Inverness, Escócia – 1732

Arrepios percorreram o corpo de Bonnie ao perceber a pequena janela aberta da cabana onde vivia. O vento gelado cortava como lâminas invisíveis, trazendo consigo os sons distantes da floresta e o cheiro úmido da neve recém-caída. A moça, de longos cabelos castanhos em cachos soltos que emolduravam seu rosto delicado, levantou-se cuidadosamente da cadeira de balanço de madeira, tentando não despertar o garoto que dormia aninhado em seus braços.

Com movimentos suaves, empurrou uma das abas da janela, sentindo o frio invadir seus dedos. Do lado de fora, a neve caía em flocos grossos, dançando sob a luz pálida da lua. Era uma visão quase mágica, mas o gelo em seu peito não vinha apenas do inverno — vinha do medo do futuro.

Logan, o pequenino de apenas cinco anos, havia mudado completamente sua vida. Não que ela se arrependesse. Pelo contrário, nunca havia sentido tanto amor, tanto propósito, como por aquele anjinho de cabelos ruivos e pele clara como o leite. Ele era sua luz em meio à escuridão, o motivo por trás de cada passo cansado e cada lágrima contida. No entanto, a trajetória até ali fora tudo menos fácil, e Bonnie sabia, com dolorosa certeza, que ainda não havia terminado.

Ser mulher em uma época como esta, expulsa de seu próprio clã e sozinha com uma criança pequena, não é nada simples. No entanto, Bonnie conseguiria, ou melhor, teria que conseguir, pois prometera à mãe da criança e ao próprio menino que não os decepcionaria. Bonnie não era do tipo que não cumpria com suas promessas.

Deitou-se com Logan na cama estreita, puxando as cobertas puídas até os ombros dos dois. A cada rajada de vento, as paredes rangiam como se estivessem implorando por alívio, mas a moça mantinha o semblante sereno por fora. Por dentro, seu coração clamava. Rezou em silêncio, não a uma divindade específica, mas a qualquer força que pudesse ouvi-la — os deuses antigos, os santos cristãos, os espíritos das montanhas. Alguém que mostrasse uma saída.

— Por favor, que alguém nos encontre, que a escuridão desta noite não seja o fim para nós — pensou, a voz presa na garganta. Seu coração doía com o medo e a incerteza, mas também com uma esperança frágil, como a chama de uma vela à mercê do vento. Os poucos recursos que tinha estavam desaparecendo rapidamente, e o mundo parecia virar as costas para uma jovem mãe deserdada e sozinha.

Naquela mesma noite, não muito longe dali, um homenzarrão era arrastado pelos ombros por dois amigos para fora de uma das tavernas do clã Mackenzie. Rindo, tropeçando e soltando maldições entre dentes, ele mal percebia que estava sendo carregado como um saco de farinha. O cheiro forte de cevada fermentada impregnava sua túnica, e seu olhar, por trás das pálpebras semi-cerradas, vagava sem foco.

Ian Mackenzie, herdeiro da liderança do clã, era conhecido por sua bravura, sua força, e — ultimamente — por seus excessos. Não que ele gostasse da embriaguez em si. Não era um homem que apreciava a perda de controle. Pelo contrário, ele era feito para liderar, para comandar. Mas havia um vazio em seu peito, um buraco que nem o mais forte dos uísques conseguia preencher. E então, ele bebia. Bebia na esperança de esquecer que algo lhe faltava. Algo que o fizesse queimar por dentro novamente. Algo que reacendesse a centelha de propósito que há muito se apagara.

Foi jogado de qualquer jeito na cama do castelo ainda resmungando, enquanto seus amigos riam e se despediam. Com esforço, tentou remover as botas pesadas de couro, contorcendo-se como uma minhoca fora da terra. Antes de adormecer, murmurou em gaélico ao teto de pedra — ou talvez aos céus, se alguém lá o escutasse:

Dhia, cuid' orm... — sussurrou. "Deus, cuide de mim." — Dè mo rùn... càit a bheil thu? — "Meu destino... onde estás?"

Na quietude que se seguiu, algo pareceu estremecer no ar. Um fio invisível foi puxado. E o destino, que até então dormia, começou a se mover.