Uma lição de amor
5 Suspensão
Eu estava sentado diante da mesa da diretora tentando manter a calma, mas minha perna já começava a balançar sozinha no chão. Aquela sala tinha um cheiro leve de café e papel antigo. Um relógio redondo na parede marcava cada segundo com um tic irritantemente alto. Não era a primeira vez que eu estava ali por causa da Ayla, e isso por si só já dizia muita coisa.
A diretora organizava alguns papéis na mesa enquanto esperávamos. Eu tentava imaginar o que exatamente viria a seguir. Criança apronta, isso faz parte. Só que nos últimos meses Ayla parecia estar testando cada limite possível. Primeiro foi uma briga no recreio, depois uma tarefa que ela simplesmente decidiu não fazer porque achou chata, agora um balde de água armado na porta da sala.
Passei a mão pela barba curta enquanto pensava nisso.
Foi então que ouvi batidas na porta.
– Pode entrar – disse a diretora.
A porta se abriu.
Ayla entrou primeiro.
Assim que me viu, veio direto na minha direção com aquele jeito que sempre teve quando sabia que tinha feito alguma coisa errada. Os passos eram pequenos e cuidadosos, como se ela estivesse tentando diminuir de tamanho.
Mas antes que ela chegasse até mim, meus olhos encontraram quem vinha logo atrás.
Por um instante eu simplesmente parei.
A jovem que acompanhava minha filha tinha olhos verdes muito vivos. O tipo de olhar que prende a atenção antes mesmo da pessoa dizer qualquer coisa. O cabelo dela era ruivo, cheio de cachos soltos que caíam sobre os ombros. A luz da janela batia neles de um jeito que fazia parecer ainda mais claro. Ela tinha um corpo esbelto, postura firme, mas havia algo suave na expressão também.
Não durou mais que um segundo.
Mesmo assim, foi o suficiente para causar impacto.
Endireitei a postura na cadeira tentando disfarçar qualquer reação. Foi exatamente nesse momento que a diretora falou.
– Senhor Black, esta é a senhorita Cullen, a nova professora do terceiro ano.
Então era ela.
A professora nova.
Olhei para ela novamente, agora com a informação encaixando na cabeça.
– Senhorita Cullen.
Ela assentiu educadamente.
Mas Ayla já tinha chegado ao meu lado.
Apoiei a mão no ombro da minha filha e a puxei um pouco mais perto. Ela encostou em mim como sempre fazia quando estava insegura.
– Ei.
A voz dela saiu pequena.
– Oi, pai.
Passei a mão no topo da cabeça dela.
– Você está bem?
Ela assentiu.
– Estou.
Levantei da cadeira então e olhei novamente para a professora.
– Prazer. Jacob Black.
Estendi a mão.
– Pai da Ayla.
Ela apertou minha mão com firmeza, mas havia delicadeza no gesto.
– Renesmee Cullen.
A voz dela era calma, clara.
– Professora da sua filha.
Soltei a mão dela devagar, tentando ignorar o fato de que ainda estava um pouco distraído com aqueles olhos verdes.
Voltamos a nos sentar. A professora sentou na cadeira ao meu lado e Ayla ficou no meio de nós dois, olhando de um lado para o outro como se estivesse no centro de um tribunal.
A diretora cruzou as mãos sobre a mesa.
– Bem, agora que todos estão aqui, podemos falar sobre a situação.
Ayla afundou um pouco na cadeira.
A diretora olhou diretamente para mim.
– Como eu expliquei antes, sua filha foi responsável pela armadilha com o balde de água colocada sobre a porta da sala de aula ontem.
Olhei para Ayla de canto.
Ela evitou meu olhar.
A diretora continuou.
– Considerando a gravidade da situação e o fato de que este não é o primeiro problema disciplinar recente, a escola decidiu aplicar uma punição.
Senti o peso da frase antes mesmo dela terminar.
– Ayla ficará suspensa por uma semana.
Soltei o ar devagar.
Uma semana.
Passei a mão pelo rosto.
No fundo eu sabia que minha filha vinha ultrapassando alguns limites nos últimos meses. Ainda assim ouvir aquilo não era fácil.
Foi então que a voz ao meu lado falou.
– Diretora Margaret…
Olhei para Renesmee.
Ela estava sentada com as mãos apoiadas no colo, mas o olhar era firme.
– Talvez possamos reconsiderar essa decisão.
A diretora levantou uma sobrancelha.
– Como assim?
– Uma semana longe da escola significa uma semana inteira sem aula.
Ela falou com calma.
