Notas iniciais
Essa história é bem leve, sem vilões ruins ou coisas ruins, é um romance fofo e clichézinho.

Narrado por Jacob


Estacionei o carro em frente à escola alguns minutos depois. O prédio era familiar para mim, não só porque Ayla estudava ali, mas porque eu já tinha passado por aquela entrada mais vezes do que gostaria. Reuniões de pais, apresentações de final de semestre, bilhetes esquecidos na mochila que só apareciam depois… fazia parte da rotina de quem tem filho. Ainda assim, daquela vez havia algo diferente no ar, uma sensação incômoda que começou quando vi o nome da escola no visor do celular e que agora parecia mais pesada enquanto eu atravessava o portão.

Empurrei a porta principal e entrei no corredor. O lugar estava cheio de crianças passando de um lado para o outro com mochilas enormes nas costas, algumas carregando folhas de atividade, outras conversando alto como se cada história fosse a mais importante do mundo naquele momento. Um grupo de meninos passou correndo perto de mim e uma professora os chamou de volta com um olhar firme. Tudo parecia normal demais para alguém que tinha acabado de receber uma ligação da diretora pedindo que viesse imediatamente.

Caminhei pelo corredor comprido reconhecendo cada detalhe do caminho. As paredes estavam cobertas com desenhos coloridos e cartazes educativos. Casas tortas, árvores gigantes e famílias desenhadas com braços compridos demais. O tipo de arte que só crianças conseguem fazer parecer perfeita. Passei pela porta da biblioteca, depois pelo bebedouro onde Ayla costumava parar para conversar com as amigas. Em poucos segundos cheguei ao lugar que eu já conhecia bem.

A sala da diretora.

Parei diante da porta de madeira clara com a placa discreta escrita Direção. Suspirei uma vez antes de bater.

Dois toques.

– Pode entrar.

Empurrei a porta e encontrei Margaret Lewis atrás da mesa, como se realmente estivesse me esperando. Ela levantou da cadeira assim que me viu.

– Senhor Black.

– Diretora.

Apertei a mão dela. O gesto foi educado, mas rápido. Eu já estava tenso demais para formalidades longas.

Ela apontou para a cadeira em frente à mesa.

– Pode se sentar.

Obedeci e me acomodei na cadeira enquanto ela voltava para a sua. Apoiei os antebraços nas pernas e olhei diretamente para ela.

– Aconteceu alguma coisa com a Ayla?

A diretora entrelaçou as mãos sobre a mesa antes de responder.

– Antes de tudo, quero deixar claro novamente que sua filha está bem.

Balancei a cabeça devagar.

– Ainda bem.

Houve um pequeno silêncio antes dela continuar.

– O senhor está ciente do incidente que ocorreu ontem na sala do terceiro ano?

Franzi a testa.

– Incidente?

– Quando eu e a nova professora entramos na sala para iniciar a aula e fomos atingidas por um balde de água que havia sido colocado sobre a porta.

Demorei um segundo para lembrar.

Ayla tinha comentado algo sobre isso na oficina.

Soltei um pequeno suspiro pelo nariz.

– Ela mencionou alguma coisa… disse que a professora nova tomou um banho quando entrou na sala.

A diretora manteve o olhar firme.

– Pois é.

Cruzei os braços.

– Mas eu não sabia de detalhes.

Ela abriu uma pasta sobre a mesa.

– Fizemos algumas averiguações durante o dia de hoje.

Já sabia que aquilo não ia terminar bem.

– E?

– Descobrimos que a responsável pela brincadeira foi sua filha.

Fiquei em silêncio por um momento.

Então soltei o ar devagar.

– Ayla.

Passei a mão pelo rosto antes de falar.

– Diretora, ela tem sete anos.

Margaret Lewis não mudou a expressão.

– Eu sei quantos anos sua filha tem, senhor Black.

Inclinei um pouco o corpo para frente.

– Crianças dessa idade fazem esse tipo de coisa. Elas não pensam nas consequências o tempo todo.

– Talvez.

A voz dela permaneceu firme.

– Mas isso não muda o fato de que dois adultos foram atingidos por um balde de água preparado de propósito. Dentro de uma sala de aula.

Passei a mão pela nuca.

– Eu vou conversar com ela.

– Imagino que sim.

Ela fechou a pasta devagar.

– Mas também precisamos lidar com a situação aqui na escola.

Antes que eu pudesse responder, alguém bateu na porta.

A diretora olhou na direção da entrada.

– Entre.

A secretária abriu a porta e colocou a cabeça para dentro da sala.

– Desculpe interromper.

– Sim?

– A senhora pediu para chamar a aluna Ayla Black.

A diretora assentiu.

– Sim.

Ela fez uma pequena pausa antes de acrescentar:

– Traga-a até aqui, por favor.

