Notas iniciais
Primeira fic!

"Pai, onde quer que o senhor esteja, saiba que eu tô me virando muito bem sozinha. Acabei de me mudar pra São Francisco, por isso o silêncio. A mudança foi uma loucura, como o senhor mesmo previu, mas no fim deu tudo certo. Ainda não encontrei nenhuma aberração por aqui, mas eu sinto que logo logo elas devem aparecer. Elas nunca desistem, não é mesmo? Enfim, espero que quando essa carta chegar, o senhor esteja são e salvo, com uma xícara de café bem quente nas mãos e de frente pra uma vista maravilhosa, que nem daquela vez em que nós viajamos juntos pras Bahamas.

As minhas aulas vão começar na semana que vem mas não precisa se preocupar. Eu não vou abandonar a escola por causa de outra caçada, como aconteceu no ano passado. Dessa vez é pra valer. Eu prometo!

Ah! Não esquece de tomar o remédio pra ansiedade, tá bem? A médica falou que o tratamento tá sendo um verdadeiro sucesso. Os meus antidepressivos acabaram, mas eu já encontrei uma farmácia de confiança. Lembra do nosso trato, ok? Saúde em primeiro lugar.

Agora eu preciso ir. O aquecedor não funciona desde ontem e eu tô pra congelar nesse inferno. Depois dizem que nós é que somos fracos. Enfim, preciso consertar isso hoje além de comprar várias outras coisas que não deu pra trazer na mala. Nos falamos com calma no fim de semana.

P.s.: Não consegui localizar o nosso “contato”. Talvez ele tenha se mudado ou algo do tipo. Se souber de alguma coisa, me avisa, ok?

Beijos da sua caçadora favorita, Alícia Gusman."

Deixei a carta no correio, esperando ansiosamente por uma resposta que não iria chegar em menos de um mês, e saí antes que alguém tentasse puxar conversa. Nós, Gusman, somos muito reservados. O meu pai, por exemplo, nem sequer usa internet, computador e todas essas coisas que ele chama de "lixo eletrônico". A parte legal é que eu tenho alguém pra mandar e receber cartas de vez em quando.

"Cartas são românticas", ele dizia, sentado em sua mesa de escrever, tarde da noite, se certificando de que cada um dos seus amigos iria receber um pouco da sua atenção e carinho. Agora eu é que torcia para receber um pouco desse carinho, já que ele estava enfiado no meio da savana africana, em uma caçada que parecia nunca ter fim.

Aos doze anos, fui ensinada a caçar aberrações de todos os tipos. Bruxas, vampiros, mortos que se levantavam de suas tumbas a procura de carne humana. Era um trabalho de família. Antes eu tinha medo, quando não fazia ideia do quão divertido era sacar uma arma da cintura e enfiar balas de ferro puro bem na testa de um espírito vingativo. Hoje os espíritos são minhas caças favoritas.

Cheguei em São Francisco há mais ou menos uma semana — o lugar onde eu morava antes já não tinha mais tanta emoção. Tudo que eu precisava, além de consertar a droga do aquecedor, era achar o "contato" que diziam viver por essas bandas. O endereço que me passaram dava em um terreno abandonado, me deixando bastante preocupada com a minha situação. Sem caças, sem dinheiro pro aluguel. Eu até recebia uma grana do meu pai, mas era pouca demais pra arcar com tudo que eu preciso. Sabe como é, né, dezesseis anos é uma idade muito complicada.

Não foi difícil achar a loja de eletrônicos da rua 33. Deixei o aquecedor lá — eu andava com ele na mochila há tanto tempo que nem sentia mais as costas — e saí mais uma vez apressada pra não ter que conversar com estranhos. Eles sempre acabavam me trazendo problemas.

Entrei numa livraria estreita, exatamente do lado da loja de eletrônicos, e dei uma espiada pelas prateleiras. Tinha uma seção só sobre livros de terror, os meus favoritos. "Como caçar vampiros à luz do dia" — uma completa baboseira. Qual vampiro seria louco de sair da toca em pleno sol? "Tudo que você precisa saber sobre criaturas sobrenaturais" — ok, esse me parece interessante.

Passei no caixa e o rapaz que me atendeu ficou olhando feio pro meu lado.

— Você tem um gosto bem estranho, ein — ele disse, como se eu fosse a primeira garota a levar alguma coisa da seção de terror.

Sorri de uma forma bem qualquer e entreguei o dinheiro nas mãos dele. O sujeito continuava me olhando de um jeito estranho.

