Acordou. Não abriu os olhos de imediato, queria desfrutar daquele beijo. A muito tempo não era beijada, não daquela forma. Sentiu um calor enorme percorrer o seu corpo como nunca havia sentindo antes, queria continuar beijando quando ouviu som de risos ao seu redor. Abriu os olhos e viu o sacerdote vermelho em cima dela, com um sorriso nos lábios.

Se sentou na cama constrangida.

— Não sabia que ia gostar tanto assim do meu beijo, senhorita. Podemos marcar algumas vezes se quiser. — Falou o sacerdote.

Sentiu seu rosto ficando vermelho.

— É um grande milagre Thoros poder trazê-la de volta a vida.
– De volta a vida?
– Sim, você não resistiu a febre causada por aquela comida envenenada. Agora em diante seja mais cuidadosa, escute bem: essa foi primeira e última vez que isso aconteceu, ele não irá traze-la de volta outra vez.
– Estou me sentindo tão cansada...
– Entendo... Então descanse um pouco. Mais tarde irei mandar chama-la.

Tentou dormir, mas por mais que estivesse cansada não conseguiu. Se levantou e foi em direção a fogueira que novamente brilhava do lado de fora. Os homens conversavam alegremente, alguns deles estavam saindo abraçando e beijando algumas das mulheres que estavam por perto.

Se sentou sozinha e ouvia a música que estava tocando.
Sentia novamente sua grande tristeza que a acompanhava a tanto tempo. Além de tudo, se sentia sufocada.

— Está tudo bem menina? — Um homem perguntou.

Balançou a cabeça afirmativamente. Depois disse:

— Você sabe se tem alguma folha onde eu possa escrever? Eu preciso muito...
– Eu não sei escrever, então... E me admiro muito que você saiba.
– Eu pude aprender...
– Mas para que irá servir um monte de cartas no meio de uma floresta?
– Eu não quero escrever cartas. — Disse. Se perguntava se devia continuar falando com ele. — Eu gosto de escrever músicas. Eu escrevia...
– Sério? Eu gosto muito de cantar, mas confesso que nunca fiz uma música.

Ela só deu um risinho.

— Você também é muito bonita. Acho que Lorde Beric a escolheu bem.
– Como assim?
– Não quis ofender, garota. É que nunca tínhamos visto ele antes com nenhuma mulher... Acho que você é a primeira.
– Não compreendo.
– Não? Pensei que você fosse a cortesã dele, é o que estão dizendo por ai.

Ela não respondeu. Será que era essa a intenção dele, torna-la sua amante? Então porque não reivindicou isso quando ela se ofereceu?

— Será que alguém aqui tem um papel ou tinta? — Disse voltando ao assunto.
– Posso perguntar.
– Eu ficaria muito satisfeita com isso.

Ele deu um sorriso e se levantou. Mais tarde voltou com um papel e um pouco de tinta.

— Consegui lá com a dona da estalagem. Ela só tem esse pouco.
– Eu agradeço, é o suficiente.

Ele ficou olhando para ela durante algum tempo e depois saiu. Ai pode finalmente escrever a música que estava a tanto tempo em sua mente.

Hey porque vejo lágrimas nos seus olhos?
Hey Lady está surpresa? Porque vejo todas essas lágrimas nos seus olhos? Cuidado coisas ruins podem acontecer
Sempre irão acontecer Veja como eu mostro minha autoridade, você precisa me obedecer , veja como eu mostro minha autoridade, precisa me obedecer...

Tinha lágrimas nos olhos quando terminou. Seu primeiro pensamento quando releu o último trecho do que havia acabado de escrever foi que a música não rimava. Um pensamento bastante estúpido que a obrigou a rir.

—Está tudo bem, Lady? — Perguntou Lorde Beric.
– Sim! Eu estou bem.
– Amanhã estarei partindo cedo. Temos uns antigos mercenários por aqui... Eles perderam seu líder e agora estão andando por aqui, saqueando cidades e estuprando mulheres. Os relatos que ouvimos são terríveis.
– E o que você irá fazer quando os encontrar?
– Justiça. É o que todos queremos. — Ele disse com seu olhar perdido no fogo.
– Eu já estou pronta para ir.
– Eu tinha falado sobre você ir conosco, mas mudei de ideia. É melhor você ficar aqui... – Ela franziu a testa sem entender nada. – Você se lembra do que eu disse sobre serem estupradores e assassinos? Não posso levá-la para um lugar assim, ainda mais você não sabendo nem empunhar uma espada.
– Me desculpe.
– Pelo que? Você não precisa pedir desculpas por perguntar algo ou dar sua opinião. — Disse segurando o rosto de Jeyne em suas mãos para que ela pudesse prestar atenção a cada palavra.
– Sim, eu sei é que...
– Imagino... Só não conte os meus planos para ninguém, pode ser bem desastroso se isso acontecer.
– Jamais irei contar, Lorde.

