Uma segunda chance
23 Capítulo 23 - Terceiro mês
Notas iniciais
Stiles estava inquieto. Não conseguia ficar parado. Ele se ajeitava na cadeira cada minuto.
–Esqueceu-se de tomar seu remédio? – Scott perguntou, não dando muito importância. Estava acostumado ao comportamento do amigo.
–Não, não. Eu tomei, sim. A-hã – respondeu Stiles, suando e ainda dançando na cadeira.
–Desse jeito até parece que sua noite foi ótima e por isso não consegue sentar – debochou Jackson, rindo sozinho.
Ele parou e congelou. Todos os lobisomens o olharam com surpresa quando ouviram seu coração praticamente sair pela boca.
–Não foi nada disso, foi só um beijo. Nada demais. Eu juro! – Stiles explicou desesperado, levantando as mãos – Não me matem – pediu, se encolhendo.
Os três ficaram sem entender, e só se ligaram quando Lydia começou a bater palmas e rir. Allison revirou os olhos, mas estava sorrindo. Lydia estendeu a mão e ela lhe entregou o anel que usava.
Quando Lydia viu que os garotos estavam olhando as duas sem entender nada, ela decidiu explicar.
–Nós apostamos se o Derek e o Stiles iam se atracar finalmente essa semana e eu ganhei, gente. Só isso – falou, torcendo o nariz – Pena que demorou tanto. Se tivesse sido semana passada, eu teria ganhado aquela bolsa – apontando pra bolsa que Allison carregava – Mas fica bem em você – ela sorriu para a amiga e voltou a comer, ignorando totalmente Isaac que rosnava ao seu lado.
–Ewwwwwwww, ele é pequeno Stiles. Eu sabia que você era doente, mas não tão doente – comentou Jackson, quase caindo da cadeira de tanto rir.
–Eu achei fofo. Os dois formam um casal lindinho – falou Allison, encostando a cabeça no ombro de Scott, que ainda parecia não entender muito bem a situação – Não acha, Isaac? – ela perguntou e todos olharam para ele que estava com a cabeça abaixada. Quando ele levantou a cabeça, seus olhos estavam amarelos.
A sorte de Stiles é que todos reagiram rapidamente e conseguiram conter Isaac antes que ele o despedaçasse. Os outros alunos estranharam os xingamentos e agressões na mesa VIP, mas após o susto inicial, voltaram as suas refeições.
No fim das aulas, o grupo se separou em dois grupos para irem embora.
–Então, você e o baixinho, hein? Quem diria... – comentou Jackson do banco de trás do Jipe.
–Você não vai calar a boca, não é? – perguntou Stiles, olhando-o pelo retrovisor – Você pode, por favor, me explicar por que estou dando carona pra essa coisa, sendo que ele tem um Porsche?
–Pergunta pra ele. Ele não é o seu melhor amigo? – Scott falou irritado, com os braços cruzados olhando para fora da janela.
–Tá louco? Dá onde você tirou isso? – perguntou Stiles, indignado.
–Você chamou por ele enquanto fugia do Isaac – explicou Scott, com uma voz sentida.
–Por isso que você me deu um soco?! Eu não acredito.
–Isso foi um acidente.
–Meu olho está roxo!
–E os meus são azuis! Será que dá pra vocês fazerem DR outra hora? Eu realmente queria chegar em casa antes da meia-noite — reclamou Jackson, indo até o espaço entre os bancos dos outros dois.
–Você nem mora lá – resmungou Stiles – É só a visita que nunca vai embora.
–Deu um beijinho no moleque e já tá se achando o dono da casa – debochou, se jogando no banco de trás. Scott, o traidor, riu.
Aquela definitivamente seria uma longa volta a casa para Stiles.
Finalmente a consulta acabara. A Dra. Janice era ótima, mas falava demais para o gosto de Peter. Ele estava cansado e queria ir embora o quanto antes.
Quando chegou ao carro, viu que novamente seus pneus estavam furados. Suspirou desanimado, mas realmente não podia dizer que estava surpreso. Aquilo já estava virando rotina.
Ele então tentou ligar para John, que não pôde ir buscá-lo, pois estava numa cena de crime. Tentou ligar em casa e só chamava. Derek devia estar dormindo ou invadindo a casa de John. Tentou ligar no celular de Isaac, mas estava desligado.
Sem muita opção, ele começou a longa jornada a pé para casa.
Ficou surpreso quando no meio do caminho, Adam buzinou ao se lado, novamente lhe oferecendo carona.
–Você gosta de fazer caminhada, hein? – brincou Adam, assim que Peter entrou.
–Estouraram os pneus do carro de novo – explicou Peter, secando a testa que estava suada.
