Uma história de terror adolescente

2 Fazendo novos amigos (ou não)


A aula de Geografia foi uma droga. Qual é a graça de ficar decorando nome de montanha, rio e tudo de mais chato que existe no mundo? Eu prefiro muito mais saber como matar um lobisomen, quantos tipos de vampiros existem no ocidente ou quais as chances de um espírito atravessar o meu caminho nesse lugar frio e entediante.

Desde que eu cheguei em São Francisco, não houve nenhum incidente paranormal nas redondezas. Da última vez que as coisas ficaram quietas desse jeito, uma cidade inteira quase sumiu do mapa por conta de uma invasão de mortos vivos. Por conta disso, fui ficando cada vez mais apreensiva.

— E aí? Tá gostando da escola? — perguntou uma voz familiar.

Era Daniel, com todo o seu charme e a sua boca cheia de dentes. Ele sentou do meu lado, no refeitório, e colocou uma barra de chocolate do lado do meu prato de comida.

— Pra desejar boa sorte — ele disse.

Sorri de volta e continuei comendo. Do outro lado das mesas dava pra ver a cara do menino que eu havia derrubado da escada. Ele andava sempre ao lado de um garoto meio gordo, de sobrancelhas grossas, e de um japonês ruivo, baixinho. Daniel mastigou a comida umas trezentas vezes antes de falar:

— Eu soube do que aconteceu entre você e o Paulo.

Paulo? Então era esse o nome do sujeito? Bem, seja como for, eu precisava dicar de olho naquele garoto. A última coisa que eu queria era arrumar encrenca logo no primeiro dia de aula.

— Eu só fiz o que ele merecia — respondi, tentando cortar um pedaço de carne que insistia em permanecer inteiro.

— Às vezes o Paulo pisa na bola, mas no fundo ele é uma boa pessoa. Aquele rato era pra assustar a professora Matilde, mas acabou ficando tarde pra ele colocar dentro do piano, antes da aula de música.

Ele falava aquilo como se justificasse alguma coisa. Usar um pobre coitado de um rato pra assustar uma professora não era uma coisa muito legal de se fazer, mas, pelo visto, as coisas na Escola Mundial era bem diferentes do lugar de onde eu vinha.

Nós ficamos um tempo conversando sobre a professora Matilde e todos os sustos que o Paulo e a sua turma de covardes já deram nela. Também falamos sobre a professora Bridget, que deu a pior aula de Geografia que eu já vi na vida e de como ela realmente parecia uma fada. Descobri que ela era nova na escola, assim como eu, e isso me fez sentir um pouco de simpatia por ela.

Por fim, ele me convidou pra participar de um grupo de estudos que começaria às quatro. Fiquei interessada, até, mas ele teve que sair correndo pra aula de futebol e nem deu tempo de confirmar se eu ia aparecer ou não. Acabei lembrando que também estava atrasada. Comi a barra de chocolate e segui para o vestiário.

Antes, precisei passar no meu armário pra pegar as roupas da natação. Do meu lado, duas garotas conversavam.

— Nem morta que eu entro de novo naquela piscina. Lembra que no ano passado a Valéria quase se afogou? — falou uma delas, a mais cheinha das duas.

— Deixa de ser medrosa, Laura. O meu pai é um ótimo professor e nunca iria deixar uma aluna se afogar durante a aula dele — disse a outra, muito metidinha, por sinal

— Ela saiu dizendo pra todo mundo que alguma coisa puxou a perna dela. E, seja o que for, pode ainda estar lá, esperando a gente usar a piscina outra vez.

— Ai, Laura, você sabe como a Valéria é exagerada. Vai ver ela teve uma cãibra e por isso não conseguiu voltar pra superfície. Pode acontecer com qualquer um — quanto mais a segunda menina falava, mais vontade eu tinha de sair dali só pra não ouvir aquela voz irritante.

Fechei a porta do armário com força e, quando percebi, as duas estavam olhando pra mim.

— Você é nova aqui, não é? — Disse a metida, olhando diretamente para as roupas de banho que eu estava segurando.

— Sim — respondi, sem me apresentar.

— Eu me chamo Maria Joaquina Medsen, filha do professor de natação Miguel Medsen, prazer — ela estendeu a mão pra mim, esperando que eu apertasse de volta.

Esperei alguns segundos pra ver se ela recolhia a mão, mas como aquilo tava demorando uma eternidade, resolvi cumprimentá-la e encerrar logo o assunto.

— E eu sou a Laura — veio a outra, logo em seguida.

Não importa o quanto eu soubesse o quanto aquelas pessoas eram insignificantes, eu sempre ficava constrangida quando alguém se apresentava pra mim. E aquilo vinha acontecendo com bastante frequência ultimamente.

