Notas iniciais
Capítulo 2

O escuro ao redor de Akira era sufocante, como se ele estivesse em um vazio absoluto, que fugia a vida e a esperança completamente. Apesar disso, ele ainda sentia que estava ali, sua consciência flutuava, confusa e com medo. Então surgiu uma voz suave, mas ao mesmo tempo sufocante, cantarolando bela e amedrontadora.

-Está tudo escuro — pensou Akira — onde eu estou? O que aconteceu com a minha pesquisa? e minha família?

-Muito prazer, Murakami Akira,- exclamou a voz agora mais irônica— ou devo dizer Leonis Valefor agora? — ela riu, uma risada que fez Akira sentir calafrios atravessando toda sua consciência— Eu já estava ficando entediado mesmo!

-O que é você? O que está acontecendo? Eu morri? — Akira dizia, tentando manter a calma, mas atormentado pelo pavor de tantas dúvidas.

-Eu sou Aetherius Lux — disse agora com uma voz mais leve, porém esnobe — Eu sou… bem, digamos que alguém que se diverte observando, e às vezes mexendo algumas peças do tabuleiro.

Aetherius faz uma pausa como se saboreasse este momento.

-É uma pena não é, Akira? Você chegou tão perto, tão perto de algo que você jamais deveria ter sequer tentado ver. — novamente caçoando de Akira — Eu não poderia deixar um peão se mover tão livremente assim, mas apenas matá-lo seria… tão chato, que me dá desgosto só de pensar. Então decidi tornar as coisas um pouco mais interessantes.

-Interessantes? Brincar com vidas pode ser interessante pra você? — A indignação fervia em Akira.

-O que aconteceu com a minha mãe? E minha irmã? Como elas estão, eu não posso abandoná-las! — Exclamou Akira antes que Aetherius pudesse responder a sua pergunta anterior.

-Vidas? — Aetherius caiu em gargalhadas assim que terminou de ouvir — Acho que vocês humanos se acham demais, são apenas frações de segundo na existência como todas as outras espécies, são todos iguais, e a sua família não é diferente disso para mim, use essa sua imaginação para imaginar o que aconteceu com elas. — Aetherius cai em gargalhadas sozinho novamente — Eu nunca imaginei peças de tabuleiro como vidas, mas você foi realmente interessante, então me entretenha novamente.

Akira só sentia raiva e nojo dessas palavras. Mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, Aetherius disse, com uma voz leve, porém ameaçadora:

-Agora você tem um novo nome, Leonis Valefor, e uma nova “vida”, como você gosta de chamar. Esse mundo é um pouco diferente do seu habitual, mas não se engane, — a voz de Aetherius tomou um tom mais sombrio — aqui você não é mais gênio ou especial Você, Leonis, é comum e descartável, principalmente para um certo alguém — Disse Aetherius enquanto debochava de Akira — Mal posso esperar para me divertir com você, aproveite, se puder…

O mundo ao redor de Akira começou a girar, e o vazio se transformando rapidamente em luz e som, tantas informações vinham tão rápido que o seu cérebro não era capaz de compreender aquele momento, e quando finalmente entendeu onde estava, ele se viu sem conseguir se mexer, no colo de uma mulher que o olhava com um olhar bastante carinhoso. Com a visão ainda um tanto turva observava ao seu redor, mas não compreendia bem onde estava, via apenas esta mulher e algo que se parecia com um berço de madeira. Parou então por um breve momento e pensou: “Eu renasci? Foi isso que aquela figura disse, e o que mais? Leonis Valefor… isso mesmo, esse deve ser eu agora.”

Ainda não podia se mexer, e isso o incomodava muito. Enquanto Leonis tentava se mexer com todas as suas forças, a mulher olhou para ele e disse algo que ele não compreendeu. Ele parecia discernir os sons, mas não entendia o significado deles. Os sons o lembravam bastante das palavras em russo que Anastasia dizia de vez em quando. Leonis finalmente entendeu que pouco poderia fazer nesse momento além de observar as coisas.