A secretária começou a fechar a porta, mas a diretora falou mais uma coisa.

– E peça para a professora nova do terceiro ano vir também.

A secretária concordou com a cabeça.

– Certo.

A porta se fechou novamente.

Eu me recostei na cadeira devagar, soltando um suspiro longo.

Algo me dizia que aquela conversa ainda estava longe de terminar.


Narrado por Renesmee



O barulho da sala do terceiro ano estava muito mais controlado do que na primeira vez em que entrei ali. Não era exatamente silêncio, porque crianças de sete anos dificilmente conseguem ficar em silêncio por muito tempo, mas havia uma ordem razoável. Algumas mexiam nos lápis, outras cochichavam baixinho, e duas ainda discutiam quem tinha roubado a borracha de quem. Ainda assim, todos estavam sentados.

Para aquela turma, aquilo já parecia um grande progresso.

Eu estava de pé perto do quadro verde, segurando um pedaço de giz enquanto desenhava algo que se parecia vagamente com uma árvore. Não era meu melhor talento artístico, mas servia para o propósito da aula.

– Então vamos tentar entender isso juntos – eu disse, batendo o giz duas vezes no desenho. – As plantas precisam de três coisas principais para fazer a fotossíntese. Quem lembra de uma delas?

Algumas mãos se levantaram.

Apontei para um menino na segunda fileira.

– Daniel.

Ele se endireitou na cadeira como se estivesse prestes a anunciar uma grande descoberta científica.

– Terra.

Algumas crianças concordaram imediatamente.

Balancei a cabeça com um sorriso.

– A terra ajuda a planta a crescer, mas não é exatamente uma das três coisas principais que usamos para explicar a fotossíntese.

Antes que eu pudesse continuar, outra mão se levantou com força.

– Eu sei!

Olhei para a menina.

– Pode falar, Sofia.

Ela respondeu sem hesitar.

– Luz do sol.

Apontei para ela com o giz.

– Exatamente.

Voltei para o quadro e escrevi luz do sol ao lado do desenho da árvore.

– As plantas usam a luz do sol como energia. É como se fosse o café da manhã delas.

Algumas crianças riram.

– Agora – continuei – além da luz do sol, elas também precisam de água e de um gás que está no ar.

Desenhei pequenas setas ao redor da árvore enquanto falava.

– Esse gás se chama dióxido de carbono. Parece um nome complicado, mas basicamente é um tipo de ar que as plantas usam para produzir alimento.

Voltei a me virar para a turma.

– Então vamos revisar. Luz do sol, água e…?

Levantei o olhar pela sala.

Meus olhos pararam em Ayla.

– Ayla, você pode me ajudar?

Ela estava sentada na terceira fileira, com os braços sobre a mesa e os dedos mexendo distraidamente na ponta do lenço azul que estava amarrado na cabeça. Quando ouviu seu nome, levantou o olhar rapidamente.

– O ar… – ela começou.

Fez uma pequena pausa antes de completar.

– Dióxido de carbono.

Sorri.

– Muito bem.

Algumas crianças bateram levemente os lápis na mesa, como se fosse um aplauso improvisado.

Mas algo no jeito dela chamou minha atenção.

A resposta estava correta, mas a voz não tinha a mesma segurança de antes. Ayla parecia… distante. O olhar não estava tão desafiador quanto mais cedo. Havia uma preocupação ali, pequena, mas visível.

Caminhei lentamente até a mesa dela.

– Ayla?

Ela levantou os olhos novamente.

– Sim?

Inclinei um pouco a cabeça.

– Você está bem?

Por um segundo pensei que ela fosse responder normalmente.

Mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, uma voz surgiu do fundo da sala.

– Eu também não estaria bem.

Olhei na direção da fala.

Era Caroline.

Ela estava apoiada sobre a mesa com um sorriso travesso no rosto.

– Por quê? – perguntei.

A menina deu de ombros.

– Porque o pai dela já deve estar na escola.

Algumas crianças soltaram pequenas risadas imediatamente.

Outras começaram a cochichar.

– Ela vai levar bronca.

– Meu pai ficaria muito bravo.

– Minha mãe me deixaria de castigo um mês.

A sala começou a ganhar volume outra vez.

Levantei a mão tentando conter o burburinho.

– Certo, certo… chega.

Algumas crianças ainda riam.

– Isso não é assunto da turma inteira.

Voltei o olhar para Ayla por um segundo. Ela tinha baixado a cabeça e agora parecia ainda mais concentrada em mexer no lenço.

Abri a boca para retomar a aula, mas naquele momento alguém bateu na porta.

Dois toques leves.

Virei na direção da entrada.

– Pode entrar.

A porta se abriu e a secretária da escola apareceu com um sorriso educado.

– Professora Renesmee?

– Sim?

