Uma indesejada nova vida
1 A sinfonia do milagre
Notas iniciais
Murakami Akira sempre acreditou que o universo suspirava para aqueles que o buscavam conhecer — e ele sempre ouviu estes suspiros. Por isso, sempre teve grande interesse em estudar o cosmos e suas propriedades; dessa forma, aos 26 anos, já era um nome lendário na física por sua genialidade e audácia em sua pesquisa sobre antimatéria, que desafiava os limites do conhecimento humano.
Nascido em Osaka, mas hoje residente da Suíça, Akira, um jovem alto, com cabelos pretos, longos até os ombros, olhos escuros como o vácuo do espaço, levava uma vida dos sonhos: entre conferências internacionais e noites de alto padrão com a sua família em sua casa, onde sua grande biblioteca fazia seus livros sobre física quântica, química subatômica e seus diversos mangás conviverem em uma estranha harmonia. Ainda assim nada o fascinava mais do que a pergunta que ele se faz desde criança: o que há além do que podemos ver no universo?
Mesmo sendo uma lenda na astrofísica, em sua casa ele era apenas um irmão mais velho carinhoso e um filho atencioso que colocava a sua família sempre em primeiro lugar. Quando mudou-se para Genebra, para trabalhar no CERN, trouxe consigo sua mãe, Aiko, uma senhora de baixa estatura, com cabelos pretos e bochechas arredondadas, professora de matemática aposentada, e a sua irmã, Yui, uma moça bonita de estatura média e cabelos escuros longos, estudante de artes prodígio que sonhava em expor suas peças para o Mundo. A relação dos três era muito próxima e cheia de afeto — Aiko sempre insistia em jantarem juntos mesmo quando Akira voltava de madrugada do laboratório, e Yui sempre o presenteava com pinturas e abraços para alegrar os seus dias difíceis.
- Chegou tarde de novo, filho. Muito trabalho hoje? — perguntou Aiko, já que era a quarta vez na semana que Akira chegava atrasado para o jantar.
-Verdade, a comida já está fria e a tinta do meu novo quadro já secou! — Exclamou Yui, já cansada de esperar.
Akira tirou seu casaco e o pendurou no chapeleiro, sorriu de canto de boca e se sentou na mesa ao lado de sua mãe. A mesa de jantar estava posta com uma Raclette, um prato feito de batatas cozidas, com queijo derretido e bacon e pepinos adicionados. Havia também pratos personalizados com seus nomes, feitos por Yui, para cada um, já alocados em seus respectivos lugares à mesa, prontos para que se servissem.
-Desculpem, essa semana estamos tentando produzir uma cápsula com Radônio eletrizado sólido sob campo magnético, para aprisionar átomos de anti-hidrogênio sem que eles desapareçam, mas não tem dado resultado. — Explicou Akira, visivelmente exausto pela semana cansativa.
-Filho, você sabe que eu não entendo nada do que você fala. — Disse Aiko, seguido de uma risada controlada e aliviante. — Sei que seu trabalho é muito importante, mas não se esforce além do que você aguenta!
-Fique tranquila, mãe. — confortou Akira — Sinto que estamos chegando cada vez mais perto de conseguir armazenar antimatéria de maneira estável. Depois disso, acho que fico mais tranquilo no trabalho.
-Está bem, vocês dois, — interrompeu Yui — já esperamos demais, vamos comer que eu estou morrendo de fome!
Todos riram e aceitaram que já estava tarde demais e deviam se apressar para jantar, o que fizeram. Após isso, Akira foi se banhar para relaxar, despediu-se de Aiko e Yui e foi dormir. Na manhã seguinte, Akira levantou-se, escovou os dentes, tomou o seu banho matinal e fez o café da manhã de todos para que elas comessem quando acordassem. Ele preparou três tigelas de gohan — costume que traziam do japão -, dois omeletes com bacon e, para acompanhar, preparou um café preto brasileiro, que havia importado na semana anterior, e saiu de casa satisfeito.
Como ainda era muito cedo, havia poucas pessoas e carros nas ruas. Mesmo em horário de pico, costumava ter muito menos pessoas andando pela cidade do que no Japão, mas aquela manhã estava excepcionalmente fria, e Akira tinha a impressão de que muitas pessoas escolheram dormir um pouco mais. Apesar disso, seguiu o seu caminho de sempre para o laboratório, passando por ruas cheias de neve nas laterais, que começavam a derreter por conta do sol nascente.
