Narrado por Jacob


O volante parecia pequeno demais nas minhas mãos enquanto eu dirigia sem direção pelas ruas molhadas de Seattle. A chuva caía forte, batendo no para-brisa com tanta intensidade que o limpador mal dava conta de acompanhar. As luzes da cidade se espalhavam em manchas borradas, e mesmo assim eu forçava os olhos, tentando encontrar qualquer sinal dela em cada esquina, em cada ponto de ônibus, em cada sombra que parecia se mover.

Meu coração estava acelerado de um jeito que eu nunca tinha sentido antes.

Eu já tinha passado por muita coisa na vida, situações difíceis, decisões complicadas… mas nada se comparava a isso. Nada se comparava à sensação de não saber onde a minha filha estava.

Meu celular tocou no banco ao lado e Renesmee pegou rapidamente, colocando no viva-voz.

– É o Seth.

Assenti sem tirar os olhos da estrada.

– Fala.

A voz dele veio firme, mas carregada de tensão.

– A polícia já foi acionada. Estão ampliando as buscas, tem viatura rodando nos bairros próximos e alguns vizinhos estão ajudando a procurar.

Fechei a mandíbula, tentando me manter focado.

– Qualquer coisa me liga na hora.

– Pode deixar. A gente vai encontrar ela.

A ligação encerrou, mas aquilo não trouxe o alívio que deveria.

Olhei rapidamente pelo retrovisor, depois para a calçada à direita, diminuindo um pouco a velocidade ao passar por uma parada de ônibus vazia, não havia nada na noite além de chuva e escuridão.

– Já são dez da noite…

Minha voz saiu mais baixa do que eu esperava.

Passei a mão pelo cabelo, sem tirar o pé do acelerador.

– Está chovendo… ela deve estar com frio…

Engoli seco, sentindo o peito apertar ainda mais.

– Eu nunca fiquei longe dela assim.

As palavras saíram quase como um desabafo.

Ao meu lado, Renesmee se mexeu no banco, virando um pouco o corpo na minha direção.

– Nós vamos encontra-la Jacob.

A voz dela era calma, firme, tentando me ancorar de alguma forma.

– A Ayla é esperta…

Balancei a cabeça, ainda olhando a estrada.

– Mas ela esta perdida e sozinha.

– Eu sei- Ela fez uma pausa antes de continuar- Mas pensa comigo… tem algum lugar que você leva ela com frequência? Um lugar que ela goste, que se sinta segura?

Franzi a testa, tentando pensar no meio daquele caos.

Minha mente estava acelerada demais.

Mas então…

Uma imagem veio. Ayla pequena, correndo, rindo..O som da risada dela ecoando em um lugar aberto. Parecia distante… mas ao mesmo tempo muito claro.

– Tem- Falei, quase num sussurro – Tem um lugar.

Renesmee virou o rosto pra mim na hora.

– Qual?

Respirei fundo.

– Green Lake Park.

Apertei mais o volante.

– Eu levo ela lá desde que era bebê- As lembranças vieram de uma vez. – Ela aprendeu a andar de bicicleta lá… a gente já fez piquenique, já passou tardes inteiras naquele lugar.

Meu coração bateu mais forte.

– Se ela conhece o caminho ela deve ter ido para lá. — Renesmee disse com um tom de animação.

Sem pensar duas vezes, virei o volante e fiz o retorno na primeira oportunidade, ignorando completamente o trânsito ao redor.

– Segura.

Pisei mais fundo no acelerador.

A chuva continuava forte, mas agora eu tinha um destino.

E uma esperança.

– Aguenta, filha…

Murmurei, mais pra mim do que pra qualquer outra pessoa.

– o papai esta indo.


Narrado por Renesmee


O silêncio dentro do carro era pesado, mas não vazio. Era cheio de medo. Eu conseguia sentir isso em cada movimento de Jacob, na forma como ele segurava o volante, na respiração mais rápida, no olhar que não parava quieto, sempre procurando, sempre esperando encontrar algo que aliviasse aquele desespero.

E, ao mesmo tempo, eu me sentia impotente.

Eu queria ajudar, dizer alguma coisa que realmente fizesse diferença, mas nada parecia suficiente diante daquilo. Era a filha dele. Uma criança de sete anos, sozinha, no meio da chuva, em uma cidade grande demais até para um adulto.

Quando percebi, Jacob estava dirigindo com apenas uma mão. A outra estava solta, apoiada perto da marcha, como se ele nem tivesse notado.

Sem pensar muito, estendi a minha mão e segurei a dele.

Ele reagiu no mesmo instante.

Os dedos dele se fecharam nos meus com força, como se aquele pequeno contato fosse a única coisa mantendo ele firme naquele momento. Por um segundo, ele desviou o olhar da estrada e me olhou. Não disse nada, mas não precisava. Eu entendi.

Ele precisava se segurar em alguma coisa.

E, naquele momento, era em mim.

Apertei a mão dele de volta, tentando passar um pouco de calma, mesmo que por dentro eu também estivesse em pedaços.

Poucos minutos depois, o carro diminuiu a velocidade.

– É aqui.

A voz dele saiu tensa.

Olhei pela janela e reconheci o lugar.

