem sempre nos demos bem, e nosso convívio era difícil mesmo quando você era pequeno. Mas sei que você não é esse cara mau que gostava de demonstrar a meses atrás. Se fosse não teria adotado o Isaac, ou até mesmo o vulnerável Derek. Sou um amigo da família, Peter. Estou aqui para ajudar. Não se esqueça disso – ele passa a almofada para o próximo.

E de um em um, eles foram falando tudo que estava entalado nesses últimos tempos.

Finalmente a almofada chegou até Peter.

–Eu não sei o que vocês querem de mim. Eu não tenho as respostas que vocês querem, e sinceramente, não sei se quero ter as respostas que vocês querem. Mas vocês simplesmente não aceitam isso — ele falou, num tom baixo, triste.

–Isso não é verdade – retrucou John, levantando.

–Não é verdade? Você não segue nem as regras do seu próprio joguinho, John. Estou com a porcaria da almofada e você fala quando não é a sua vez quando não gostou do que ouviu — Peter levantou também, não deixando barato.

–Eu só quero ajudar, Peter. Todos nós queremos – John elevou o tom da voz.

–Vocês não estão ajudando! Só estão me estressando! – Peter gritou – Eu não queria conversar. E o que vocês fazem? Uma intervenção! – ele falou, jogando as mãos para o alto.

E nesse momento, parece que suas preces foram ouvidas, pois Derek desceu as escadas, parecendo emburrado, e munido com um cavalete e um bloco de folhas tamanho A2.

Ele montou o cavalete. Posicionou o bloco e foi até o Peter.

–Posso pegar a almofada? – ele pediu e Peter a entregou prontamente, voltando a se sentar na poltrona. Parecia cansado.

Derek levantou a capa do bloco, e então um desenho tosco apareceu.

–Esse é o Peter – disse Derek, apontando para um desenho de um homem de palitinho no meio do desenho – Essa é uma tragédia muito grande que aconteceu com o Peter – ele apontou para uma mancha vermelha e o que lembrava um carro ou qualquer coisa com rodas – Essa é outra tragédia que aconteceu com o Peter – ele apontou para uma casinha com fogo. Essa era uma referência óbvia que ninguém teve problemas para entender – Mesmo depois disso tudo, Peter ainda era Peter. Mas – ele virou a folha dramaticamente e apontou para um ponto de interrogação enorme numa folha – Depois de outra tragédia, que ele desconhece, Peter deixou de ser só o Peter – e ele riscou o boneco de palitinho da folha — E passou a ter uma galera desagradável morando com ele – e desenhou um bonequinho pequeno, uma boneca peituda e um urubu, que tinha uma flechinha com o nome Junior – Vocês iriam realmente querer saber por que eles foram parar aí se estivesse no lugar dele?! – ele perguntou olhando para todos – E você pode me dar o dinheiro da pizza? O entregador está virando a esquina – ele sorriu para Peter, que tirou a carteira do bolso e entregou para Derek – Não vai comer? – Derek perguntou realmente preocupado, ao ver que Peter ia em direção às escadas.

–Não estou com fome – respondeu ao subir sem se despedir de ninguém – Não se esqueça de trancar a porta quando saírem.

–Impressão minha ou fomos convidados a sair? – Stiles ficou admirado. Peter nunca os tinha colocado para fora em todos os meses em que invadiam a casa nos horários mais inapropriados.

–Cala a boca, Stilinski – chiou Jackson, ao bater o ombro em Stiles ao ir para casa do mesmo.

Os outros adolescentes o seguiram. Os adultos se despediram na porta e John ficou por último.

Sua mão segurava as chaves da casa, mas ele não conseguia trancá-la. Após uma breve hesitação, ele abriu a porta, entrou na casa e trancou a porta atrás de si.

–Achei que não quisesse participar da intervenção – comentou Scott, pegando um pedaço de pizza das inúmeras caixas em cima da mesa de jantar.

–E não queria. Foi uma ideia idiota. Como puderam seguir um conselho daquele babaca? — perguntou Derek, enojado.

–Ele não é tão ruim – defendeu Isaac.

–Você fala isso porque é o queridinho dele – Derek torceu o nariz. Jackson, sem nem perceber, concordou – Ele passa o tempo inteiro soltando veneno. É irritante. Tenho vontade de rasgar a garganta dele com os meus dentes! – falou Derek, despreocupado. Todos na mesa pararam de mastigar e o encaravam. A cada dia ele lembrava mais e mais seu eu adulto – Mas aí eu lembro que ele, na verdade, não existe. E que se eu fizer isso vou matar o Peter de novo. E eu não quero fazer isso, porque ele é meu tio favorito, é meu pai agora e meu melhor amigo – completou com um sorriso. E com isso, toda a semelhança com seu eu adulto sumiu – Ele é meio maluco, mas quem não seria passando por tudo que ele passou? – resmungou a última parte.

–E tudo por culpa da minha tia – comentou Allison, desanimada.

–Não. A Kate foi só a cereja do bolo – comentou Derek, dando de ombros e voltando a comer – Ele já era meio maluco antes disso – ele explicou quando viu que todos o olhavam curiosos.