–Que merda, hein? – comentou o outro – Vem cá, eu acabei meu turno agora e não consegui parar mais cedo pra tomar café, então você topa parar em algum lugar pra comer ou tomar alguma coisa? Digo, se você não estiver com muita pressa — disse parecendo bastante ansioso.
–Por mim, tudo bem. Eu também estou com sede – concordou Peter.
Adam parecia meio descrente, mas sorriu depois.
Quando chegaram às casas, Stiles achou melhor tomar um banho e dar uma geral em casa antes de ir acampar na casa de Peter, como sempre.
Juntou as roupas, colocou para lavar, colocou as poucas coisas que estavam espalhadas nos seus devidos lugares e subiu para tomar um banho.
Abriu a porta do quarto e foi entrando sem se preocupar com nada. Arrancou a camisa, jogou na cama e foi para o Box. Abriu o registro, regulou a temperatura e começou a tirar a roupa. Quando estava nu, sentiu uma mão em seu ombro.
Derek riu do grito afeminado que ele deu com o susto que tomou.
–Quer me matar de susto? – ele colocou a mão no peito, tentando se acalmar.
–Claro que não – negou o garoto, olhando-o com um sorriso divertido.
–Podia ter avisado que estava perto – reclamou Stiles, fechando os olhos.
–Isso seria contraproducente – o mais novo falou olhando-o de cima a baixo, fazendo o outro finalmente perceber que estava nu.
Derek riu quando o outro tropeçou nos próprios pés e tentou se cobrir com a cortina do box, que era transparente.
–Muito engraçado – resmungou Stiles, finalmente enrolando uma toalha na cintura e ficando o mais possível decente que conseguia na situação.
–Eu só queria ver você – disse Derek, se aproximando do outro.
Apesar de ter crescido bastante, ele ainda era um pouco menor que Stiles. Tinha que olhar um pouco pra cima para falar com o outro. Stiles achava isso muito fofo.
–Você joga baixo – reclamou Stiles, saindo do banheiro.
–Eu não fiz nada – Derek se defendeu.
–Como não? Você fica aí parado com essa carinha de Gato de botas do Shrek! – acusou Stiles.
Derek riu.
–Então sou um gato?
–Claro que é – concordou Stiles automaticamente fazendo Derek sorrir – Digo, não. Não é, não. É um garotinho folgado. Um garotinho folgado que gosta de atrapalhar o banho dos outros.
–Eu só queria te ver.
Stiles sentiu o rosto corando.
–Eu sempre fico na sua casa. Podia ter esperado.
–Mas lá não daria pra fazer isso – Derek deu um selo no outro e o abraçou.
–Precisamos conversar sobre isso, ok?- Stiles empurrou Derek, afastando-o de si — A gente não pode fazer... isso – ele gesticulava entre os dois.
–E por que não?
–Somos praticamente irmãos.
–Não, não somos.
–Seu pai está grávido do meu pai. Eles estão juntos e provavelmente um dia irão se casar. Logo, teremos um irmão ou uma irmã em comum. Isso faz de nós meio que irmãos.
–Como sabe que o bebê é do seu pai?
–Eu espero que seja, Derek. Foco, ok?
–Mesmo que seja, não seremos irmãos. Eu sou adotado. O que você está falando não faz o mínimo sentido.
–Tá. Que tal isso? Você é menor de idade.
–Você também é.
–Você é mais novo que eu.
–Daqui a dois meses serei mais velho.
–Você não é gay, Derek.
–Bom, isso é verdade. Eu gosto de garotas.
–Viu?
–E de Stiles – Derek riu – Bom, já te vi. Agora vou embora — disse indo em direção à janela.
–Já? – Stiles deixou escapar.
–Isaac disse que vai vir te pegar se eu não voltar logo – explicou, ao pular a janela.
Assim que Derek pulou a janela, John abriu a porta e deu de cara com Stiles.
–Stiles, a roupa que está na máquina está lavada ou é para lavar? – John perguntou — Parou quando viu que o filho estava só de toalha e com a barraca armada – Eu não quero saber – disse, saindo do quarto com os olhos fechados e tapando os ouvidos.
Quando desceu, decidiu fazer um lanche já que Peter ainda não tinha chego. Quando acabou, foi lavar a louça que sujou, aproveitando para ficar de olho para quando Peter chegasse.
–Ele está demorando porque não conseguiu um taxi. Deve ter pego um ônibus ou vindo a pé – pensou – Mas poderia ter ligado de novo – resmungou. Estava acostumado a saber o tempo todo do paradeiro do outro, não gostava de ficar no escuro.
No meio dos seus devaneios, viu um carro parando na frente da casa do lobisomem. Ele largou o copo que estava ensaboando e enfiou a cara na janela. E viu vermelho quando reconheceu o motorista. Era Adam.