Akira liderava uma pesquisa sobre a contenção e manipulação de antimatéria no Grande Colisor de Hádrons (LHC), o maior acelerador de partículas do mundo, buscando criar uma nova fonte de energia limpa e quase ilimitada, além de estudar mais sobre a origem da antimatéria, uma vez que esses fenômenos poderiam revelar segredos sobre a criação do universo e o que há além dele.
Após 20 minutos de caminhada, Akira chegou ao portão do CERN — centro de pesquisa onde está localizado o LHC -, cumprimentou o porteiro da manhã, Alessandro, um alto, forte e pardo brasileiro naturalizado que aproveitava cada raio de sol que houvesse nesse lugar por não estar acostumado com o frio, e seguiu até os corredores principais do laboratório.
No coração do CERN, entre corredores brancos iluminados, preenchidos com os zumbidos das máquinas funcionando, começava ali mais um dia de trabalho. Vestindo o seu jaleco branco com seu nome bordado em kanji e em letras românicas e colocando nos alto falantes da sala uma trilha sonora de jazz japonês, ele se dirigia para a sala de controle, onde todas aquelas luzes, botões e telas piscantes tornavam-se uma visão, apesar de simples, linda em sua mente.
Ao entrar na sala, foi recebido com uma frase que escutava cotidianamente:
-Chegou tarde de novo, Akira — disse Anastasia, uma mulher branca, russa, extremamente alta e robusta com cabelos loiros e olhos castanhos claros chamativos, que era a programadora que tornou todos os experimentos automáticos.
A sala de controle era um ambiente muito grande, com uma mesa de controle ao centro, onde Akira ficava; uma mesa com o computador principal e 3 monitores encostada na parede contrária à porta de entrada, que cabia à Anastasia; uma mesa repleta de desenhos, plantas baixas e rascunhos de cálculos ao canto da sala, que pertenciam ao engenheiro nuclear do projeto e uma mesa secundária com um computador, à direita da mesa de controle, utilizado pelo físico auxiliar para garantir o funcionamento pleno do acelerador de partículas. De frente à mesa de controle, a parede é formada por vidros que permitem ver o acelerador funcionando. Ao lado da mesa do físico auxiliar ficava localizada uma janela e uma porta que davam acesso à sala do acelerador.
-Não cheguei não, — respondeu Akira — cheguei no horário como em todos os dias. Você que chega cedo demais e quer que cheguemos também.
-É claro que temos que chegar cedo. — retrucou Anastasia — Nossa pesquisa é muito importante para ficarmos adiando.
-Você diz isso, mas é a única aqui, como sempre. — observou Akira — Nenhum de nós chega tão cedo quanto você.
-Isso é o que você acha. — disse uma voz baixa atrás de Akira.
De repente, pulou de trás de Akira de modo a abraçá-lo o engenheiro nuclear Paul, um homem francês, branco, baixo, de cabelos castanhos e barba por fazer. Akira se esquivou por reflexo e Paul acabou por não aterrissar direito e bater a barriga na mesa de controle.
-Damner! Errei de novo. — disse Paul, ainda estirado sobre a mesa, sem forças para levantar.
Anastasia e Akira não contiveram o riso.
-Eu disse que não daria certo, засранец! — relembrou Anastasia, perdendo o fôlego devido a estar rindo muito.
-Você não vai conseguir me pegar assim, Paul! — afirmou Akira, cheio de confiança por ter desviado do amigo.
-Algum dia vou conseguir, só preciso ser mais cuidadoso — afirmou Paul, confiante que conseguirá no futuro.
-Você não cresce mesmo, Paul. — disse Akira, sorrindo de canto de boca — Inclusive, precisa fazer a barba direito.
-Isso é verdade, um homem com barba mal feita não recebe muito respeito. — disse John, um homem estadunidense branco de estatura média, com tranças no cabelo preto e barba cheia, bem cuidada, que trabalhava como físico auxiliar, que entrava na sala naquele momento.
-Finalmente chegou, John! — exclamou Anastasia — Você é sempre o último a chegar.
-É verdade, John. — concordou Akira — O que você de tão importante para sempre chegar por último?
-Sabe como é, preciso ajeitar a barba e o cabelo. — explicou John, enquanto passava a mão pela barba.
-Você faz isso e ainda assim não sai com nenhuma mulher. — apontou Paul, de maneira provocativa enquanto tinha um sorriso no rosto — Acho que você joga pelo outro time...
-Cala a boca! — exclamou John, levemente irritado. — Se eu quisesse, ficava com quantas mulheres eu quisesse!
-Sei, sei... — ironizou Paul.
-Estou falando sério, seu baixinho! — respondeu John, mais irritado.
-Não me chama de baixinho, Travis Scott de baixa renda! — retrucou Paul, agora um pouco irritado também.
