Notas iniciais
O encontro e os primeiros dias de Jeyne na irmandade sem bandeiras.

Era difícil ser uma garota sozinha no mundo. Isso já tinha se provado diversas vezes em sua vida e agora era mais verdade do que nunca. Sua antiga septã dizia que o choro é a arma da mulher e a cortesia seu escudo. Em seus poucos anos de vida, Jeyne percebeu que aquela santa mulher não podia estar mais errada. Cortesia nunca lhe serviu para nada e o choro apenas deixava os homens mais excitados quando lhe estupravam. Sua única e verdadeira defesa era fechar os olhos e se imaginar em um lugar distante, bem longe dali, onde pudesse ser feliz longe de toda aquela neve e de todas as lembranças.

Estava com os olhos fechados quando Lorde Bolton anunciou que ela voltaria a Porto Real. Seu filho havia morrido e sua farsa como Arya Stark havia sido descoberta. Havia sido uma bondade da parte dele deixa-la com vida após seu ato de traição ao fugir de Winterfell.

— Podia então ter me deixado ficar na muralha.
— Não, espero que tenha aprendido a lição.

Ela tinha aprendido muito bem. Nunca ter esperanças, nunca imaginar que as coisas podiam melhorar para ela.

Nos últimos meses havia sido feita de joguete. Havia sido liberta das mãos de Ramsay, um monstro em forma de homem. Ficou morando na muralha durante alguns meses, até o Rei e o senhor comandante serem mortos. Após isso, o exército de Lorde Bolton ameaçou a patrulha da noite. Assustados, pois o exército Bolton tinha várias vezes mais o seu tamanho, os patrulheiros enviaram novamente Jeyne, Theon e uns outros reféns para os esfoladores. Theon foi morto. A punição para Jeyne era ser novamente vendida a um bordel em Porto Real. Outras teriam facilmente optado por um suicídio ao invés de aceitarem aquela situação. Para Jeyne até aquilo lhe fora negado, Lorde Roose Bolton já havia pensado nisso antes.Desde que voltara da muralha havia ficado constantemente vigiada, com mãos e pés amarrados para não tentar fugir. Seu quarto havia sido revistado em busca de objetos cortantes. Mais uma coisa para lhe mostrar que não tinha o menor controle sobre sua vida nem sobre sua morte.

No dia seguinte, partiu junto de uma pequena comitiva. Segurava em suas mãos um pedaço de pano com o emblema de Stannis, o coração em chamas do Senhor da Luz. Ela tinha ganhado dele um cordão com o mesmo símbolo, mas tinha medo de usar e provocar a raiva nos soldados inimigos. Agora orava para R'hollor, já que os deuses antigos nunca tinham ajudado em nada. Esperava que ele pudesse protegê-la.

Percebeu quando finalmente deixaram o Norte. Viu a mudança na natureza, mas nem toda a beleza foi capaz de anima-la. Durante a viagem alguns soldados mais próximos tentaram conversar com ela, mas em vão. Nem perdeu seu tempo.

A viagem prolongava-se cada vez mais. Já haviam passado duas semanas quando finalmente chegaram nas terras fluviais. Esperava que passassem por ali rapidamente, o local estava repleto de foras-da-lei. Mesmo no Norte se ouviam histórias dos grupos que aterrorizavam, destruíam aldeias inteiras. Esperava não se deparar com nenhum deles.

Em certo momento ouviu barulho de cavalos correndo. Percebeu que não havia sido a única, pois todos os homens pegaram suas lanças e aceleram o passo. Quando passaram em frente a uma estalagem uma chuva de flechas caiu sobre eles, ela ficou bastante atordoada. Vários cavalos os cercaram e começou uma luta sangrenta. Só de olhar já sabia o resultado: seriam massacrados, estavam em bastante desvantagem. Percebeu que tinha que se mover o mais rápido possível, não era uma oportunidade apenas para salvar sua vida naquele momento, mas também para fugir de Porto Real. Felizmente o cavalo obedeceu os comandos e ela disparou em direção a floresta.

