Uma lição de amor
37 Fica
Narrado por Renesmee
A luz suave do abajur iluminava o quarto de Ayla enquanto eu terminava de contar a história, modulando a voz de forma calma, quase num sussurro, deixando que cada palavra se dissolvesse lentamente no silêncio da noite. Eu já conhecia aquele momento, o instante exato em que a respiração dela mudava, ficando mais profunda, mais tranquila, sinal de que o sono finalmente havia chegado. Ainda assim, continuei por mais alguns segundos, apenas para ter certeza, observando o rosto relaxado dela, os cílios repousados sobre as bochechas e aquele ar de paz que só as crianças conseguem ter.
Quando terminei, fechei o livro com cuidado e o deixei ao lado da cama. Inclinei-me devagar, afastando uma mecha de cabelo do rosto dela e depositando um beijo leve em sua testa, sentindo um carinho silencioso crescer dentro de mim. Puxei o cobertor um pouco mais para cima, cobrindo-a melhor, e permaneci ali por um instante, apenas olhando, como se quisesse guardar aquela imagem comigo.
Soltei um suspiro baixo antes de me levantar. O dia tinha sido intenso demais, mas, curiosamente, eu não me sentia cansada. Era como se algo dentro de mim estivesse finalmente em paz.
Saí do quarto com cuidado, fechando a porta devagar atrás de mim, e segui pelo corredor até o quarto de Jacob Black. Meu coração acelerou levemente, não por ansiedade, mas por uma expectativa que eu ainda estava aprendendo a reconhecer.
Empurrei a porta e entrei.
Ele estava de costas, passando a toalha pelos cabelos ainda molhados, usando apenas outra toalha presa na cintura. A cena me pegou desprevenida, e senti meu rosto esquentar imediatamente, um contraste quase absurdo com a calma que eu carregava segundos antes. Por um instante, pensei em recuar, mas já era tarde demais.
— A Ayla dormiu — falei, tentando manter a naturalidade, mesmo sentindo o calor subir pelo meu rosto.
Jacob virou-se para mim, e o sorriso que surgiu em seus lábios foi tranquilo, quase satisfeito. Ele não disse nada de imediato. Apenas se aproximou, reduzindo a distância entre nós com passos lentos, até que suas mãos encontraram minha cintura e me puxaram para perto.
— Então… — a voz dele saiu baixa, próxima demais — já que a princesa Ayla está dormindo… acho que podemos ter um momento só nosso.
Eu não consegui evitar o riso leve que escapou, ainda sentindo a proximidade dele de um jeito que mexia comigo de forma diferente agora. Minhas mãos subiram naturalmente até os ombros dele, ainda úmidos, e eu deslizei os dedos pela pele quente, sentindo o contraste da água fria que ainda restava ali.
— E o que você sugere? — perguntei, mantendo o olhar no dele, mesmo sentindo meu coração acelerar de novo.
Ele não respondeu de imediato. Em vez disso, inclinou-se um pouco mais, aproximando o rosto do meu pescoço, e passou o nariz de leve pela minha pele, num gesto lento, quase provocador, que fez um arrepio percorrer meu corpo inteiro.
Fechei os olhos sem perceber, deixando o momento me envolver, sentindo cada detalhe com uma intensidade que eu já não tentava mais evitar.
Eu ainda estava com os olhos fechados quando senti o toque dele se tornar mais firme, mais presente, como se não houvesse mais espaço para dúvidas entre nós. Quando abri os olhos, encontrei o olhar de Jacob Black tão próximo do meu que por um instante esqueci até de respirar. Não houve pressa, nem hesitação, apenas um entendimento silencioso que nos puxou um para o outro.
O beijo começou devagar, quase cuidadoso, como se ele ainda estivesse me dando tempo para recuar, mas eu não recuei. Pelo contrário. Segurei sua nuca e me aproximei ainda mais, sentindo a intensidade crescer pouco a pouco, até que o espaço entre nós deixou de existir. Havia algo diferente ali, algo mais profundo do que qualquer coisa que já tínhamos vivido, e eu me deixei levar por aquilo sem tentar controlar.
