Uma lição de amor
29 Incertezas
Acordei cedo demais para quem quase não dormiu. Fiquei alguns minutos olhando para o teto, tentando reorganizar os pensamentos, mas a verdade é que a noite não tinha terminado como eu queria, e aquilo ainda estava preso em mim. Soltei um suspiro baixo antes de me levantar, passando a mão pelo rosto enquanto caminhava até a cozinha, buscando algum tipo de normalidade em um gesto simples.
Abri a geladeira, peguei o necessário e comecei a preparar o café da manhã quase no automático, mas parei no meio do caminho quando meus olhos caíram sobre o envelope aberto no balcão. O papel do mestrado ainda estava ali, exatamente onde eu tinha deixado, como se estivesse me esperando tomar uma decisão que eu já deveria ter tomado.
Me aproximei devagar, passando os dedos pela borda do papel.
Há uma semana… eu tinha certeza.
Tinha certeza do que queria, do caminho que ia seguir, do futuro que parecia tão claro.
Agora… não tinha certeza de nada.
Apoiei as mãos no balcão, inclinando levemente o corpo para frente, respirando fundo. Eu não tinha concordado com o jeito que o Jacob reagiu, não completamente, mas também não conseguia ignorar o que aquela conversa tinha despertado em mim. Dúvidas que antes não existiam começaram a aparecer, e isso me incomodava mais do que eu queria admitir.
Eu sentia algo por ele.
Algo forte.
E ele tinha sido claro… ele queria algo sério, algo real, com futuro.
Fechei os olhos por um instante.
Mas será que eu estava pronta para isso?
Voltei a me mover, terminando de preparar o café, despejando o líquido quente na xícara e levando até os lábios. O gosto familiar trouxe um pequeno conforto, mas não resolveu nada. Encostei no balcão, segurando a caneca entre as mãos, olhando para o vazio enquanto tentava entender o que fazer.
Nem sabia mais se a viagem para La Push ainda estava de pé.
Nem se ainda existia clima para aquilo.
Foi então que a campainha tocou.
Franzi a testa, surpresa.
Não estava esperando ninguém.
Deixei a xícara sobre o balcão e caminhei até a porta, ainda com aquela sensação estranha no peito. Abri sem pensar muito…
E congelei.
– Alec?
A surpresa foi imediata, estampada no meu rosto.
Eu definitivamente não esperava vê-lo ali.
Fiquei parada por um segundo, ainda assimilando a presença dele ali, antes de me afastar da porta.
– Desculpa aparecer assim… – Alec começou, passando a mão pelos cabelos – eu tentei te ligar, seus pais também, mas você não atendeu.
Franzi a testa, tentando lembrar.
– Eu…
Dei espaço para ele entrar e fechei a porta atrás de nós. Caminhei até a mesa da sala e peguei o celular, pressionando o botão. Nada.
– Deve ter descarregado- Sussurrei mostrando o aparelho.
Quando levantei o olhar, Alec estava me observando com uma expressão mais séria.
– A Elizabeth passou mal ontem à noite, depois da festa.
Senti o corpo enrijecer.
– O quê?- Dei um passo na direção dele, o coração acelerando.
– Ela ficou muito abalada… se sentiu culpada pelo que aconteceu.
Engoli em seco.
– Como ela está? Perguntei o interrompendo. – E o bebê?
– Eles estão bem.
Ele respondeu, tentando tranquilizar.
– Foi mais um susto… mas achei que você precisava saber.
Assenti, já pegando a bolsa sobre o sofá.
– Eu vou ao hospital.
Disse, sem pensar duas vezes.
– Quero vê-la.
– Ela está esperando por você.
Alec respondeu, com um leve aceno.
Não perdi mais tempo. Fui até o quarto, troquei de roupa rapidamente, prendendo o cabelo de qualquer jeito enquanto tentava organizar a cabeça. Peguei o essencial e voltei para a sala, ainda ajustando a bolsa no ombro.
Mas parei no meio do caminho, meu coração deu um salto ao ver
Jacob ali parado na sala.
Por um segundo, tudo pareceu travar, como se dois mundos que eu estava tentando manter separados tivessem se chocado de uma vez só.
Narrado por Jacob
A noite depois que deixei a Nessie no apartamento foi longa demais. Eu rolei na cama mais do que dormi, pensando em cada palavra que tinha dito, em cada reação minha. Em algum momento, encarei o teto no escuro e tive que admitir para mim mesmo que podia ter sido diferente, que eu podia ter sido mais compreensível, menos duro. Eu entendi o lado dela… só não soube lidar direito com o que senti.
Levantei cedo, com aquela sensação de cansaço que não vem do corpo, mas da cabeça cheia. Fui direto para a cozinha, preparei um café forte e fiquei alguns minutos parado, apoiado na pia, tentando organizar as coisas. Eu não queria que aquilo fosse o fim de nada, muito menos de algo que nem tinha começado direito. Eu precisava consertar.