Ele viu Peter saindo do carro e se despedindo. E o outro acompanhando seus movimentos até que a porta fechasse. E depois, para aumentar a injúria, fazendo uma mini dança da vitória atrás do volante.
–Filho da puta – xingou, abismado com a cara de pau do outro.
Quando o carro foi embora, ele lavou as mãos e saiu em direção à casa de Peter.
Ele entrou direto, só mandou um ‘oi’ para os adolescentes quando passou pela sala, e subiu para o quarto. Não tinha ideia de como, mas sabia que Peter estaria lá.
–Você demorou – disse, ao abraçar o outro por trás.
–O Adam me deu carona e ele quis parar numa lanchonete antes – explicou, relaxando nos braços do outro.
–Então quer dizer que o senhor vai a encontros por aí sem eu saber – brincou John, afundando o nariz no pescoço do outro.
–Foi um verdadeiro encontro de almas entre eu e a garrafinha de água que tomei – falou Peter, ao se desvencilhar dos braços do mais velho e virar – Ou só muita sede – completou ao dar uma piscadela e ir para o banheiro.
John arrancou suas roupas rapidamente e seguiu o outro.
–Vai me seguir cada vez que eu vier tomar banho? – perguntou Peter, com a voz baixa.
–Quer que eu vá embora? – perguntou John, receoso.
–Nunca – respondeu com a voz baixa, mas John sabia que era de coração – Agora, seja útil e lave minhas costas – ele se virou, fazendo John rir.
John percebeu que o mais novo estava meio tenso, parecia nervoso.
–Aconteceu alguma coisa? – perguntou imaginando o pior e tramando mil e um jeitos de matar Adam e nunca ser pego.
–Nada demais. É só que a Dra. Janice comentou uma coisa hoje que eu achei que talvez fosse interessante, mas não é tão importante – falou dando de ombros.
–Agora você me deixou curioso — falou John, virando-o e ensaboando o peito do outro. Reparou que o mais novo evitava encará-lo – Mas o que ela falou? Alguma coisa errada com o bebê ou com você? – perguntou preocupado, fazendo o outro olhá-lo.
–Não, nada errado. É que ela comentou de um exame.
–Se ela acha bom você fazer, então vamos fazer, ué.
–Não, na verdade sou eu quem quer fazer – Peter confessou — É um exame de paternidade, John – ele falou e olhou para John para ver sua reação.
–Por que quer fazer isso? – perguntou John com a voz baixa ao massagear a nuca do outro.
–Já passaram três meses. Eu só tenho mais seis para me acostumar com a ideia de ter um bebê que talvez não se pareça em nada com a gente. E eu não quero ter uma surpresa quando nascer – explicou, desviando o olhar – E talvez por que se não for seu, você simplesmente me dê um pé na bunda. Então, é melhor saber logo de uma vez – pensou melancólico.
John o puxou para um abraço.
–Se você acha bom fazer o exame, então vamos fazer o exame. Se mudar de ideia e não quiser fazer, então não faremos. Vou ficar aqui com você de qualquer jeito. Não vou a lugar nenhum – disse John, beijando a cabeça do outro, que o abraçava forte. Afinal, era tudo que ele precisava ouvir.
Quando desceram, os adolescentes que reclamavam da falta de comida empurraram Stiles para a cozinha.
–Ah, não vai ficar sentado, não – reclamou Stiles, puxando Peter pelo braço – Você tem o meu irmãozinho ou irmãzinha aí. Pode tratar de levantar e aprender a cozinhar direito – ralhou com o mais velho, que olhava para John pedindo socorro.
–Ele tem razão – falou John sorrindo.
–Traidor – Peter resmungou, ficando ao lado de Stiles e do fogão.
Stiles estava surpreso. Peter parecia ter jeito para a coisa. Em pouco tempo, eles preparam o jantar para um pequeno batalhão, ou uma pequena alcateia com lobos adolescentes.
–Agora é só fazer esse molho aqui, e colocar a massa no forno, que está tudo pronto – falou Stiles, orgulhoso. Ele virou o botão, liberando o gás – Poxa, onde é o botão do acendedor? – pensou em voz alta – Ah, é aqui – disse ao pressionar o botão. Como ele demorou a acionar o botão, quando o fogão e forno acenderam, deu um pequeno estouro, graças à quantidade de gás que já tinha escapado.
Peter quando viu aquele fogo perto dele, deu um pulo para trás, perdeu o equilíbrio e caiu de bunda no chão.
Stiles gelou quando viu a reação do lobisomem. E o silêncio dominou o ambiente. Ninguém sabia como reagir.
Até que Peter piscou e seus olhos ficaram vermelhos.