– Ayla pode aprender mais enfrentando as consequências aqui dentro do que ficando em casa.
A diretora balançou a cabeça.
– Entendo sua preocupação, senhorita Cullen. Mas a decisão já foi tomada.
Renesmee parecia querer insistir, mas percebeu que não adiantaria.
Então fiquei em silêncio por alguns segundos antes de falar.
– Ayla.
Ela levantou o rosto devagar.
– Sim.
– Olhe para mim.
Ela olhou.
Não havia raiva no meu olhar. Só algo que sempre funcionava melhor.
Decepção.
– Você sabe que isso não foi certo.
Ela assentiu devagar.
– Sei.
– Então faça a coisa certa agora.
Ayla respirou fundo e virou na direção da diretora primeiro.
– Desculpa, diretora Margaret.
Depois virou para o lado.
– Desculpa, professora.
Renesmee sorriu para ela.
Não foi um sorriso formal. Foi um sorriso carinhoso, daqueles que fazem uma criança perceber que ainda existe alguém do lado dela mesmo quando ela erra.
– Obrigada por dizer isso, Ayla.
Eu observei aquela cena em silêncio.
E por um momento me peguei olhando para a professora mais tempo do que deveria.
Havia algo nela. No jeito de falar com minha filha, na calma, na forma como tentava proteger a menina mesmo depois de levar um balde de água na cabeça.
Balancei a cabeça levemente e desviei o olhar antes que alguém percebesse.
Mas a verdade é que eu já tinha notado. E muito.
Voltei minha atenção para a mesa da diretora enquanto ela empurrava alguns papéis na minha direção. Peguei a caneta que estava ao lado da pasta e comecei a ler rapidamente. Formulários da escola, registro disciplinar, autorização para suspensão. Nada que eu já não tivesse visto antes em algum momento da vida de pai.
Ayla tinha saído da sala alguns minutos antes, acompanhada pela professora. A diretora preferiu terminar a parte burocrática só comigo. Talvez achasse que aquilo seria mais simples sem a menina ali olhando.
Assinei o primeiro papel devagar.
Depois o segundo.
O som da caneta deslizando no papel parecia mais alto do que deveria dentro daquela sala silenciosa.
– Eu sinto muito pelo ocorrido – eu disse sem levantar os olhos.
A diretora cruzou as mãos sobre a mesa.
– Imagino que não seja uma situação fácil para o senhor.
Terminei a última assinatura e empurrei os papéis de volta.
– Não é a primeira travessura da Ayla… mas também não é algo que eu queira que vire rotina.
Ela organizou os documentos novamente.
– Talvez o senhor precise ser um pouco mais duro com ela.
Levantei os olhos lentamente.
Não havia raiva no meu olhar, mas minha postura mudou um pouco.
– Diretora Margaret… – falei com calma – eu agradeço a preocupação.
Fiz uma pequena pausa antes de continuar.
– Mas eu sei como educar minha filha.
O silêncio que se seguiu foi curto, mas suficiente para deixar claro que o assunto estava encerrado.
Ela apenas assentiu.
– Espero que sim.
Levantei da cadeira, ajeitei a jaqueta sobre os ombros e caminhei até a porta.
– Tenha uma boa tarde, diretora.
– Boa tarde, senhor Black.
Saí da sala e fechei a porta atrás de mim.
No corredor, encontrei Ayla alguns passos adiante conversando com a professora. A menina estava encostada na parede enquanto falava alguma coisa animada, mexendo as mãos no ar. Renesmee escutava com atenção, inclinada um pouco na direção dela, como se estivesse realmente interessada na história.
Por um segundo fiquei observando as duas.
Ayla percebeu minha presença primeiro.
– Pai!
Ela veio correndo até mim.
Abaixei um pouco o corpo e passei a mão no cabelo dela.
– Vamos pra casa.
Ela assentiu.
Foi quando ouvi a voz da professora logo atrás de nós.
– Senhor Black?
Virei.
Renesmee estava parada a alguns passos de distância, segurando um caderno contra o peito. O cabelo ruivo caía em cachos soltos pelos ombros, e aqueles olhos verdes estavam fixos em mim com uma expressão tranquila.
– Sim?
Ela deu um pequeno passo à frente.
– Eu queria perguntar uma coisa.
– Claro.
Ela olhou rapidamente para Ayla antes de voltar o olhar para mim.
– O senhor veria algum problema se eu levasse o material das aulas para a Ayla durante a semana?
Franzi levemente a testa.
– Como assim?
– Como ela vai ficar suspensa… – explicou – eu poderia passar na sua casa em alguns dias para entregar as atividades. Assim ela não perde o conteúdo.
