Narrado por Renesmee


Eu ainda estava tentando ignorar o barulho ao redor, ajeitando o cinto e fingindo que meu coração não estava pesado demais, quando ouvi meu nome ecoar pelo avião. Não foi só o som, foi a forma. Aquela voz eu reconheceria em qualquer lugar.

Meu corpo reagiu antes da minha mente.

Levantei rápido, virando em direção ao corredor, e então eu vi.

Jacob Black dentro do avião.

Por um segundo, eu achei que estivesse imaginando. Que era só mais uma das mil formas que minha cabeça tinha encontrado de não aceitar que eu estava indo embora.

Mas não. Era ele.

De verdade.

Senti o ar falhar nos pulmões enquanto eu dava um passo à frente, completamente atordoada.

— Jacob… o que você…

As palavras morreram antes de sair completas, porque ele já estava vindo na minha direção, abrindo caminho entre os olhares curiosos, ignorando completamente o caos ao redor.

— Eu precisava falar com você.- A voz dele saiu firme, mas carregada de urgência, de emoção, de tudo aquilo que ele nunca deixava transparecer.

Eu não sabia o que fazer, fiquei ali, parada, sentindo todos os olhares em cima da gente, ouvindo os cochichos dos passageiros crescendo, a tensão se espalhando pelo avião. A comissária de bordo apareceu de novo, agora visivelmente nervosa.

— Senhor, os seguranças estão vindo.

Meu coração disparou ainda mais, isso estava saindo do controle.

Jacob parou a poucos passos de mim, como se finalmente tivesse chegado onde precisava estar. Eu engoli seco, tentando entender o que estava acontecendo, tentando manter algum tipo de racionalidade no meio de tudo aquilo.

— Meu Deus, Jake...

Minha voz saiu mais baixa do que eu queria.

Ele passou a mão pelo cabelo, respirando fundo, e então me olhou de um jeito que eu nunca tinha visto antes. Não era só intensidade. Era… entrega.

— Eu não podia deixar você ir… sem que você soubesse. Ele deu mais um passo, diminuindo ainda mais a distância entre a gente.

— Que eu te amo.

Ao ouvir aquelas três palavras eu senti como se tudo ao redor tivesse sido puxado pra longe, deixando só nós dois ali.

— Eu te amo, Renesmee… — ele continuou, a voz mais baixa agora, mas ainda firme — como eu nunca amei ninguém na minha vida.

Minhas mãos começaram a tremer. E eu não conseguia falar.

— Eu passei sete anos… sozinho. — ele soltou uma risada fraca, sem humor — Sete anos vivendo no automático, sem deixar ninguém chegar perto de verdade… até você aparecer.

Senti uma lágrima escapar antes mesmo de perceber.

— Você entrou na minha vida e bagunçou tudo, derrubou tudo que eu levei anos pra construir. E, pela primeira vez… eu não quis consertar.

Minha visão começou a ficar embaçada.

— Eu tentei ignorar, tentei me convencer de que era melhor assim… de que eu estava te protegendo, protegendo a mim mesmo… mas a verdade é que eu só estava com medo.

Ele respirou fundo, como se cada palavra custasse.

— Medo de perder você, medo de não ser suficiente, medo de sentir tudo isso e não saber o que fazer.

Mais lágrimas desceram pelo meu rosto e eu não consegui segurar.

— Mas te ver ir embora… — ele balançou a cabeça — isso eu não consigo. Eu não consigo voltar pra aquela vida sem você.

O silêncio tomou conta do avião, até os cochichos tinham parado.

— Eu te amo. E, se você ainda quiser ir… eu não vou te impedir. — ele disse, mais baixo — Mas eu precisava que você soubesse disso. Precisava que você tivesse a escolha… sabendo a verdade.

Meu coração parecia que ia sair do peito.

Eu não conseguia parar de chorar, tudo que eu senti nos últimos dias… toda dor, toda dúvida… tudo estava ali, misturado com aquelas palavras.

Foi então que a senhora sentada ao meu lado, que até então só observava tudo em silêncio, tocou de leve no meu braço.

— Querida… — ela disse, com um sorriso suave — o que você está esperando?

Olhei pra ela, ainda sem conseguir falar.

— Cambridge vai estar lá amanhã… na semana que vem… no próximo ano. — ela continuou, com uma calma que me atravessou — mas tem viagens na vida que só aparecem uma vez.

Engoli seco e olhei novamente para frente,

Jacob Black ainda estava ali, parado, me olhando como se tudo dependesse daquele momento.

E talvez dependesse mesmo.

Eu não pensei mais, sai da poltrona e caminhei até ele, sentindo o coração acelerar a cada passo, e quando parei na frente dele, não disse nada.

Apenas segurei seu rosto e o beijei, como se fosse a única coisa certa no meio de tudo aquilo.

Por um segundo, o mundo sumiu e quando o ar voltou, junto com a realidade… vieram os aplausos.

O avião inteiro, pessoas sorrindo, algumas emocionadas, outras rindo da cena.

Mas nada disso importava.

Porque naquele momento eu não tive mais duvidas, eu sabia exatamente onde eu queria estar.



Renesmee

O corredor da administração do aeroporto parecia mais frio do que o resto do prédio. Talvez fosse o ar condicionado, talvez fosse só o nervosismo mesmo, mas eu não conseguia ficar parada direito. Andava de um lado pro outro, cruzava os braços, descruzava, olhava pra porta como se isso fosse fazer ela abrir mais rápido.

Bella Swan estava ao meu lado, com aquela calma que só ela conseguia ter em momentos assim. A mão dela pousou no meu braço algumas vezes, num gesto simples, mas que ajudava mais do que qualquer palavra. Do outro lado, Elizabeth Cullen observava tudo com um meio sorriso, como se já soubesse exatamente como aquilo ia terminar.

