Notas iniciais
Hoje teremos mais capítulos pois preciso adiantar a história.

Narrado por Renesmee


Assim que fechei a porta do apartamento atrás de mim, encostei as costas nela e fiquei ali por alguns segundos, em silêncio, tentando entender o que estava sentindo. Um sorriso escapou sem que eu percebesse, meio bobo, meio perdido, como se eu ainda estivesse vivendo tudo o que tinha acontecido minutos antes. Meu coração parecia inquieto, leve e acelerado ao mesmo tempo, e aquilo era novo, completamente novo. Passei a mão pelo rosto, respirando fundo, como se precisasse me lembrar de onde eu estava de verdade.

Afastei-me da porta e caminhei pela sala, deixando a bolsa cair sobre o sofá sem muita preocupação. Fui direto para a cozinha, mais por hábito do que por sede, peguei uma jarra de água na geladeira e servi um copo. Quando levei o copo à boca, meu olhar caiu sobre o envelope que estava no balcão. Ele ainda estava ali, exatamente onde eu tinha deixado mais cedo, quase como se estivesse esperando por mim.

Suspirei.

Coloquei o copo de lado e peguei o envelope, abrindo com cuidado, mesmo já sabendo o que tinha dentro. Meus olhos passaram rapidamente pelas linhas até encontrar a confirmação.

Eu tinha sido aceita.

O mestrado, em outro país, tudo aquilo que eu tinha planejado, estudado, desejado por tanto tempo… estava ali, ao meu alcance. Até uma semana atrás, não existia dúvida. Eu iria. Era o próximo passo, o caminho certo, o plano que fazia sentido.

Mas agora…

Passei a mão pela testa, soltando o ar devagar.

Agora não parecia tão simples.

Viajar, deixar tudo para trás, passar anos fora… antes era só uma oportunidade. Agora tinha peso. Agora tinha rostos, tinha sentimentos, tinha um nome que insistia em aparecer na minha cabeça.

Jacob.

Deixei o envelope aberto sobre o balcão, como se não quisesse encarar aquela decisão naquele momento, e segui para o quarto. Tirei os sapatos pelo caminho e me joguei na cama, olhando para o teto, deixando os pensamentos virem sem filtro.

Fechei os olhos por um instante e a imagem dele apareceu fácil demais. O jeito como me olhava, como me tocava, como me fazia sentir… aquilo bagunçava qualquer certeza que eu achava que tinha.

Virei o rosto no travesseiro, soltando um suspiro mais longo.

Eu sempre soube o que queria.

Mas, pela primeira vez… eu não tinha tanta certeza assim.


O dia seguinte chegou rápido demais, como se a noite tivesse passado em um piscar de olhos. Mesmo assim, eu acordei com uma sensação leve, diferente… e, ao mesmo tempo, com aquele friozinho no estômago que eu não conseguia ignorar.

Quando cheguei à escola, tentei me concentrar no que realmente importava. Aula, alunos, rotina, coisas simples.

Entrei na sala dos professores ainda organizando mentalmente o que faria com o terceiro ano naquele dia. Assim que empurrei a porta, encontrei a secretária já lá dentro. Ela levantou o olhar e sorriu.

– Bom dia, professora Cullen.

– Bom dia.

Respondi com um sorriso educado, caminhando até meu armário.

Abri a porta de metal, pegando alguns livros e tentando manter a cabeça no lugar, mas antes que eu conseguisse me perder nos meus próprios pensamentos, ouvi a voz dela novamente, agora com um tom… diferente.

– Eu não quero parecer evasiva, mas vi você ontem no estacionamento.

Congelei por um segundo e virei o rosto devagar.

– Me viu...

Ela apoiou a mão na mesa, tranquila demais.

– Você e o senhor Black.

Meu rosto esquentou na mesma hora.

– Eu… o que você viu...

Não consegui terminar a frase.

Ela soltou um pequeno riso, mas não era de deboche, era mais… compreensivo – Fique tranquila- Disse com calma.

– Isso não é um problema… desde que seja conduzido com cuidado.

Respirei fundo, ainda meio sem saber onde enfiar a cara.

– Eu não esperava que alguém tivesse visto.

– Escola sempre tem olhos – respondeu, dando de ombros.

Ela se aproximou um pouco mais, abaixando o tom da voz – Só tenha cautela com a diretora, ela pode interpretar isso de forma equivocada.

Fez uma pausa antes de completar:

– Espere o momento certo para falar. Não se antecipe.

Assenti devagar, absorvendo aquilo.

– Obrigada.

Ela sorriu de leve.

– De nada.

E saiu da sala, me deixando sozinha com meus pensamentos… que agora estavam ainda mais bagunçados.

Meu celular vibrou sobre a mesa e o nome Jacob apareceu no display, um sorriso escapou antes mesmo de eu abrir a mensagem.

“Bom dia princesa… dormiu bem?”