Laura olhou em volta e quando viu que estava no chão, começou a gargalhar.
–Que gatinho assustado – riu, jogando a cabeça para trás.
Lydia, que conseguia ver Peter agarrado às costas de Laura usando-a como escudo, começou a rir junto.
–Ele está bem? – Stiles perguntou preocupado.
–Tirando o orgulho ferido? Tá ótimo – disse Laura, levantando e indo até a pia. Lavou as mãos e foi para o fogão. Lá, ela pegou a colher da mão de Stiles e segurou. Começou a mexer o molho.
–Viu? O fogo já está aceso. Se não ficar muito perto do fogão, você não terá problema algum. Aí, vai mexendo, mexendo – ela falou, com uma voz calma. Stiles, que estava perto de Peter, pôde ver os olhos voltando ao azul habitual.
Peter corou um pouco quando sentiu o olhar de todos em cima de si. Mas decidiu ignorar. Afinal, não era todo dia que as pessoas viam um lobisomem quicando no chão da cozinha.
Quando finalmente sentaram para comer, o clima estava descontraído. Todos brincavam. Mas John percebeu que as brincadeiras eram direcionadas a Stiles. Todos os outros adolescentes olhavam Stiles de rabo de olho, com um sorriso divertido no rosto. Bom, quase todos. Isaac torcia o nariz.
–Certo. O que diabos você aprontou dessa vez, Stiles? – perguntou John, na lata.
Stiles deu de ombros.
–Alguma coisa você fez. Todos estão olhando pra você, e seu rosto está todo vermelho – constatou John.
–Ele tá catando o Derek. É um papa anjo. Pronto. Tirei o peso das suas costas – explicou Jackson.
–Você o quê? – o xerife se irritou.
–Qual o problema deles estarem namorando? – perguntou Lydia, sem entender.
–Eu não estou namorando ninguém! Foi só um beijo. Nem quis dizer nada – Stiles se defendeu.
–Não? – Derek perguntou, parecia sentido.
–Não foi isso que eu quis dizer, Derek – Stiles tentou se explicar.
–Ele é uma criança, Stiles! – John ralhou com o filho.
–Eu tenho quatorze! Não sou criança – defendeu-se Derek.
–Eu não acredito que você está fazendo isso! Ele é só uma criança! – Peter falou, colocando as mãos no cabelo.
–Eu já disse isso, não precisa falar assim com o meu filho – John reclamou. Afinal, o único que podia ralhar com o filho dele era ele.
–Não estou falando com ele! Estou falando com o meu filho! – Peter retrucou, surpreendendo a todos.
–Ele não é uma criança – Derek discordou.
–Ele é puro, Derek. Ele é humano. Ele não tem ideia de onde está se metendo – argumentou Peter. Ele parecia bravo e pela primeira vez desde que Derek tinha virado um filhote, todos o viam brigando com o filho.
–Vocês sabem que eu estou aqui ainda, né? – falou Stiles, meio aborrecido por ter sido deixado de lado.
–Eu não vou fazer nada demais, eu juro – Derek se comprometeu.
Peter suspirou. Os outros ficaram calados olhando a interação dos dois. Derek parecia estar a um passo de começar a chorar.
–Vão ter regras – avisou o lobisomem — Primeira regra: nada de namorar escondido sabe-se lá Deus onde. Quero saber sempre onde vocês estão; segunda regra: nada de mordidas, nem que o Stiles peça. Ele é humano e permanecerá assim até ser legalmente um adulto.
Derek pareceu ponderar tudo, concordou e continuou a comer.
–Owwwnnnnn, parabéns, cunhadinho! – Allison comemorou, colocando sua mão sobre as de Stiles, já que estavam de lados opostos do balcão.
–Nós não estamos namorando! – Stiles afirmou com o rosto meio pálido.
–Você fica se pegando em detalhes, Stiles – comentou Lydia, despreocupada.
–Já era. Você foi fisgado – Scott riu, fazendo o amigo corar.
Isaac o puxou para um aparentemente inofensivo abraço.
–Se magoar meu irmão, quebro você Stiles. Nada pessoal. Você entende, não é? – avisou com um sorriso diabólico.
–Eu ajudo, mas no meu caso é totalmente pessoal – acrescentou Jackson.
Alguns dias passaram, e John percebeu que Peter parecia cada vez mais cansado. Estava mais magro e com olheiras terríveis.
Mas ele segurou a língua. Não queria impor nada. Ficaria de olho e se não houvesse nenhuma melhora, falaria com ele e se precisasse procuraria ajuda. Por isso, ele ficou surpreso quando numa noite, Peter veio falar com ele de livre e espontânea vontade. Disse que não conseguia dormir porque Pi não o deixava descansar, atormentando-o todo tempo. E que também estava cansado de não ter as respostas que esperava, já que não conseguiam fazer progresso com os álteres. Por fim, ele perguntou se John realmente quis dizer o que falou na intervenção, se ele toparia procurar ajuda com ele.