*******

Já havia se passado bastante tempo, isso ela tinha certeza. E também estava completamente perdida. Não fazia noção de para onde ir. Quando a noite caiu, decidiu parar para descansar. Estava com o corpo completamente dolorido. Já estava se preparando para caso sentisse muita fome, comer algumas folhas das árvores. Precisaria de ajuda, não tinha esperanças de sobreviver por muito tempo sozinha numa floresta. Mas para quem? Era absolutamente sozinha, a última de sua casa e todos seus amigos e conhecidos estavam mortos.

Lembrou que devia dar alguma comida para o cavalo, embora não soubesse bem o que. Cavalos comiam feno e grama o que não tinha ali. Pensou em dar umas folhas, mas ele não aceitou. Torcia para que no dia seguinte pudesse achar algo, se ele ficasse doente ou morresse, era o fim da jornada para ela.

Aquela noite estava esfriando cada vez mais. Se deitou no chão, enrolando- se o máximo possível. Adormeceu fazendo planos. Finalmente estava livre, não tinha mais um senhor, agora ela era a própria senhora de sua vida. Podia tentar trabalhar numa estalagem durante alguns meses e ganhar moedas suficientes para comprar uma passagem para as Cidades Livres. Lá poderia viver em paz, longe de toda a guerra dos Sete Reinos. Venderia peixes ou flores. Também podia cantar ou fazer malabarismo. Teria uma casinha onde pudesse viver em paz.

De manhã cedo foi acordada ao som de vozes. Despertou de súbito, assustada com todas aquelas pessoas. Falavam algo que ela não conseguia ouvir, não conseguiam prestar atenção. Contou, eram oito homens. Nem se ela fosse uma guerreira experiente podia lidar com isso. O seu cavalo havia sumido e ela estava desarmada. Notou quando um deles dirigiu a palavra a ela e tentou prestar mais atenção.

— Você está entendendo o que estou dizendo? Você fala o idioma comum? — O homem careca falava.

Ela balançou a cabeça.

— Não vamos perder tempo, deve ser só mais uma meretriz de estrada. — Ouviu alguém dizer. — Temos algo mais importante a fazer.
— Não sei não, ela devia estar junto aos Boltons, deve valer alguma recompensa. Quem é você menina? — Ela não respondeu, atônita.

Desistiram de tentar conversar com ela e a puxaram para cima de um cavalo. Ela se debateu, chutou e mordeu o máximo que pode, não queria desistir de sua casinha com flores na janela. Eles conseguiram amarrar suas mãos novamente. Não acreditava que eles achavam que ela ia se render sem nenhuma resistência. Só podia imaginar o quanto aquilo tudo era horrível, tinha tanto planos para o futuro e acabou sendo capturada por algum grupo ordinário. Acabou sendo levada pelos homens. Durante o caminho lhe fizeram muitas perguntas, estavam curiosos sobre ela.

— Lorde Bolton não tem irmãs ou filhas e você está muito magra para ser a gorda Walda.

Jeyne não respondia nada. Queria saber quanto tempo ia demorar para até aqueles homens quererem tomá-la a força.

— Me deixem seguir meu caminho, por favor! Lorde Roose Bolton não irá pagar uma moeda de cobre por mim, tenha certeza.
— Isso é o que veremos.
— Mas quem são vocês?
— Somos a irmandade sem bandeiras, filha.

As terras fluviais estavam cheias de foras-da-lei. Sabia que já tinha ouvido falar aquele nome antes, mas nunca havia prestado muita atenção no assunto.

— Você já deve ter ouvido falar de nós. — Disse o homem dando um olhar divertido para ela.
— Pode ser que sim, mas não me recordo nada. Para onde iremos agora?
— Vamos levá-la ao nosso líder, ele irá resolver isso.

Dias depois chegaram a uma Castelo aparentemente abandonado. Parecia queimado e quebrado, mas ao entrar viu que estava repleto de homens dessa irmandade. Percebeu que no meio deles também tinham algumas mulheres e crianças.

Um deles, um arqueiro ruivo foi na frente avisar que tinham chegado com uma prisioneira. Estava com medo do local, um lugar bastante escuro, a única claridade do local vinha de uma enorme fogueira no centro do pátio. Prestava atenção nisso quando foi arrastada até um dos quartos do local. Aquilo foi o suficiente para ela começar a gritar e se debater. Queria sair dali, não podia aceitar que outros homens tivessem poder sobre a sua vida.

