O caminho até o hospital foi silencioso, mas diferente do silêncio da noite anterior, aquele era carregado de preocupação. Eu mantinha os olhos na janela, vendo a cidade passar sem realmente prestar atenção, enquanto minha cabeça tentava organizar tudo o que tinha acontecido nas últimas horas. Ao meu lado, Alec dirigia concentrado, sem tentar puxar conversa, como se entendesse que eu precisava daquele tempo.

Assim que chegamos, saí do carro quase sem esperar, apressando o passo até a entrada. O cheiro característico do hospital me atingiu assim que atravessei as portas, trazendo uma sensação estranha de urgência. Fui direto para a recepção, mas nem precisei perguntar nada.

Minha mãe estava ali.

Conversando com meu pai.

– Mãe…

Chamei, me aproximando.

Ela virou o rosto na mesma hora e veio até mim, tocando meu braço com carinho.

– Que bom que você veio.

Meu pai também se aproximou, mais contido, mas com aquele olhar atento de sempre.

– Como ela está?

Perguntei, sem rodeios.

Edward respondeu com a calma de médico, mas também com a segurança de pai.

– Foi um episódio de estresse.

Disse, direto.

– Nada grave, o bebê está bem e ela também.

Senti o alívio vir aos poucos.

– Ela precisa descansar e evitar qualquer emoção mais intensa.

Minha mãe assentiu ao lado dele, visivelmente mais tranquila.

Olhei para meu pai novamente.

– Eu posso vê-la?

Ele fez um pequeno aceno positivo.

– Pode.

Disse, já começando a caminhar.

– Mas com calma, Nessie.

Assenti e o acompanhei pelos corredores, meus passos diminuindo conforme nos aproximávamos do quarto. Meu coração começou a bater mais rápido, não de medo, mas de tudo que ainda estava mal resolvido entre nós.

Quando paramos diante da porta, respirei fundo antes de entrar.

Elizabeth estava deitada, mas ao me ver, arregalou levemente os olhos, surpresa.

– Nessie…

A voz dela saiu mais baixa.

Meu pai entrou logo atrás de mim, olhando de uma para a outra.

– Eu vou deixar vocês sozinhas.

Disse, indo até a porta.

– E juízo.

Completou, em um tom leve que quase me fez sorrir.

Assim que ele saiu, o silêncio tomou conta do quarto por alguns segundos. Eu me aproximei devagar da cama, ainda sem saber exatamente por onde começar.

Mas Elizabeth falou primeiro.

– Me perdoa.

Disse, com sinceridade.

– Por tudo.

Aquela palavra ficou no ar, pesada, mas necessária.

Respirei fundo, sentindo que, naquele momento, não fazia mais sentido carregar aquilo.

– Olha eu me senti péssima nos últimos meses, mas agora eu não vejo mais motivo para isso- Falei me aproximando um pouco mais da cama- Vamos passar uma borracha nesse assunto.

Ela me olhou por um instante, como se estivesse buscando confirmação, e então assentiu.

– Eu sinto muito, eu só queria te proteger e estraguei tudo.

Aproximei mais um pouco.

- Você não precisa me proteger Liza, eu sou adulta, você só precisa ser minha irmã.

Liza suspirou- Eu sei, você não é mais a minha irmãzinha.

- Então vamos passar uma borracha em tudo que aconteceu, mas você precisa me prometer uma coisa.

Ela ficou atenta.

– Nunca mais interfere na minha vida desse jeito, nem por mim… nem por ninguém.

Elizabeth assentiu quase imediatamente.

– Eu prometo.

Houve um segundo de silêncio, e então eu me inclinei, envolvendo ela em um abraço com cuidado. Ela retribuiu, segurando em mim com força suficiente para mostrar que aquilo era mais do que um simples gesto.

Depois de tantos mesew pareceu que nós estavamos, de verdade, no mesmo lado.


Narrado por Jacob


Eu tentei ocupar a cabeça o dia inteiro, mas não adiantou muito. Estava sentado diante do notebook, encarando a tela sem realmente ver nada, mexendo em coisas da oficina só para fingir que estava focado em algo útil. A verdade é que minha atenção ia e voltava para o mesmo ponto.

Ela.