— Meu nome é Alícia — foi só o que consegui dizer, em meio a tantos olhos voltados para mim.

— Pelo visto você também tá indo pra aula de natação, não é? Eu garanto que você vai amar — disse a tal da Maria Joaquina.

— Que bom — falei, e saí apressada para o vestiário.

* * *

A aula de natação juntava meninos e meninas de todas as turmas do ensino médio, tirando, obviamente, aqueles que tinha escolhido outro esporte para a matéria de Educação Física. A piscina era bem grande e bonita, com a parte funda chegando a quatro metros de profundidade.

Não demorou muito pra eu localizar as duas meninas que eu havia acabado de conhecer, Laura e Maria Joaquina. Elas estavam próximas de outra menina, que supus ser a tal da Valéria — eu tenho um faro muito bom pra essas coisas.

Por conta daquela história toda de quase afogamento, resolvi ficar de olhos bem abertos. Vai que realmente tinha alguma coisa dentro daquela piscina. Isso poderia me colocar de volta no mercado de caçadores, quem sabe.

— E então, Valéria, você não tá com medo de ser puxada outra vez pro fundo da piscina? — perguntou Laura, sem se importar se aquilo era ou não algo muito agradável de falar naquela situação.

Dava pra ver que a outra menina estava realmente nervosa.

— É claro que eu tô, né, Laura. Eu achei que fosse morrer — ela disse, procurando deixar uma das mãos sempre na borda — Só espero que o Miguel não peça pra gente ir pro fundo hoje. Eu ainda preciso de um tempo até sentir que isso daqui ainda é uma piscina de confiança.

— Primeiro de tudo, pra você é Professor Miguel, tá — disse a chata da Maria Joaquina. Ô meninazinha insuportável, viu! — E em segundo lugar, você tá exagerando muito com essa história de afogamento. A essa altura já era até pra você ter esquecido.

Enquanto elas discutiam, eu senti uma presença estranha embaixo d’água, uma mancha preta se mexendo bem devagar. Fiquei um tempo observando pra ver se aquilo se mexia e, quando pisquei o olho, não havia mais nada ali. Talvez eu estivesse sob o efeito da conversa das meninas.

De repente soou o apito e nós começamos a ir de um lado para o outro da parte rasa segurando uma mini prancha de isopor. Eu me senti um pouco estúpida fazendo aquilo, principalmente porque já sabia nadar. Infelizmente as turmas avançadas eram só para os veteranos e eu tive que me contentar com aquela aula para iniciantes.

— Ok, turma — disse o professor, em pé na borda da piscina e bem do nosso lado — Agora eu quero que vocês se separem em duplas e, segurando na borda, caminhem até a parte funda. Eu estarei vigiando vocês de perto, não se preocupem.

Como eu ainda estava perto das meninas, foi inevitável que me juntasse com alguma delas. Laura e Maria Joaquina formaram uma dupla, fazendo com que Valéria e eu nos olhássemos constrangedoramente por alguns segundos. Quando eu menos percebi, nós duas já estávamos nos segurando na borda, com cuidado, nos dirigindo para onde as outras meninas estavam.

Quando chegamos na parte funda, notei que Valéria estava tremendo um pouco. Por incrível que pareça, a água não estava fria, como tudo naquela cidade. Ou seja, a menina estava mesmo tendo um ataque de pânico.

— Não se preocupa, vai dar tudo certo — eu falei, envergonhada por ter falado com alguém que nunca tinha visto antes.

Ela não pareceu ter dado muita bola para o que eu disse e continuou tremendo, com os dois braços segurando na borda e os olhos voltados para baixo. Do nada, uma mancha escura se formou ao redor das pernas dela.

— Eu preciso sair daqui agora! — ela disse pra mim, como se soubesse exatamente o que aconteceria em seguida.

Segurei firme no braço dela e, sem mais nem menos, me vi forçada a fazer uma força gigantesca contra alguma coisa que insistia em puxá-la pra baixo. Aquilo realmente estava acontecendo, diante dos meus olhos, enquanto as outras meninas assistiam quietas o nosso desespero.

— Socorro, professor! Tem alguma coisa segurando a minha perna! — ela gritou, antes de ser puxada completamente para o fundo da piscina.

Sem pensar duas vezes, mergulhei ao encontro dela e vi o corpo de um garoto tentando afogá-la a todo custo. De início eu achei que fosse algum dos meninos da turma tentando zoar com a cara dela, mas logo em seguida eu vi que aquilo era um espírito vingativo. Dava até pra sentir o ódio que saía dos olhos dele, enquanto apertava a perna dela com força.