“Parece que agora eu ainda sou um bebê, e os instintos desse corpo me dizem que essa mulher é importante pra mim” Pensou Leonis, enquanto seu corpo parecia ficar cada vez mais pesado. “Droga, esse corpo. Eu queria ver mais coisas mas mal consigo me manter acordado” pensou, enquanto a mulher o balançava e cantava uma canção desconhecida, mas claramente feita para bebês adormecerem.

Quando percebeu, Leonis já estava no berço, e o ambiente parecia estar mais claro agora. “Acho que peguei no sono sem perceber”. Leonis olhava ao redor procurando entender melhor onde estava, e dessa vez podia ver mais claramente as formas, era uma pequena sala completamente feita de madeira um pouco avermelhada, com uma estante de livros em frente ao berço e uma escrivaninha de madeira escura logo em frente à estante, ambas feitas da mesma madeira das paredes da casa. A sala possuía duas janelas quadriculadas que abriam para fora da casa, por onde a claridade do dia permeava o cômodo. Com muito esforço, de maneira desajeitada, por não conseguir controlar seus músculos perfeitamente, virou-se para a direita, e viu um objeto que se assemelhava a um lampião, colocado ao lado de uma porta em um apoiador que parecia feito para ele.

Observando melhor este lado, pois precisaria de muito esforço para virar-se para a esquerda, decidiu analisar esse objeto. Observou que era muito mais simples que o lampião que ele conhecia: era apenas uma caixa de paredes, com um gancho na parte superior para segurar, e devia ser barato, pois o material parecia ser latão. Porém algo chamou sua atenção: “O que é isso no centro? não deveria ter um espaço para uma vela já que não funciona com gás?”

No centro do lampião havia apenas uma pedra cinza claro, que estava apoiada em um metal estranho o qual ele nunca tinha visto antes. “Como um lampião pode funcionar com uma pedra? Parece que quanto mais eu olho à minha volta, menos eu compreendo sobre esse lugar.” Nesse momento, Leonis ouviu passos vindo de seu lado esquerdo, e antes que pudesse se virar, estava já no colo da mulher novamente.

Leonis agora conseguia visualizar melhor as feições da pessoa que o segurava. Era uma mulher que aparentava ter por volta de 32 anos e um metro e 70 de altura, com cabelos brancos tal qual a névoa, presos em rabo de cavalo, e olhos vermelhos vibrantes, como cerejas recém colhidas em maio. Seu rosto era fino e suas bochechas eram levemente rosadas, ressaltando seus longos cílios e seus olhos escarlates. Suas expressões faciais traziam leveza e amistosidade, ao mesmo tempo que indicavam a experiência considerável de vida.

Com a visão de cima, podia ver melhor a sua volta, principalmente do lado esquerdo do berço que ele não conseguia observar antes. Lá havia uma poltrona levemente desgastada, feita de couro escuro, uma outra escrivaninha, da mesma madeira, com um livro de capa dura e algumas gravuras simples feitas à mão em cima. Leonis não entendia qual era o título do livro. Na parede estava pregado um calendário, que ele julgava se tratar de um calendário lunar. E nesse calendário havia uma marcação de IV onde parecia corresponder a meados de julho em um calendário solar, que Leo estava acostumado.

Antes que pudesse observar mais coisas a mulher que o tinha pegado no colo olhou em seus olhos e disse:

- Desculpa atrapalhar o seu sono, meu filho, mas agora é hora de comer.

Leonis olhava para essa mulher sorrindo, mas não entendia nenhuma palavra do que ela dizia, então apenas continuou olhando para ela, que logo começou a se ajeitar para amamentá-lo. Vendo isso, todos os músculos de seu corpo tensionaram, ele percebeu ali que essa mulher deveria ser a sua mãe. Ele estava com fome, sua barriga roncava, mas cada fibra de sua consciência adulta gritava em negação.

O seu corpo infantil agia por conta, antes que pudesse ao menos resistir já estava com a sua boca aberta, guiado por um instinto que lhe causava um misto de vergonha e alívio. Sua mãe o segurava gentilmente e com um olhar afetuoso, como se nada estivesse fora do normal, mas, para Leonis, esses intermináveis segundos eram uma tortura psicológica, incapaz de controlar seus próprios movimentos — um lembrete que, por mais que sua mente se agarrasse ao passado, seu novo corpo tinha necessidades das quais ele não podia escapar.