— É nova na cidade? Nunca te vi por aqui.

— Sim — eu disse, tentando disfarçar o incômodo que aquela pergunta me causou — Me mudei faz pouco tempo.

Antes de me devolver o troco, ele pegou uma bolsa debaixo do balcão e se levantou. Outro rapaz estava vindo substituí-lo.

— O meu expediente só vai até as dez — olhei no relógio e eram exatamente dez horas da manhã.

Senti um calafrio. O clima tinha dado uma leve maneirada mas os meus ossos ainda não haviam se acostumado com a brusca mudança de temperatura. Acho que ele acabou percebendo.

— Tá a fim de um chocolate quente? — ele perguntou, colocando as moedas na palma da minha mão.

Eu não conhecia aquele cara e muito menos estava interessada em conhecê-lo, mas aquele chocolate era mais importante que qualquer timidez ou desprezo da minha parte. Aceitei o convite e saímos da livraria apertada, quase colados um no outro.

— O que tá achando da cidade?

— Fria. Insuportavelmente fria — eu respondi, colocando as mãos nos bolsos da calça e atenta para o caso de ele ser alguma aberração disfarçada de pessoal legal. Nunca se sabe, hoje em dia...

— Assim fica melhor? — ele colocou o casaco dele sobre os meus ombros, me fazendo sentir outra vez aquecida.

Sorri pra ele e não falei mais nada até chegarmos na cafeteria. O sorriso era a minha melhor saída quando eu me sentia constrangida por algum estranho.

— Dois chocolates quentes, por favor — ele pediu ao garçom, sorrindo amigavelmente.

Quando o garçom foi embora, ele se virou de volta para mim — nós estávamos sentados em uma mesa da calçada, de frente um para o outro — e disse:

— Prazer, me chamo Daniel Zapata.

Fiquei um tempo me perguntando de onde eu tinha ouvido aquele sobrenome, Zapata. Por um segundo achei que pudesse ser de alguma família de caçadores, algum amigo do meu pai, por exemplo, mas logo abandonei aquela ideia absurda.

— Me chamo Alícia. Prazer — apertamos as mãos e não dissemos mais nada por um bom tempo.

Eu percebi que ele estava nervoso, como se a sua cantada barata tivesse escorrendo pelos dedos. Ele definitivamente não fazia o meu tipo. Era charmoso, ok, mas toda aquela pinta de galã e os sorrisos amigáveis, aquilo não era pra mim.

— Você pretende ficar muito tempo? Quero dizer, vai estudar por aqui?

— Sim — respondi impaciente. Fazia muito tempo que a gente estava ali e nada do nosso chocolate quente aparecer — As minhas aulas começam semana que vem, na Escola Mundial.

Ao ouvir as minhas palavras, ele arregalou os olhos e mais uma vez soltou um dos seus sorrisos irresistíveis.

— Eu também estudo lá. No segundo ano, e você?

— Eu ainda vou primeiro. Ano passado eu tive que desistir da escola porque — acabei parando no meio da frase. Eu mal conhecia aquele sujeito e sem querer quase soltei uma grande bomba sobre o meu passado.

Nós ficamos nos encarando, eu sem saber como terminar a frase e ele sem saber se me pedia pra continuá-la. Por fim, os nossos chocolates chegaram, deixando pra trás aquele momento mega esquisito.

— Então a gente se vê na segunda?

Nós estávamos de pé, do lado de fora da cafeteria. Eu tirei o casaco que ele havia me emprestado e o entreguei em suas mãos. Elas estavam frias, assim como os meus ossos, lutando pra resistir à crueldade gelada a que estávamos submetidos.

— Claro, nos vemos na segunda.

* * *

Já tinham se passado longos dias e noites naquela cidade congelada, quando finalmente a segunda-feira chegou. O aquecedor tinha retornado — aleluia! — funcionando corretamente, porém, com um barulho chato que me deixava profundamente irritada. Alguma coisa naquela cidade queria que eu fosse embora o mais rápido possível, mas eu não iria sair dali tão fácil.

Comi um resto de sanduíche do dia anterior, que ainda estava suculento — por incrível que pareça — e saí. Eu morava no segundo andar de um prédio cinza, espremido entre uma loja de parafusos e uma casa escura, com um jardim repleto de plantas mortas. O aluguel cabia no meu bolso e isso era tudo o que me importava naquele momento. Dei a volta na chave umas duzentas vezes — eu sou a campeã em deixar a porta aberta e descobrir, na volta, que a casa havia sido invadida por esquilos ou gambás — e só então caminhei em direção à escola.

