Notas iniciais
Boa leitura!

# O contrato

3:00 p.m

Sai daquela sala com a cabeça zunindo, estava entre chorar feito uma criança ou bater no Max com uma cadeira. Aquela conversa interminável ainda ecoava na minha mente e eu lembrava cada detalhe...

– Vô, me diz o que o senhor quer – não estava acreditando que Max me obrigaria a repetir o ano, bom ele era bem capaz disso... — eu seu que você é o responsável pelos meus estudos, mas eu já acabei tudo.

Ele parou, bebeu um pouco mais do chá enquanto me analisava, ele sabia que eu estava prestes a começar a gritar. Tudo bem maturidade num era muito meu forte às vezes, só as vezes.

– Celine, você nunca concluiu seus estudos, você fugiu da sua ultima avaliação e passou esse ultimo ano como? Ganhando gorjetas trabalhando em uma lanchonete barata? – o olhar do meu avô agora era de tristeza, e tudo que eu consegui fazer foi abaixar a cabeça.

Ah agora eu comecei a entender, ele queria me punir, depois da morte do Will eu desisti de tudo, eu desisti de mim e desisti dele.

– O que eu preciso para conseguir a herança da mamãe? – Eu realmente não queria ficar aqui, se ele quisesse eu estudaria e me formaria até no Alasca, qualquer lugar menos o Saint Edwiges.

– Você vai se formar adequadamente aqui no Centro Cultural – vovô abaixou um pouco a voz como se fosse melhorar se ele falasse mais baixo – e completar seus estudos no ultimo ano e depois se inscrever para faculdade. Assim que você aceitar a matrícula do Saint Edwiges, como voto de confiança parte do dinheiro já vai ser seu.

Eu precisava respirar... Ele queria que eu vivesse lá de novo, por um ano se não nada de herança e nada de escola, eu teria que estudar tudo a minha vida inteira de novo, porque esse velho maluco destruiria todas as provas de que eu tive educação na vida. Mas isso era possível?

– O senhor me pede pra viver aqui... Mesmo sabendo o que todos pensam de mim? – Eu estava quase chorando, patético eu sei, mas eu sempre começo a chorar quando estou com raiva – Eu volto pra escola, em qualquer outro lugar, eu prometo...

– Celine, toda história da nossa família está aqui, você deixou tudo pra trás sem nem pensar nas consequências- Max abriu uma gaveta e tirou um maço de papéis e colocou sobre a mesa – Tenho certeza que se conhecerem você melhor, mudarão de ideia. Aqui, está o contrato de matrícula, suas aulas começam amanhã... Ah por favor, minha querida...

Ele olhou minha cara de pânico, ele não entendia mesmo me olhando com piedade ele não fazia ideia do inferno que seria. Mas que opções eu tinha? Talvez esse fosse o castigo pelo que eu fiz talvez todos estivessem certos sobre o Will. Quando eu me lembrei disso, percebi que não me importava mais.

– Celine já passou, já passou o que aconteceu com Will foi um infortúnio. Tenho certeza de que os cidadãos depois da tristeza da morte dele superaram a ideia de colocar a culpa em cima de outra pobre criança...

Sem pensar eu peguei as folhas da mesa e fui assinando, tudo que eu queria era sair dali e quem sabe me jogar num poço...

– Está feito, tenho que estudar aqui por um ano, e vou fazer isso. Agora eu vou dirigir para o hotel de volta e pegar as minhas malas e encontrar algum lugar pra morar nesse tempo.

– Não precisa querida, já mandei que trouxessem todas as suas coisas, você vai morar no dormitório...

–SEM CHANCE – Eu já tinha pulado da cadeira. Eu, um monte de freiras e estudantes fissurados em estudar que nem saem dos quartos. — Eu vou ficar onde eu quiser, eu já me emancipei, a vida é minha.

– ts, ts,ts, Ah Celine você tem tanto a aprender...- Vovô me olhava de um jeito estranho agora, eu podia ver uma luz brilhando nos olhos dele, como caçador olhando o pobre coelho cair na armadinha. – Sabe um dos princípios da vida adulta... Nunca deixe de ler um contrato que você assina, na verdade leia duas vezes, é o meu conselho.