Jeyne notou que seu olhar parou sobre o papel que estava em sua mão, embora não tenha dito nada.

— Um mestre de Winterfell ensinou Sansa e eu a ler e escrever, acho que mais a pedido de Ned... Ele dizia que não bastava sabermos apenas bordados e canções, tínhamos que ter essa educação também, um dia poderíamos precisar...

Ela não disse mais nada. Ficou pensando em como seria no dia seguinte após a partida de todos. Não estaria muito segura ali, mas estaria pior se fosse juntos com eles. Sabia que ia se sentir muito sozinha, mas não tinha outra alternativa. Se despediu e foi para o quarto reservado para ela. Era um grande luxo ter um quarto ali, já que muitos dormiam juntos e a maioria dormia do lado de fora da estalagem já que não havia lugar para todos. Guardou sua folha numa cômoda e tentou dormir. Passou a noite em claro embora estivesse se sentindo cansada. Era tão estranho aquilo. Quando amanheceu, olhou pela janela e viu partirem a cavalo. Não iam todos juntos, um pouco ia para cada direção. Percebeu que não havia se despedido de Gendry e nem de Harwin. Depois de tudo que havia passado, ele era o mais próximo de uma família que ela tinha. Trocou de roupa, tirou o vestido marrom puído por um vestido verde todo remendado. Se era o melhor que tinha ali, bem, não iria reclamar.
Tinha ficado 3 dias ali, ainda não tinha visto o lugar tão vazio. Duas garotas estavam na cozinha fazendo comida, o restante tinha sumido.

Saiu para o bosque. No Norte, em Winterfell, eles tinham um bosque sagrado onde costumavam rezar. Mas não estava mais no Norte então para quem iria rezar? De qualquer forma, os deuses antigos nunca foram bons em atender seus pedidos, enquanto o deus vermelho... Bem, ele tinha ressuscitado Lorde Beric muitas vezes e enviado Stannis, o herói prometido até o Norte para salvá-los. Pensava nisso tudo quando viu uma sombra passando entre as árvores. Ficou um pouco assustada por sentir que alguém a observava, embora não pudesse ver a pessoa. Começou andar de volta quando ouviu um som atrás dela. Ao se virar, se deparou com uma mulher muito velha e encurvada. Não disse nada, se perguntava como ela havia chegado ali tão rápido. A velha começou a fazer um som de cacarejo que apenas servia para fazê-la parecer mais estranha ainda. Nada de bom podia vir dali, ela pensou enquanto caminhava para a estalagem.

— Ei, menina para onde está indo? — Ouviu a mulher dizer. Parou e se voltou para ela.
– Eu tenho que voltar, tenho coisas a fazer.

Ela fez novamente aquele som estranho e olhou diretamente para Jeyne.

— Vim aqui para falar com a senhorita e já está indo?
– O que você quer comigo? -Disse se aproximando.
– Eu te conheço, menina. Sinto os deuses antigos dentro de você desde aquele dia que você veio para floresta com aquele garoto. Você é igual a mim.
– Porque está dizendo isso?
– Porque eu sei. Também tive que sair do Norte, mas não da mesma forma que você... Isso não importa, não é mesmo? — Disse dando um sorriso desdentado. — Quero te ajudar. Uma vez tive uma filha, e ela se foi. — Disse com dificuldade. — Por muito tempo me perguntei se tudo iria morrer comigo, agora sei que não. ..
– Do que está falando?
– Espero que me encontre aqui nesse mesmo lugar ao entardecer, filha. — Dizendo isso saiu andando para a floresta. Aquela mulher parecia uma bruxa, uma feiticeira... Não como Melisandre, óbvio, mas como algo mais antigo, ancestral. Talvez fosse apenas coisa de sua cabeça, disse para si mesma. Sabia que teria que voltar a noite, não ia aguentar de curiosidade.

Ao entrar, para sua surpresa encontrou Harwin. Ele disse que tinha sido ordenado que ficasse e fizesse rondas pelo local, para não serem pegos desprevenidos caso tivesse algum mercenário por perto.