As mãos dele encontraram minhas costas, subindo lentamente, até alcançarem as alças da minha blusa. O gesto foi suave, mas carregado de intenção, e eu senti meu corpo reagir antes mesmo de pensar. Quando o tecido deslizou, deixando minha pele exposta, um breve instante de tensão me atravessou. As marcas ainda estavam ali, lembranças que eu não podia apagar, nem fingir que não existiam.
Meu corpo enrijeceu de leve, quase por reflexo.
Mas Jacob percebeu.
Ele sempre percebia.
Se afastou apenas o suficiente para me olhar, e havia algo nos olhos dele que fez toda a insegurança vacilar.
— Você é linda — disse, com uma certeza que não deixava espaço para contestação.
Antes que eu pudesse responder, ele inclinou o rosto novamente, mas dessa vez não para meus lábios. O toque veio diferente, mais delicado, quase reverente, quando ele deixou um beijo sobre uma das cicatrizes. Depois outra. E outra.
Senti meu coração apertar, não de dor, mas de algo muito maior, algo que eu nem sabia nomear direito. Era como se, naquele instante, ele estivesse apagando tudo que aquelas marcas significavam de ruim, transformando em algo que eu não precisava mais esconder.
Minhas mãos voltaram aos ombros dele, deslizando pela pele ainda quente, e eu respirei fundo, deixando a tensão ir embora aos poucos. Quando ele voltou a me olhar, eu já não estava mais me escondendo.
E então eu fui até ele.
O beijo voltou, mais intenso, mais urgente, como se tudo que tínhamos guardado até ali finalmente tivesse encontrado espaço para existir. Não havia mais distância, nem medo, nem silêncio entre nós. Apenas a certeza daquele momento, da escolha que tínhamos feito.
Me deixei envolver completamente, sentindo cada gesto, cada toque, cada respiração próxima, como se tudo aquilo fosse novo e, ao mesmo tempo, exatamente onde eu sempre deveria estar. Não havia mais dúvida, nem caminho de volta.
Naquele instante, éramos só nós dois.
O que veio depois não foi pressa, nem urgência descontrolada, foi intensidade. Cada gesto parecia carregado de significado, como se a gente estivesse, aos poucos, entendendo o lugar um do outro naquele momento. Eu sentia o toque dele com uma clareza diferente, mais consciente, mais presente, e isso fazia tudo parecer ainda mais real.
Jacob me guiava com cuidado, mas também com firmeza, como alguém que sabia exatamente o que queria, mas que ainda assim se preocupava comigo em cada detalhe. Eu não precisei dizer nada. Meu corpo respondia por mim, acompanhando cada movimento, cada aproximação, como se estivéssemos encontrando um ritmo só nosso.
Havia calor, havia entrega, mas acima de tudo havia confiança.
Quando tudo finalmente se alinhou, quando não existia mais nenhuma barreira entre nós, eu senti como se algo dentro de mim se soltasse de vez. Não era só físico, era mais profundo, como se aquele instante marcasse um antes e um depois. Fechei os olhos, segurando nele com mais força, deixando o momento me atravessar por completo, sem medo, sem dúvida.
E então veio o silêncio.
Não um silêncio vazio, mas cheio. Daqueles que acolhem.
Minha respiração ainda estava descompassada quando percebi que estava deitada, com a cabeça apoiada no peito dele, ouvindo o som firme do coração de Jacob Black batendo sob minha orelha. Ele passou a mão pelos meus cabelos devagar, num gesto tranquilo, quase automático, como se quisesse me manter ali.
Eu sorri sem perceber, fechando os olhos por um instante, apenas sentindo.
— Você tá bem? — ele perguntou, a voz mais baixa agora, diferente de antes.