Logo abaixo, outra.

“Almoça comigo hoje?”

Meu coração respondeu na mesma hora.

“Bom dia… dormi muito bem.”

Fiz uma pequena pausa antes de continuar.

“é claro que almoço com você.”

Respirei fundo, encarando a tela por um segundo a mais.

" Até porque , precisamos conversar.”

Enviei.

Guardei o celular na bolsa e fechei o armário, pegando meus materiais. Soltei um suspiro leve, tentando me organizar antes de sair da sala dos professores.

Os corredores estavam cheios, o barulho das crianças ecoando por todo lado, e por um instante aquilo me trouxe de volta ao que eu amava fazer.

Quando cheguei à porta do terceiro ano, hesitei por um segundo e então:

– BOM DIA, PROFESSORA NESSIE!

O grito veio em coro.

E, no instante seguinte, várias crianças correram na minha direção, me abraçando ao mesmo tempo, algumas se pendurando nos meus braços, outras envolvendo minha cintura.

Ri, surpresa com a recepção.

– Calma, calma!

Tentei organizar o caos com carinho.

– Eu também senti saudade de vocês!


O almoço acabou acontecendo de forma simples, como tudo que envolvia Jacob e Ayla, mas, ainda assim, tinha alguma coisa ali que me deixava confortável de um jeito que eu não estava acostumada. Assim que me sentei à mesa, Ayla praticamente assumiu o controle da conversa, os olhos brilhando de animação enquanto mal conseguia ficar parada na cadeira.

– Nessie, você já foi em La Push?

Neguei com a cabeça, sorrindo com o entusiasmo dela.

– Ainda não.

– Então você vai amar! – ela disse rápido, se inclinando na minha direção. – Tem o penhasco, e o papai pula de lá!

Parei no meio do movimento com o garfo, olhando imediatamente para Jacob.

– Ele faz o quê?

Ayla confirmou com a cabeça, como se fosse a coisa mais normal do mundo.

– Ele pula! Bem lá de cima!

– Ayla… – Jacob tentou intervir, passando a mão pelo rosto.

Olhei de novo para ele, agora mais séria, mas ainda com um sorriso escapando.

– Você pula de um penhasco?

Ele soltou um suspiro leve, meio resignado.

– Não é bem assim.

– É sim! – Ayla insistiu, animada. – É bem alto!

Jacob apoiou os cotovelos na mesa, olhando para mim como quem tenta se explicar antes que a situação piore.

– É um lugar seguro, todo mundo de lá conhece, a gente pula desde mais novo… não é tão perigoso quanto parece.

Inclinei a cabeça, ainda analisando ele.

– “Não é tão perigoso” não parece exatamente tranquilizador.

Ayla riu, sem perceber o peso da conversa, e voltou a falar sem parar, gesticulando com as mãos enquanto descrevia cada detalhe de La Push, do mar, das pedras, do avô Billy, das histórias… tudo ao mesmo tempo.

Acabei rindo junto, observando ela, completamente encantada.

– Ela sempre fala assim? – perguntei, olhando para Jacob.

Ele sorriu de canto.

– Quando está animada… piora.

– Ei! – Ayla protestou, fazendo um bico rápido antes de voltar a sorrir.

Jacob tentou, sem muito sucesso, conter o ritmo dela.

– Filha, deixa a Nessie comer.

– Mas eu estou contando da viagem!

– Eu estou ouvindo – respondi, rindo. – Pode continuar.

Ela abriu um sorriso ainda maior, satisfeita, e continuou falando como se tivesse recebido permissão oficial.

Foi nesse momento que a porta se abriu e Seth apareceu, entrando como se estivesse em casa.

– Nossa… o cheiro tá bom daqui de fora.

Jacob levantou o olhar.

– Você não bate mais na porta?

– Pra quê? – Seth respondeu, já se aproximando.

Ayla levantou da cadeira na mesma hora e correu até ele.

– Tio Seth! A gente vai pra La Push!

Ele a pegou no colo, girando levemente.

– Sério? Então pelo jeito vai todo mundo.

Olhou rapidamente para mim e depois para Jacob, com um sorriso sugestivo que eu fingi não perceber.

– Posso sentar ou já acabou tudo?

– Senta logo – Jacob respondeu, balançando a cabeça.

Seth puxou uma cadeira e se juntou à mesa como se já fizesse parte daquilo, e, de certa forma, fazia mesmo.

E eu… percebi que estava rindo de novo.


Depois do almoço, a casa entrou naquele clima leve de pós-comida, com Ayla e Seth jogados no tapete da sala, completamente concentrados no videogame, discutindo como se aquilo fosse a coisa mais importante do mundo. Eu e Jacob ficamos na cozinha, organizando as louças, um ao lado do outro, dividindo o espaço com uma naturalidade que me surpreendia.

Enquanto eu enxugava um prato, ouvi Ayla reclamar alto da sala.