— Podem deixa-la. — Quando ouviu uma voz abriu os olhos. O que viu a deixou absolutamente paralisada de pavor. Não havia palavra melhor para descrever o homem além de quebrado. Bastante quebrado. Sua cabeça, seu olho, as marcas no seu pescoço. Era tudo terrivelmente assustador.

Como ele pode estar vivo depois de tudo isso?

Ficou olhando para aquele homem boquiaberta, até que o homem ao lado dele resolveu falar.

— Foi dito que você estava numa missão com os esfoladores, é verdade?

Jeyne estava tão nervosa, não sabia o que responder. Se dissesse que não, poderiam matá-la por não ter valor algum para eles. Se confirmasse, poderiam pedir resgate e tentar devolve-la a Lorde Bolton. Sentia muito medo das duas alternativas. Imaginava o que iam fazer se ela não respondesse nenhuma pergunta. Apesar de tudo, aqueles homens não pareciam ser do tipo que iam bater numa garota sem a menor chance de defesa. Mesmo assim precisavam de respostas.
— Eu... — Percebeu que havia começado a chorar.
— Não iremos fazer nada a você, pode ficar tranquila. — Disse o homem com cicatrizes. — Você mora aqui perto em alguma vila? Podemos leva-la até sua família. — Ele disse.
— Não, eu não tenho família. Não tenho ninguém.
— Meus homens disseram que a senhora cavalgava junto dos homens nortenhos antes de serem apanhados.
— Eu sou só uma prostituta... Estava fazendo meu trabalho, sor.
— Acho que não, você não teria ficado tão relutante em dizer se fosse o caso.
— Eu era casada com o filho de Lorde Bolton, mas ele morreu...
—Você era casada com Ramsay Snow? Mesmo com toda essa distância ouvimos histórias terríveis sobre ele.
— Sim, eu era. — Ela disse chorando mais do que antes. — Eu não quero voltar para lá, por favor!

Ele assentiu com a cabeça.

— Meu pai era intendente de Winterfell, quando Lorde Eddard se tornou a Mão do Rei fomos juntos para Porto Real. — Dizia entre um soluço e outro. — Ai teve aquela história da traição, claro que era mentira, eles jamais fariam algo do tipo. Mesmo assim meu pai acabou sendo morto também na confusão que ouve. Eu não sabia disso na época, ficava esperando ele voltar. Minha amiga Sansa me tranquilizava dizendo que as coisas iam melhorar, talvez só para ela que ia se casar com o Rei.
— Acho que você deve conhecer um homem que temos na irmandade, ele também era de Winterfell. – Pensei que estivessem todos mortos!
— Nem todos.

Era difícil lembrar do passado. As lembranças podiam machucar mais do que tudo.

— E então o que aconteceu?

Jeyne não conseguiu falar mais nada. Como explicar toda tristeza e humilhação que sentia?

— Imagino o quanto deve ser difícil para você...

E ao olhar para ele percebia que ele entendia sim, a raiva o medo, a culpa e a vergonha.

— Por hora você irá ficar com um quarto daqui até decidirmos o que iremos fazer com você. — Disse o outro.
— Como assim?
— Não temos nenhuma mulher na irmandade, as que você vê aqui, ou moram com suas famílias ou são aquecedoras de cama.

— Eu posso fazer isso também. — Disse desesperadamente para homem quebrado. — Eu posso ser sua prostituta ou mulher! Eu vou ser útil!
— Eu não quero isso, sei que você está assustada e com medo. Não irei me aproveitar disso. Vou chamar alguém para leva-la até seu quarto, amanhã conversaremos melhor.

Um homem que estava na porta a levou. Antigamente o local poderia ter sido muito belo, mas agora parte estava queimada e na parte íntegra crescia uma vegetação rasteira. Deitou sobre um colchão de palha. Aquele havia sido um dia cheio. Se perguntou se aquele homem iria vir de madrugada possui-la. Esperava que não, tinha tanto pavor dele. Disseram que estaria segura ali, mas fazia tempo que não acreditava no que homens diziam. Estava adormecendo quando ouviu algo. Sentou- se na cama imediatamente, por um minuto achando estar de volta ao Norte, na muralha, em mais uma das fogueiras noturnas da sacerdotisa vermelha. Estava ouvindo corretamente as vozes.
— Senhor da Luz, nos guie
— Senhor da luz, nos dê justiça.
— Que sua mão pese sobre o culpado e livre o inocente.