Inclinei o rosto um pouco para olhar pra ele.
— Tô.
E eu estava mesmo.
Ele sustentou meu olhar por alguns segundos, como se estivesse criando coragem pra dizer algo, e então respirou fundo.
— Fica.
Franzi a testa de leve.
— Como assim?
A mão dele deslizou pelo meu braço, parando na minha mão.
— Fica comigo… aqui. — ele disse, com calma, mas com uma seriedade que me fez prestar ainda mais atenção — Mora comigo.
Meu coração acelerou de novo, mas dessa vez não era nervosismo. Era… algo bom. Forte.
Fiquei em silêncio por um momento, absorvendo aquilo. Olhando pra ele, tentando entender se aquilo era impulso, se era só o efeito de tudo que tinha acontecido… mas não parecia.
Parecia decisão.
E, pela primeira vez, eu não precisei pensar demais.
Sorri de leve, aproximando um pouco mais o rosto do dele.
— Eu fico
Vi o alívio passar pelos olhos dele, rápido, mas evidente.
Jacob sorriu também, daquele jeito tranquilo que sempre desmontava qualquer defesa minha, e me puxou um pouco mais pra perto, como se quisesse ter certeza de que eu não ia desaparecer.
E, deitada ali, com ele, eu tive a sensação clara de que não estava abrindo mão de nada.
Eu estava escolhendo.
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Os dias seguintes foram uma mistura de conversas longas, decisões firmes e algumas explicações que eu nunca imaginei precisar dar. Sentada na frente da diretora, eu precisei organizar tudo dentro de mim para transformar em palavras algo que nem eu mesma tinha conseguido entender direito há pouco tempo. Não foi simples, mas, de alguma forma, foi necessário. Quando finalmente saí daquela sala com tudo resolvido, senti que estava, de fato, recomeçando.
E foi assim que, alguns dias depois, eu me vi novamente diante da escola.
Segurando a mão de Ayla, eu caminhava pelo corredor tentando ignorar os olhares curiosos que surgiam aqui e ali. Alguns cochichos, alguns sorrisos, aquela energia típica de quem sente que perdeu um capítulo importante da história e quer entender o que aconteceu.
Ayla, por outro lado, parecia completamente à vontade, andando ao meu lado como se aquele ambiente já fosse dela. Os dedinhos pequenos apertavam minha mão com firmeza, e aquilo me trouxe uma segurança inesperada.
— Chegamos — ela falou animada segurando a maçaneta da porta.
— É chegamos— respondi, sorrindo de leve — pronta?
Ela assentiu com entusiasmo, respirei fundo antes de empurrar a porta.
E, no exato segundo em que ela se abriu, um balde virou.
A tinta caiu direto sobre nós duas, fria, pegajosa, impossível de ignorar.
Por um instante, o tempo pareceu travar, eu pisquei, sentindo o líquido escorrer pelos meus cabelos, pelo rosto, pela roupa, enquanto um silêncio pesado se formava dentro da sala. Alguns alunos arregalaram os olhos, claramente esperando uma reação explosiva.
Eu virei o rosto devagar na direção deles e todos pareceram assustados.
Ao meu lado, Ayla olhou para cima, depois para mim… e começou a rir.
— Dessa vez não fui eu!
A frase saiu leve, divertida, como se aquilo fosse a coisa mais engraçada do mundo.
E, de repente… eu também quis rir.
Soltei o ar devagar, limpando um pouco do rosto com a mão, ainda encarando aquela cena absurda, aquela recepção nada sutil, aquela tentativa meio infantil de me provocar.
Balancei a cabeça, deixando um pequeno sorriso escapar.
Claro.
Nada tinha mudado tanto assim.
Ergui o olhar, encarando a sala inteira, ainda em silêncio, ainda esperando minha reação.
E então falei pegando o que havia restado de tinta no balde...
— Guerra de tinta!
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