Uma das coisas que o meu pai me ensinou sobre espíritos em geral é que eles não gostavam de ser desafiados. Sabendo disso, esqueci da menina por um segundo e parti pra cima dele, como se fosse acertá-lo. A cara dele era escura como a noite e o seu corpo se confundia com a água.

Nós nos esbofeteamos por alguns segundos até que ele enfiou as garras geladas ao redor do meu pescoço. Bati as pernas contra ele, tentando tirá-lo de cima de mim, mas o ódio daquela criatura era mais forte do que todos os meus esforços. E quanto mais tempo eu passava debaixo d'água, menos fôlego me restava.

Como se minha vida estivesse por um fio, consegui acertei um soco no rosto dele, fazendo com que o seu corpo virasse novamente uma mancha escura. Aos poucos, a mancha foi afundando até se perder de vista.Nessa hora, uma terceira pessoa pulou na piscina e, no momento seguinte, estávamos eu, Valéria e o professor Miguel recuperando o fôlego na superfície.

— Valéria, tá tudo bem com você? — ele perguntou, com ela presa em seus braços.

— Eu disse que era verdade, não disse? — gritou Laura, em meio a dezenas de pares de olhos que nos observavam como fôssemos um espetáculo sub-aquático.

O meu intuito era de passar o ano inteiro sem chamar atenção, mas agora todos me olhavam como se eu fosse a heroína da história. Sem dizer nada, saí da piscina e caminhei rapidamente até o vestiário. Eu odiava, com todas as minhas forças, ser tratada como a salvadora da pátria.

* * *

Tudo o que aconteceu serviu para uma coisa boa: havia trabalho pra mim naquele lugar. Infelizmente não era um dos que eu gostava de fazer — os que me enchiam o bolso — mas pelo menos ia me manter entretida pelos próximos dias.

No vestiário a conversa era uma só.

— Eu nunca mais ponho os pés naquela piscina e ponto final!

E até mesmo a chata da filha do professor assumiu que havia alguma coisa estranha acontecendo.

Ao terminar de me vestir, guardei a roupa de banho no armário e saí a procura da sala onde estava acontecendo o tal grupo de estudos do Daniel. Ele tinha sido tão legal por me convidar que eu resolvi dar uma passadinha lá antes de ir pra casa, nem que fosse só pra descobrir que não valia a pena perder o meu tempo com aquilo.

A sala 12 ficava em um corredor escuro, onde não havia nenhum tipo de movimento durante a tarde. Pelo vidro da porta dava pra ver que tinha uma meia dúzia de pessoas sentadas em círculo, enquanto Daniel escrevia alguma coisa na lousa.

Dei três batidinhas de leve na porta e entrei. Todos olharam pra mim e ficaram parados, sem exibir reação alguma por pelo menos uns dez segundos.

— O que foi? Eu tô atrapalhando alguma coisa? — perguntei, em dúvida se era pra eu realmente ter entrado ali.

— Que bom que você veio, Alícia. Nós estávamos à sua espera — disse Daniel, ao lado de um grande desenho do que parecia ser um círculo mágico.

Os outros ainda estavam me olhando estranho, como se eu fosse algum extraterrestre ou coisa do tipo.

— Por que tá todo mundo me olhando com essa cara? — perguntei, sem sair do canto. Aquilo já tinha passado dos limites do constrangimento.

— Então você é a caçadora? — perguntou uma garota de cara enjoada, me julgando dos pés à cabeça.

Quem era ela e como ela sabia daquilo?

Na hora eu entrei em choque. Não era possível que alguém naquela escola soubesse algo sobre mim. A menos, é claro, que eles também fossem…

— Caçadores. Quer dizer, a gente ainda tá aprendendo como é que se faz, mas no fundo nós somos iguais a você — a menina continuou, revelando não ser tão enjoada quanto eu pensava — A propósito, eu me chamo Marcelina.

Eram muitas apresentações para um dia só. Eu já estava cansada de apertar a mão de um e de outro, mas daquela vez eu precisava me esforçar um pouco mais, já que eles pareciam me conhecer de algum modo.

— Então quer dizer que você se aproximou de mim sabendo quem eu era desde o começo? — perguntei, olhando pra cara falsa do Daniel.

Ele veio na minha direção, sorrindo como sempre, e disse que era melhor eu me sentar pra que a gente pudesse conversar melhor.

— Então — ele começou, sentado bem no meio do círculo, de frente pra todo mundo — Como você sabe, eu me chamo Daniel Zapata, filho de uma das famílias de caçadores mais antigas que existem.