Terminei o café, peguei as chaves e saí decidido. A ideia era simples, ir até lá, pedir desculpa, conversar direito e, se desse, salvar o fim de semana em La Push. Eu não estava pronto para desistir daquilo… nem dela.
No meio do caminho, o celular tocou.
Rachel.
Atendi no viva-voz.
– Fala.
Mas não foi minha irmã que respondeu.
– Papai?
A voz da Ayla veio do outro lado, animada.
Não consegui evitar o sorriso que surgiu.
– Oi, minha princesa.
– Que horas você e a Nessie vem pra La Push?
Ela perguntou direto, sem rodeios.
Olhei a estrada à frente, sentindo um aperto leve no peito, mas mantive o tom leve.
– Estou indo buscar ela agora.
– Não demora, tá?
Pediu, com aquela urgência típica dela.
– Não vou demorar.
Respondi, sorrindo.
– Eu te amo.
– Também te amo!
Ela respondeu rápido.
Ouvi um barulho ao fundo e, em seguida, a voz da Rachel entrou na ligação.
– Ela está desde cedo perguntando isso.
Soltei um riso curto.
– Surpresa nenhuma… ela sempre foi ansiosa.
– Puxou alguém.
Rachel provocou.
Balancei a cabeça, mesmo sabendo que ela não podia ver.
– A gente se fala depois.
– Boa sorte aí.
Ela disse, em um tom que já parecia saber de tudo.
Encerrei a ligação e segui dirigindo, agora com a cabeça um pouco mais leve. Aquela ligação tinha me lembrado exatamente por que eu estava indo até lá.
Estacionei em frente ao prédio da Nessie e subi sem pensar muito. Quando cheguei no andar, notei a porta do apartamento entreaberta, o que já me fez franzir a testa.
Aquilo não era normal.
Me aproximei devagar, empurrando a porta com cuidado.
– Nessie?
Chamei, entrando.
- Ela foi se vestir! Alec respondeu ao me ver.
Meu corpo ficou tenso na hora, o olhar travando nele enquanto a sensação de que o dia ia ser mais complicado do que eu esperava se confirmava sem esforço nenhum.
Eu ainda estava encarando o Alec quando ouvi passos apressados vindo do quarto. Virei o rosto no mesmo instante e vi a Nessie aparecer na sala, já arrumada, com a bolsa no ombro, claramente pronta para sair. Quando os olhos dela encontraram os meus, a surpresa foi imediata, quase tão forte quanto a minha segundos antes.
– Jacob…
Ela disse, parando por um instante.
Respirei fundo, tentando manter o controle da situação, ignorando a presença do outro ali por um momento.
– Eu vim te buscar.
Falei, direto, mas sem dureza.
– A viagem… ainda está de pé, não está?
Antes que ela respondesse, Alec se movimentou, como se percebesse que não fazia mais sentido ficar ali.
– Eu vou esperar no carro.
Disse, olhando rapidamente para ela.
– Vocês conversam.
Ele passou por mim e saiu, fechando a porta atrás de si, nos deixando sozinhos. O silêncio que ficou não era confortável, mas também não era o mesmo da noite anterior. Tinha algo diferente ali, mais urgente.
Dei um passo na direção dela.
– Eu preciso me desculpar.
Falei, sincero.
– Eu não devia ter falado daquele jeito ontem.
Passei a mão pela nuca, tentando organizar as palavras.
– A gente pode resolver isso… ainda dá pra salvar o fim de semana.
Ela me ouviu em silêncio, mas a expressão dela mudou, ficando mais séria.
– A Elizabeth passou mal e eu preciso ir ve-la.
Assenti devagar, entendendo.
– Claro… eu entendo.
Fiz uma pausa curta, pensando rápido.
– Nós podemos pegar a estrada mais tarde.
Sugeri, tentando não deixar aquilo escapar completamente.
Ela hesitou por um segundo, mas acabou concordando.
– Pode ser… nos vemos mais tarde.
Assenti, aceitando, mesmo com aquela sensação incerta ainda ali.
Ela se aproximou um pouco mais e, antes que eu dissesse qualquer coisa, encostou os lábios no meu rosto em um beijo rápido, mas carregado de algo que eu não soube nomear na hora.
– Eu preciso ir.
Disse, já se afastando.
– Você pode fechar pra mim?
Olhei para ela por um instante e concordei.
– Posso.
Ela pegou a bolsa com mais firmeza e saiu apressada, me deixando sozinho no apartamento. Fiquei ali por alguns segundos, parado no meio da sala, ouvindo o silêncio voltar devagar, enquanto a sensação de que eu estava tentando segurar algo que podia escapar a qualquer momento apertava no peito outra vez.
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