Por um momento fiquei realmente surpreso.
– Isso seria trabalho a mais para você.
Usei o você sem pensar muito.
– Não precisa se preocupar com isso. Eu dou um jeito depois com as tarefas.
Ela balançou a cabeça com suavidade.
– Eu faço questão.
A forma como disse aquilo não tinha obrigação. Parecia mais uma decisão pessoal.
Ayla arregalou os olhos.
– Sério?
Renesmee sorriu para ela.
– Claro.
Antes que qualquer um de nós pudesse reagir, Ayla deu um passo à frente e abraçou a professora com força.
– Obrigada!
Renesmee riu baixo, surpresa com o gesto, mas retribuiu o abraço com carinho.
– De nada, Ayla.
Quando a menina se afastou, Renesmee levantou o olhar.
E encontrou o meu.
Por um instante o corredor pareceu silencioso demais.
Eu não consegui evitar.
Meus olhos voltaram para os dela.
Verdes.
Muito verdes.
E por mais que eu tentasse agir normalmente, havia algo naquele olhar que prendia minha atenção de um jeito difícil de explicar.
Narrado por Renesmee
Fiquei parada no corredor por alguns segundos depois que Ayla correu para o lado do pai. A menina ainda segurava a mochila enquanto falava alguma coisa animada para ele, provavelmente contando metade da história antes mesmo de chegarem em casa.
– Tchau, professora! – ela disse antes de se virar para sair.
Sorri para ela.
– Tchau, Ayla. Nos vemos em breve.
Ela assentiu com energia e então puxou a mão do pai.
Jacob fez um pequeno gesto de despedida com a cabeça.
– Obrigado pela ajuda, professora.
– De nada.
Observei os dois começarem a caminhar pelo corredor. Ayla falava sem parar, gesticulando com as mãos, enquanto ele caminhava ao lado dela com aquele jeito tranquilo de quem já está acostumado com a energia de uma criança de sete anos.
Meus olhos acompanharam os dois até quase virarem o corredor.
E foi quando percebi algo que me fez soltar uma risada baixa.
Jacob era alto. Muito alto. Os ombros largos ocupavam quase todo o espaço da jaqueta escura que ele usava, e o jeito firme de andar deixava claro que ele estava acostumado a trabalho físico.
E então meus olhos desceram um pouco.
Balancei a cabeça e abaixei o olhar imediatamente.
– Renesmee… – murmurei para mim mesma, rindo.
Levei a mão ao rosto, tentando conter o riso.
– Ele é o pai da sua aluna.
Suspirei.
– Não se meta em problemas novamente.
Endireitei a postura, virei no corredor e comecei a caminhar de volta para a sala do terceiro ano.
Quando me aproximei da porta, já era possível ouvir o burburinho crescente lá dentro. Bastou eu abrir a porta para perceber que qualquer tentativa de organização já tinha ido embora.
Algumas crianças estavam guardando os cadernos com pressa, outras conversavam em voz alta, e duas discutiam sobre quem tinha perdido o lápis.
– Calma, calma… – falei entrando na sala.
Alguns olharam para mim.
– Ainda não acabou o dia.
Mas foi exatamente nesse momento que o som da campainha ecoou pelo corredor.
TRRRRRRIIIIIIM.
A reação foi imediata.
– EBAAA!
Metade da turma já estava de pé antes mesmo de eu terminar de piscar.
Mochilas sendo puxadas, cadeiras arrastando no chão, papéis voando de uma mesa para outra.
Levantei as mãos tentando organizar um pouco a situação.
– Esperem! Devagar! Não precisa derrubar a escola inteira!
Algumas crianças passaram correndo perto da minha mesa.
– Tchau, professora!
– Tchau!
– Até amanhã!
– Até amanhã!
Uma menina parou na porta e acenou animada.
– Gostei da aula!
Sorri.
– Eu também gostei de vocês.
Em menos de um minuto a sala estava praticamente vazia. O barulho das crianças correndo pelo corredor ainda ecoava do lado de fora.
Olhei ao redor para a sala agora bagunçada.
Cadeiras tortas, um lápis no chão, um caderno esquecido sobre uma mesa.
Soltei um suspiro.
Depois ri sozinha.
Primeiro dia com o terceiro ano.
E eu já tinha levado um balde de água, participado de uma confissão coletiva, acompanhado uma aluna à diretoria e conhecido um pai que definitivamente não era fácil de ignorar.
Passei a mão pelos cabelos e balancei a cabeça.
Aquilo prometia.
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