(sem título)

agora garoa

de perto

petricor

tem cor

preta

tempestade

tentou e

me nocauteou.

Tez esquálida

rasgada

cede.

a chuva

é de

chumbo

e não quero que

me atarraxe

ao chão.

Sangue

escorre

soalheiro

e espesso

e eu sorrio

[1.12.17, 10:04 am]

Eu adoro aliterações, talvez tenha dado para notar. Mas como esse poema é muito mais que só um monte de palavras aleatórias com sons parecidos, vou logo acabar com a graça que seria desvendá-lo: aqui falo sobre estar esgotada de tantas dores e sobre, mesmo assim, não querer ceder, e sim me reerguer, por cima de meu próprio sangue. Literalmente, porque me automutilava com uma frequência preocupante.

Um momento de muita dor me motivou a escrever esse texto, era tudo o que eu lembrava. Fui atrás da raiz e, de fato, que merda.

Resgatei uma conversa com Khalil em que relatava uma situação de assédio no caminho da escola para casa: "Quase fui perseguida por um homem que ficava assobiando pra mim sem parar. Eu fiquei nervosa. Não disse nada. Engoli a porra do choro (e um grito). Não vou usar meia arrastão nunca mais (espero genuinamente que tenha sido coisa da minha cabeça, mas tive a impressão que vários homens antes desse também ficaram me encarando)."

Me assustei ao reler essa conversa, não lembrava que isso tinha acontecido. Eu tinha 16 anos. Sexta feira passada usei meia arrastão. Ainda este mês fui assediada numa festa. Isso é tão bizarro que não sei nem como concluir.