– Isso não vale! Você roubou!

– Eu não roubei nada! – Seth respondeu, rindo.

– Roubou sim!

Acabei rindo, olhando de canto para Jacob.

– Eles brigam assim o tempo todo?

Ele soltou um riso baixo, passando água em outro prato.

– Pior que sim… mas é coisa deles.

Secou as mãos rapidamente e se apoiou na pia por um instante.

– A Ayla vê o Seth mais como um irmão do que como tio.

Assenti, observando a cena pela porta da cozinha.

– Dá pra perceber.

Ele ficou em silêncio por um segundo antes de completar, em um tom mais tranquilo:

– Eu gosto disso… queria que meus outros filhos também tivessem ele por perto.

A palavra filhos ecoou na minha cabeça de um jeito inesperado.

Senti meu rosto esquentar na mesma hora.

Baixei o olhar para o prato que ainda segurava, tentando disfarçar, mas claramente não fui rápida o suficiente.

– Eu… – ele começou, percebendo na hora. – Não quis dizer que você… quer dizer…

Passei a mão no rosto, rindo sem jeito.

– Jacob…

Ele soltou um suspiro curto, meio sem saber onde colocar as mãos.

– Não estou dizendo que você precisa engravidar, nem nada disso, eu só…

Não consegui segurar a risada dessa vez.

– Eu entendi.

Levantei o olhar para ele, ainda sorrindo.

– Relaxa.

Ele me encarou por um segundo e acabou rindo também, mais aliviado.

Terminamos de organizar tudo em silêncio, mas não era um silêncio estranho. Era confortável, fácil.

Quando voltamos para a sala, Ayla e Seth ainda estavam no mesmo nível de competição, discutindo cada movimento do jogo. Jacob observou por um instante, cruzando os braços.

– Eu vou ali na oficina dar uma olhada no carro da Nessie.

Franzi a testa na hora.

– No meu carro?

Olhei para ele, confusa.

– Mas ele está…

Nem consegui terminar.

Jacob simplesmente segurou minha mão e me puxou em direção à porta.

– Vem comigo.

– Jacob, meu carro está b...

Tentei argumentar, mas já estava sendo levada para fora.

– Confia em mim.

Disse por cima do ombro, abrindo a porta.

Saí atrás dele, ainda sem entender direito, mas sentindo que… claramente, não tinha nada a ver com o carro.



Mal passamos pela porta da oficina e eu ainda tentava entender o que ele estava fazendo quando ouvi o som da chave girando. Nem tive tempo de reagir direito. Jacob me puxou pela cintura com firmeza, encurtando completamente a distância entre nós, e me beijou.

Foi intenso, direto, sem espaço pra pensar.

Minhas mãos subiram quase no automático, envolvendo o pescoço dele enquanto eu correspondia, sentindo o coração acelerar de um jeito que já estava ficando familiar. O beijo não tinha pressa, mas também não era contido, era carregado de tudo que a gente não tinha dito direito ainda, e aquilo me fez perder a noção de qualquer coisa por alguns segundos.

Quando nos afastamos, foi só o suficiente para respirar. Eu ainda estava próxima, com as mãos apoiadas nele, olhando direto nos olhos dele.

– Você costuma receber suas clientes assim?

Perguntei, tentando manter a voz firme, mas com um sorriso escapando.

Jacob soltou uma risada baixa, ainda perto demais.

– Não.

Respondeu, com aquele olhar que me desmontava fácil.

– Só a minha namorada.

Meu sorriso aumentou, mas resolvi provocar.

– Ah, então esse é o atendimento premium? Deve estar incluso na revisão… troca de óleo, alinhamento e beijos?

Nem terminei direito e já senti ele se aproximando de novo, dessa vez descendo os lábios para o meu pescoço. Fechei os olhos por um instante, soltando uma risada leve enquanto ele claramente não levava minha provocação muito a sério.

– Você fala demais…

– E você resolve tudo desse jeito?

– Quando funciona, sim.

Ri de novo, apoiando a testa de leve no ombro dele por um segundo antes de respirar fundo e me afastar um pouco, ainda com as mãos na camisa dele.

– Jake…

Ele levantou o olhar, atento.

– A gente precisa conversar.

Falei com mais calma, tentando organizar as palavras.

– Sobre nós.

Ele assentiu, esperando.

Passei a língua pelos lábios, sentindo aquele leve nervosismo voltar.

– Eu acho que… a gente precisa ir com calma.

Ele franziu levemente a testa, mas não disse nada ainda.

– Eu não estou dizendo que não quero isso – continuei, olhando direto para ele. – Só acho que, por enquanto… é melhor a gente não assumir pra todo mundo.

Fiz uma pequena pausa antes de completar.

– Pelo menos não agora.

Jacob parou completamente, o olhar ficando mais sério, confuso, tentando entender.

E foi ali que o silêncio voltou a se instalar entre a gente.