Uma lição de amor
12 Amigos
Notas iniciais
Narrado por Renesmee
A noite já tinha começado a cair quando eu me sentei em um dos bancos da praça, segurando o celular entre as mãos. As luzes amarelas dos postes iluminavam os caminhos de pedra e refletiam nas folhas das árvores. Eu tinha parado ali quase sem pensar, apenas dirigindo até um lugar onde pudesse respirar um pouco.
A praça estava tranquila. Algumas pessoas caminhavam com cachorros, um casal conversava perto da fonte, e o som distante do trânsito de Seattle parecia abafado pelo vento frio que passava entre as árvores.
Eu estava olhando para o celular, tentando controlar a respiração, quando ouvi uma voz conhecida atrás de mim.
– Renesmee.
Levantei a cabeça imediatamente.
Jacob caminhava na minha direção pelo caminho de pedra. Ele parecia um pouco ofegante, como se tivesse vindo rápido demais, e os olhos estavam atentos, analisando meu rosto antes mesmo de parar diante de mim.
Levantei do banco quase por reflexo.
– Jacob…
Ele se aproximou mais um passo, observando meu rosto com atenção.
– Você está chorando.
A pergunta veio direta, sem rodeios.
– Aconteceu alguma coisa?
Passei a mão rapidamente pelo rosto, tentando limpar as lágrimas que eu nem tinha percebido que ainda estavam ali.
– Eu… – soltei um pequeno suspiro – eu precisava desabafar.
Olhei para o chão por um segundo antes de completar:
– E por alguma razão pensei em você.
Ele inclinou a cabeça de leve, cruzando os braços de forma descontraída.
– Faz sentido.
Ergui os olhos para ele.
– Faz?
– Claro – respondeu com um meio sorriso. – Eu tenho cara de psicólogo.
Aquilo me pegou de surpresa.
Uma risada escapou antes que eu pudesse evitar.
– Você não tem cara de psicólogo.
– Tenho sim.
Ele apontou para o banco onde eu estava sentada.
– Vamos lá… sente no divã.
Olhei para o banco de madeira e depois para ele.
– Divã?
– Exatamente.
A forma séria com que ele disse aquilo me fez rir outra vez.
Sentamos no banco. O vento leve mexia nas folhas das árvores acima de nós enquanto o silêncio confortável se instalava por alguns segundos.
Jacob apoiou os braços nas pernas e virou um pouco o corpo na minha direção.
– Certo… – ele disse. – Agora pode começar.
– Começar o quê?
– O desabafo.
Ele fez um pequeno gesto com a mão.
– Estou ouvindo.
Baixei os olhos para as minhas mãos. Meus dedos começaram a brincar nervosamente um com o outro, um hábito que eu sempre tinha quando precisava falar de algo difícil.
Jacob percebeu imediatamente.
– O que houve?
A voz dele era calma.
– Aconteceu alguma coisa na escola?
Balancei a cabeça.
– Não.
Respirei fundo.
– Isso é… pessoal.
Ele não disse nada. Apenas continuou ali, esperando.
Fiquei alguns segundos em silêncio antes de finalmente falar.
– Há dois anos… eu namorava alguém.
Jacob levantou levemente as sobrancelhas.
– Certo.
– O nome dele é Alec Volturi.
Olhei para frente enquanto lembrava de tudo.
– Tudo parecia bem entre nós. A gente tinha planos, conversava sobre o futuro, essas coisas que as pessoas fazem quando acreditam que estão construindo algo juntos.
Minha voz ficou um pouco mais baixa.
– Então ele decidiu fazer um curso de férias em Paris. Era algo curto, algumas semanas.
Passei a mão pelo cabelo.
– Eu não pude ir com ele porque estava terminando a faculdade. Trabalhos finais, provas… aquela loucura.
Jacob assentiu levemente, acompanhando a história.
Continuei:
– O detalhe é que minha irmã mais velha… Elizabeth… também estava em Paris naquele período.
Fiz uma pequena pausa.
– Enquanto Alec estava lá… ele terminou comigo.
Jacob franziu a testa.
– Do nada?
– Do nada.
Olhei para o chão.
– Eu não entendi na época. Achei que talvez ele tivesse mudado de ideia sobre nós, ou que a distância tivesse bagunçado a cabeça dele.
Soltei um pequeno suspiro.
– Até que eles voltaram.
Jacob inclinou um pouco mais o corpo na minha direção.
– Eles?
Levantei os olhos.
– Alec e Elizabeth.
Por um segundo ele ficou completamente em silêncio.
Então piscou devagar.
– Espera… – ele disse, tentando processar. – Sua irmã… e seu namorado?
Assenti.
– Exatamente.
Jacob passou a mão pelo rosto como se estivesse tentando organizar aquilo na cabeça.
– Tá… isso é…
Ele parou no meio da frase, procurando uma palavra que provavelmente não fosse ofensiva demais.