John até sentou na cama.
–Claro! Claro. Você tem alguma coisa em mente, já? – ele perguntou ao segurar o rosto de Peter, que também tinha se sentado, entre as mãos.
Peter fez que sim com cabeça.
No dia seguinte, após passar no laboratório para colher o material do exame de paternidade, Peter, John e Derek foram para a clínica veterinária do Dr. Deaton.
–Confesso que não imaginei isso quando você me chamou – comentou John, ao entrar na clínica.
–Que desistir? – Peter perguntou.
–Não. Claro que não. Só achei que íamos num psicólogo, e não num veterinário – falou desanimando o outro, que já estava virando para ir embora – Mas aonde você for eu vou – ele pegou a mão de Peter e a beijou – Palavra de escoteiro – completou fazendo o outro dar um sorriso.
Derek revirou os olhos.
–Vou ser o primeiro lobisomem com diabetes e a culpa vai ser de vocês dois – reclamou, fazendo os dois sorrirem.
–Nós já estamos fechando por hoj... Oh. Olá, xerife. Peter. Derek – Deaton os cumprimentou.
Peter deu um passo à frente, aproximando-se do portão que separava a recepção da sala de espera. Tomou fôlego.
–Preciso da sua ajuda – falou, olhando nos olhos de Alan, que percebeu que ele tremia um pouco, provavelmente de nervoso.
O veterinário sorriu, acalmando o lobisomem, e abriu o portão.
–Se estiver ao meu alcance – ele convidou a todos para a sala de exame.
Peter só precisou de alguns minutos para explicar sua ideia para Deaton.
–Definitivamente não, Peter. É muito arriscado – negou Alan.
–Você vai estar aqui. Eu trouxe duas pessoas que me prendem aqui, não vai ter problema nenhum – argumentou o lobisomem.
–E quantas pessoas te prendem do outro lado? Já pensou nisso? – retrucou o veterinário.
Isso fez Peter hesitar um pouco.
–Então, isso é muito perigoso? – John se intrometeu. Estava preocupado devido à reação de Deaton.
–Sim, John. Os batimentos cardíacos dele vão estar quase zerados. E não estou querendo diminuir o quanto um significa para o outro, – disse apontando para John e Peter – mas muita gente que ele amava morreu, de formas trágicas. Ele tem um histórico de tentativas de suicídio.
–Não estou tentando me matar! – Peter se defendeu.
–Não disse isso. Assim como John vai estar te segurando aqui, os outros estão te segurando lá, Peter. Você sabe isso melhor do que eu. O que você e a Laura fizeram deixou uma marca. Você sente isso, não sente? – explicou-se.
Peter balançou a cabeça.
–Eu quero fazer. Eu vou fazer – afirmou o lobisomem.
–Diga que não vai tentar isso sozinho – Alan pediu com uma voz paternal.
–Ele nunca está sozinho, Alan – falou Laura, com os olhos brilhando para o emissário. John estava logo atrás dele, com a mão em seu ombro.
Scott entrou na sala e deu de cara com todos ali. Achou estranho.
–Scott, que bom que chegou. Vou precisar da sua ajuda – falou Deaton, seco.
Após prepararem tudo, John ajudava Peter a se arrumar. Ele tirou a camiseta, os sapatos e as meias. Ficou só com a calça. John lhe deu um beijo na testa antes dele entrar na banheira cheia de gelo. Ficou segurando sua mão. E demorou pouco tempo para que Peter entrasse em transe.
–Peter, agora você vai prestar atenção só na minha voz, ok? – Deaton instruiu – Eu quero você se lembre de algumas coisas pra mim. Qual é a primeira coisa que você lembra? – Deaton perguntou.
–Uma moça de cabelos escuros e um rapaz que me carrega no colo. Gosto dele.
Peter viu a moça e o rapaz brincando e rolando na areia da praia com ele. Era divertido. E a moça tinha um sorriso tão lindo.
–Do que mais você se lembra? – o veterinário perguntou.
–Eu estou num quarto. Estou com frio. Quero sair daqui, mas não posso.
–Por quê?
–Porque estou de castigo.
–E por que está de castigo?
–Eu quebrei um vaso, mas foi sem querer. Esbarrei quando estava correndo.
–Não é legal correr dentro de casa.
–Foi o que eles disseram antes de me colocar de castigo. Mas não gosto daqui, queria ficar no meu quarto com os meus brinquedos.
Todos riram.
–Se você ficasse brincando não seria castigo, Peter.