Após longos poucos minutos, Leonis saiu de sua tortura e, enquanto sua mãe o balançava para evitar que regurgitasse, sentiu seu corpo pesar novamente e sua visão mais uma vez se apagou lentamente. Na escuridão da sua própria consciência, ele ouviu passos muito pesados próximos de si, então rapidamente acordou do seu sono, e estava novamente em seu berço, e ainda sem muito controle de si tentava compreender o que eram esses passos.

“Não são passos normais, e muito menos são da minha mãe, onde ela está?” pensou Leonis enquanto se virava o mais rápido que podia à procura de sua mãe. Ela não estava naquele cômodo, e os sons apenas aumentavam quanto mais segundos passavam e Leonis ficava mais e mais preocupado. E então, de repente, o barulho cessou completamente logo após o seu auge. “Parou? mas onde?”

Antes que Leonis pudesse ter qualquer tipo de reação viu a porta de sua casa explodir junto de um som ensurdecedor, a porta ficou em pedaços, alguns ainda presos aos restos de madeira da porta e outros já do outro lado do cômodo. Através do buraco aberto, Leonis via entrar em sua casa com cautela uma criatura que se parecia com um lobo, mas era ainda maior, algo próximo de 1,5 metro de altura com suas 4 patas no chão. Tinha pelagem negra que cobria todo seu corpo, algumas joias douradas nas patas, e uma meia lua vermelha em sua testa.

O lobo salivava, olhando atentamente para Leonis, parecia faminto. Sua cautela logo desapareceu e ele ferozmente atirou-se na direção de Leonis, que, naquele momento, estava completamente indefeso. Porém, quando suas garras estavam a centímetros de acertar o garoto, uma presença que não estava ali nem mesmo no último milésimo de segundo surgiu e o acertou com um chute, cujo ressoou em todos os seus órgãos. Sua mãe surgiu subitamente e desferiu o golpe na criatura.

Leonis estava estático, após quase ser morto, ainda sem entender direito como sua mãe havia se movido tão rapidamente. Ouviu o estrondo da criatura colidindo com a parede de madeira da sua casa. Mas antes que pudesse pensar em qualquer coisa, a alma de Leonis tremeu mais uma vez. Ele sentia como se não pudesse respirar, e até mesmo olhar para frente parecia que iria matá-lo. Viu, então, sua mãe exalando uma luz muito forte, era parecido com uma aura, mas era sufocante e preenchida de raiva.

-Além de destruir minha casa, você tenta encostar no meu filho, sua criatura imunda. Eu, Ayla Argent, te darei a punição devida. Morra demônio maldito!

Naquele momento os instintos mais selvagens do lobo sabiam: sua morte se aproximava. Mas ele não queria fugir, ele nunca havia fugido nem uma única vez, ele é o caçador, não a presa. Com isso em mente, ele recompôs sua postura e parecia até mesmo sorrir naquele momento.

Olhando para a mulher, ele pensou na maneira de vencer o mais rápido que podia. Então, em movimento rápido em que se inclinou levemente para frente, ele expandiu as suas sombras em uma névoa escura e espessa que fazia com que a sua presença desaparecesse. Em seguida, utilizou a sombra de Ayla para se materializar atrás dela. “Magia de trevas? Droga isso vai ser difícil”, pensou Ayla assim que o demônio se mexeu.

Leonis, em seu berço, apenas viu a névoa escura, sem entender exatamente o que estava acontecendo. “Como minha mãe se moveu assim? E como aquele lobo fez essa névoa, o que é tudo isso? Isso é real? Coisas como magia não deveriam existir.”, pensava enquanto observava aquela cortina negra feita pelo lobo.

Estando logo atrás de Ayla, a criatura rapidamente abriu a sua mandíbula e acertou com suas presas o ombro direito de Ayla, e começou a utilizar a sua sombra para prender os braços dela, as sombras saiam do corpo dele e enrolavam os braços dela como se fossem fitas negras girando entorno do braço dela. Entretanto, assim que as suas sombras começaram a se mover e o sangue de Ayla começava a escorrer levemente pelas suas roupas, ele viu ela olhar em seus olhos e sorrir.

-Você é mais inteligente do que eu pensava, demônio, mas também é mais fraco do que pensa.