– Complicado.
Soltei uma pequena risada cansada.
– Essa é uma forma educada de dizer.
Jacob ficou alguns segundos olhando para mim antes de falar novamente.
– Você pode me dar o endereço dele?
Franzi a testa.
– O quê?
Ele manteve uma expressão completamente séria.
– O endereço.
– Pra quê?
– Para eu resolver isso pessoalmente.
Eu o encarei por dois segundos… e então comecei a rir.
De verdade.
– Você não pode estar falando sério.
Ele deu de ombros.
– Eu sou muito bom em resolver problemas.
Balancei a cabeça ainda rindo.
– Jacob Black… você é impossível.
Narrado por Jacob
Fiquei em silêncio enquanto Renesmee falava, deixando que ela colocasse tudo para fora sem interromper. O vento da praça passava devagar entre as árvores, levantando algumas folhas secas do caminho, e por um momento eu quase esqueci onde estávamos. Minha atenção estava toda nela.
Enquanto escutava a história, uma parte de mim foi ficando cada vez mais irritada.
Não com ela.
Com o cara.
Eu olhava para Renesmee sentada ao meu lado, com os dedos ainda entrelaçados de nervoso, o rosto marcado pelo cansaço daquele dia, e não conseguia entender uma coisa simples.
Como um homem podia fazer aquilo com uma mulher como ela?
Não era só pela aparência. Claro que Renesmee era linda, isso qualquer pessoa percebia em dois segundos. Mas não era só isso. Era o jeito dela falar, a forma como se preocupava com os outros, a paciência que tinha com minha filha, a maneira como escutava de verdade quando alguém dizia alguma coisa.
Aquilo não era o tipo de pessoa que você simplesmente descartava.
Muito menos para ficar com a irmã dela.
Passei a mão pelo queixo, ainda tentando processar a história.
– Isso tudo é… muito complicado.
Ela soltou uma pequena risada sem humor.
– Essa é outra forma educada de dizer.
Olhei para ela de lado.
– E a sua família?
Ela respirou fundo antes de responder.
– Esse é o ponto.
Esperei.
– No começo… eles pareceram discordar. Minha mãe ficou chocada, meu pai tentou evitar falar muito sobre isso. Por um tempo parecia que ninguém sabia exatamente como agir.
Ela olhou para o chão por alguns segundos antes de continuar.
– Mas agora… tudo mudou.
Franzi a testa.
– Mudou como?
– Agora eles estão comemorando a chegada do bebê.
Ela soltou um pequeno suspiro.
– Minha irmã está grávida.
Aquilo fez meu estômago apertar um pouco.
– E meu pai faz questão de que eu esteja presente em todos os eventos da família – ela continuou. – Jantares, encontros, comemorações… como se tudo estivesse normal.
Observei o rosto dela enquanto falava. Havia algo ali que não era apenas tristeza.
Era outra coisa.
– Você ainda ama ele?
A pergunta saiu antes que eu pudesse pensar muito.
Ela respondeu sem hesitar.
– Não.
A resposta foi firme.
– Eu não amo mais o Alec.
Mas logo depois ela baixou os olhos.
– O problema não é ele.
Esperei novamente.
– O problema é o que eu sinto quando vejo minha irmã.
A voz dela ficou um pouco mais baixa.
– Eu sempre amei muito a Elizabeth.
Ela apertou as mãos.
– Ela sempre foi minha melhor amiga. A pessoa que eu mais confiava no mundo.
Por um instante ela ficou em silêncio, olhando para frente.
– Então quando eu vejo os dois juntos… não é só sobre ele.
Agora eu entendia.
Assenti devagar.
– Claro que não é.
Fiquei alguns segundos pensando antes de falar novamente.
– Posso te dar um conselho?
Ela levantou os olhos para mim.
– Pode.
Respirei fundo antes de dizer.
– Às vezes a gente tenta fingir que certas coisas não machucam mais… só porque acha que já deveria ter superado.
Ela não disse nada então continuei: – Mas algumas feridas precisam de tempo de verdade. Não do tempo que as outras pessoas acham suficiente. Do seu tempo.
O vento soprou um pouco mais forte pela praça.
– Se ver sua irmã ainda dói… então dói. Não tem nada de errado nisso.
Olhei para ela com mais seriedade.
– O que não pode acontecer é você fingir que está tudo bem só para deixar os outros confortáveis.
Renesmee ficou me olhando em silêncio por alguns segundos.
– Você acha que eu deveria me afastar deles?
Balancei a cabeça devagar.
– Eu acho que você deveria se proteger.
Inclinei um pouco o corpo para frente.
– Isso pode significar distância por um tempo. Ou simplesmente deixar claro que você ainda precisa respirar.
Ela ficou quieta, pensando.
E enquanto eu observava o rosto dela ali, iluminado pela luz fraca do poste da praça, uma percepção estranha começou a se formar dentro de mim.