Anastasia e Akira riam, a moça intensamente. Mas Akira teve de interromper aquele momento:
-Está bem, vocês dois, temos bastante trabalho a fazer hoje.
-Certo, vamos começar a trabalhar. — assentiu John, agora já sorridente com a situação que aconteceu.
Com toda a sua equipe a postos, começaram a realizar suas respectivas tarefas em sincronia, criando uma sinfonia científica com o único intuito de chegar finalmente ao sucesso.
Akira monitorava e calibrava os sensores, que apitavam em altos e harmônicos tons indicando as interações das partículas colidindo em velocidades muito próximas à luz, observadas de perto por John, que emitiam sons indescritíveis e melódicos, sendo o destaque da peça. Somado a isso, o digitar rápido e constante de Anastasia assimilava-se à percussão, ditando o ritmo do experimento, ao passo que o som dos eletroímãs do LHC, alterados por Paul, compunham o grave preenchimento desse peculiar conjunto de vibrações. Criava-se, assim, uma composição magnífica.
Akira esperava pelo breve momento em que as antipartículas surgissem. A sinfonia prosseguia, aumentando a tensão, pela suspensão dos sons. Quando finalmente capturaram com sucesso o anti-hidrogênio gerado, aintgiu-se o momento de apogeu da tensão, pois era apenas o começo do trabalho mais difícil.
Era hora de tentar estabilizar a antipartícula, em uma complexa armadilha de campo magnético variável pensada por Akira, mantendo-a isolada da matéria para que não se anulassem. Naquele momento ele não estava apenas conduzindo um experimento, estava tocando os alicerces do universo, buscando resolução para essa galante sinfonia.
Todos olhavam fixamente para a armadilha, aguardando extremamente tensos o resultado dessa tentativa. Akira transpirava, com os olhos vidrados na gaiola. Subitamente, todos os sons pararam, e aquele momento ficaria para sempre marcado.
Sucesso. A antipartícula estava agora estabilizada. A suave e constante vibração emitida por aquele pedaço antimatéria aliviava a tensão da sinfonia, assim como um acorde tônico alivia a tensão de um acorde diminuto. Um milagre aconteceu naquele lugar.
Akira, John, Paul e Anastasia mal acreditavam no que viam, aquilo era o resultado de tanto esforço e trabalho que eles dedicaram a desvendar o segredo da antimatéria. A história estava escrita.
Paul, praticamente no mesmo instante em que o experimento triunfou, pulou para Akira e deu-lhe um abraço forte, gritando “nós conseguimos” e diversos palavrões em francês. Era como se o tempo tivesse desacelerado. Pouco depois, John correu até os dois e repetiu o ato de Paul, abraçando-os intensamente. Anastasia, diferentemente, aproximou-se lentamente e apenas saudou os companheiros. A vibração do fim da melodia se mantinha constante, e todos eles gritavam de alegria juntos.
Conforme os ânimos se acalmavam, eles lembraram que ainda estavam dentro do laboratório e riram da situação. Era um grande passo para a equipe e para a humanidade.
Akira confirmou as condições de estabilização e todos se reuniram em uma sala ao lado, com paredes brancas preenchidas pelos desenhos que Yui dava de presente para o irmão e uma lousa dupla branca na parede ao lado da porta, na qual resolviam os cálculos para os experimentos. No centro havia um sofá onde todos podiam se sentar. Era lá onde sempre se reuniam para conversar sobre estratégias ou coisas do cotidiano. Assim que entraram, dirigiram-se a esse sofá, pois toda essa tensão havia os deixado cansados e todos sentaram juntos nele.
-Quem imaginaria que nós, uma equipe de jovens cientistas sonhadores, conseguiria algo tão grande? — Indagou John, ainda estonteado com a situação.
-Pois é, meu amigo, — respondeu Akira, com um tom de orgulho e alivio — nós atingimos o que se tornará um marco na história da humanidade. Claro, temos que reproduzir isso algumas vezes ainda, mas um sucesso já temos!
-E é grande obra sua, Akira! — apontou Paul — Se não fosse a sua ideia da armadilha magnética, jamais conseguiríamos.
-É verdade, — concordou John — sua criatividade para achar uma solução foi fenomenal!
-Não se esqueçam de vocês, — respondeu Akira — cada um fez sua parte de maneira esplêndida, além de que conversar com vocês e discutir os problemas juntos é o que nos fez chegar nessa solução.
-De fato, Akira teve a ideia, mas quem projetou a armadilha foi o Paul — apontou Anastasia.
-E quem conseguiu acompanhar o Akira em suas suposições malucas foi o John — relembrou Paul.