Olhei para o relógio no canto da tela, eram quase dezoito horas.

Nenhuma mensagem.

Suspirei, passando a mão pelo rosto antes de pegar o celular. A tela acendeu cheia de notificações… quase todas da Rachel. Nem precisei abrir para saber o conteúdo. Ayla devia estar perguntando sem parar sobre a viagem, sobre mim, sobre a Nessie. Conhecendo minha filha, já devia ter deixado a minha irmã maluca.

Deixei o celular de lado outra vez.

A cabeça começou a trabalhar sozinha, imaginando mil cenários diferentes, nenhum deles muito animador. Balancei a cabeça, tentando afastar aquilo, quando a campainha tocou.

Franzi a testa, surpreso.

Não estava esperando ninguém.

Levantei e caminhei até a porta, abri e ali estava ela.

Nessie.

Por um segundo, eu só fiquei olhando, como se precisasse ter certeza de que era mesmo real.

Ela entrou antes que eu dissesse qualquer coisa, passando por mim com um ar apressado, mas não nervoso. Quando se virou, os olhos dela encontraram os meus.

– Me desculpa- Ela falou demonstrando preocupação.

Fechei a porta devagar, ainda tentando acompanhar o ritmo da situação.

– Ei…

Falei, me aproximando um pouco.

– Você não precisa se desculpar por isso, é a sua irmã, eu entendo.

Ela me observava em silêncio, então continuei aproveitando o momento para me desculpar pela noite anterior.

– Na verdade… eu que te devo um pedido de desculpas.

Passei a mão na nuca.

– Eu fui meio… duro e exagerado ontem- Fiz uma pausa breve – Eu entendo que você tenha planos, sonhos… isso é importante.

Ela ficou em silêncio por alguns segundos depois que eu falei, e aquilo já me deixou em alerta. Eu conhecia aquele tipo de pausa… não era dúvida, era decisão sendo organizada em palavras. Eu ainda tentei manter a calma, esperando, dando espaço para ela falar no tempo dela.

– Justamente por eu ter sonhos…Ela começou, olhando direto para mim.– Eu acho que não estou pronta para um relacionamento agora.

Senti como se o ar tivesse ficado mais pesado de repente. Não foi uma frase dita com frieza, muito pelo contrário, mas ainda assim… bateu forte.

Por um segundo, eu não soube o que dizer. Passei a mão pela nuca, tentando manter a cabeça no lugar, tentando não reagir só pelo impulso.

– Eu… entendo- Falei, devagar– Talvez a gente tenha ido rápido demais.

Respondi, tentando encontrar um meio termo, alguma forma de não perder tudo de uma vez.

Mas ela me interrompeu. Deu um passo na minha direção, diminuindo o espaço entre a gente, e eu percebi que aquilo ainda não tinha acabado.

– Eu pensei muito hoje.- Disse, com mais firmeza.

– Depois de tudo que aconteceu- Ela respirou fundo antes de continuar – Eu vou viajar.

Dessa vez não teve como disfarçar, aquilo me atingiu direto.

Fiquei parado, olhando para ela, como se estivesse tentando assimilar algo que eu já sabia, mas não queria aceitar – Eu vou fazer o mestrado.

Completou.

Engoli em seco, desviando o olhar por um segundo, juntando as peças na minha cabeça, voltei a olhar para ela e forcei um pequeno aceno, tentando ser o mais honesto possível sem deixar transparecer tudo o que estava acontecendo por dentro.

– É… você sempre quis isso- Falei, baixo – Você merece.

E eu queria dizer mais, queria dizer o quanto aquilo mudava tudo pra mim, mas não parecia justo colocar esse peso nela naquele momento.

Ela me observava com atenção, como se estivesse esperando alguma reação diferente.

– Nós podemos continuar… como amigos.

Amigos.

A palavra ficou ali, entre a gente.

Por dentro, doeu mais do que eu esperava, mas eu assenti.

– Claro- Respondi, com um meio sorriso que não chegou nos olhos – Se é isso que você quer…

Fiz uma pausa curta.

– Eu respeito.

E respeitava mesmo.

Mesmo com a sensação clara de que, naquele momento, eu estava deixando algo importante escapar das minhas mãos.