Os primeiros raios pálidos de sol filtravam-se timidamente pelas frestas da madeira envelhecida e maltratada da cabana onde Bonnie morava. A luz invadia o espaço simples, despertando-a com um incômodo súbito nos olhos ainda sonolentos. Lentamente, com a agilidade de um felino, ela se esgueirou para fora dos cobertores peludos que envolviam o corpo pequeno e quente do menino que dormia tranquilamente, alheio ao frio da manhã. O rosto angelical de Logan, iluminado pelos primeiros raios do dia, fez Bonnie suspirar com uma mistura de amor e preocupação — mais um dia de luta começava.
Além das dificuldades implacáveis causadas por sua condição financeira e pelo estigma de ser mãe solteira, havia o peso das vozes maldosas e julgamentos implacáveis. Bonnie sentia na pele o olhar desconfiado e as cochichas da vila, que a condenavam como mulher desonrada por carregar um bastardo nos braços. Seu trabalho como curandeira e vendedora de emplastros, que deveria ser fonte de orgulho, era manchado por acusações sussurradas de bruxaria e prostituição. Cada passo que dava parecia um desafio para ser aceita.
Bonnie se lembrava com carinho da velha Yvaine, a curandeira do clã, uma senhora corcunda de cabelos prateados presos numa tiara feita de galhos secos e flores amarelas. Foi ela quem a ensinou a arte dos remédios e das ervas, quem a acolheu em seus momentos mais frágeis. Porém, o trágico fim de Yvaine, vítima das superstições e do medo das pessoas, deixou Bonnie com um luto profundo e um desencanto amargo. Saber que alguém tão bondosa havia morrido tentando salvar vidas fez com que ela desacreditasse nos deuses e em qualquer proteção divina. Por anos, questionou a existência de um poder superior, pedindo sinais e respostas que nunca chegavam.
Mas, quando Bonnie já estava quase desistindo, um motivo simples e sagrado se apresentou — seu filho, seu pequeno raio de luz, que trazia sentido ao seu mundo desmoronado.
Ela olhou para Logan, seus traços delicados — os dedinhos minúsculos dos pés, o nariz arredondado e as sardas que saltavam de seu rosto pálido — tudo aquilo era tão perfeito que Bonnie não conseguiu evitar um sorriso trêmulo. Ele era a única alma que a admirava sem julgamentos, que seguia seus conselhos, que buscava conforto em seus braços. Era por ele que Bonnie levantava todas as manhãs, enfrentando a dureza do mundo em busca de um futuro menos cruel.
Ser o porto seguro de alguém é gratificante e assustador ao mesmo tempo. Bonnie sabia que, para Logan, era o herói e o mundo inteiro. Mas a responsabilidade de ser o exemplo, de manter-se firme e forte mesmo quando tudo parecia desmoronar, era uma pressão sufocante. Muitas vezes, em silêncio, ela desejava que alguém a abraçasse e dissesse que tudo ficaria bem.
Após um café simples — um chá feito com ervas colhidas da pequena horta na entrada da cabana e um pedaço de pão velho, dado pelo padeiro da vila — Bonnie vestiu Logan com roupas ainda apertadas para ele. O menino crescia rápido demais, e a preocupação em não ter como comprar novas roupas era constante e angustiante.
Para garantir o alimento da noite, saíram em direção ao vilarejo, a apenas cinco minutos a pé. Bonnie sentia o peso do ódio silencioso e das fofocas que a perseguiam ali, mas ainda havia pessoas com quem podia contar. Isla, esposa do sapateiro, cuidava de Logan enquanto ela tentava vender seus emplastros, e Douglas, o padeiro, sempre deixava um pedaço de doce para o menino.
O dia se arrastou em tentativas frustradas. A maior parte dos moradores evitava seu olhar, ou a ignorava completamente, como se ela fosse invisível. Quando a exaustão já dominava seu corpo, Bonnie avistou Isla, que vinha correndo com o rosto tomado por horror. O pânico estampado na expressão da amiga não a deixou esperar por explicações. Ela correu para onde havia deixado Logan pela manhã, o coração batendo descompassado.
A cabeça girava rápido demais, e, em outra situação, a vertigem poderia tê-la derrubado, mas seu corpo estava em alerta máximo. Uma única pergunta martelava em sua mente: "Onde está Logan?".
Foi o choro — aquele choro que Bonnie reconheceria entre mil — que a guiou. Não era o choro de fome ou cansaço, mas o desespero puro, de quem sofre e teme. Seus passos apressados ressoavam pelas estreitas ruas da vila, enquanto a angústia crescia no peito.
E então, a cena que nenhum pesadelo poderia preparar: Logan estava amarrado a um poste no centro da praça, tremendo e chorando copiosamente. Suas costas estavam expostas, vermelhas e marcadas, prestes a receber chicotadas da autoridade local.
As vaias e o murmúrio raivoso da multidão formavam um coro cruel. Sem hesitar, Bonnie correu e se jogou entre o menino e o algoz, encarando o homem de casaca vermelha com uma coragem que surpreendia até a si mesma. Com voz firme e trêmula ao mesmo tempo, ela gritou:
一 Posso saber o que um menino inofensivo como ele poderia ter feito para gerar tanto ódio no senhor e seus compatriotas a ponto de querer açoitá-lo?
Ainda protegendo Logan com seu corpo, bloqueando qualquer ação que pudesse ser feita contra ele, pelo menos não antes de passar por ela. O homem fardado, que até então só a julgava pelos olhos, respondeu à pergunta com uma voz carregada de arrogância:
一 Inofensivo? Esse pirralho roubou uma joia de um dos comerciantes e precisa de uma lição. Então, senhorita, é melhor sair da minha frente ou também aprenderá a não se intrometer em questões políticas.
A ameaça dele foi o estopim para Bonnie, que com uma coragem que até ela mesma desconhecia, levantou-se, ainda entre os dois, encarou aquele homem que a observava como se fosse um verme e disse:
一 Sinto muito lhe dizer, senhor, mas eu fiz uma promessa à mãe desse menino de que o protegeria com meu próprio corpo, se fosse necessário, e eu não sou uma mulher que descumpre a palavra. Assim, faça o que deve ser feito, mas comigo, não com ele.
Dito isso, a escocesa só teve tempo de ouvir uma concordância antes que o tal homem arrancasse quase que por completo a parte superior de seu vestido. Graças aos seus bons reflexos, conseguiu tampar seus seios a tempo, evitando ficar exposta ao público. Foi empurrada até o poste que a criança estava amarrada, e ajoelhou-se de costas para seu açoitador, fechando os olhos, esperando que a dor chegasse.
Mesmo com a ansiedade consumindo cada fibra de seu corpo, Bonnie sussurrava palavras de conforto ao filho, assegurando-lhe que não tinha o que temer. Mas, no fundo, sabia que suas palavras não chegavam a acalmar seu próprio coração.
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