Uma garota nos meus sonhos
4 Desencontro
Notas iniciais
#4 Desencontro
Eu não acreditava no que eu via, era a garota da laranjeira! Na minha frente e eu deveria parecer uma adolescente pirada agora. Bom, eu não podia deixar de aproveitar o momento. Ela estava na minha frente e parecia uma boneca.
Veja bem ela não era uma deusa, ou alguma dessas garotas bombadas de revista, ela era bonita. Só isso. Eu gosto de detalhes e ela me encantava em cada um deles. A pele dela era tão branca que aprecia que se eu tocasse ia se desmanchar. O cabelo estava um pouco bagunçado e os cachos estavam livres e dourados, caindo até um pouco depois dos ombros dela. Era uma boneca, em um vestido simples e alegre, com a boca um pouco vermelha dando um contraste com o restante e os olhos, os olhos que eu queria tanto saber, eram de um castanho, quase amarelo. Era a cor mais bonita que eu já tinha visto...
- Bom, todos têm dias ruins – Ela me deu um sorriso, parecia estar se divertindo com a cena toda, eu não entendia direito o porquê. – mas você não deveria descontar isso em uma pobre almofada.
“Era isso ou meu avô, sweetie”. Mas é claro que não podia falar isso.
- Me desculpe, não queria incomodar... — Na verdade eu não queria que você me achasse uma pirada completa. – Engraçado, é a primeira pessoa que vejo nesse lugar.
- Eu gosto daqui, me mudei faz um ano e desde então... É um dos meus lugares favoritos- Ela sorria completamente agora. E parecia tão natural, eu quase dei um passo para frente pra poder tocar em um dos cachos dela. Mas eu me contive.
- Bom, fico feliz em saber... Ah, meu nome é Celine.
- Sou Victoria, mas você pode me chamar de Vicky. – Ela agora estava em pé na minha frente, segurando o livro com as duas mãos em frente ao corpo Ela era um pouco mais alta que eu, e eu tinha 1,65, então ela deveria ter quase isso também. Não parecia que ela tinha ouvido as histórias, se não já teria corrido há muito tempo.
Eu podia chama-la pelo apelido? Então ela não ligava que eu fosse estranha naquele lugar todo? Ela queria que eu fosse amiga dela.
- É que todos me chamam de Vicky, por eu ser tão pequena.
Ah, é claro, ela só estava sendo educada, o que eu pensava que ela iria fazer, me passar o numero dela?
- Victoria é um nome lindo, não vejo porque muda-lo. – Tudo bem coisa estranha pra se falar, tinha passado tempo demais com meu avô, só podia ser isso. Mas eu não podia admitir que eu não queria ser tratada por ela como ‘todo mundo’– Er, o que você está lendo?
- Ah não é nada... — ela colocou o livro de lado para que eu não lesse o título – Eu leio coisas estranhas... Minhas amigas falam.
- Ah vai não deve ser tão ruim- Eu estava curiosa, o que seria tão vergonhoso? 50 tons de cinza? Bom eu ficaria chocada se fosse. Não gostava de julgar os gostos dos outros, mas... Aquele não era nem de longe um dos meus favoritos. Na verdade nunca li mais do que a capa.
- Eh um livro chato, segundo elas, “1984 – George Orwell” – Era abaixou um pouco a cabeça e colocou um dos cachos atrás da orelha, esperando minha reprovação.
- É um dos meus favoritos... — E eu estava falando a verdade. — é uma leitura difícil, eu concordo você precisa de muita paciência, mas uma vez que a curiosidade te pega, é difícil deixar de ler. Você é a primeira pessoa que eu conheço que gosta.
E isso era também verdade. Quando fomos obrigados a ler isso, todos os meus colegas pegaram resumos porque não queriam ler nada tão complicado.
- De verdade? – os olhos dela brilhavam agora – Eu ainda estou na metade, mas ver um mundo tão controlado como o deles, eu só consigo pensar no que eu faria. O que você mais gosta?
Abri um sorriso, o que a fez mudar um pouco a expressão, como se parece pra pensar o que tinha falado de tão engraçado.
- Eu gosto do final, e de lembrar de que pessoas às vezes são só pessoas, e que nem sempre dá pra salvar o mundo...
- Pára! Eu não quero saber o final, Ainda não passei da metade.
- Me desculpe, eu não queria... — Droga, ela estava irritada comigo agora? Percebi que não, ela só não queria o final do livro. Assim que pedi desculpas, ela pareceu relaxar e continuou feliz por ter encontrado alguém que leu o mesmo que ela.
Victoria, talvez meu ano não fosse tão ruim, talvez os alunos tivessem mudado um pouco com o tempo. Se eu tivesse pelo menos uma amiga, as coisas poderiam ser diferentes.
- Victoria – Eu falei o nome dela de propósito, gostava do jeito que soava. — quando acabar me procure, a gente pode conversar sobre o que você achou. É só me encontrar por ai.
- Como se ela quisesse ser amiga de uma louca!
Virei-me para a porta, uma garota estava encostada na porta de vidro, me olhando enquanto segurava o crucifixo no peito. Ótimo, Eu me lembro dessa garota, nós estudávamos juntas quando criança. Jessica Hills, mimada e maquiada demais, em minha opinião. Nunca entendi garotas que se maquiavam pra ir pra escola. Tudo bem uns retoques, mas eu não acordaria de madrugada pra ficar enfiando as coisas no meu olho e passando aquele monte de coisas. Sono em primeiro lugar.
- Vicky, quantas vezes eu te disse pra não vir aqui, essa biblioteca é assombrada. – Ela me cortou como se eu nem existisse e pegou Victoria pelo braço, a levando para a saída. — E agora mal frequentada. Vamos, todas estão esperando você para o chá da tarde...
Jessica foi arrastando Victoria para saída, não sei se ela ficou chocada demais para responder, mas tudo que ela fez foi seguir a patricinha. Um pouco antes de sair pela porta, Victoria me olhou, ela parecia chateada, seria um pedido de desculpas?
Enfim, eu não saberia tudo que eu consegui foi escutar a voz de Jessica descendo as escadas.
- Você não deveria ser tão boa Vicky! Essa era uma du Mas, garotas assim só querem acabar com você... Ah e esse livro de novo. Já conversamos sobre como essas leituras não são legais pra você.
Os passos estavam se afastando, mas ela ainda falava alto suficiente pra que eu escutasse. E claro o salto de Jessica ecoava por toda a biblioteca, toda vez que batia no piso de madeira.
- Você, sabe que não mentiria pra você essa garota é problema, nós estudamos juntas e desde criança ela não era boa. Sabia que ela foi expulsa, é abafaram o caso, mas todo mundo sabe que ela tentou se aproveitar da filha dos...
Pra mim já tinha sido o suficiente fechei a porta pra não escutar mais nada, sabia que durante o chá da tarde, Victoria já teria toda minha biografia não autorizada, feita pelas pessoas que mais me amam nesse mundo... Só que não.
Amanhã, quando começassem as aulas tinha certeza que a garota que parecia uma boneca ia correr de mim, como o Diabo corre da cruz.
Me larguei em cima do sofá em que a garota estava, tinha um perfume bom, quase floral. O que me deixou mais triste ainda. Olhei para o teto de vidro.
Amigos, hu? Como eu continuava idiota. Eu não teria amigos ali. Esse ano tinha tudo para ser um inferno, isso se eu sobrevivesse a um ano inteiro.
Respirei fundo e fechei os olhos, decidi tirar um cochilo, já que amanhã minhas aulas começavam e não tinha nada que eu pudesse fazer. Só durmir.
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