nuvens

Espero que passem

As horas

Os dias

semanas

Tão rápidos

quanto passam

as nuvens

nesse céu

tão pálido

de azul.

Eu as olho

e me vem

à memória

a lembrança

de ti

de nós

de ontem.

da garoa que tomamos

dos beijos que não demos

das risadas que seguramos

(e lágrimas também)

[24.12.17, 6:58 pm]

Na véspera de Natal de 2017 eu estava na casa da minha avó porque ia passar o final do ano lá. Tinha muito a ser feito (tanto para a ceia quanto para o almoço do dia seguinte) então passei a manhã inteira ajudando na cozinha.

Eu estava meio triste: Khalil ia viajar durante 1 mês com sua tia por alguns lugares da América Latina e (ele ainda nem tinha ido, mas) já estava com saudades. Pedi a meus pais para vê-lo uma última vez.

Tenho lembranças bem pontuais desse mini encontro, como meu pai me levando de carro até a estação de metrô onde encontrei Khalil. Subia um mormaço do chão, sinal de que logo iria chover, mas ignoramos isso. Khalil tinha colocado um piercing no septo havia pouco tempo, de modo que o furo ainda estava cicatrizando e fazer movimentos bruscos lhe doía. Isso incluía beijos.

Lembro de pegarmos um ônibus que subia a Teodoro Sampaio. Num sacolejo, dei uma cabeçada no nariz de Khalil e não sei como ele não sangrou.

Lembro de seus olhos me mirando a todo momento, beirando a urgência, como se quisesse guardar consigo todos os mínimos detalhes de meu rosto: o ossinho de meu nariz; a pintinha abaixo de meu olho direito; uma concentração de tímidas sardas no mesmo lado. Lembro de arrumar suas sobrancelhas, porque elas estavam sempre despenteadas e rebeldes. Ele as deixava assim de propósito, achava bonitinho que eu fazia aquilo.

Mas mais do que tudo isso, lembro da sensação das lágrimas se acumulando ao ver Khalil indo embora. Segurei o máximo que pude pois sabia que se ele me visse chorando, choraria também, e seu choro era uma das coisas mais dolorosas de se ouvir.