Voei para alcançar as folhas, mas ele já às tinha pegado. E agora começava a ler em voz alta:

– Eu Celine Marie du Mas, como responsável legal pelos meus atos, me comprometo a cursar o ultimo ano no Centro Cultural Saint Edwiges, assim como arcar com as mensalidades escolares como do dormitório Saint Edwiges, o qual por meio deste, também afirmo minha reserva no período de um ano. Qualquer violação das normas estabelecidas pelo Centro Cultural Saint Edwiges acarretará as devidas punições legais (ver pagina 34 – Direitos e deveres do aluno e residente)... – Max pigarreou e continuou a falar- Bom, suas coisas já estão no seu quarto, tudo que precisa é conversar com a Irmã Susanna... Celine? Você está me escutando?

Senti como se alguém estivesse batendo na minha cabeça com um martelo. O que eu tinha feito meu Deus eu era muito... BURRA! Eu teria que ficar um ano em Windville, onde eu era a assassina de garotos inocentes, sedutora de garotas indefesas, bêbada e sabe mais o que...

– Eu vou me retirar agora... — foi tudo que eu conseguia falar.

Segui direto para a porta e enquanto me preparava para sair, ouvi meu avô falando, sem muita enrolação já que ele já tinha ganhado essa partida.

– Minha querida, você também está matriculada no clube de Literatura e Arte... Responsável pelas apresentações do Centro... E...

– Tudo bem, estarei lá – eu podia não gostar de pessoas, mas eu curtia livros e teatro, apesar de ser um pouco tímida para ficar atuando, podia ajudar com a organização.

– E eles também são responsáveis por montar o memorial de William Sullivan.

Tudo que eu fiz foi olhar pra frente, e bater a porta com a maior força que consegui.

...


Estava já há um tempo vagando pelos corredores, eu deixaria meus pés me guiarem. Eu estava puta de raiva, me desculpem, mas não há outra expressão melhor. Meu avô tinha acabado de me mandar pra fogueira e aquele povo usaria minhas malas pra começar o fogo, tinha certeza disso.

Cheguei à biblioteca, e já fui correndo pelas escadas, eu precisava de um lugar familiar.

Sabe a biblioteca do Saint Edwiges é a mais bonita que eu já tinha visto. A estrutura era antiga, os vitrais eram desenhados e o mais impressionante: eram três andares de livros, varias sessões para todos os gostos e o que poucos procuravam é que no ultimo andar, estava o meu pedaço do paraíso. Havia uma pequena porta de vidro no terceiro andar e se você entrasse veria uma estufa, com um pequeno jardim dentro e também uma mesinha, um sofá confortável e uma cafeteira elétrica. Era onde as Freiras gostavam de se divertir a noite (elas fumavam e assistiam novelas ou ao jogo de futebol... vai entender). Mas, o restante do dia, aquele lugar era livre de pessoas, e o meu favorito no mundo.

Cheguei já empurrando a porta, e a primeira coisa que fiz foi chutar uma almofada que estava no chão. Aparentemente tinham mudado a decoração um pouco nesse meio tempo. Trocaram as cadeiras e a mesa, por uma mesinha longa e algumas almofadas de chão em volta. Meu deus, elas agora tinham um narguilé! Se a Madre Su descobrisse elas estariam ferradas.

Se não fosse aquele momento eu teria rido da situação. Mas continuei chutando com força a almofada que estava no chão. Quase imaginei meu avô no lugar dela.

– Velho desgraçado, aaaaaaah... Muito... Divertido... Um ano com esses lunáticos... Ah... Clube uma ova... — a quase cada palavra eu tinha que respirar um pouco pra depois chutar de novo a pobre almofada. Só depois de um tempo eu percebi que eu não estava sozinha, tinha uma garota no sofá do canto, ela agora tinha deixado o livro no colo e me olhava com uma mistura de choque e talvez fosse impressão minha, mas ela estava segurando pra não rir?

– Boa tarde, você se perdeu? – A voz dela era suave, parecia que não havia nenhum problema no mundo, e ainda assim ela estava segurando pra não rir. Eu perdi o folego – Me desculpe, você está bem?

– Eh...- Muito bem Celine ótimo jeito de começar uma conversa. Tossi um pouco e me endireitei- Estou bem, só estou com um humor ruim hoje...

Até ela aparecer... mas é claro não teria coragem de falar isso.

Notas finais
Espero que tenham gostado!Não deixe de comentar ;]