– A diretora pediu que a senhora vá até a sala dela.

Senti um pequeno aperto no estômago.

– Agora?

– Sim.

Ela então olhou para dentro da sala e procurou alguém com os olhos.

– E a aluna Ayla Black também deve ir.

A turma inteira ficou em silêncio novamente.

Vários pares de olhos se voltaram para a mesa de Ayla.

Olhei para a menina por um momento.

– Tudo bem – falei com calma.

Depois voltei a olhar para a turma.

– Classe, abram o livro na página quarenta e dois. Leiam o primeiro parágrafo enquanto eu volto.

Então me virei para Ayla.

– Vamos?

Ela se levantou da cadeira devagar, pegou a mochila como se fosse um escudo e caminhou até mim.

Quando saímos da sala, tive a estranha sensação de que aquela conversa na diretoria não seria simples para nenhum de nós.

Saímos da sala em silêncio. A porta se fechou atrás de nós e o barulho das crianças lendo em voz baixa ficou para trás. O corredor estava mais tranquilo naquele momento. Algumas turmas ainda estavam em aula, então só se ouvia o som distante de vozes e passos ecoando pelo piso.

Ayla caminhava ao meu lado com a mochila pendurada em um ombro, olhando para o chão enquanto andava. Os dedos dela apertavam a alça da mochila com força, como se aquilo pudesse protegê-la de alguma coisa.

Observei a menina por alguns segundos antes de falar.

– Eu imagino que você esteja com medo.

Ela não respondeu, mas seus ombros ficaram um pouco mais tensos.

Continuamos andando pelo corredor iluminado. Passei por alguns cartazes colados na parede e depois voltei a olhar para ela.

– Ayla, quando a gente faz algo errado, é normal sentir medo do que vai acontecer depois.

Minha voz saiu calma, quase como se estivéssemos conversando em particular, mesmo estando no corredor da escola.

– Na vida, as coisas que fazemos sempre trazem alguma consequência. Às vezes são boas, às vezes não são tão boas.

Ela chutou levemente o chão enquanto caminhava.

– Eu sei.

– Mas isso não quer dizer que você é uma menina ruim.

Ayla levantou o olhar pela primeira vez desde que saímos da sala.

– Meu pai não vai fazer nada.

Parei de andar por um segundo, surpresa.

– Não?

Ela balançou a cabeça.

– Não.

Continuamos caminhando mais alguns passos enquanto ela completava a frase.

– Ele nunca me deixa de castigo.

Franzi um pouco a testa.

– Nunca?

– Não.

Ela deu de ombros.

– Mas ele fica decepcionado.

Paramos no meio do corredor.

Aquilo me fez parar completamente.

Abaixei um pouco o corpo até ficar na altura dela. Apoiei uma das mãos no joelho e olhei diretamente nos olhos da menina.

– Entendi.

Ela me encarava com atenção agora.

– Sabe, Ayla… quando somos crianças, muitas vezes não pensamos no que pode acontecer depois de uma brincadeira.

Ela assentiu de leve.

– A gente só pensa que vai ser engraçado.

– Foi o que eu pensei.

– Eu imagino.

Sorri de leve.

– Mas talvez, da próxima vez que você sentir vontade de fazer uma dessas brincadeiras… você possa lembrar de uma coisa.

Ela inclinou a cabeça curiosa.

– O quê?

– Pensar no seu pai.

Ela piscou devagar.

– Pensar que ele pode ficar decepcionado.

O silêncio ficou entre nós por um instante.

Ayla mordeu o canto do lábio e depois soltou um pequeno suspiro.

Então um sorriso tímido apareceu no rosto dela.

– Desculpa.

– Pelo quê?

– Pelo balde de água.

Ela coçou a nuca, meio sem graça.

– Eu achei que a professora nova ia ser uma velha chata.

Cruzei os braços lentamente.

– Ah é?

Ela assentiu.

– Era o que todo mundo estava dizendo.

Levantei uma sobrancelha.

– E eu tenho cara de velha chata?

Os olhos dela se arregalaram.

– Não!

A resposta saiu rápida demais.

– Claro que não.

Esperei.

– Então o que eu pareço?

Ela me olhou por um segundo antes de responder.

– Você é linda.

Fiquei surpresa.

– E legal também.

Soltei uma pequena risada.

– Obrigada pelo elogio.

Ayla sorriu um pouco mais confiante agora.

Estendi a mão para ela.

– Vamos?

Ela segurou minha mão imediatamente.

Caminhamos juntas até o final do corredor, onde ficava a sala da diretora. A porta já estava fechada, e por um momento senti novamente aquele aperto leve no estômago.

Bati duas vezes.

– Pode entrar – a voz da diretora veio de dentro.

Abri a porta.

Entramos.

Foi então que meus olhos encontraram os dele.