A entrada da Escola Mundial era magnífica. Um prédio histórico, amarelo e cinza — essa cor me persegue, só pode — com um jardim muito bem cuidado por um velhinho português chamado Firmino.

— A quem devo a honra de receber na nossa humilde escola? — ele estendeu a mão para me cumprimentar.

Antes que eu conseguisse escapar do jardim, ele já havia me contado seu nome, o dia em que chegou ali pela primeira vez e várias outras coisas das quais esqueci assim que pisei os pés no corredor que dava acesso às salas de aula.

O lugar era enorme. Maior que todas as escolas que eu havia estudado na vida inteira. Logo de início tinha uma quadra de futebol, rodeada por galpões que davam em outras quadras esportivas. Em cima ficavam as salas de aula e um pátio cheio de bancos e adolescentes emburrados. Quanto mais eu percorria aquele labirinto de corredores sem fim, mais eu me surpreendia com o tanto de coisa que tinha lá dentro. De tão admirada, acabei esbarrando em um menino, que segurava com cuidado uma pequena caixa de papelão.

— Droga! Olha só o que você fez! — ele gritou, chamando a atenção de algumas pessoas que estavam ao nosso redor.

A caixa caiu no chão, deixando escapar alguma coisa tão pequena que ele precisou engatinhar para descobrir onde havia ido parar.

— Você que deveria tomar mais cuidado — eu falei, incomodada por ter levado um grito daquele sujeitinho mal educado.

Ele era um pouco mais baixo do que eu, meio fortinho e com um rosto aborrecido. Talvez até fosse bonito se não tivesse aquele ar de pessoa metida.

— Agora pronto — ele disse, me olhando de baixo pra cima — Você vai ficar aí, parada, sem fazer nada?

O que ele queria que eu fizesse? Engatinhasse feito um animal no meio do corredor e das pessoas que não paravam de passar de um lado pro outro? Nem morta.

— O que tinha na caixa? — eu perguntei, irritada.

Antes que ele respondesse, umas garotas começaram a gritar perto da escada, correndo em nossa direção.

— Socorro! Tem um rato na escada! — elas gritaram, desesperadas.

O garoto se levantou rapidamente e correu até lá. Deu pra notar que ele estava rindo do desespero das meninas e isso me deixou ainda com mais raiva. Tomei a frente dele, ainda no corredor, e o empurrei escada abaixo. As pessoas que permaneceram no local olharam pra mim, com medo, mas eu acabei não me importando. Todo mundo sempre acaba com medo de mim, uma hora ou outra.

— Você tá ferrada, garota! — ele gritou, lá de baixo.

Agora eu é que estava rindo da cara dele, todo indefeso, fazendo força pra conseguir se levantar do chão. O uniforme dele tinha se sujado com a poeira da escada e um pequeno arranhão brotava aos poucos de um dos seus joelhos.

— Bem feito — eu comentei, enquanto apanhava o pequeno rato nas mãos e o devolvia para a caixa de onde ele havia saído.

Saí dali às pressas e continuei a minha busca pela sala do primeiro médio B. Era melhor eu encontrá-la rápido, antes que aquele nojentinho viesse atrás de mim. Por fim, achei a porta certa, bati e entrei de súbito. Todos estavam me olhando com uma cara meio torta.

— Pode se sentar, querida. Temos muitos lugares vagos pela sala — disse uma professora esguia e muito bem arrumada, parecendo uma daquelas fada das histórias infantis.

Escolhi o lugar mais distante possível de todo mundo, uma cadeira rodeada de outras cadeiras vazias, e procurei não olhar muito para os lados. Ainda tinha algumas pessoas me olhando estranho, como se eu tivesse feito alguma coisa errada.

De repente, um pesadelo aconteceu, bem diante dos meus olhos. O garoto que eu empurrei da escada entrou na sala, acompanhado de outros garotos, tão emburrados quanto ele, e vieram caminhando na minha direção.

Abri rapidamente a minha bolsa — lá eu guardo algumas coisas importantíssimas para o dia a dia de uma garota, como uma faca bem afiada, por exemplo — e coloquei a mão lá dentro, esperando que eles se aproximassem.

Por alguma ironia do destino, todos eles sentaram ao meu redor, nas cadeiras vazias. Tiraram os livros de dentro da bolsa, se ajustaram no assento e olharam para a professora, atentos para o começo da aula. Aparentemente o inferno só estava por começar.

Notas finais
Curtiram?