Eu sabia! Desde o começo aquele nome me parecia familiar. Aquela era a família que o meu pai sempre falava. Aparentemente eles tinham sido muito famosos no passado, ganhando vários prêmios de melhor caçador, melhor caça apreendida, melhor pesquisa a respeito de criaturas sobrenaturais e por aí vai.

— Essa aqui ao meu lado é a Carmen Carrilho — ele apontou para uma menina de óculos fundo de garrafa, aparentemente tão tímida quanto eu.

Nós duas resolvemos poupar o sorriso e os apertos de mão, ficando apenas com o olho-no-olho. Em seguida, um garoto com a metade do meu tamanho se apresentou:

— Eu me chamo Cirilo Rivera!

Ele aparentava estar muito feliz por me conhecer. Aliás, todos eles pareciam, ao seu modo, estarem felizes com a minha presença.

O garoto alto e quieto — e que parecia um robô de tão pouco que se mexia — se chamava Mário, membro da família Ayala. Eu sabia muito pouco sobre eles, mas certamente era um dos nomes que se repetiam nas cartas que o meu escrevia à noite, antes de dormir. Depois que Daniel o apresentou, a sala ficou em silêncio, como se estivesse faltando mais alguém.

— Nossa. Eu não sei nem o que dizer — falei, tentando esconder o espanto que vinha do fundo da minha alma.

Tantos caçadores reunidos em um mesmo local, isso só podia ser uma grande brincadeira. E o pior de tudo é que não era brincadeira coisíssima nenhuma. Aquele pessoal estava realmente falando sério. E pelo visto eu fazia parte de algum plano mirabolante que todos ali estavam sabendo, exceto eu.

— A gente tava estudando esse círculo mágico que apareceu misteriosamente no teto da biblioteca, há mais ou menos um ano atrás.

"Um ano atrás? Exatamente quando a Valéria foi atacada na piscina pela primeira vez" — pensei, enquanto prestava atenção nos símbolos ao redor do círculo.

— A gente tava tentando decifrar o que seriam esses símbolos ao redor, mas até agora nós não temos nenhuma pista — continuou Daniel, em pé na nossa frente.

Alguns dos símbolos não me eram estranhos, mas o motivo de algo daquele tipo ter aparecido em uma escola da Costa Oeste me deixou bastante surpresa. Havia alguém brincando com os mortos e eu precisava pará-lo antes que fosse tarde demais.

— Eu vi em algum lugar que esses círculos são usados pra evocar espíritos de outras dimensões e aprisioná-los em um certo local. Talvez tenha alguém querendo assustar os alunos da escola… — disse Carmen, ajustando os óculos no rosto.

— Ou os professores — falou o garoto alto e quieto, filho dos Ayala.

Ual! Essa gente sabia exatamente com o que estavam mexendo.

Com o tempo a minha empolgação foi aumentando, até atingir níveis absurdos. Finalmente eu tinha encontrado pessoas da minha idade que também caçavam. Quer dizer, eles pareciam ser bem iniciantes no assunto, mas pelo menos era um começo.

De repente, como tudo que é bom dura pouco, uma presença nada agradável invadiu a sala de uma vez. Seus olhos nojentos miraram os meus, ainda carregados de ódio pelo que havia acontecido mais cedo.

— O que você tá fazendo aqui? — eu perguntei, antes que ele viesse pra cima de mim.

— Vocês dois já se conhecem? — Marcelina perguntou, confusa.

— Eu disse que você ia me pagar, não disse?

Ele veio se aproximando, com os punhos cerrados. Por um instante eu desejei nunca ter entrado naquela sala.

— Alícia, esse é o Paulo, meu irmão.

A voz dela me fez sentir uma forte dor de cabeça. Em uma hora eu tinha um possível grupo de amigos, pela primeira vez na vida, e, na outra, tudo aquilo desmoronava bem diante dos meus pés.

— Se você é mesmo uma caçadora de verdade, então desvia disso.

O braço dele se moveu rapidamente, como se quisesse realmente arrebentar a minha cara. Por sorte eu era mais rápida, mais forte e mais inteligente do que ele jamais seria. Em menos de um segundo nós dois estávamos no chão. Eu por cima dele, observando a sua cara de indefeso pela segunda vez no mesmo dia, enquanto ele permanecia quieto, esperando que eu desse o golpe final.

— Anda logo, o que você tá esperando — ele me disse, olhando no fundo dos meus olhos.

Aquele definitivamente era um momento que ficaria marcado para o resto das nossas vidas.

Notas finais
Eu tô postando aqui tbm caso tenha alguém que prefira o Nyah mas ultimamente tem aparecido mais gente pelo Spirit, por isso lá sai primeiro. Onde tá o pessoal daqui????
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.