Uma lição de amor
11 Ligação
Narrado por Renesmee
Saí da sala da diretora com a sensação de que o ar no corredor estava mais pesado do que antes. Caminhei sem olhar muito para os lados, segurando a pasta contra o peito com força demais, tentando organizar os pensamentos enquanto atravessava o prédio da escola.
Transferida.
A palavra ainda ecoava na minha cabeça.
Não era apenas uma troca de turma. Eu sabia exatamente o que aquilo significava. Afastar Ayla de mim. Criar distância. Transformar o que tinha sido uma semana leve e cheia de risadas em algo que, para a escola, nunca deveria ter acontecido.
Empurrei a porta da saída e o ar frio da tarde de Seattle bateu no meu rosto. Respirei fundo uma vez, depois outra, tentando acalmar a irritação que crescia dentro de mim.
Caminhei até meu carro, abri a porta e me joguei no banco do motorista.
Fiquei alguns segundos parada, segurando o volante, olhando para frente sem realmente ver nada.
– Respira, Renesmee… – murmurei para mim mesma.
Soltei o ar devagar.
Eu sabia que discutir mais não ia mudar a decisão da diretora. Mas aquilo não deixava de parecer injusto. Ayla não tinha feito nada além de gostar das aulas. E eu só tinha tentado ajudar uma criança a não ficar para trás.
Liguei o carro.
Se havia uma pessoa que sempre conseguia colocar meus pensamentos no lugar, essa pessoa era minha mãe.
Então virei o volante e segui pelas ruas de Seattle em direção à casa dos meus pais.
O trânsito estava mais lento do que o normal, e durante todo o caminho minha mente continuava voltando para a mesma coisa. A expressão de Ayla quando aprendia algo novo. As perguntas curiosas. O jeito como ela chamava meu nome quando eu chegava.
"Nessie!"
Soltei um pequeno suspiro.
Quando finalmente estacionei em frente à casa dos meus pais, percebi algo estranho imediatamente.
A porta da frente estava aberta.
E de dentro vinha o som de vozes.
Risos.
Franzi levemente a testa enquanto subia os poucos degraus da varanda.
– Mãe? – chamei ao entrar.
Assim que atravessei a porta da sala, a cena diante de mim me fez parar no mesmo lugar.
Meu pai estava de pé perto do sofá. Minha mãe também. E os dois estavam abraçando alguém.
Elizabeth.
Minha irmã mais velha.
Ela estava no meio dos dois com um sorriso enorme no rosto, enquanto minha mãe segurava as mãos dela com emoção evidente.
Ao lado deles…
Alec.
Meu corpo ficou rígido por um segundo.
Ele estava parado perto da poltrona, com um braço apoiado nas costas de Elizabeth de forma natural demais.
Foi então que ouvi a voz da minha mãe.
– Parabéns, minha querida… isso é maravilhoso.
Ela levou as mãos ao rosto da minha irmã.
– Um bebê!
Meu estômago pareceu despencar.
Elizabeth riu, emocionada.
– Eu ainda estou tentando acreditar.
Foi nesse momento que meu pai levantou os olhos e me viu.
O sorriso dele desapareceu no mesmo instante.
Minha mãe virou o rosto.
Elizabeth também.
E Alec…
Alec foi o último a me olhar.
O silêncio que caiu na sala foi tão rápido que parecia ter congelado o ar.
Ninguém disse nada.
Fiquei parada perto da porta, olhando para todos eles enquanto tentava processar o que estava acontecendo.
Então soltei um pequeno suspiro.
Bom.
Aparentemente… o dia ainda podia piorar.
Fiquei parada na porta por alguns segundos que pareceram longos demais, tentando organizar qualquer frase que não revelasse o turbilhão que estava acontecendo dentro da minha cabeça.
Minha língua parecia pesada.
– Eu… – comecei, gaguejando um pouco antes de conseguir terminar – eu estava passando por aqui e… decidi fazer uma visita.
A frase soou fraca até para mim.
Elizabeth foi a primeira a reagir. Ela se soltou dos braços dos nossos pais e caminhou na minha direção com um sorriso que parecia genuíno demais para aquela situação.
– Nessie!
Ela abriu os braços como se fosse me abraçar.
– Eu estou tão feliz em te ver.
Forcei um sorriso.
Do tipo que não chega aos olhos.
– Eu também.
Ela me abraçou rápido, e eu retribuí de forma automática, mas meu olhar já estava procurando outra coisa na sala. Ou melhor… tentando evitar uma pessoa.
Meu pai percebeu o clima pesado imediatamente, Edward sempre teve esse talento estranho para tentar costurar silêncios desconfortáveis.
Ele abriu os braços como se estivesse anunciando algo importante.
– Bom… agora sim o dia ficou ainda melhor.
O sorriso dele era caloroso enquanto olhava ao redor da sala.
– Minha família está completa.
Senti o peso da palavra família cair sobre mim como uma pedra.
Minha mãe se aproximou logo em seguida. Bella sempre se movia com aquele cuidado suave que parecia envolver tudo ao redor.
Ela me abraçou com força – Eu estou tão feliz que você veio.
Encostei o rosto no ombro dela por um segundo.
– Eu… na verdade só estou de passagem.
Me afastei devagar.
– Não vou poder ficar. Tenho um compromisso.
O silêncio voltou a pairar sobre a sala por um instante.
Foi então que ouvi a voz que eu mais queria evitar.
– Nessie…
Alec.
Não precisei olhar para saber que ele estava me observando.
– Você está bem?