-Mas quem programou o sistema para funcionar automaticamente foi Anastasia — esclareceu John.
-проклятие! (caramba!), isso aqui é incrível demais, devíamos sair para comemorar, e beber! — convidou Anastasia.
-Anastásia e a sua mania de falar Russo quando está animada para beber — disse Akira enquanto ria da situação. — Vamos com certeza!
Esse sentimento de felicidade intensa durou algumas horas, e o resto do dia de trabalho passou voando. Todos começaram a pegar seus pertences e se arrumar para irem a um bar próximo ao laboratório chamado Widder Bar, como Anastasia havia sugerido. Enquanto isso Akira enviava mensagens para sua mãe avisando sobre a grande conquista e que não jantaria em casa hoje para comemorar. Em seguida disse para a sua equipe:
-Vão na frente, eu vou apenas fazer um relatório de hoje.
-Está bem, só não demore muito! — exclamou Paul, sabendo que Akira costuma se empolgar com o trabalho e se atrasar por causa disso.
Sendo assim, todos saíram e foram direto para o Widder. Akira, agora sozinho, escreveu um relatório do sucesso de hoje, e em seguida decidiu sentar-se em frente à antipartícula estabilizada para adimirá-la por alguns minutos. Era estranhamente brilhante como o sol mas ao mesmo tempo escuro em sua superfície. Era intrigante e fazia Akira querer estudar o quanto antes aquele material, mas ele conseguiu segurar a sua ansiedade, levantou-se e entregou o relatório para o coordenador da sessão em que estava.
Voltou então às pressas para o laboratório e arrumou seus pertences, olhou novamente os monitores, todos os parâmetros estavam estáveis, virou-se e com sua mão direita desligou as luzes da sala de controle. Nesse momento ele ouviu um estranho estalo junto do apagar das luzes, quando olhou para frente, a antipartícula que segundos atrás estava completamente estável, estranhamente parecia se desdobrar em si mesma, algo que a humanidade não conseguiria nem imaginar ser possível.
Intrigado, porém aflito ele decide voltar para a sala de controle e checar os monitores, que não acusaram instabilidade alguma. Akira estava presenciando algo que um ser humano nunca deveria ter experienciado, muito menos deveria ser feito. Em sua frente aquela antes linda antipartícula que simbolizava seus diversos anos de estudo, o apoio de sua mãe, o incentivo de sua irmã e o trabalho duro de sua equipe estava a beira de colapsar.
Em um ato de desespero, talvez por medo de perder tudo isso, Akira se atira em direção ao início da explosão, para tentar evitá-la, mesmo que com as mãos.
Pouco tempo depois, na casa de Akira, Aiko e Yui estavam na sala assistindo televisão, quando de repente o programa que estavam assistindo foi interrompido por uma notícia urgente. Todo acelerador de partículas, e os seus principais laboratórios, explodiram de repente. Por sorte a parte superior da cidade não foi afetada e a maioria dos funcionários haviam terminado seu expediente. Houve apenas uma vítima: Murakami Akira, morto e desintegrado nesse terrível acidente de grandes proporções, que golpeou fortemente o avanço da humanidade e estremeceu suas bases.
O suave e tranquilo som que findava a sinfonia do milagre que foi esse ato da ciência transformou-se abruptamente no horrível e assustador barulho da explosão que escureceu o futuro da espécie humana.
Aquele que era, até então, um dia de doce realização e comemoração, em poucos segundos, tornou-se uma ácida tragédia. Para a humanidade, a promessa de uma nova fonte de energia e um novo futuro se desintegrava junto ao LHC, aos projetos nele arquivados e à principal mente por trás dessa conquista. Para Murakami Aiko e Yui, o mais do que gênio filho e irmão partia, sem aviso ou preparação, após ter atingido seu objetivo através de tanto esforço.
A complexidade do sentimento das duas nesse momento é inexplicável. Primeiro, sentiam incredulidade. Depois, angústia, medo, pavor. Mas o que mais sentiam era a amargura, a saudade, a impotência e a imensurável tristeza que trazia a perda de Akira. Palavras são incapazes de representar tudo que acontecia no coração das duas, assim como lágrimas não expressam o peso de cada gota que caía de seus olhos.
Em outro plano, a consciência de Akira indagava:
-Está tudo escuro, onde eu estou? O que aconteceu com a minha pesquisa?
-Muito prazer, Murakami Akira,- ouviu o jovem de uma voz misteriosa — ou devo dizer Leonis Valefor agora? — riu a voz misteriosa — Eu já estava ficando entediado mesmo!
Continua…
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