Mais tarde a chamaram para almoçar. Estranhou que não sentia fome, já que estava tarde e ela tinha tido muito trabalho lavando os lençóis sujos que estavam acumulados. Mesmo assim foi se juntar a eles. Notou que algo estava errado desde que tomou a primeira colherada do caldo de cenoura. Sentiu algo estranho, embora não soubesse bem o que era. Quando começou a comer, teve certeza de que algo errado estava acontecendo. Teve que parar na 4° colherada e ir correndo para seu banheiro. Seu corpo todo doía, principalmente a barriga. Começou a vomitar e colocou para fora o pouco que havia comido. Percebeu que estava sangrando, a primeira vez em bastante tempo. Ficou jogada no chão, perto da bacia. Sentia que fosse morrer, embora soubesse no fundo, que aquilo fazia parte da sua nova condição. As coisas haviam mudado desde que foi trazida de volta a vida, isso não tinha dúvidas. Deveria começar aceitar isso. Se permitiu permanecer deitada por alguns minutos antes de ir esvaziar a bacia e se limpar. O seu trabalho da tarde ainda não havia terminado, ainda havia alguns lençóis para lavar. E havia a velha para encontrar. Sentiu um calafrio ao pensar nela, mas ignorou na hora o sentimento. Como poderia viver se sentisse medo de criaturas como aquela?

Ao chegar o entardecer, já tinha acabado de fazer todas as suas obrigações. Tomou um banho e foi em direção ao bosque. Não havia contado para ninguém aonde ia, pensou em dizer a Harwin mas ele não estava por perto.

Ao chegar ao bosque a mulher já estava. Não falou nada, adentrou a floresta ainda mais. Jeyne a seguiu até chegarem numa cabana. Pensava que aquilo podia ser uma má ideia. Tinha ouvido falar sobre pessoas que faziam sacrifícios humanos, assim como a feiticeira de Stannis. Também devia haver canibais e todo tipo de gente numa floresta. Cinco minutos depois, olhou para trás certa de que não podia achar novamente sua estalagem se quisesse. Estava perdida e a mercê daquela mulher. Finalmente chegaram a uma cabana. O lugar era realmente muito bonito, com heras crescendo por todo o lado de fora. Ao entrar percebeu que ela não tinha muita preocupação com o lugar. De móveis tinha uma cama, se é que se podia chamar de cama, que ficava quase na mesma altura do chão. Umas duas bacias do outro lado do cômodo, umas peças de roupas estavam em cima da cama e só. De resto eram apenas vasos de plantas e quando não, elas cresciam livres no chão de terra. Notou também que do outro lado do grande cômodo tinha uma mesa com alguns papéis sobre ela e livros que ela possivelmente não conseguia mais ler. De qualquer forma era surpreendente que uma bruxa no meio da floresta soubesse ler e tivesse aqueles livros consigo.

— Não temos muito tempo, então vamos logo.
– Quem é você?
– Sou apenas uma velha. Sente-se aqui. — Ela disse apontando para um tapete estendido. Quando se sentaram, ela voltou a falar. — Eu vejo coisas e cobro por elas... As vezes um vinho ou uma canção. Escute minha filha, eu não vou te pedir nada. Só quero que preste atenção e aprenda o que eu digo.

Jeyne percebeu que ela falava com uma vivacidade que não demonstrava a idade que tinha.

— Mas porque está fazendo isso.
– Você não irá parar de fazer perguntas? Isso eu aprendi com minha mãe, que aprendeu com a mãe dela a muito tempo. E é assim que o conhecimento das mulheres vai passando adiante. — Jeyne percebeu que os olhos da mulher brilhavam. — Minha única filha morreu a alguns anos... Estava pensando que tudo ia se perder quando tive um sonho.
– Comigo?
– Sim, mas não posso conta-lo. Não é bom que as pessoas saibam do seu futuro mais do que devem saber, mais do que vivem no momento, isso ad vezes pode causar... muitas coisas ruins, entende?

Jeyne assentiu com a cabeça.

— Os sonhos podem ser confusos, mas eles não mentem. Sei que você é a menina certa.

Jeyne estava gostando de ser a garota certa, para o que quer que fosse o plano da mulher. Se sentia importante. Deu um sorriso ao pensar nisso.

— Então o que temos que fazer? — Isso... Venha comigo. — A mulher disse.

********

Dali em diante, nas próximas semanas Jeyne foi até a velha cabana aprender lições que considerava valiosíssimas. A princípio eram coisas simples, mas esperava ansiosamente pela hora em que se tornaria independente e ninguém mais a usaria como uma simples peça de um jogo.

**********

As coisas estavam inacreditavelmente tranquilas. Durante o dia fazia suas tarefas, como arrumar o local e caçar uns coelhos e quando chegava a noite se encontrava com a mulher.

— Será que os boatos são verdadeiros? Alguns dizem que ele morreu e cantores fazem músicas sobre uma amante dele, Lady Coração de Pedra... Fico pensando no que tem de verdade nisso...