Ayla não era a única que tinha se apegado a Renesmee, eu também tinha e talvez mais do que deveria.
E perceber isso trouxe uma sensação inesperada no meu peito, não era exatamente medo, mas chegava perto.
Narrado por Renesmee
Depois de algum tempo conversando na praça, Jacob olhou para mim com aquela expressão tranquila dele e disse que chorar no frio de Seattle não parecia uma ideia muito inteligente, que eu provavelmente ia acabar gripada e aí ele teria de lidar com uma professora resfriada reclamando da vida inteira. Eu revirei os olhos, mas acabei rindo, então ele sugeriu que a gente fosse tomar alguma coisa quente, disse que conhecia um café ali perto que ficava aberto até tarde, e antes que eu pensasse demais sobre aquilo já estávamos caminhando pelas ruas iluminadas da cidade.
Agora eu estava sentada diante dele em uma pequena mesa perto da janela, segurando uma caneca de chocolate quente entre as mãos, o lugar era aconchegante, com luz baixa e cheiro de café fresco no ar, pessoas conversavam em voz baixa nas outras mesas e por um momento parecia que o mundo tinha desacelerado um pouco.
Jacob estava inclinado para trás na cadeira, completamente à vontade, contando histórias da filha.
– Você não tem ideia das coisas que aquela menina já aprontou.
– Estou começando a ter uma pequena noção – eu disse, soprando o chocolate antes de beber.
Ele riu.
– Uma vez ela resolveu que queria aprender a cozinhar.
– Isso parece inocente.
– Parece.
Ele levantou um dedo.
– Até você chegar em casa e encontrar a cozinha coberta de farinha, ovo no teto e uma criança orgulhosa dizendo que fez panquecas.
Eu levei a mão à boca tentando conter o riso.
– Não acredito.
– Acredite, eu fiquei meia hora tentando entender como o ovo foi parar no teto.
Agora eu já estava rindo sem tentar esconder.
– E as panquecas?
– Viraram carvão.
Eu balancei a cabeça ainda rindo.
– Pobre Ayla.
– Pobre de mim – ele respondeu, apontando para si mesmo. – Fui obrigado a comer uma.
– Você comeu?
– Claro, ela estava me olhando com aquela cara de orgulho.
Ele fez uma pausa dramática.
– Foi a pior panqueca da história da humanidade.
Eu ri de novo, de um jeito leve que eu não sentia há dias.
Depois de alguns segundos olhando para ele, a pergunta saiu quase sem pensar.
– E a mãe da Ayla?
Jacob ficou em silêncio por um instante, não parecia desconfortável, apenas pensativo.
– Leah morreu quando Ayla nasceu.
Meu sorriso desapareceu devagar.
– Eu sinto muito.
Ele apoiou os braços na mesa.
– Complicações no parto.
A voz dele era calma, mas havia um peso ali.
– Nós éramos namorados jovens, morávamos em Lá Push, Ayla foi um acidente que enfrentamos juntos.
Fiquei alguns segundos sem saber o que dizer.
– Quantos anos você tinha?
– Vinte.
Eu arregalei um pouco os olhos.
– Vinte?
Ele assentiu.
– Vinte anos e um bebê recém-nascido- Jacob soltou uma pequena risada sem humor – Digamos que eu aprendi rápido a trocar fralda.
Eu o observei por alguns segundos, tentando imaginar aquele rapaz jovem tendo que lidar com tudo sozinho.
– Deve ter sido muito difícil.
Ele deu de ombros.
– Foi- Depois olhou para mim – Mas quando você segura um bebê que depende de você para tudo… você simplesmente faz o que precisa fazer.
Eu sorri de leve.
– Ainda assim… você fez um ótimo trabalho.
Ele levantou uma sobrancelha.
– Você acha?
– Tenho certeza- Inclinei um pouco a cabeça – Ayla é uma menina incrível.
Jacob ficou quieto por um segundo, claramente orgulhoso, embora tentasse disfarçar.
– Ela é.
O silêncio que veio depois não era pesado, era confortável, o tipo de silêncio que acontece quando duas pessoas já disseram o suficiente por um momento.
Depois de algum tempo eu terminei o chocolate quente e coloquei a caneca na mesa.
Olhei para ele.
– Obrigada por ter vindo hoje.
Jacob franziu a testa imediatamente.
– Você não precisa agradecer.
– Preciso sim- Balancei a cabeça – Eu liguei chorando no meio da tarde e você apareceu.
Ele deu um pequeno sorriso.
– Amigos são para essas coisas- Depois apontou o dedo para mim – E além disso você passou a semana inteira ajudando Ayla, então estamos quites.
Eu ri.
– Quase quites- Ele cruzou os braços– Não, completamente quites.
Olhei para ele por um momento, sentindo algo estranho e confortável ao mesmo tempo.
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