–Mas aqui é frio, e escuro. Eu não gosto do escuro – Peter falou — Bem feito para eles. Levaram bronca da Thalia – ele riu.
–Ah, é? – Deaton riu também.
–Ela não gostou de me deixarem sozinho. Disse que é para eu gritar por ela cada vez que um deles for malvado.
–Aposto que você adorou e fez isso o tempo todo.
Peter não respondeu, só deu uma risadinha típica de crianças aprontonas.
–O que mais você lembra?
–Estou na floresta, sozinho.
–Sozinho? – estranhou o veterinário.
–Eu fugi porque me colocaram no quartinho de novo.
–Finalmente abriu a porta?
–Não, eu escalei uma estante e pulei a janela. Eles trancam a porta agora.
–Isso é perigoso, Peter.
–Mas eu queria brincar. E eu segui o caminho que Thalia me ensinou, para conseguir voltar depois. Mas agora que cheguei aqui, não sei se quero ficar.
–Por quê?
–Tem uma árvore enorme, com uma corda vermelha pendurada com um cheiro estranho. E ela está molhada, pingando.
–A corda cheira a quê, Peter?
–Metal – ele falou, fazendo os outros trocarem olhares — Ferro, eu acho. Não tenho certeza. Quero sair daqui. Mas estou com medo.
–Por quê?
–Ouvi um barulho, mas não sei de onde vem.
Peter se viu no meio da floresta, olhando para os lados e chorando baixinho. Estava tremendo. Ele viu um vulto pelo canto do olho, vindo em sua direção.
Deaton percebeu a expressão aterrorizada do lobisomem.
John segurou mais forte sua mão.
–O que houve?
–Alguém pulou em cima de mim e me empurrou no chão. Ele está prendendo minha cabeça na terra, fica difícil respirar.
–Você sabe quem é, Peter? É um homem ou uma mulher?
–É um homem. Não sei quem é. Não consigo ver. Minha cabeça dói. Tudo dói.
Derek rosnou quando ouviu aquilo e começou a andar pela sala.
–E o que está acontecendo?
–Estou chorando. Está doendo muito. Quero que pare.
–O que ele está fazendo, Peter?
–Não sei. Não gosto disso. Dói.
–E ninguém ouve vocês?
–Não sei, eu acho que eu dormi.
–Como assim?
–Está escuro agora. Muito escuro.
–Você ainda está na floresta?
–Sim, mas em outra parte, perto do lago.
–Ele ainda está aí?
–Não, estou sozinho.
Peter se viu saindo do leito do lago. Suas pernas tremiam e ele ficava tropeçando. Estava nu, e muito sujo. Ele foi andando até em casa, e quando bateu na porta, Thalia correu para abraçá-lo. Ela perguntou se ele estava bem, e ele dizia que estava com fome.
–E depois, Peter?
–Tháta disse para eu nunca mais sair sozinho, porque coisas ruins aconteciam com filhotes que não obedeciam aos mais velhos. Eu tentei obedecer, mas era muito chato ficar na casa sem fazer nada. Toda vez que eu começava a brincar, meus irmãos me mandavam ficar quieto e não fazer barulho. Então, eu ia brincar na floresta, onde podia pular e correr. Às vezes, a Tháta e o amigo dela em levavam pra brincar no parquinho ou na praia.
–Você sabe o nome do rapaz?
–Sim, mas não posso falar porque é segredo.
–Ele pediu pra não contar?
–Não, a Tháta pediu.
Deaton sorriu com a resposta.
–E o que aconteceu depois?
–Eu perguntei pra ele se lobos que não obedeciam eram maus.
–E ele?
–Ele me olhou feio e disse que lobos maus eram pendurados em árvores e cortados ao meio como lembrete para os outros.
–E isso assustou você?
Peter fez que sim com a cabeça.
–Não acho que ele goste mais de mim.
Deaton suspirou.
–Você vai tentar lembrar se aconteceu mais alguma coisa estranha. Qualquer coisa.
Peter pareceu pensar.
–Eu estava na floresta e ouvi alguém perto de novo, mas aí tudo ficou preto.
–É a mesma pessoa de antes?
–Acho que sim.
–O que a pessoa está fazendo?
–Não sei, não estou vendo ninguém aqui.
–Você ainda está na floresta?
–Não, estou em casa desenhando.
Deaton e John trocaram olhares.
–É a sua casa? Onde você mora com os seus irmãos?
–Sim e não. Parece aquela, mas só eu estou aqui.
–E você vai muito aí?
–Sim, tem um monte de brinquedos e ninguém me manda fazer silêncio.
–E dói alguma coisa dessa vez?
–Não sinto nada.
–Você consegue escutar alguma coisa, Peter?