— O que está acontecendo lá fora? — Perguntou ao homem que guardava sua porta.
— Acabou de começar um julgamento.
— Posso ir ver?

O guarda a levou até o local. Eles também adoravam ao deus vermelho, R'hollor. Tentava pensar se aquele seria um bom ou mal presságio.

Ao chegar viu o rápido julgamento por combate, onde o homem quebrado rapidamente subjugou seu adversário. Ficou maravilhada ao ver que a espada dele estava pegando fogo. Aquilo a lembrou da espada de Stannis, a Luminífera. Quando acabou o homem veio conversar com ela.

— O que faz aqui fora, pensei que tinha ido deitar.
— Sim, mas eu ouvi a oração a R'hollor e...

De repente viu um homem vindo em sua direção. Não o reconheceu de imediato.

— Jeyne, é você? — O homem disse aparentemente sem acreditar.
— Não acredito! — Disse se atirando nos braços dele. Se tinha uma pessoa que ela podia confiar era em Harwin. Ele a lembrava o antigo Winterfell, sua família e amigos. Ainda podia se lembrar de todas as brincadeiras que faziam sobre os dois, embora ele fosse quase 15 anos mais velho que ela. Ele mesmo dizia que iam se casar assim que ela florescesse. Na época não queria nem pensar em casar com um simples criador de cavalos. Mas agora estava feliz em vê-lo, nem que fosse apenas como irmão.

— Por muito tempo me perguntava para onde você tinha ido. — Ele disse a abraçando.
— Uma longa história. Você está junto desses homens? — Perguntou enquanto iam se sentar em uma mesa no salão. — Sim, agora faço parte da irmandade. Arya Stark esteve aqui a uns dias atrás.
— Sim, o homem me disse. Eu não sei para onde vou. Não tenho para onde ir e também acho que não posso ficar aqui.
— Eu vou falar com Lorde Beric por você. Não acho que ele deixaria uma garota a sua própria sorte.
— Lorde Beric Dondarrion?
— Esse mesmo, ele é o líder da irmandade.

Jeyne deu um risinho.

— O que foi?
— Me lembrou uma época de Porto Real quando eu era apaixonada por ele. O que aconteceu? Ele parece tão...
— Foram as mortes.
– Mortes?

Como matar alguém que não pode morrer? Ouviu falarem isso um dia. Deviam estar falando sobre ele.

— Coitado.
— Ele é o escolhido de R'hollor.
— Rei Stannis pensava a mesma coisa até ser morto.
— Beric já morreu 6 vezes. Eu mesmo vi muitas dessas mortes.

Stannis

Durante o restante da noite Harwin contou alguns feitos da irmandade, sobre as mortes de Beric e muito mais. Jeyne que sempre havia gostado de histórias de cavaleiros ficou bastante admirada. Estava gostando muito do assunto, mas já estava caindo de sono.

No dia seguinte foi acordada por duas meninas de sua idade. Disseram que haviam sido enviadas para ajudá-la. Tomou um banho quente e vestiu um vestido verde com mangas curtas. Se encarou um pouco no espelho. Ainda tinha corpo de criança, embora já fosse florescida há tempos; Os cabelos pareciam quebradiços e sua pele estava mais pálida do que de costume. Tinha um corte que passava por todo lado direito do rosto. Um dia ela já havia sido bonita, tão linda, como disse Theon Greyjoy uma vez, agora não passava de uma garota qualquer. Por último colocou o cordão com símbolo do Senhor da Luz que havia ganhado de presente.

Ao chegar no andar de baixo não reconheceu as pessoas a sua volta, não os tinha visto na noite anterior. Sentou- se no lugar mais afastada possível deles. Estava parada, esperando ansiosamente pelo almoço quando um garoto veio chama-la. O menino parecia ser apenas um pouco mais velho que ela. Alto, com ombros largos e uma vasta cabeleira negra como carvão.
Entraram numa sala onde estava Lorde Beric, o sacerdote, Harwin e mais dois homens. O primeiro instinto dela foi pensar em correr, mas conseguiu se controlar.