Green Lake Park

A chuva caía forte sobre o parque, deixando tudo mais escuro, mais vazio, mais assustador.

Jacob estacionou de qualquer jeito, sem se preocupar muito com a vaga. Antes mesmo do carro parar completamente, ele já estava abrindo a porta.

– Ayla!

A voz dele ecoou no meio da chuva.

Saí logo atrás, sentindo a água gelada encharcar minha roupa em segundos.

– Ayla! – ele gritou de novo, agora mais alto, mais desesperado.

O som da chuva parecia engolir tudo.

Meu coração estava acelerado, meus olhos tentando se acostumar à escuridão enquanto eu olhava ao redor, procurando qualquer movimento, qualquer sinal.

– Ayla! – chamei também, mesmo sabendo que minha voz não era a que ela queria ouvir naquele momento.

Segundos passaram.

Longos demais.

Até que…

Um pequeno movimento perto de uma árvore chamou minha atenção.

– Jacob…

Minha voz saiu quase sem ar.

– Ali.

Ele virou o rosto na mesma hora 3 então ela apareceu, pequena,

encolhida e completamente molhada.

– Papai...

A voz dela saiu fraca, tremida. Jacob não pensou duas vezes.

– Ayla!

Ele correu até ela, atravessando a chuva sem hesitar, e no segundo seguinte já estava ajoelhado, puxando a menina para os braços.

– Graças a Deus, filha – a voz dele falhou no meio da frase, completamente tomada pela emoção.

Ele a levantou no colo com força, como se tivesse medo de que ela desaparecesse de novo.

– Você está gelada…

Ayla se agarrou a ele, escondendo o rosto no pescoço dele.

– Me desculpa…

Jacob fechou os olhos com força, apertando ela ainda mais.

– Não faz isso comigo…

A voz dele saiu baixa, quebrada – Não faz isso de novo…

Fiquei parada a alguns passos deles, observando em silêncio.

A cena diante de mim dizia tudo.

O desespero.

O alívio.

O amor.

Ayla chorava baixinho, agarrada ao pai, enquanto Jacob a segurava como se nada mais no mundo importasse.

E, naquele momento… nada realmente importava.


O momento parecia suspenso, como se o tempo tivesse desacelerado só para deixar aquele reencontro acontecer. Eu observava em silêncio, com o coração ainda apertado, enquanto Jacob segurava Ayla como se nunca mais fosse soltar.

Foi então que ela levantou o rosto.

Os olhos dela encontraram os meus.

Por um segundo, vi culpa ali. Não era medo, nem vergonha. Era só… vontade de consertar algo que, na cabeça dela, tinha quebrado.

Jacob percebeu o movimento e caminhou na minha direção, ainda com ela nos braços.

– Olha quem está aqui…

A voz dele saiu mais suave agora, mas ainda carregada de emoção.

Quando eles se aproximaram, estendi os braços quase sem pensar. Jacob facilitou, e no instante seguinte Ayla já estava comigo.

Ela estava gelada, molhada e tremendo mas mesmo assim, ela passou os bracinhos em volta do meu pescoço e se agarrou em mim com força.

– Nessie… A voz dela saiu baixinha, falhando. – Eu só queria… pedir desculpas.

Senti meu peito apertar de um jeito que quase doeu.

Apertei ela contra mim, passando a mão devagar pelas costas dela, tentando aquecer, tentando acalmar.

– Ei…Falei perto do ouvido dela, com carinho– Eu não estou brava com você.

Ela se afastou só um pouquinho, como se precisasse confirmar aquilo olhando nos meus olhos.

– Não?

Neguei com a cabeça, com um sorriso pequeno– Nem um pouco. Passei a mão no cabelo molhado dela.

– Depois converdamks com calma, tá bom?

Ela assentiu devagar, ainda me observando.

– Tá…

A voz saiu mais tranquila dessa vez.

Jacob se aproximou um pouco mais e olhou pra nós duas.- Precisamos ir, está frio demais aqui.

Assenti imediatamente.

– Vamos.

Ajustei Ayla melhor no meu colo e comecei a caminhar ao lado de Jacob, sentindo a chuva continuar caindo forte sobre nós. Mas, de alguma forma, agora parecia menos pesada.

Porque ela estava ali.

Segura.

Quando chegamos ao carro, entrei primeiro com Ayla e a coloquei no banco de trás comigo. Fechei a porta rápido, protegendo ela do vento frio que ainda entrava.

– Espera um pouquinho.

Peguei o casaco que estava no banco ao lado e envolvi ela com cuidado, tentando secar um pouco do cabelo dela com as mãos antes de vestir.

– Assim… melhor.

Ayla se aconchegou mais perto de mim, ainda tremendo levemente.

– Eu tô com frio...

Sorri carinhosamente ajeitando o casaco nela.

– Já vai esquentar.

Jacob entrou no carro logo depois e deu partida. O som do motor trouxe uma sensação estranha de segurança, como se finalmente estivéssemos saindo daquele pesadelo.

O carro começou a se mover devagar, e pelo retrovisor ele olhou para nós duas.

O olhar dele mudou, ainda havia preocupação, claro, mas agora tinha algo mais. Alívio e talvez… gratidão.