–Alguém está falando, mas a voz está muito longe. Não consigo entender.
–E você sempre escuta essa pessoa?
Peter não respondeu, parecia com medo.
–Você conhece essa pessoa?
–Acho que sim.
–E quem é?
Peter não respondeu.
–Você consegue sair dessa casa, Peter?
–Não quero sair.
–Você tem que sair. Preciso que você veja quem é essa pessoa, Peter.
Peter largou os gizes de cera e começou a andar na direção da porta. Os sons foram aumentando. Ele abriu a porta e ela se trancou atrás dele.
A paisagem era horrível. Parecia uma floresta destruída. Objetos usados e quebrados jogados pelos cantos.
Peter sacudiu a cabeça quando começou a ver cenas pela floresta, como se fossem filmes. Filmes de sua vida.
De um lado, viu ele adolescente, sendo empurrado pelos membros do time de basquete no vestiário da escola. E de repente, a dinâmica mudou, e ele estava atracado com um dos jogadores. Os outros jogadores olhando com sorrisos safados.
Ele virou o rosto enojado e viu Chris jogando-o num rio gelado em plena madrugada. Tinha uma cara de nojo enquanto o mandava se limpar.
Peter deu uma hesitada, ignorou a cena e continuou andando na direção da voz que ficava cada vez mais alta.
Viu Thalia lhe dando um envelope com dinheiro e dizendo que seria melhor se ele ficasse longe da alcateia. Seus olhos se encheram de lágrimas com a cena.
Fechou os olhos com força. Não queria ver aquilo. Ele começou a correr.
Mas parou quando se viu no chão, encolhido e chorando no meio de sangue. Estava desesperado. O bebê tinha que nascer, mas estava preso. Não tinha espaço para sair e ele não sabia o que fazer.
E então, ele começou a entender o que a voz dizia.
“Você é uma desgraça”.
“Você sabe que merece isso, não é?”.
Peter começou a balançar a cabeça, tampando os ouvidos.
–Acalme-se, Peter. Você não está sozinho – disse quando ele viu que o lobisomem choramingava e estava se debatendo na banheira.
Peter parou de balançar a cabeça quando sentiu a mão de Laura em seu ombro.
–Estou aqui – ela disse sorrindo enquanto abaixava as mãos dele. Ele estava tremendo – Não precisa ter medo. Estou aqui com você. E não vou deixar nada te machucar – afirmou, segurando sua mão e se colocando na frente dele.
Ela continuou seguindo a voz, até que chegaram à floresta perto da Mansão Hale. Ela reconhecia esse lugar. Era a mesma árvore que Peter olhava quando ela o encontrou depois do ataque do Alfa.
Ela conseguiu ver uma pessoa em cima de uma criança, claramente abusando da mesma, que chorava e gritava para que ele parasse.
Seus olhos queimaram de ódio com a cena. E sem pensar, ela soltou a mão de Peter e correu na direção do agressor.
Mas quando chegou perto, ela o reconheceu e ficou paralisada.
As lágrimas escorriam em seu rosto, e ela começou a ouvir uma gargalhada. Era Pi que estava comendo pipoca, e parecia extremamente feliz que ela finalmente tivesse descoberto tudo.
–Não esperava por essa, hein? – ela debochou, ainda com um sorriso malvado no rosto – Agora só falta o final dramático – ela riu, jogando algumas pipocas na boca.
Laura virou e viu que Peter se aproximava.
–Laura? – chamou, procurando-a.
–Volta para a casa, Peter! – ela gritou para ele – Não é seguro aqui.
–Não vou deixar você aqui – ele respondeu e começou a correr na direção da voz dela.
Quando ela viu que ele estava muito próximo e que se esticasse o pescoço, poderia vê-lo, ela não pensou duas vezes e o atacou. Ele caiu no chão de pronto, e ela gritou quando viu o corpo dele imóvel e uma poça de sangue se formando embaixo de sua cabeça.
Deaton sabia que algo deu errado quando Peter começou a se debater na banheira. Deu instruções para que voltasse, mas nada funcionava.
–Os batimentos pararam! – gritou Scott.
–Tira ele daí – gritou Derek desesperado. Não queria perder o pai e a irmã de uma só vez.
John puxou Peter para fora, sem se importar com todo o gelo. Seus lábios estavam azuis, e John sentiu seus olhos lacrimejarem. Ele não deveria ter apoiado essa ideia maluca.
Quando estava segurando Peter, para levá-lo para a mesa de Deaton, o corpo do lobisomem ficou tenso e ele abriu os olhos e deu um grito agoniado.
Ela pulou do colo dele e se encolheu num canto da sala, tremendo e chorando.
–Laura, se acalme. Acabou. Você está na clínica de novo.