— Lady Jeyne. — O sacerdote a cumprimenta e faz um sinal com a mão para ela se sentar ao seu lado — Sabemos que você não tem mais ninguém, mas a irmandade não é um lar para órfãos. — Disse o sacerdote.
— Nós nunca negamos ajuda a quem precisa. — Replicou Harwin.
— Isso é verdade. — Disse um.
— Você irá ficar conosco o tempo que precisar, desde que aprenda a lutar. Iremos ensina-la esgrima e arquearia e veremos em qual dos dois você se sai melhor.
— Sim, senhor.
— De início Gendry poderá ajudá-la. — Lorde Beric disse apontando para o menino que a havia chamado. — Depois veremos. Podem ir.

Foi inacreditavelmente péssima nos treinos. Nunca tinha feito aquilo e ficou com seu corpo completamente dolorido. Depois de duas horas acabou dizendo:

— Não aguento mais. — Disse jogando a espada no chão e se jogando também.
— Você não aprendeu nada ainda!
— Estou desmaiando de fome. Não iremos almoçar não? — Perguntou.
— Não temos tanta comida. Ultimamente só fazemos uma refeição por dia se não caçarmos nada.
— Precisamos caçar então. — Disse se levantando.
— Não vamos conseguir achar nada, está começando escurecer.
— Eu preciso de comida, e vou comer nem que seja casca de árvore.

Estava literalmente tonta de fome quando foram para a floresta. Enquanto ele montava armadilhas para coelhos, ela com uma faca tentava tirar a casca de uma árvore. Tinha ouvido alguém falar que já haviam sobrevivido muito tempo numa floresta se alimentando dessa forma. Após tirar algumas cascas se juntou a Gendry que havia conseguido um coelho. Juntos conseguiram fazer uma pequena fogueira onde assaram o coelho.

— Acho que o coelho deveria ser limpo. — Ela disse.
— Você está vendo alguma água por perto? Ou areia, ou qualquer coisa que sirva?

— Não disse mais nada. Tirou as vísceras o melhor que podia antes de coloca-lo para assar. Não sabia se foi a fome ou a tontura, mas achou a comida maravilhosa. Quando voltaram já estava se sentindo um pouco mais forte. Gendry disse que tinha algumas coisas a fazer e desapareceu. Ficou parada observando as pessoas, ali era como se fosse o quartel general da irmandade pelo que ela viu. Esperava que estivessem seguros, pois como os sacerdotes adoravam falar, a noite é escura e cheia de terrores.

Mais uma noite chegou e com ela uma fogueira noturna. Orações do sacerdote vermelho se ouviam em todo lugar.

— A senhora deve estar estranhando bastante isso tudo. Mais tarde irei pedir para Thoros explica-la sobre o Senhor da Luz.
— Eu já o conheço. — Disse amostrando o cordão.
— Onde conseguiu isso?
— Rei Stannis me deu. Fiquei na muralha durante um tempo e aprendi sobre R'hollor. A sacerdotisa vermelha dizia que R'hollor era o único deus e Stannis era o seu campeão. Não sei se isso ainda é verdade, já que ele acabou morrendo... Mas continuo usando isso para me lembrar da minha liberdade de Ramsay. E também porque ele disse que o Senhor da Luz iria sempre me proteger.

Ainda podia se lembrar da ultima conversa que haviam tido no dia anterior dele partir para batalha. Os dois estavam na muralha, a neve caindo sobre eles.

— Quero te dar isso. Para sua proteção. — Ele disse entregando o cordão.
— É muita generosidade, Vossa Graça.
— Não por isso. — Jeyne estranhou um pouco, seu rei nunca havia sido cortês.
— Está tudo bem, Vossa Graça?
— É claro, Jeyne. — Ele disse suspirando. — Sinceramente acho que não irei voltar dessa batalha.
— Mas porque? — Perguntou espantada.
— Estamos com muita desvantagem numérica, também tem a neve...
— Então não vá, pode dizer que mudou de ideia. — Ela disse o abraçando. Ele pareceu recuar durante uns segundos antes de abraça-la de volta.
— Não posso, tenho o meu dever.
— Dever? Você vai morrer por causa de dever?
— Se for preciso. E não posso sonhar em ter o Norte se não passar primeiro pelos Boltons. Não tenho saída, a cada dia parado aqui nossas chances de morrer se multiplicam.