— Relaxa — Bella disse, com a voz baixa — confia no seu pai.

Respirei fundo, tentando seguir o conselho, mas meu coração ainda estava acelerado demais.

— E no Alec também — Elizabeth completou, com um tom leve — ele adora essas coisas.

Soltei um suspiro nervoso, passando a mão pelo cabelo.

— Isso não ajuda.

Ela riu baixo.

— Ajuda sim… você só ainda não percebeu.

Antes que eu pudesse responder, a porta finalmente se abriu.

Meu corpo inteiro travou.

E então eu vi.

Jacob Black saiu primeiro, seguido por Edward Cullen e Alec Volturi. Meu coração disparou de novo, mas dessa vez foi alívio.

Eu nem pensei.

Fui direto até ele e o abracei com força, escondendo o rosto no peito dele como se precisasse ter certeza de que ele ainda estava ali.

— Você tá bem? — perguntei, a voz abafada.

Ele me envolveu na mesma hora, firme, tranquilo.

— Tá tudo certo — disse perto do meu ouvido — deu tudo certo.

Afastei um pouco o rosto, ainda olhando pra ele, procurando qualquer sinal de problema.

— Mesmo?

Ele assentiu, com um meio sorriso.

— Eles não vão registrar ocorrência.

Olhei por cima do ombro dele, meio incrédula.

Alec cruzou os braços, com aquela expressão satisfeita de sempre.

— Eu não estudei direito à toa.

Não consegui evitar um pequeno sorriso, mesmo no meio de tudo aquilo.

— Obrigada… de verdade.

Ele inclinou a cabeça, aceitando o agradecimento como se fosse a coisa mais natural do mundo.

Ao meu lado, Edward segurou a mão de Bella, entrelaçando os dedos com os dela.

— Acho que nossa parte termina aqui — ele disse, olhando pra mim — vamos pra casa.

Bella me deu um último olhar, daqueles que dizem tudo sem precisar falar, e sorriu de leve antes de sair com ele.

Fiquei observando por um segundo, até sentir o olhar da Elizabeth em mim.

Virei pra ela.

— Obrigada.

Ela arqueou a sobrancelha, divertida.— Pelo quê exatamente?

Inclinei a cabeça, cruzando os braços — Por ajudar… e por se meter onde não é chamada de novo.

Ela riu. — Eu sabia.

Aproximei um pouco, mais séria agora — Mas tenta não se meter mais na minha vida, tá?

Ela segurou o riso, claramente se divertindo mais ainda — Não prometo.

Revirei os olhos, mas acabei sorrindo, Jacob, ao meu lado, soltou um pequeno riso e olhou pra ela.

— Mesmo assim… obrigado.

Elizabeth deu um passo pra trás, já se virando.

— Aproveitem.

Alec apenas fez um gesto curto com a cabeça, e os dois foram embora, deixando o espaço finalmente em silêncio ficando a sós.

Eu olhei pra Jacob tentando me recompor

— E agora?

Ele me encarou por um segundo, como se a resposta fosse óbvia.

Então sorriu de leve — Agora nós vamos pra nossa casa.

Franzi a testa, surpresa— Nossa casa?

Ele assentiu e passou um dos braços em torno do meus ombros.

— A Ayla vai adorar a surpresa da manhã.



O caminho até a casa do Jacob foi silencioso, eu só estava ali, no banco do passageiro, olhando pela janela enquanto a cidade passava, ainda meio atordoada com tudo que tinha acontecido, mas com uma calmaria instalada dentro de mim.

Quando o carro parou, meu coração deu aquele aperto bom.

Saí antes mesmo dele dar a volta, já reconhecendo cada detalhe, cada som familiar. A porta estava encostada, como sempre ficava quando Ayla estava em casa, e eu entrei devagar, quase segurando a respiração sem perceber.

A cena me acertou em cheio.

Ela estava deitada no tapete da sala, com os pés balançando no ar, toda concentrada nos desenhos espalhados à frente. Caixinhas de lápis de cor abertas, folhas riscadas, aquele jeitinho dela de ocupar o espaço como se o mundo inteiro coubesse ali.

Por um segundo, eu só fiquei a olhando até ela levantar os olhos.

Demorou um segundo pra reconhecer… e então o rosto dela se iluminou de um jeito que eu nunca vou esquecer.

— Nessie!

Ela levantou num pulo e saiu correndo na minha direção.

Eu nem pensei. Me abaixei a tempo de pegá-la no colo quando ela se jogou em mim, rindo, me abraçando forte.

— Oi, meu amor…

Minha voz saiu embargada enquanto eu apertava ela contra mim, cobrindo o rosto dela de beijos, sentindo aquele cheirinho de criança, aquele calor… como se tudo finalmente estivesse no lugar.

Ela segurou meu rosto com as duas mãos, me olhando com aqueles olhos atentos.

— Você não foi viajar?

Engoli seco, mas sorri.

— Não fui.

Ela inclinou a cabeça, curiosa.

— Vai depois?

Balancei a cabeça devagar.

— Não… eu não vou a lugar nenhum.

Vi o alívio passar pelo rostinho dela, simples, direto, sem complicação nenhuma. Como se aquela resposta resolvesse tudo.

E talvez resolvesse mesmo.

Senti braços envolvendo nós duas por trás.

Jacob Black nos puxou pra perto, nos envolvendo num abraço que parecia firme o suficiente pra segurar o mundo inteiro ali dentro. Eu fechei os olhos por um segundo, me permitindo ficar.

Ele inclinou o rosto e beijou meus cabelos, com calma, como se aquele gesto dissesse mais do que qualquer palavra.

Finalmente eu estava em casa.