Derek correu e a abraçou.
–Preciso que você me diga o que aconteceu. Onde está o Peter? Ele está bem?
–Eu sinto muito, eu sinto muito – ela respondeu, soluçando – Eu o acertei – ela confessou.
–Por quê? – perguntou John, irritado.
–Eu só estava tentando protegê-lo – ela chorou – Mas eu exagerei na força.
–Como assim? – estranhou Deaton – Você conseguiu realmente feri-lo?
Ela nem precisou responder. Nesse instante, seu nariz e ouvidos começaram a sangrar abundantemente.
Demorou um tempo até que parasse de sangrar. Deaton explicou que o poder da mente era algo realmente muito forte, e como ela acreditou que o tinha ferido, acabou por realmente fazê-lo.
John achava isso tudo uma balela sem fim. Laura tinha feito merda e ponto. Não tinha necessidade de enfeitar e arrumar desculpas.
Eles estavam voltando para casa. E ele não via a hora de chegar. Sabia que seu humor teria que melhorar muito para ficar ruim, e ver Laura dançando no banco o estava deixando ainda mais irritado.
–Qual é o seu problema? Quer que eu pare em algum posto para você usar o banheiro? – perguntou quando viu que ela segurava a barriga e se contorcia.
–Está doendo, seu grosso – ela respondeu.
–Doendo como? – ele estava estressado, queria arrumar briga e ela era um alvo perfeito.
–Câimbras – ela disse.
–Nunca vi um lobisomem com câimbra – comentou Derek, do banco de trás. Não estava feliz de passear de viatura no banco de trás. As pessoas na rua o olhavam de modo estranho.
John deu uma freada brusca e virou o carro com tudo. Laura bateu a cabeça no vidro com a violência da virada. Carros buzinavam na rua para John, mas pararam quando John colocou a cara para fora e falou que prenderia todo mundo que estivesse achando ruim. Ele fez uma conversão ilegal, ligou a sirene e saiu cantando pneu.
–Ficou maluco? – perguntou Laura, massageando a cabeça.
–Eu vou levar você para o hospital. Você não está com câimbras. Está passando mal por causa do bebê – ele explicou. Seu dia tinha acabado de piorar.
Horas depois, os três finalmente chegaram em casa. John abriu a porta, Derek entrou e por último a Laura.
–Nossa, até que enfim chegaram – falou Isaac.
–Aconteceu alguma coisa? – perguntou Stiles.
–Tá tudo bem, agora – respondeu John.
Laura olhou estranho para ele, balançou a cabeça e foi pegar alguma coisa pra beber.
–Você precisa descansar – ele ralhou com ela.
–Vai à merda! – ela respondeu naturalmente.
Os adolescentes ficaram olhando a cena, sem querer se meter. John estava com o rosto vermelho e fulminava Laura com o olhar.
–Você não pode fazer isso. Ele precisa descansar. Foi um dia horrível hoje – ele gritou para ela.
Laura concordou com a cabeça.
–Se vocês soubessem como eu invejo essa habilidade de poder encher a cara – resmungou ao olhar o conteúdo da geladeira.
Ela pegou uma cerveja da geladeira e uma garrafinha de água.
–Você não pode beber! Ele está grávido – falou John, horrorizado.
–Ele é um lobisomem – ela retrucou.
–Mas você não sabe se o bebê é. Pode ser humano – ele rebateu.
–Por quê? Acha que é seu filho? – ela perguntou surpresa. Talvez o humano não fosse tão inútil assim.
Ele deu uma hesitada. Ela mesma veio em seu socorro. Sabia que não era justo colocá-lo na parede.
–A cerveja é para você. Eu vou de água – ela explicou.
Ela se sentou ao balcão, e ele à sua frente. Pegou um papel e uma caneta e escreveu algo. E dobrou o papel com muito cuidado.
–Você viu alguma coisa, não foi? Sabe quem fez aquelas coisas horríveis com ele – falou Scott.
Ela olhou para Scott e não respondeu.
–Vou seguir seu conselho, Xerife – falou parecendo cansada.
Laura lhe entregou o papel, bateu em seu ombro e subiu as escadas.
Scott e Derek viram Laura subir, com expressões preocupadas.
–O que aconteceu hoje, afinal? – perguntou Stiles para seu pai.
–Sinceramente não sei, Stiles. Eu vou pra casa. E Stiles?
–Sim.
–Não faça nada que eu não faria, ok? – ele apontou com a cabeça para Derek.
Os outros riram.
John atravessou a rua o mais rápido que pôde, entrou e trancou a porta.
Pegou o papel que Laura lhe deu e abriu.
Dentro, só havia um nome: Martin Hale.
Fim do cap. 23
Fale com o autor