Após essa conversa eles entraram. No dia seguinte ele partiu para a batalha que nunca mais retornou.

— Jeyne, está me ouvindo?
— Sim, me desculpe, eu só estava me lembrando de umas coisas que aconteceram na muralha.
— Tente descansar. Amanhã teremos um longo caminho pela frente.
— Mas para onde?

Ele não respondeu, só deu um sorriso. Mais tarde Harwin disse que ele não contava os planos para ninguém.

— Mas eu vou com ele.
— Ele disse isso?
— Claro, disse para dormir cedo que amanhã teríamos um longo caminho... Você não ouviu nada do que falei?
— Sim, é que ele não costuma levar muitas pessoas com ele. Na verdade, só vão juntos ele e Thoros. Ocasionalmente ele encontra algumas tropas pelo caminho.
— Sim...

Achava que Beric havia mudado de ideia sobre não querer fazer nada com ela. Não sabia como reagir se esse fosse o caso. O melhor seria ela permitir, caso ele quisesse. Eles já haviam lhe dado alimento, abrigo e proteção... Mas ela não queria mais ser uma prostituta, ele mesmo havia dito que ela seria uma guerreira. Bem, não exatamente com essas palavras. Também imaginava como deveria ser o corpo dele sobre o seu, ele era tão magro, seu rosto tinha literalmente a forma de uma caveira, por mais inacreditável que fosse. Também a cabeça estava quebrada, podendo ver até o osso. Seria terrível se tivesse que dormir com um homem assim.

Saiu de seus pensamentos assim que ele se sentou na sua frente e começou a conversar algo com Harwin. Se repreendeu mentalmente por seus pensamentos anteriores. Beric era um homem corajoso e gentil, a tinha tratado muito bem desde sua chegada. Não devia julga-lo pela sua aparência. Se lembrava que quando conheceu Ramsay pensou que era o homem mais belo que já tinha visto na vida, com seus belos olhos claros como névoa.

Estava mais confusa do que nunca. Tentou se levantar mas se sentiu tonta e sentou novamente.

— Está tudo bem?
– Eu não estou me sentindo muito bem... Mas tenho certeza que não é nada. — A última coisa que queria era que pensassem que estava doente. Tentou novamente e desta vez conseguiu sair, agarrada nas paredes, quase engatinhando. Perguntaram se ela precisava de ajuda e ela respondeu que não. Chegar no seu quarto foi uma verdade vitória, ela havia visto tudo escurecido duas vezes enquanto subia as escadas. Se jogou na sua cama, não tinha nem forças para tirar o vestido. Começou a sentir um frio nos seus ossos e a sentir calafrios. Algo estava terrivelmente errado. Sabia que precisava de ajuda, se não tivesse iria morrer, mas ao mesmo tempo não tinha força para sair do lugar. De repente tudo começou a escurecer e não viu mais nada.

Para sua surpresa, acordou novamente. A febre tinha baixado um pouco e sentia menos dor.

— Onde estamos? — Perguntou.
– Você está no seu quarto. Fiquei muito preocupado, pensei que fosse morrer. Todos pensamos isso. Você já teve isso antes?
– Não, nunca.
– Estranho... Por hora conseguimos controlar sua febre, espero que continue assim.
– Devem ter sido as raízes da floresta...
— O que?
— Ontem sai para caçar... acabei comendo umas folhas, cascas...
— Você é louca, para que fazer isso se tinha comida aqui? Deve ter comido algo envenenado. — Disse se levantando.
— Ei, onde está indo?
— Preciso falar isso com Miklhos.

Jeyne começou a perceber que seu corpo ia endurecendo cada vez mais mais. Parecia que algo estava posto em sua garganta que ia se fechando. Os calafrios e a febre voltaram. As meninas que estavam no quarto foram correndo chamar o curandeiro. Não aguentava mais. Seu corpo queimava e começou a se debater cada vez mais fortemente, até que tudo se apagou de vez.

Notas finais
Sempre tive uma quedinha por Beric e quando li a parte de Jeyne, me deu muita tristeza e vontade de que ela pudesse ter alguma alegria na vida dela, que é umas das histórias mais tristes de Westeros. Espero que vocês gostem da história e deixem seus comentários. Irei postar o próximo capítulo em breve.