Meu corpo inteiro ficou tenso e eu simplesmente não respondi. Passei os olhos pela sala, evitando olhar diretamente para ele, como se a pergunta nunca tivesse sido feita.
Meu pai percebeu.
Minha mãe também e o ar parecia cada vez mais apertado dentro daquela casa.
De repente eu não conseguia respirar direito ali – Eu… preciso ir.
A frase saiu rápida demais. Virei antes que alguém pudesse dizer qualquer coisa e caminhei em direção à porta.
– Renesmee… – ouvi a voz do meu pai atrás de mim.
– Filha… espera – minha mãe chamou logo depois.
Mas eu já estava descendo os degraus da varanda com o coração batendo rápido demais no peito enquanto eu atravessava o jardim quase correndo.
Entrei no carro, fechei a porta com força e liguei o motor.
– Nessie! – ouvi meu pai gritar do lado de fora.
Minha mãe também chamava meu nome.
Mas eu não olhei para trás. Engatei a marcha e acelerei.
Os pneus cantaram no asfalto enquanto eu saía da frente da casa.
E mesmo depois de virar a esquina, ainda parecia que aquele nó no peito não tinha ido embora.
Narrado por Jacob
Eu estava sentado no tapete da sala com Ayla, cada um com um prato improvisado no colo. O lanche era simples, pão com queijo e um copo de suco, mas naquele momento parecia suficiente. A televisão iluminava a sala com cores exageradas de uma animação que Ayla insistia em assistir sempre que podia. Eu não acompanhava direito a história, mas fingia prestar atenção enquanto observava mais minha filha do que a tela.
Ela estava mais animada do que na hora em que chegou da escola. As pernas dobradas no chão, os olhos grudados na TV, comentando cada coisa que acontecia como se fosse a coisa mais importante do mundo.
– Pai, olha isso! – ela apontou para a tela. – Ele vai cair!
Na mesma hora o personagem escorregou de uma montanha de gelo e despencou em uma bola gigante de neve.
Ayla começou a rir.
– Eu falei!
Eu sorri, mordendo um pedaço do pão.
– Você tem talento pra prever desenho animado.
– É fácil – ela respondeu com orgulho. – Eles sempre fazem besteira.
Foi bom ouvir aquele riso de novo. Depois da conversa na porta de casa mais cedo, eu tinha ficado com a sensação de que a tristeza ainda estava ali, escondida em algum canto. Ver Ayla relaxada outra vez trouxe um alívio silencioso que eu nem tinha percebido que precisava.
A porta da casa abriu sem cerimônia alguns minutos depois.
– Espero que tenha comida sobrando – disse Seth ao entrar.
Ayla virou o rosto na hora.
– Tio Seth!
Ele caminhou até a sala e se jogou no sofá como se fosse dono da casa.
– O que estamos assistindo?
– O melhor desenho do mundo – Ayla respondeu com seriedade.
Seth olhou para a televisão por dois segundos.
– Eu tenho minhas dúvidas.
A menina cruzou os braços – Você nem viu direito.
Eu ri baixo enquanto pegava outro pedaço de pão – Quer um lanche?
– Claro.
Seth pegou um pedaço do prato que estava sobre a mesa de centro sem nem pedir permissão – Valeu.
Ficamos ali por alguns minutos, comentando a história absurda do desenho e as teorias ainda mais absurdas de Ayla sobre o que iria acontecer no próximo episódio quando meu celular começou a tocar sobre a mesa. Peguei o aparelho quase distraído e olhei para tela franzindo a testa ao ver o nome.
Renesmee Cullen.
Por um segundo fiquei apenas olhando o nome no display, surpreso. Ela nunca tinha me ligado antes.
Levantei devagar.
– Já volto.
Afastei-me alguns passos da sala e atendi enquanto caminhava em direção à cozinha.
– Alô?
Do outro lado da linha não houve resposta imediata.
Só um som baixo. Respiração. E então percebi. Ela estava chorando.
Meu corpo inteiro ficou alerta.
– Renesmee?
A voz dela saiu tremida.
– Jacob… eu… desculpa te ligar assim.
– Ei… calma.
Encostei a mão no balcão da cozinha, tentando entender o que estava acontecendo.
– O que aconteceu?
Ela respirou fundo, mas a voz ainda parecia quebrada.
– Eu… não tinha mais ninguém com quem conversar.
Aquilo fez um aperto estranho surgir no meu peito.
– Onde você está?
Houve alguns segundos de silêncio antes dela responder.
Ela disse o nome de uma praça em Seattle.
Endireitei o corpo imediatamente.
– Fica aí.
Minha voz saiu firme.
– Não sai daí.
Encerramos a ligação poucos segundos depois voltei para a sala tentando parecer o mais normal possível.
Seth estava sentado no chão agora, e Ayla explicava alguma teoria absurda sobre o desenho.
– Seth .
Ele levantou os olhos.
– O que foi?
– Preciso sair um pouco.
Ayla virou a cabeça na mesma hora.
– Pra onde?
Passei a mão nos cabelos dela.
– Coisa rápida.
Olhei para Seth.
– Você pode ficar com ela?
Ele deu de ombros.
– Claro.
Peguei minha jaqueta da cadeira.
– Não demoro.
Ayla já tinha voltado a olhar para a televisão quando saí pela porta da frente.
Mas assim que entrei no carro e liguei o motor, pisei no acelerador com pressa.
Porque a única coisa que ficava ecoando na minha cabeça era o som da voz de Renesmee do outro lado da linha.
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