–O que quer dizer com meio maluco? – perguntou Stiles, sem se conter.

Derek pareceu pensar um pouco.

–Ele sumia por dias e aprontava bastante. Teve uma época que ele sumiu por um bom tempo, achei que ele nunca voltaria – disse, pegando mais uma fatia de pizza.

–Deaton me disse que perder um membro da alcateia é como perder um membro do corpo – Scott contou e Derek concordou com a cabeça – Foi isso que deixou ele meio maluco? – perguntou, surpreendendo os demais.

–Não. Quando ele voltou, trouxe o Charlie e parecia bem. Melhor do que eu já tinha visto. Ele ficou meio maluco depois que o Charlie morreu – ele continuou a comer.

–Caramba. E como foi que... – Jackson começou a falar.

–Olha, eu já falei demais. Se quiserem mais detalhes, eu sugiro que falem com o Peter – ele interrompeu ao levantar e levar seu prato pra cozinha.

Os adolescentes ficaram sem graça, mas o assunto morreu aí. Acabaram de comer rapidamente e colocaram alguns filmes antigos no DVD. Derek e Stiles cuidaram da louça.

–Você ficou chateado, né? Quer conversar? – perguntou Stiles.

Derek parou de ensaboar o prato por um minuto e olhou. Deu um sorrisinho.

–Você é igual ao seu pai – comentou o lobisomem, balançando a cabeça.

–Vou levar como elogio – Stiles falou, fingindo uma cara de emburrado. Derek riu.

–E foi – o garoto concordou – E quer saber? Eu queria conversar, sim – ele deu um sorriso sem graça – Na verdade, eu estava pensando em como falar, mas aparentemente a minha habilidade foi embora quando eu virei um filhote – ele estava com o rosto pegando fogo e o outro percebeu.

–Oh. Meu. Deus! Você cresceu e quer conversar sobre puberdade! – falou Stiles horrorizado – Você deve ter alguém em vista, né? – Stiles disse, tentando ser prático. Aquilo o incomodava e ele não sabia o porquê – Mas você só fica com a gente. No máximo brinca com o carteiro – comentou pensativo – Não me diga que é o carteiro, Derek. Isso ia ser nojento! Ele tem tipo uns cinquenta anos a mais que você!

–Não, nada disso! — Derek negou horrorizado — Olha. Que tal se a gente esquecer essa conversa aconteceu? A gente faz pipoca, leva para a sala e nunca mais tocamos no assunto – sugeriu o garoto, com certo desespero.

–Boa ideia – concordou – Mas eu aposto que quando dormir, vou sonhar com você e com o carteiro sexagenário – resmungou Stiles com cara de nojo.

–Valeu, agora vou ter pesadelos com isso – falou Derek, mostrando a língua para o outro.

Derek então começou a fuçar os armários da casa de Stiles à procura das pipocas de micro-ondas. Stiles o observava sorrindo. Sentia-se aliviado e não sabia o porquê.

Eles foram para a sala, onde os outros já tinham separado uma sessão de Guerra nas Estrelas, já que Scott nunca tinha visto.

Antes do final do primeiro filme, todos, com exceção de Stiles e Derek estavam no nono sono.

–Essa cena é demais. Não sei como esses hereges não ficaram acordados para ver o Luke destruir a Estrela da Morte. É lindo – disse, Stiles, animado.

–É, é lindo – concordou Derek, chamando atenção do outro.

Quando Stiles virou, Derek estava a menos de cinco centímetros do seu rosto, e ele só teve tempo de arregalar os olhos antes de sentir os lábios do outro nos seus.

Quando finalmente Derek se afastou, Stiles começou a gesticular, apontando para os outros em volta, que milagrosamente não acordaram com as atividades libidinosas de Derek.

–Eu gosto de você – disse Derek – Era isso o que eu queria dizer antes – completou, fazendo o outro arregalar ainda mais – Desse jeito seus olhos vão pular para fora, Stiles – comentou ao se aconchegar no lado do outro, ficando mais confortável.

Sem muita opção, e ainda em choque, Stiles não respondeu nada. Ele se limitou a colocar o braço no ombro do outro, que suspirou contente, e viu o filme. Logo, Derek dormiu. Mas Stiles sabia que não conseguiria pregar o olho naquela noite.

John subiu as escadas com calma. Viu que o quarto estava aceso, mas vazio. Foi até o banheiro. Da porta ele podia ver Peter com a cabeça abaixada, e uma mão apoiada na parede do registro do chuveiro, enquanto a água molhava sua nuca e suas costas.

Ele entrou no banheiro, e quando chegou perto é que pôde notar os movimentos quase imperceptíveis dos ombros do mais novo. Ele estava chorando e aquilo era como uma facada para ele.

Sem pensar, ele entrou no chuveiro com o outro, que tomou um susto com a companhia e se virou. Fechou o registro e pegou uma toalha.

Ele começou a secar o mais novo com todo cuidado. Seus braços, seu tronco, suas pernas. Suas mãos tremiam.

John olhou quando o outro segurou suas mãos que tremiam entre as suas. Não parecia com raiva, só ferido. John então o puxou para si, num abraço forte e percebeu que não precisa de palavras para entender o outro.

Fim do cap. 22