Jeyne perguntou a Harwin enquanto limpava uma carne.Cada vez mais ficava preocupada, agora já eram mais de 2 meses que ele estava longe.

— Sobre a morte é uma história antiga. Realmente ele já deu muito o que falar.
– E sobre a amante...
– Eu acho bem difícil... Ele não é um homem normal. Acho que a morte também o mudou nesse aspecto. E também ele tinha uma noiva, acho difícil ele desonrar sua palavra.
– Claro... Mas já faz tanto tempo! — Disse se virando para Harwin. — Estou muito preocupada, se acontecer algo...
– Sei que é difícil mas ele já morreu várias outras vezes. E estamos em guerra. Temos perdas...
– Eu devo minha vida a ele. — Disse num suspiro.
– Eu sei.

Outro mês se passou antes que tivesse notícia sobre a volta de Lorde Beric.

Estava do lado de fora da cabana coletando umas ervas quando ouviu barulho de cavalos. A princípio se assustou pois pensou que fossem salteadores da estrada, então subiu na árvore mais próxima para olhar. A noite já havia caído a muito tempo, mas ela pode ver tochas acesas. Uma fogueira estava sendo feita próxima na estalagem. No mesmo instante se despediu da mulher e saiu correndo de volta para casa. Alguns poucos homens estavam sentados conversando em voz baixa. Não via Beric em nenhum lugar. Já estava se desesperando quando finalmente viu alguém a observando do lado de fora. Sentado atrás de uma árvore, Lorde Beric parecia mais abatido do que antes, se isso fosse possível.

— Porque você demorou tanto para voltar? Foram quase 3 meses. — Disse enquanto se sentava do seu lado.
– Eu quis voltar antes mas não achei que fosse seguro. Não quis arriscar trazer meus inimigos para cá.
– Entendo... Senti tanto a sua falta. — Confessou. Independente do que tenha pensado na primeira vez que o viu sentia tanta falta dele. Nos últimos meses o medo de que ele pudesse estar morto a fazia perder o sono — As vezes tinha pesadelos em que você morria e eu nunca podia vê-lo novamente. – Ele não respondeu e ela continuou. – Andei pensando sobre umas coisas... Eu me lembro um pouco de você em Porto Real. A imagem não está muito nítida, mas me lembro da sua chegada na cidade, os treinamentos e o torneio. Me lembro que me apaixonei no mesmo instante. Eu era uma donzela ainda e tinha uma cabeça cheia de sonhos. Dizia que estava pronta para me casar com você naquele mesmo instante. — Ela deu um sorriso triste. – E então a guerra chegou.
– E ela mudou todos nós, Lady.
– E mesmo com tudo aquilo que me aconteceu finalmente nos conhecemos e estamos aqui.
– Você ainda deve ter em mente o menino de Porto Real. Muita coisa aconteceu desde então... Eu prometo protegê-la Lady, assim como já disse antes. Mas sobre planos do destino... — Ele disse suavemente, mesmo assim essas palavras se cravaram como flechas em seu coração.
– Você não acredita? — Foi tudo que ela conseguiu dizer.

Uma parte da donzela sonhadora dentro de si gritava dizendo que os sinais estavam bastante claros. O bordel em Porto Real, ida para o Norte e casamento com Ramsay, muralha, ida para o sul. Os planos de Roose Bolton poderiam ter dado certo e ela poderia estar novamente em um bordel. Poderia ter sido sequestrado por uma dúzia de outros grupos de foras-da-lei. Mas não. Ela estava ali, junto dele, sua antiga paixão. Não podia ser coincidência.

— Eu não sei. Sei que agora está confusa e solitária e quer alguém, mas não acredito que seja eu, olhe para mim. Eu não sou bem o tipo de homem que donzelas se apaixonam. Além disso não quero te deixar viúva.
– Você que está confuso, Lorde Beric. Realmente você pode não ser o tipo que donzelas se apaixonam, mas eu não sou uma donzela. Tenho que ir, Milla está me esperando.

Se levantou. Em seu coração esperava que Beric fizesse algum protesto e a fizesse ficar. Ele poderia dizer que falou aquilo porque estava inseguro, mas desejava sua companhia. A daria um beijo e ela terminaria a noite em seus braços. Mas nada daquilo aconteceu. Ele olhava para baixo e fazia riscos na terra com um graveto, perdido em pensamentos.

Entrou floresta adentro. Não iria conseguir passar a noite ali, não com aquele sentimento de derrota que sentia. Pegou a música que escrevera meses atrás de um bolso costurado em seu vestido. Tinha uma dívida a pagar.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.