Assim, Ayla, utilizando sua magia de vento, fez um moveu braço esquerdo ao seu redor, para dissipar aquela névoa escura, e em seguida, com seu braço direito ainda que ferido, criou uma pressão em volta de si, que arrancou as presas do lobo de seu ombro e o jogou para o alto.

Leonis, novamente com esforço, virou-se de lado para ver o que acontecia. De repente, a névoa desapareceu, sua mãe estava ferida e aquele lobo estava quase no teto. “Ela está machucada! o que eu faço? Eu realmente não posso fazer nada aqui?” pensava enquanto gritava em seu berço, refém de sua impotência.

A criatura, agora no ar, percebendo seu destino, tentava desesperadamente contra-atacar, imbuindo suas garras em suas trevas e atirando-as com o movimento de suas patas em direção a Ayla, que novamente desapareceu da trajetória do golpe, fazendo o corte rasgar a madeira do chão, deixando para trás apenas uma brisa de vento restante de seu rápido movimento. Reapareceu novamente ao lado do lobo, com suas pernas no teto e disse:

-Eu já te falei para não destruir minha casa, demônio sujo!

Ayla então estendeu seus braços a seus lados e criou centenas de agulhas, formadas de água altamente pressurizada, que refletiam a luz das estrelas como cristais, logo acima da criatura, e com o movimento de suas mãos, lançou-as no demônio. Cada uma das agulhas perfurou o lobo em pontos não letais, mas que causavam a maior quantidade de dor possível. Ele estava agora no chão, caído e sangrando por todo o seu corpo, não tinha mais forças para lutar. Frente àquela mulher amedrontadora, sem um pingo de piedade, pensava apenas em sobreviver, e assim utilizou tudo que tinha para fazer as suas sombras estancarem os sangramentos para que se curassem mais rapidamente.

Leonis via tudo e não podia deixar de pensar no quão interessante tudo aquilo era. “O que foi tudo isso que eles fizeram? Como fizeram isso? São tantas perguntas, eu quero descobrir tudo, eu quero aprender mais sobre esse mundo”. Olhando para a criatura se esforçando para sobreviver, Ayla exclamou:

-Finalmente chegou sua hora. Infelizmente para você, eu tenho muita experiência acabando com a raça do seu tipo.

Sem nem mesmo pensar duas vezes, Ayla esticou a sua mão em direção ao lobo e o envolveu em uma esfera completamente feita de água, fazendo com que ele começasse a se afogar.

Vendo isso, Leonis não poderia deixar aquela criatura morrer, ele queria ver mais sobre ela, ela era tão diferente. E então, por conta dos instintos de sua vida passada, gritava sem parar e se mexia no berço, para que sua mãe o ouvisse. Ayla estava com um olhar assustador em seus olhos, não tinha um pingo de misericórdia com aquela criatura, mas ao ouvir finalmente o choro de seu filho, segurou a sua própria mão e dissipou a esfera, deixando o lobo vivo, porém desacordado.

-O que eu estava fazendo na frente do meu filho? Ele mal nasceu, eu sou idiota por acaso? — disse Ayla, com lágrimas nos olhos.

Em seguida, foi em direção a Leonis e o pegou no colo, e o abraçou dizendo:

-Me desculpe querido, me desculpe!

Leonis ainda não compreendia o que sua mãe dizia, mas naquele momento ele sabia o que ela expressava por conta da sua expressão. Então, estendeu sua mão na direção do rosto dela, como se quisesse tocá-la e dizer que estava tudo bem.

Quando finalmente se recompôs, Ayla colocou Leonis de volta em seu berço, e virou em direção ao lobo e disse:

-Tenho que arrumar essa bagunça toda logo, porque preciso ter uma boa conversinha com este senhor lobo não é Leonis?

Olhou de volta para Leonis, sorriu gentilmente e exclamou:

-O que você acha de adotarmos um cachorrinho?

Leonis não conseguiu entender o que sua mãe disse, mas estava claramente feliz de ver aquele sorriso novamente.

continua…


Aparências aproximadas dos personagens Até agora:

Lobo demoníaco:

Ayla:

Notas finais
Muito obrigado por ler até aqui!!!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.